quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O RITUAL DE PASSAGEM


Na mitologia grega, quando Urano, o Céu,  fecunda a Terra, nasce a geração dos Titâns e, dentre eles, Cronos, o tempo. Com extrema ferocidade, Cronos devora os seus próprios filhos, com exceção de Zeus que resiste ao tempo, conquistando a imortalidade. O tempo é implacável! É rápido como um raio de luz que cruza o ambiente com uma rapidez audaz, imperceptível. O tempo é dominador, subjuga as criaturas humanas de forma indelével e a faz suas escravas.
Voltando para a mitologia, agora romana, Jano era cultuado como o “deus dos inícios”. Divindade responsável pelo fim de uma etapa e início de outra. No calendário romano e depois cristão, deu origem ao nome “janeiro”, definido como o primeiro mês do ano. Dezembro, último mês do ano representa matemática e simbolicamente o fim de uma etapa, com suas experiências, acertos e desacertos, méritos e deméritos, felicidades e desditas. Vivemos na órbita do tempo e de suas representações.
O relacionamento humano com o tempo carrega uma forte bagagem de subjetividades ancoradas na memória que, aliás, na mitologia grega, é a irmã de Cronos. O tempo é depositário das lembranças, dos fatos vividos em família, com amigos, dos afetos e desafetos. Boas e más recordações fazem parte da vida. Algemar-se ao passado, principalmente sobre os eventos negativos, é algo que exige ser bem administrado pelo departamento da inteligência e dos sentimentos. Em nada contribui uma fixação melancólica no passado, uma vez que essa fixação, normalmente, retira da pessoa o foco principal de sua vida: o presente.
Ao aproximar-se o período de final de ano, pessoas há que se dizem envolver, sem que saibam explicar, por uma boa dose de tristeza e melancolia. Ficam quietas, buscam o isolamento evitando festas e diversões. A psicologia busca uma possível explicação para esse fenômeno em prováveis conteúdos inconscientes, vividos consciente ou inconscientemente, em algum momento da vida e que, por algum motivo, afloram nessa época:  a perda de uma pessoa, um desencanto amoroso, objetivos alimentados durante aquele ano mas não atingidos, etc.
Nem todos, portanto, estão convencidos de que devem comemorar, ufanisticamente, a virada do ano.  Alguns preferem o silêncio. Familiares e amigos muitas vezes não compreendem, nem respeitam, tais posturas. Cada pessoa tem sua própria forma de reagir a essas representações do tempo, pois isso mexe com conteúdos profundos de nossa alma.
 Ocorre, na lógica comum, que comemorar o fim de ano é fazer o que todos fazem: vesti-se de  branco, se possível ir para a beira da praia, tomar champanhe e terminar a noite numa boate ou a um show qualquer, uma verdadeira festa de passagem. Quem adota outro comportamento que fuja dessas convenções é considerado uma espécie de “subversivo”, ou deve “estar doente”.
O relacionamento do homem com o tempo possui uma dimensão cultural, simbólica, idílica ou lúdica. O final do ano, nesse contexto representa uma forte tradição cultural no universo dos rituais de passagem, herdeiros do imaginário ancestral, e dos rituais pagãos. O fato é inquestionável: somos seres fortemente influenciados pela noção de tempo. Parece haver um tempo para tudo, e comportamentos convencionados para cada situação. Negar-se a aceitar essas representações do tempo sobre nós, parece ser tarefa quase revolucionária, anarquista mesmo!
Mas, como tantas outras revoluções, que expressão até certo ponto a rebeldia humana, o rebelar-se contra o tempo, seus significados e efeitos sobre nós não mudará a temporalidade das coisas. Será uma batalha perdida! Melhor, talvez, seja aprendermos a conviver bem com o presente e tudo o que dele possamos extrair para torná-lo pleno de possibilidade e de ações afirmativas na composição de um ser humano mais ético e solidário.  

