quarta-feira, 10 de novembro de 2010

PONTOS IMPORTANTES NA CONJUGALIDADE

No ano de 1964, André Luiz ditou uma série de interessantes apontamentos sobre a vida conjugal, o que denominou de “Pontos essenciais para os cônjuges”. É bom lembrar que esse ano de 64 fez parte de um contexto histórico contestatório, tanto na América como na Europa. Os “anos rebeldes” buscavam desconstruir o conservadorismo das instituições, inclusive, da família. Nesse momento, André Luiz, médico e estudioso do comportamento humano, apresenta algumas ideias que buscam “dissipar as névoas da ilusão”, para que a “alma se renove e caminhe adiante”. Não se trata, obviamente, de “fórmulas prontas”, mas de considerações de alto valor psicológico para a vida conjugal. Por isso, resolvemos citá-los em destaque, buscando refletir sobre a atualidade de seu conteúdo.

Reconhecer que o outro é um espírito por si,
com ideais e tendências diversas.


Cada indivíduo é um ser singular. A própria palavra “indivíduo” significa: aquele que não pode ser dividido. Muitos cônjuges olham para o outro como se ele fosse uma extensão dos seus desejos. Desconsideram ou ignoram que o outro é um ser que possui uma ancestralidade, um histórico espiritual de vivências, de conquistas e de limites e, portanto, com “ideias e tendências” que hoje fazem parte dessa realidade profunda. O casamento deve compatibilizar as dimensões do “eu” e do “nós”, ou seja, amar não significar anular a subjetividade do outro.
O fator da transmissão familiar de costumes, valores e tradições, chamado em psicologia de transgeracional, pode ser considerado um importante elemento na estruturação da personalidade do espírito reencarnado, no sentido de formar sua visão de mundo e sua cultura atual. Portanto, na singularidade de cada sujeito, estão fatores espirituais e culturais conquistados no passado e no presente. Cada pessoa é um universo particular, com suas potencialidades e com seus limites.

Na próxima postagem estaremos destacando outros aspectos, conforme consta em nosso livro: FAMÍLIA Frente & Verso - Um olhar a quatro mãos sobre as relações. Porto Alegre: Ed. Francisco Spinelli, 2009.

domingo, 7 de novembro de 2010

UM PROFESSOR DE VIDA

O universo dos desafios humanos, muitas vezes, parece ilimitado. Histórias de vida, lições que expressam as experiências de quem enfrentou o que ninguém desejaria passar, e soube fazê-lo com proveito, não somente para si, mas com projeção para a humanidade. É o caso do professor Morrie Schwartz, cuja história foi contada por um de seus ex-alunos, Mitch Albom, em seu livro: A última Grande Lição.[i]

Morrie, conforme Solman[ii], filho de imigrantes judeus-russos, nasceu na cidade de Chicago, nos EUA, e foi criado em um gueto em Nova York. Sua mãe falecera quando ele ainda contava 8 anos de idade, causando-lhe um profundo impacto emocional, ficando sob os cuidados de sua amorosa madrasta. Estudou em um colégio público e acabou fazendo sociologia na Universidade de Chicago. Passou, paralelamente, a trabalhar em um hospital psiquiátrico, observando o relacionamento dos funcionários com os doentes atormentados.

De seus estudos resultou, em parceria com um colega, o livro O Hospital Psiquiátrico, obra clássica da Psicologia Social. Morrie era casado e teve dois filhos. Em 1994, tomou conhecimento que era portador de uma doença, conhecida pela sigla ELA, que destrói a capacidade dos nervos de mandar sinais aos músculos. Com isso, os músculos param de funcionar e atrofiam. No caso de Morrie, esse processo degenerativo iniciou pelas pernas.

Quantos questionamentos lhe passaram pela mente! Morrie conta que assumiu a firme resolução de reunir suas forcas para enfrentar o problema, esforçando-se ao máximo, para viver com serenidade. Na medida em que a doença avançava, suas funções orgânicas iam ficando cada vez mais obstaculizadas. Mas, apesar disso, ele continuava sendo um homem cheio de vida. Em 1995, sendo entrevistado por um programa de televisão, aproveitava para falar sobre a importância da vida, na verdade, de aprendermos a viver bem. Sua mensagem era carregada de estímulo, sabedoria e jovialidade, não se permitindo desanimar diante dos testemunhos da jornada.