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O NATAL

Jerri Almeida

Os historiadores do cristianismo empenham-se por encontrar os indícios materiais que comprovariam a existência do homem Jesus. Além da Bíblia, encontramos outras poucas referências a Jesus em autores como Flavius Josephus, um historiador judeu do primeiro século. Em sua obra: Antiguidades , ele afirma: “Havia por aquele tempo Jesus, um homem sábio, se for direito chamá-lo de homem...” [1]
No século II, Tácito, um famoso historiador romano também se refere a: “...Cristo, que o procurador Pôncios Pilatos entregou ao suplício.” [2] Seria desnecessário enumerar outras referências. O fato é que o cristianismo ganhou cada vez mais espaço dentro do declinante império romano, passando, também, a sofrer uma mistura cultural, quase inevitável.
No ano 313 d.C. o imperador Constantino, por meio do documento denominado Edito de Milão, reconhece o cristianismo como religião e libera suas manifestações no interior do império. Era uma forma de conseguir apoio dos cristãos, cada vez mais numerosos, para um império cada vez mais imerso em crises. No ano 380, o imperador Teodósio aderiu ao cristianismo e em 391 baixou uma lei proibindo a prática de todos os cultos considerados pagãos ou politeístas. Nesse sentido, o cristianismo torna-se a religião oficial do estado romano, todavia, apesar da proibição, as crenças pagãs jamais desapareceram totalmente. Passa ocorrer, a partir daí uma “transfusão” de elementos culturais-religiosos externos para o interior do cristianismo, deturpando sua simplicidade original.
 Dessa forma, a data que hoje conhecemos como atribuída ao Natal, foi definida no ano 336 d.C. O 25 de dezembro, oficializado no século IV,  originou as festividades do nascimento de Jesus. Foi uma transposição cultural às comemorações, na mesma data, do nascimento de Mitra, o deus-sol de origem Persa.[3] O dia da semana que se dedicava, tradicionalmente, ao culto ao “Sol invencível”, chamado na cultura pagã de: “dia do sol”, passou a se chamar “domingo”, o “dia do Senhor”. [4] Para o historiador Ernest Renan, Jesus teria nascido por volta do ano 750 da data da fundação de Roma, na cidade de Nazaré, uma pequena cidade da Galiléia.[5] O 25 de dezembro é, portanto, uma data simbólica, no entanto, impregnada de grande significado espiritual. 
O Natal aí está, quer seja nos seus aspectos simbólicos, econômicos, ou no sentimento que impele o ser humano a uma profunda revisão de seus valores. Na crise de civilização que a humanidade atravessa a proposta cristã – fundada na ética do amor – é muito mais profunda do que as meras apelações comerciais construídas pela sociedade capitalista.
Na verdade, podemos identificar na mensagem natalina um verdadeiro desafio à renovação interior. Muito embora sem nada escrever, Jesus Cristo continua influenciando milhões de pessoas, em todo o mundo.  Longe de estarem superados, os seus ensinos morais representam um admirável repositório de sabedoria capaz de promover uma convivência, entre indivíduos e povos mais pacífica e fraterna. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec na questão 625 indagando os benfeitores espirituais sobre quem seria o Ser mais notável que Deus enviou à Terra para nos servir de modelo e guia, obteve como resposta: “Jesus”.
Figura paradigmática, Jesus é o homem mais falado da história. Sobre nenhum outro personagem se escreveu tantos livros, seja para desvendar sua personalidade, para interpretar seus ensinos ou para mencionar seus fatos notáveis. Apesar disso, o jornalista e psicólogo espanhol Juan Árias chegou a afirmar sobre Jesus: “Esse grande desconhecido”.  Antes dele, no entanto, o historiador francês Ernest Renan já havia dito que Jesus era: “Um homem incomparável”.
O Natal não deve ser visto nos acanhados limites dos rituais religiosos ou nos festejos para troca de presentes. A proposta apresenta por Jesus nesses vinte e um séculos de cristianismo é profundamente inovadora, repercutindo numa nova ética para a vida. O valor da Boa Nova, mensagem de amor trazida por ele, é de alta transcendência para o homem.
Nos dias atuais, marcados por tanta rigidez dos sentimentos, de violência e de desigualdades sociais marcantes caracterizando uma sociedade que atingiu alto nível de desenvolvimento tecnológico, mas que ainda se encontra encarcerada nos grilhões da indiferença, a mensagem do Cristo é emblemática para a edificação de um novo ser humano.
 O verdadeiro sentido do Natal, portanto, se dará quando Jesus, e tudo aquilo que ele representa nascer efetivamente na Terra. Dessa vez, não mais em uma tosca cabana, mas no coração do próprio ser humano.

Notas



[1] CARREIRO, Marcelo. Contemporizando Cristo: Um estudo histórico e Documental do Cristianismo Primitivo. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 1999.  Capítulo V: Fontes Históricas.  Pág. 62 – 78.
[2] Idem.
[3] MACEDO, José Rivair. Religiosidade e Messianismo na Idade Média. São Paulo: Moderna, 2006. Pág. 12-13.
[4] Idem. Pág. 13.
[5] RENAN, Ernest. Vida de Jesus. São Paulo: Martin Claret, 2003. Capítulo 2, Pág. 99-100. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

BASES DA "FÉ CEGA"


Jerri Almeida

A fé abraâmica definiu profundamente o arcabouço teológico e psicológico das relações entre os homens e o “sagrado”. A rigor, devemos lembrar que Abraão é visto como uma figura importante para as três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, isto porque ele representa uma espécie de “encruzilhada” entre os vários povos. Paulo, por sua vez, argumentará que Abraão foi o “pai da fé”. (Romanos 4: v.16-19  e Gálatas 3: v.7)
 O contato entre Abraão e Javé (Yahveh), na alegoria bíblica, traduz uma relação, certamente, fundadora da fé baseada em quatros pilares fundamentais que constituíram grande influência na tradição do pensamento religioso, permanecendo até hoje: “revelação”, “temor” (Gn 22: 11-12), “submissão” e “fidelidade”. Essa lógica ensejou no Ocidente, principalmente durante o Medievo, a configuração de uma teologia do medo, aspecto que analisaremos oportunamente.
A revelação de um deus que se desvela muito parcialmente a um “escolhido” (Abraão), torna-o emissário de suas promessas (uma grande descendência e a terra de Canaã) e, por isso mesmo, propõe-lhe uma “aliança” ou uma relação de fidelidade. (LAMBERT, 2011 p. 371) Essa “fidelidade” estava baseada numa lógica de submissão e confiança ao poder divino. O contexto javista é, portanto, o da aliança estabelecida com Abraão. Inicia-se uma monolatria (fidelidade a deus) onde o patriarca hebreu apesar de não compreender certas determinações divinas, o exemplo mais claro é o sacrifício de Isaac, se preocupa em obedecê-las com total submissão.
Para Guy Lafon, analisando o fato abraâmico, a fé é a posse antecipada do que se espera, ou um meio de demonstrar certas realidades que não estão assim tão claras ou evidentes. Em suas palavras: “foi pela fé que Abraão, respondendo ao chamado, obedeceu e partiu para uma terra que devia receber como herança, e partiu sem saber para onde iria.” (LAFON, 1998 p. 60) Está presente nessa narrativa, portanto, uma “fé cega” depositada na promessa divina.  Submisso a essa “promessa”, sem nada mais precisar fazer além de crer, Abraão esperava os benefícios divinos.
Num segundo momento, no livro de Isaías (capítulos 40 a 56) podemos identificar a origem de um monoteísmo radical e de uma escatologia. Conhecido pelo nome de “Dêutero-Isaías” ou “segundo Isaías”, temos a introdução do monoteísmo javistico: “Eu sou o primeiro e o último, fora de mim não há deus.” (Isaías 44:6-45:18-22) E ainda: “Sim, sou deus e não há quem seja igual a mim.” (Isaías 46:9) Em relação ao pensamento escatológico, o texto assinala: “Voltai-vos para mim e sereis salvos, todos os confins da Terra, porque eu sou deus e não há nenhum outro.” (Isaías 45:22-56:1-7) A origem de um único deus e, pela sua onipotência, “salvador”, ensejaria uma mentalidade, por um lado, associada a um profetismo escatológico, e por outro, a um estímulo ao medo, como se percebe em Ageu (2:6), quando anuncia que Javé “abalará o Céu e a Terra, o mar e o continente.”
A narrativa bíblica possui uma racionalidade própria, com grande poder de representação. O problema, todavia, é quando esses elementos imagéticos, apropriados por certos grupos e povos, tornam-se verdades fechadas, vistas pelo viés da “letra”. Na medida em que a cultura escrita se proliferava, as tradições orais vão sendo apropriadas pela cultura do livro e, a “letra”, passa a ser um instrumento do “sagrado”: a “palavra de deus está escrita.”
A fé, com o tempo, assume um papel relevante nas estruturas religiosas institucionalizadas. A rigor, a “dúvida” deve ser anulada, pois se torna um instrumento desestabilizador, capaz de fomentar uma ruptura com a submissão ao sagrado. Saindo das tradições mitológicas hebraicas, e tocando rapidamente no pensamento filosófico, vamos identificar que a fé, quando mais elaborada é constituída a partir de um elemento inicial, que é a dúvida. A confiança, quando respaldada numa crença justificada pela razão, demonstra a superação relativa da própria dúvida. Assunto que trataremos com mais profundidade na segunda parte desse trabalho.


Referências Bibliográficas

BIBLIA SAGRADA Trad. João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa bíblica brasileira, 1972.

ELIADE, Mircea. História das Crenças e da Ideias Religiosas. Vol.1, Trad. Roberto Cortez de Lacerda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2010.

LAFON, Guy. Abraão: a invenção da fé. Trad. Laureano Pelegrin. Baurú, São Paulo: EDUSC, 1998.

LAMBERT, Yves. O Nascimento das Religiões. Da pré-história às religiões universalistas. Trad. Mariana P. S. da Cunha. São Paulo: Loyola, 2011.

LEÃO, Emmanuel Carneiro. A filosofia grega hoje. In: Caderno de Letras. Faculdade de Letras, Departamento de Letras Anglo-Germânicas, UFRJ, 18, 2002, p. 23.

PINTO, Porfírio. Nas Pegadas de Abraão. Disponível em:http://religare.blogs.sapo.pt/76658.html
Religião, Sociedade e Cultura. Blog dos Docentes e Investigadores da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

PERDAS


Jerri Almeida

A emoção de sofrimento, por ocasião de uma perda, representa um estado natural da condição humana. Convém lembrar, entretanto, que tal estado emocional terá uma permanência breve ou demasiada conforme o significado que atribuímos  ao sentido da própria vida, e ao nível de afeto construído com a pessoa que morre. Naturalmente, quem nutre uma visão religiosa, por certo, encontrará mais reforço íntimo para compreender que a vida é feita de experiências e que, delas,  fazem parte as perdas e as posses. Com isso não queremos considerar que a religião removerá os sofrimentos das perdas, mas que contribuirá para que essa dor não nos paralisem demasiadamente num estado mental negativista e desolador.
Refletir, de forma saudável, sobre a possibilidade das perdas e da transitoriedade da existência física, já é uma medida interessante de adequação do nosso mundo emocional às vicissitudes e agruras do cotidiano. Uma doença grave, um acidente fatal ou qualquer outro fato que possamos imaginar, perturbador para a vida, nossa ou de alguém com quem convivemos, muitas vezes geram tal gama de sofrimentos que o indivíduo, fragilizado interiormente, mergulha num vazio existencial, desnorteado...
Foi muito comum no século XIX o “luto histérico”, onde os parentes resistiam em aceitar a morte do outro, entregando-se à rebeldia e a revolta contra Deus em verdadeiras manifestações de histeria coletiva. É o sofrimento que gera sofrimento. Para evitar-se um sofrimento maior, naqueles momentos em que o “mundo parece desabar sobre nós”, o papel da prece, certamente, terá uma função fundamental:  fortalecer o nossa vida interior, que é o espaço da coragem, da confiança, do equilíbrio... Entretanto, não podemos esquecer que há coisas que somente o tempo poderá realizar pois, perder dói e não há como não sofrer.
O desafio será evitar que o sofrimento conduza ao desequilíbrio emocional, pois, nesse caso, suas derivações tenderão a desestruturar a vida afetiva, familiar, profissional, biológica... Administrar tal sentimento é imperiosa tarefa de todos nós. Vivenciar somente a dor que a perda causou sem movimentar recursos para o processo de readaptação, é insistir no sofrimento. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O HOMEM E A MORTE


Jerri Almeida

Ao longo de seu processo histórico o homem passou a significar, em diversas manifestações socioculturais, o seu relacionamento com a morte. A ideia de sua finitude biológica levou-o, com maior ou menor consciência, a estabelecer – desde tempos remotos – significados a esse acontecimento inexorável.  A necessidade do ser humano compreender a morte ensejou a criação de mitos, rituais funerários, modelos teóricos explicativos de sua temporalidade biológica, etc.  Da mesma intensidade com que procurou compreendê-la, o homem vem lutando contra ela. O medo do desconhecido gera insegurança, devido ao instinto de conservação. Da insegurança ou esperança, do confronto com essa realidade, nasceram  religiões e filosofias que estimularam o homem à reflexão sobre si mesmo.
Refletir sobre os significados atribuídos à morte nos ajuda a compreendê-la como experiência importante para o gênero humano. Analisando ampla bibliografia sobre o assunto, pretendemos descrever, resumidamente nesse artigo, algumas formas de relacionamento  do homem com a morte, do ponto de vista histórico, sem perder, no entanto, nossa tese central: evidenciar a morte como parceira da vida. Os significados atribuídos a morte, pelo angulo da transcendência,  nos levam a compreende-la dentro do próprio inconsciente coletivo, uma vez que o homem é um ser pluriexistencial que já vivenciou múltiplas experiências do nascer e do morrer.