Conforme anotou Solman: “Quando chegou aos 70 anos, Morrie embarcou na última etapa do caminho.” Passou a meditar, distanciando-se de si mesmo, ampliando o seu universo interior. Ensinava que era preciso estar aberto para a experiência da felicidade, em qualquer situação que estivermos enfrentando, desde as mais triviais, até as mais importantes.


[i] ALBOM, Mitch. A Última Grande Lição. O Sentido da Vida.22ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 1998.

[ii] SCHWARTZ, Morrie. Lições sobre Amar e Viver. 2ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2005.

Do Livro: O DESAFIO DA FELICIDADE - Em um mundo em transformação - Jerri Almeida

domingo, 24 de outubro de 2010

CAFÉ FILOSÓFICO

Os filósofos antigos, que construíram o pensamento de nossa civilização Ocidental, perambulam pelas estantes, as vezes de madeira, de sebos e bibliotecas (as vezes de livrarias) na angustiante e inóspita tarefa de expressarem suas vozes de papel. A inquietude dos filósofos não os permite desanimar, mesmo que a situação atual, em qualquer lugar, apele para a cultura da imagem, apelativa e sedutora.
Assim sendo, Platão ou Aristóteles, Descartes ou Hegel, jamais imaginaram que os grandes desafios do pensamento humano, enfrentado por eles, seria o de – simplesmente – se fazerem lidos, cobiçados. Não! Certamente jamais imaginaram que um dia a juventude ou os curiosos do saber, pudessem esquecê-los, despreza-los nas poeiras arrogantes de qualquer estante.
Talvez Platão, no Mundo das Ideias, perceba melhor que as sombras do Mundo Sensível se devem, sobretudo, a indiferença infame – do mundo massificado e utilitarista contemporâneo – com a cultura que desafia o pensamento a voar além dos horizontes acanhados do homem cotidiano. Os filósofos antigos, reunidos em um café qualquer, tradicional de Paris, poderiam concluir, pelo menos os mais pessimistas, que esse mundo tecnológico e digitalizado do século XXI foi tomado de uma irreversível apatia intelectual.
O que pensaria Aristóteles disso tudo, uma vez ter afirmado – em seu livro Ética a Nicômaco – que “os legisladores tornam bons os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem.” ? Ora, os discurso apologéticos do presente, muito longe de estimular os bons hábitos, corroboram para que a própria fragilidade cultural dos cidadãos se multipliquem, aprisionando-os – cada vez mais – na caverna da inoperância intelectual.
Mas talvez possamos, entre um café filosófico e outro, imaginar que nem tudo está perdido, afinal, o homem – historicamente – tem se mostrado um ser capaz de superar-se, de enfrentar sua própria ignorância ou, pelo menos, de reconhece-la. Quem sabe, Nietzsche nos ajude a pensar sobre isso, quando escreveu: “Conheço muito bem as qualidades que devo ter para que alguém me compreenda...”, além da integridade de espírito, metaforicamente, assevera que é preciso “estar acostumado a viver nas montanhas”. Apesar disso, creio que o próprio Nietzsche, em seus escritos, tenha permanecido mais na base do no cume de sua montanha imaginária.
Montanhas, cavernas, ilusão, realidade, ignorância e sabedoria. Os filósofos são assim mesmo, talvez estranhos ou esquisitos para muitas pessoas. Mesmo assim, foram eles que construíram a nossa forma de pensar e talvez por isso, também sejam – isolados em suas estantes – um pouco responsáveis pela indiferença humana.
Os filósofos antigos, na vitalidade de suas páginas, oferecem o convite à filosofia, a pensar e repensar as questões contemporâneas, num constante desafio de subir à montanha e, de lá, visualizar o universo das interrogações e dos caminhos possíveis, que melhor se ajustam as inquietações de cada um. Eles abriram, em seus escritos, páginas sob as mais diversas perspectivas. Mas isso tudo não significa de devamos concordar sempre com eles, que não tenhamos ideias próprias sobre a vida e as questões que nos cercam.
As vozes de papel funcionam para nós como guias, uma vez que a verdade ainda não foi conquistada por inteiro, ela está aberta à todos. Mas não se pense que as vozes de papel são vozes mudas. São vozes perseverantes que nunca se calam! Estão sempre lá, dispostas a nos dizer algo, por isso são universais, por isso são eternas. Busca-las é aceitar o desafio intelectual de romper com os grilhões e os limites de pensamento.

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