Primeiros significados

A prática de enterrar os mortos, segundo Edgar Morin, conforme conhecemos, começou com o Homem de Neandertal. Não raro, encontrava-se o morto em posição fetal, o que sugere uma crença no seu renascimento. Adotou-se, também, a prática de abrir cavidade nas rochas, onde os corpos eram colocados de cócoras e coberto de pedras.  Junto ao corpo eram depositado seus objetos pessoais e alimentos. Segundo Chiavenato  pesquisadores do Museu do Homem de Paris, teriam descoberto em uma sepultura de 60 mil anos, referente ao homem de Shanidar, grãos de pólen espalhados ao redor dos fósseis. Diante de tal descoberta, concluiu-se sobre a importância dos rituais mortuários nesses grupamentos tribais.
Mais tarde, já com o Homem de Cro-Magnon, encontrou-se corpos esticados na posição horizontal de costas para baixo, ou em posição fetal.  No Mesolítico, época dos últimos caçadores e coletores, as sepulturas passam a ser ovais e pouco profundas, sendo mais comuns as sepulturas coletivas, onde identificou-se, também, indícios de oferendas ou rituais funerários. Quais os significados que esses homens ancestrais teriam dado à morte?  Difícil afirmar.  Todavia, surge a necessidade de cultuar os mortos e, ao mesmo tempo,  salvaguardar os vivos. Isso ocorre através de rituais que visavam agradar os deuses, na esperança de proteção. O sentimento religioso surge, portanto, associado a ideia do temor. E o temor será a base dos estímulos religiosos para a conduta humana nas diversas sociedades, principalmente, Antiga e Medieval.
A civilização do Nilo, por sua vez, atribuía à morte uma dimensão metafísica. Em O Livro dos Mortos, provavelmente com origem na V Dinastia (2.345 a.C.) os egípcios buscavam indicações sobre a passagem do morto pelas diversas etapas em sua jornada pós-morte.  Os rituais mortuários no antigo Egito,  tipificavam  a morte como uma continuação da vida. Daí a necessidade da preservação do corpo (privilégio, normalmente, da nobreza) para  que o espírito a ele retornasse,  após sua jornada pelo mundo dos mortos. Atribuiu-se tal importância à morte que quarenta e cinco séculos antes de Cristo, na mitologia egípcia, Anúbis ou  Anpu, era o deus da morte, presidindo o embalsamamento e o sepultamento. Acreditava-se que o corpo devia ser conservado para permitir a sobrevivência do duplo (Ka), uma espécie de matéria vaporosa e colorida que adotava a forma do corpo e do espírito. O espírito ou alma (Ba), por sua vez, era representado por uma chama ou um pássaro que voaria na direção da luz ou acompanharia o seu sepultamento.
Bem se percebe que a ideia da imortalidade da alma, do períspirito  e da  reencarnação, fazia parte da cultura religiosa, não só dos egípcios, mas de grande parte dos povos da Antiguidade. Nesse sentido, a morte personificava, no Egito, não somente a imortalidade da alma, mas, também, a “imortalidade do corpo”. A morte não era vista como “fim”, mas como um processo, imanente e transcendente  à existência corporal.  Entretanto, o destino da alma estava subordinado ao comportamento do morto, enquanto vivo.

O nascimento da morte

Segundo Long, a inevitabilidade da morte na mitologia hindu, pode ser bem compreendida em uma interessante narrativa do Mahabharata, onde um sábio tenta amenizar o sofrimento de alguém que acabou de perder uma pessoa querida, contando-lhe uma fábula sobre a origem da morte.  Segundo a história, Brahmã criou tantos seres que a Terra começou a ficar cheia a ponto de não haver mais lugar para respirar. Nessa época a morte não existia.  Nasciam multidões de criaturas mas ninguém morria. Como resultado, a Mãe Terra começou a sentir-se tão sobrecarregada com o excessivo número de pessoas que suplicou que Brahmã lhe aliviasse a “carga”. Ele conteve um pouco de sua energia criadora a fim de prover tanto a criação quanto a destruição. Com isso, Brahmã dá origem a uma mulher em túnica escarlate, olhos de intensa luz vermelha, a quem denomina “morte”. Sua missão seria a de “retirar” da Terra, a seu devido tempo, todos os seres humanos. Todavia, a morte negou-se a tal tarefa, receando, naturalmente, a ira dos parentes diante da ausência de seus afetos.  A morte afastou-se então da Terra, para levar uma vida ascética. Entretanto, Brahmã voltou a persuadi-la para que executasse seu dever. Finalmente, transformou as lágrimas de sofrimento da morte em moléstias, instrumentos para remover os seres da Terra.
A história é finalizada com um ensino moral: “Sabendo que a morte chega para todos, a pessoa não deveria sofrer. Pois tal como os cinco sentidos desaparecem quando a pessoa dorme profundamente, e depois voltam à vida quando a pessoa acorda, assim também, de modo semelhante, as criaturas que morrem vão deste mundo para outro, e depois voltam para aqui novamente, no seu devido tempo.”
Ora, o criador não poderia destruir sua própria criação! Encontrou meios de evitar uma super população na Terra, não destruindo, mas  “removendo” para outros planos da vida, as criaturas humanas. A morte, nessa fábula, representa o princípio do equilíbrio, sem o qual a vida humana na Terra seria asfixiada. É uma benção, não uma desgraça. Para alguns historiadores, entretanto, o temor da morte seria gerado pelo desenvolvimento das idéias religiosas. Os ensinos de um castigo a pós a morte para aqueles que não agiram nessa vida de forma adequada fomentaria, em diversas culturas, o medo da morte pelo que se enfrentaria depois: dores infernais, castigos eternos....

Romantismo e Realismo 

O século XIX, segundo Ariès, havia, na Europa, uma certa visão romântica da morte. Entretanto, essa relação com o imaginário sobre a morte passou, em seguida, para o plano dos fatos cientificamente analisados. Deve-se a Allan Kardec uma visão nova da morte no Ocidente. Sob suas incursões investigativas, desvelou-se uma nova atitude do homem diante da morte. Sem analisá-la de forma simplista ou misteriosa, Kardec no-la apresenta como um mecanismo da vida, ensejando ao espírito encarnado o seu natural retorno à pátria de origem.
Parece-nos que o termo “realismo” define bem o significado espírita da morte. Esse realismo espiritual, pouco a pouco, se afirma como princípio universal, onde todas significações religiosas e filosóficas convergiram num admirável sincronismo onde a morte, passará, definitivamente,  a responder pela continuidade da vida, ensejando ao homem bases mais seguras para suas vivências e experiências na Terra.

NOTAS


MORIN, Edgar. O Enigma do Homem. São Paulo, Circulo do Livro. 1973. 3ª Parte, Cap. 1, Página 107
CHIAVENATO, Júlio José. A morte: uma abordagem sociocultural. São Paulo, Moderna, 1998. Página 13
JULIEN, Nadia. Minidicionário Compacto de Mitologia. 1ª ed. São Paulo, Rideel, 2002. Páginas 38, 259, 260.
LONG, J. Bruce. Phd. A Morte que termina com a morte no Hinduísmo e no Budismo. In. Morte Estágio Final da Evolução. Elisabeth K. Ross. Nova Era.
ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Tradução: Priscila Viana. Rio de Janeiro, Ediouro, 2003. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A família Pós-nuclear




Jerri Almeida
Preâmbulo

O
 estudo das relações familiares na contemporaneidade implica pensarmos sobre suas novas configurações e mediações. Sabemos que é cada vez mais comum encontrarmos exemplos de filhos que vivem somente com a mãe, com o pai ou com outro parente. O contexto das relações, na sociedade complexa que vivemos, define novos vínculos e novas tendências na composição da família. Conforme apontou Bauman, em seu livro intitulado Amor Líquido[1] – Sobre a fragilidade dos laços humanos, os relacionamentos conjugais tornaram-se, na pós-modernidade, muito “líquidos”, isto é, sem bases sólidas. Os valores sociais e culturais de nossa época contribuem para uma fragilização do casamento, ampliando vertiginosamente o número das separações.
Vínculos conjugais são rompidos, enquanto outros são – precipitadamente – iniciados sem o devido comprometimento ou consciência dos fatores responsáveis por imprimir qualidade na convivência conjugal. Separações e divórcios[2] são responsáveis, embora não serem os únicos, pelo aumento da família pós-nuclear.
A rigor, com as mudanças socioculturais e comportamentais, principalmente a partir dos anos 60, a mulher conquistando mais liberdade social passou também a assumir sozinha, diante de determinadas contingências, a chefia da família. Inúmeros fatores podem ser relacionados para explicar o surgimento da configuração familiar monoparental dentre eles podemos citar: a inseminação artificial, o que permitiu a mulher gerar filhos sem a figura do pai, a adoção, a viuvez e o divórcio. Na prática, define-se geralmente o modelo monoparental quando uma pessoa adulta, pai, mãe, ou outra, quer consanguínea ou não, assume o papel de cuidadora e orientadora de uma ou várias crianças.
Este modelo de família é reconhecido, no Brasil na Constituição Federal de 1988, em seu Art. 226 no inciso 4° que diz: “Entende-se também como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”, conferindo-lhe a mesma proteção e segurança do Estado. Conforme o IBGE, de 1995 a 2005, a porcentagem de famílias chefiadas por mulheres com filhos e sem cônjuge passou de 17,4% para 20,1% no Nordeste, e no Sudeste, de 15,9% para 18,3%.
Eduardo de Oliveira Leite afirma que: “a monoparentalidade se impôs como fenômeno social nas três últimas décadas, mas, com maior intensidade, nos últimos vinte anos, ou seja, no período em que se constata o maior número de divórcios” [3].

Dois, não somente um!

Qual o impacto da falta de um dos pais para os filhos? Existem especificidades no papel de pai e de mãe? E nesse caso, a ausência de um deles poderá ser suprida pelo outro? Não pretendemos nesse estudo, reduzir a complexidade desse modelo de família ao limite de seus aspectos negativos. Todavia, é importante refletirmos mais profundamente sobre o tema em questão.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, encontramos a seguinte afirmação:



Quis Deus que os seres se unissem não só pelos laços da carne, mas também pelos da alma, a fim de que a afeição mútua dos esposos se lhes transmitisse aos filhos e que fossem dois, e não um somente, a amá-los, a cuidar deles e a fazê-los progredir. [Grifos meus][4]

Não há duvidas que a estrutura familiar, composta por pai e mãe representa um imperativo da natureza para o melhor cumprimento de suas funções. A resposta dos espíritos é clara e objetiva. Partindo desse ponto ideal, devemos também compreender as variáveis que envolvem esse processo. No entanto, é relevante fazermos uma distinção dos papéis que envolvem o homem e a mulher na estrutura familiar. Anotando informações sobre a vida conjugal, André Luiz, no capítulo 20 de Nosso Lar, obteve o seguinte esclarecimento de seu instrutor: “...o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina. A reta vertical é o sentimento feminino, envolvido nas inspirações criadoras da vida. A reta horizontal é o sentimento masculino em marcha de realização no campo do progresso comum.” Essa diferenciação das singularidades do homem e da mulher implicam numa dinâmica de complementação extremamente rica, onde o principal beneficiado deveria ser o filho.
As funções, comumente aceitas, controladas pelos dois lados do cérebro, podem auxiliar na compreensão das diferenças[5] (que em nenhum momento implicam na ideia de superioridade ou inferioridade) entre homens e mulheres: a) Hemisfério esquerdo (lado direito do cérebro): habilidades matemáticas, raciocínio lógico, o pragmatismo, a objetividade, racionalidade, entre outros.  b) Hemisfério direito (no lado esquerdo do cérebro): criatividade, talento para as artes, intuição, imaginação, multiprocessamento, emoções, visão do todo, entre outros. O homem funciona mais no hemisfério esquerdo, enquanto a mulher no hemisfério direito. A evolução espiritual enseja o desenvolvimento de múltiplas potencialidades e, para isso, sabemos que o ser espiritual necessita transitar na polaridade masculina e feminina.
Mas como essas especificidades se tornam importantes na estrutura familiar? O escritor e educador Celso Antunes, analisa a dimensão desses papéis afirmando que:

A mãe é, por essência, aquela que supre as necessidades de alimento e de afeto; o elo essencial da segurança da criança e, principalmente, a ‘dialogadora’ essencial, a ‘admirável xereta’ que tudo, em todas as idades, através da conversa, busca compartilhar. O homem, sobretudo no Ocidente onde são mais exímios no uso do hemisfério cerebral esquerdo, nunca é parceiro ideal para o papo solto, a conversa disciplinadora, o bom interrogatório. Não que isso o impeça de conversar com os filhos. Deve conversar e muito, mas poucos são os homens capazes de tão bem quanto as mulheres equilibrar a fala à emoção e, dessa forma, ‘abrir’ os pensamentos da criança ou do adolescente.[6]

O autor assevera ainda:

O pai desempenha na educação dos filhos papel de igual importância, ainda que extremamente diferente. Nos primeiros anos da infância deve inspirar presença e proteção que ao serem demonstradas à esposa ficam claras também para a criança. Mas, a importância paterna cresce de forma extraordinária quando, por volta dos três anos, a criança começa a descobrir sua individualidade e inspira-se no pai para fundamentar a base de sua responsabilidade. Nessa fase, o pai é para a criança o personagem central da família, simbolizando com doçura ‘força’ e ‘poder’.  Embora nem sempre se perceba essa distinção entre a ação masculina e a feminina, esta é essencial para o fortalecimento do caráter.
A criança cresce descobrindo que existe em sua vida uma autoridade diária e contínua exercida pela figura da mãe e uma outra autoridade, não menor ou maior, mas exercida de forma mais distante, ainda que suprema, simbolizada pela figura do pai.  Do pai, como modelo dessa autoridade suprema, deve emanar a base dos conceitos morais da criança, que aos poucos descobre que o pai é o que ama e o que conduz. Os meninos, sobretudo, devem sentir orgulho desse pai a ponto de desejarem ser como ele.
O pai distante ou ausente [assim como a ausência da mãe] deixa o vazio, a carência de modelo de força e poder. E não existe na neurologia ou na psicologia qualquer estratégia ou remédio que possam compensar a dimensão dessa ausência.[7]


Quando a separação do casal for inevitável ou no caso da desencarnação de um dos cônjuges, por exemplo, ficando a educação dos filhos para apenas uma pessoa, é importante, segundo o referido autor, que esta saiba assumir outras funções e outros papéis. Se bem assumidos, poderão diminuir o impacto ou o vazio deixado, mas jamais o eliminará totalmente.


Conclusão

O relaxamento dos laços familiares pode gerar doenças e promover insegurança afetiva. A constatação é da cientista da Universidade da Califórnia (EUA), Rena Repetti, após reunir mais de 500 estudos sobre a relação entre família e saúde. A pesquisadora constatou que “crianças que crescem num ambiente de acolhimento e segurança emocional em geral são providas de maior senso de integração social e mais capazes de regular o próprio comportamento para manter a saúde do corpo e da mente...”.[8]
Temos visto, em nossa experiência profissional, alunos manifestarem em certos casos, comportamentos indisciplinados, outras vezes, por falta de modelos e de referenciais domésticos, terminam – por carência - deslocando para o professor (a), para um personagem da televisão ou, dependendo da índole desse jovem, para um traficante ou o chefe do tráfico do bairro ou da cidade.
Uma família bem resolvida, independentemente se nuclear ou monoparental, se configura num espaço relacional onde as emoções são trabalhadas positivamente, os limites e a disciplina são exigidos, o afeto nutre a convivência, os exemplos positivos estão presentes, e os problemas são enfrentados com responsabilidade, conforme os papéis assumidos e “acumulados”.



[1] BAUMAN, Zigmunt. Amor Líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2004.
[2] No Brasil o divórcio foi instituído pela Lei n. 6.515/77
[3] LEITE, Eduardo de Oliveira. Famílias monoparentais. 2. ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2003. P. 21.
[4] O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo 22, item 3.
[5] PEASE, Allan. Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? Tradução Neuza M. Simões. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. P. 41.
[6] ANTUNES, Celso. Bilhete ao Pai. Petrópolis,RJ: Vozes, 2005. P. 84-85.
[7] Idem.
[8] Sua Família, sua saúde: A medicina prova que os laços familiares são decisivos para manter o organismo sadio. Este vínculo pode ajudar a combater doenças como asma, depressão e até câncer. Revista Isto É, 16/04/2008, no. 2006, pág. 76-81. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

ESPIRITUALIDADE


Jerri Ameida

Para muitos, “espiritualidade” é a vida no mundo espiritual. Todavia, não é esse o sentido que desejamos atribuir à palavra. Diante da incompletude humana o termo “espiritualidade” refere-se a um processo de mudança interior. Mas não é qualquer mudança! Trata-se de um melhoramento dos sentimentos humanos, um alargamento dos potenciais capazes de tornar os indivíduos mais sensíveis ao bem e ao amor.
O tema está associado à forma como o ser humano poderá administrar seus estados mentais, na manutenção do equilíbrio psicológico e emocional, decorrentes de uma convicção de que podemos ser melhores. A mudança é fruto dessa convicção pessoal. Espiritualidade é, portanto, tudo aquilo que   desenvolvemos internamente, que nos completa o espírito e nos permite paz na alma.   Significa, portanto, afirmarmos que espiritualidade refere-se a um aprimoramento dos conteúdos de natureza subjetiva do sujeito.
A piedade, ao invés da cólera, a indulgência, ao invés da intemperança, pois o progresso individual, como alertou Kardec, não consiste somente no desenvolvimento da inteligência, na aquisição de alguns conhecimentos sobre a vida no mundo espiritual. Para o Espiritismo, o progresso consiste, principalmente, no melhoramento moral, no progresso que nos conduz sempre ao bem.
Pessoas espiritualizadas são aquelas que, entre outras coisas, aprenderam a administrar a sede de consumo, a febre da ambição, a inveja, o ciúme, o orgulho, o egoísmo e a intolerância, tornando-se referenciais de benevolência e de equilíbrio espiritual. A conquista da espiritualidade, indica Kardec, é também a conquista da calma.
A espiritualidade é construída não no isolamento pessoal, mas no intercâmbio da vida relacional. Não devemos ignorar que estamos em contato com o Espiritismo, justamente, para esse fim precípuo. O homem elevado intelectualmente, poderá ainda fazer muito mal, mas o que é elevado moralmente, apesar de não ter atingido as culminâncias evolutivas, estará compromissado com a prática do bem. O progresso pessoal tem um fim, uma utilidade efetiva, com reflexos na vida social. Por isso, asseverou Kardec, em Obras Póstumas, ao escrever sobre o Credo Espírita: “Vivam os homens animados destes sentimentos e serão tão felizes quanto se pode na Terra.”

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A Fase Intermediária da moralidade subjetiva


J. Herculano Pires


"Para se projetar na existência o ser já desenvolveu em si as potencialidades vitais que antecedem, no plano racional-afetivo, o desenvolvimento da moralidade. A dialética subjetiva da racionalidade com a afetividade – razão versus sentimento – produz no ser a síntese da moral subjetiva, que engloba e disciplina as experiências longamente desenvolvidas nos planos inferiores de sua própria ontogênese, que estabelece nesta a realidade do em-si, esse pivô da formação ôntica, que isola o ser nascituro de suas conotações vitais com os reinos inferiores da Natureza, permitindo-lhe o desenvolvimento do egocentrismo. Esse ego solitário centraliza avaramente o progresso já realizado, despertando para consciência de si mesmo. Sartre, que negligenciou toda essa anterioridade, apresentou o ser como uma coisa limbosa e fechada em si mesma, que se projeta na existência em virtude da necessidade ôntica da comunicação. Essa parte metafísica de O Ser e o Nada, de Sartre, é a primeira contradição de sua filosofia. O ser que se lança na existência não é nem pode ser essa espécie de ovóide espiritual inconsciente, pois determina por si mesmo essa projeção por sentir a necessidade de novas experiências. O ato de lançar-se na existência equivale ao nascimento do ser como criatura humana. E tanto assim que o ser se transforma numa paixão inútil, que é a paixão do homem na vida em busca da transcendência que o fato da morte transforma em frustração.
A realidade viva e existencial do homem, entretanto, é real e universalmente o contrário disso. Lançada na existência, a criatura humana amadurece nas experiências vitais para resolver-se como existente, um ser que existe no plano material concreto e desenvolve a sua facticidade (a forma humana com que nasceu feito) num processo contínuo de transcendência. Desde o seu primeiro grito, o ser se projeta na transcendência horizontal da conquista do meio, prosseguindo na conquista do mundo e atingindo a transcendência final sobre a morte através da ressurreição, hoje confirmada pelas pesquisas científicas e tecnológicas.
Na família e na escola o ser pisa os primeiros degraus de sua escalada transcendente na existência. O egocentrismo inicial pode concentrar-se em egoísmo no período infantil e da adolescência, arrastando-se em certos casos mórbidos na idade madura, na forma de estagnação do infantilismo adulto de natureza psíquica. A moralidade se apresenta então como recurso natural de correção desse acidente. Forçado pelas exigências externas da moral social, o ser vai aos poucos se abrindo para a descoberta íntima da moral subjetiva ou endógena, que não pressiona de fora, mas de dentro, na sua própria intimidade. São os dois tipos de moral classificados por Bergson: a Moral Fechada (porque fechada numa estrutural social restrita) e a Moral Aberta, individual e endógena, pela qual a moralidade do ser se abre à comunhão humana irrestrita. Nesta moral o ser, a princípio biopsíquico, atinge as dimensões da moralidade, transformando-se num ser moral. A Moral Social ou fechada está sempre ligada a uma religião estática, tradicional, seguindo a proposição de Bergson, e a Moral Aberta ou individual corresponde às religiões dinâmicas, antidogmáticas e racionais. A Moral e a Religião livres constituem a fase de transição do ser moral para o ser espiritual. Neste ser o homem atinge a transcendência possível na Existência. Diante dele se abrem as vias da Espiritualidade Superior. A morte não existe para ele, pois vê diante dele as perspectivas do Infinito, com os mundos felizes em que as atividades humanas são substituídas pelas atividades divinas. Nele se cumpre a destinação do homem no após morte, com a vida em abundância a que se referiu o Cristo, o Nirvana de Buda, o Tao de Lao Tsé e assim por diante. Não podemos conceber, em nossos cérebros de origem animal, a grandeza ilimitada dessa transcendência cósmica, que é o destino natural de todas as criaturas humanas.
A Moralidade, que Pestalozzi considerava como a única religião verdadeira, colocando-a como o fim supremo da educação, representa o acabamento do homem como um ser humano, o cidadão universal. Esse homem formado para universalidade não tem pátria nem raça, mas não é um apátrida, por que todas as nações lhe servem de pátria. Não aceita nenhuma discriminação humana, pois a Humanidade é a sua família e a sua raça. Ele vê nos seus irmãos humanos, de todas as condições, criaturas que avançam para a divindade, esse delta espiritual em que deságuam todos os rios que se decantam nas corredeiras existenciais para atingirem o verdadeiro Mar da Serenidade, que não está na Lua, mas aqui mesmo na Terra dos Homens. E este não é um sonho de poeta lírico, nem uma alucinação ou miragem, mas a realidade que Jesus de Nazaré nos mostrou na face líquida do Mar da Galiléia. A pesca milagrosa dos Evangelhos se repete continuamente na visão espiritual dos que se entregam ao fluxo existencial.
A Moralidade, que é a Moral na sua plena atualização, transformada de potência em ato, revela-se então como o supremo ideal humano. Uma vez atingido esse ideal, o homem se transforma em Divindade, como a flor que se transforma em fruto.
Como se perdem na poeira da Terra os conceitos pragmáticos da moral que a reduzem à raiz latina de mores, de usos e costumes mantidos segundo as conveniências! A Moral não é um sistema de regras imediatistas, como quiseram os sociólogos materialistas. Como não é, também, uma entidade mística ou mitológica. É uma aspiração natural do homem, no anseio de realizar toda a sua perfectibilidade possível, segundo essa expressão de Kant. E nesse sentido é que ela paira acima da realidade perecível, mantendo incólume através dos tempos a sua atração de arquétipo sobre a consciência humana. Sua eternidade, sustentada pelos metafísicos e negada pelos materialistas e pragmatistas, é relativa à duração da Humanidade no cosmos. A concepção existencial do homem, como um ser projetado contra o alvo da morte, uma flecha disparada no sentido de transcendência, revelou-nos a natureza ôntica da sua eternidade. O conceito bastardo da moral como normativa social agrada aos que desejam libertar-se dos compromissos morais para se entregarem às atrações dos instintos animais e à irresponsabilidade das aventuras ilusórias. A falta de visão espiritual dos pesquisadores levianos, apegados aos fenômenos e esquecidos do búmeno, ou seja, da causa, contribui negativamente para a deformação da moral e a conturbação do nosso tempo. Os moralistas fanáticos, e por isso mesmo incapazes de compreender a natureza verdadeira da moral, bem como as Ligas da Moral, respondem pelos surtos de imoralidade nos séculos de racionalismo superficial."

Fonte: Evolução Espiritual do Homem - Na perspectiva da Doutrina Espírita


domingo, 16 de setembro de 2012

UMA FILOSOFIA LIVRE DOS PREJUÍZOS DOS SISTEMAS


José Herculano Pires

"Léon Denis, discípulo e continuador de Kardec, percorreu toda a Europa, em meados e fins do século passado, pronunciando conferências sobre o Espiritismo, na esperança de superar as barreiras levantadas pelas religiões e pelas ciências contra a doutrina. Uma das suas principais conferências, que abalaram a Europa, intitulava-se A Missão do Século XX. Denis previa o avanço das pesquisas espíritas nos meios científicos e culturais em geral, anunciando o reconhecimento científico do Espiritismo pelas ciências. Já no final do nosso século podemos constatar o acerto de Denis. Se não houve um reconhecimento fora da Ciência Espírita, houve o reconhecimento de fatos pelas comprovações científicas, no interesse do próprio desenvolvimento das ciências.
A Ciência Espírita apresenta-se hoje como a pedra enjeitada da parábola evangélica, que teve de ser colocada como a pedra angular da cultura do nosso tempo. Sua abertura generosa, jamais se fechando em dogmas e sistemas fechados, é um desafio constante ao mundo convencional da cultura que tenta desprezá-la e não consegue libertar-se dos rumos teóricos e metodológicos por ela traçados, sem outra imposição de sua realidade do que a própria realidade dos fatos em que se fundamenta. Cassirer, filósofo alemão contemporâneo, condenou os sistemas, considerando-os como leito de Procusto, em que os fatos empíricos das pesquisas têm de adaptar-se, deformados, a uma sistemática prévia. Ao elaborar a Ciência Espírita, Kardec, muito antes dessa opinião do filósofo, declarou que o Espiritismo oferecia, ao mesmo tempo, uma filosofia e uma ciência livres dos prejuízos do espírito de sistema. A palavra grega dogma equivale apenas a opinião, mas as religiões lhe deram o sentido de veredicto intocável. Kardec se refere ao dogma da reencarnação, mas não com o sentido religioso, esclarecendo que não se trata de dogma de fé, mas de razão. Todos os princípios da doutrina estão sujeitos à crítica e à reformulação, desde que uma prova científica, prova comprovada, seja reconhecida como tal pelo consenso universal dos sábios.
Assim como, na lei universal de ação e reação, os fracassos existenciais das civilizações acarretam conseqüências desastrosas no futuro, também os sucessos resultam em consequências benéficas. Equilibram-se os pratos da balança no processo da evolução humana. Às situações conflitivas de hoje, em nosso mundo, essa lei opõe as situações favoráveis da cultura. Ao mesmo tempo em que os dragões do passado acordam em seus esconderijos, acendem-se as luzes de esperança nas conquistas atuais da Humanidade. A influência dessas conquistas sobre os povos abranda os mitos negativos do passado, predispondo o presente para os avanços necessários, na elaboração universal de um mundo melhor."

Fonte: PIRES, J. Herculano.  Evolução Espiritual do Homem - Na perspectiva da Doutrina Espírita.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Símbolos psicológicos


O conflito familiar expresso entre Caim e Abel, no mito bíblico, constitui interessante conteúdo de reflexão sobre o impacto da palavra. Caim personifica o componente desagregador das relações: ambição, inveja, vaidade, descomunicação. A violência cometida por Caim é, também, decorrência da falta de comunicação de seus próprios sentimentos.
Se Caim iniciou, metaforicamente, a violência doméstica, assassinando o próprio irmão, o ato de “assassinar” tem sentido mais amplo.  Implica na negação da convivência com aqueles que, de alguma forma, oferecem perigos a auto-afirmação do Ego.  Abel foi pastor de ovelhas e Caim lavrador de terra. Ocorre que Caim oferecia o produto de seu trabalho ao Senhor, assim como Abel. Mas o Senhor só tinha olhos para Abel. Seria este o filho preferido? A mitologia trabalha com elementos arquetípicos do inconsciente coletivo, por isso sua atualidade. Nesse caso, em especial, queremos chamar a atenção para a falta de comunicação na mediação dos conflitos.
Há um fundo emocional que permeia o processo da comunicação, ou a falta dela, entre as pessoas. Esse fundo emocional consiste num estado de espírito (ressentido, amedrontado, colérico, sereno, confiante, ...) nutrido por cada um.  Consciente ou inconscientemente, podemos carregar bloqueios e dramas não resolvidos do presente ou do passado  reencarnatório.  Essas estruturas atuam com maior ou menor intensidade na formatação desse fundo emocional, refletindo relacionamentos caracterizados por incompreensões crônicas, ou diálogos produtivos.
Caim não comunicou seus sentimentos, provavelmente bloqueados, ao Senhor. Com isso  psiquicamente passou a anular aquele que lhe ofuscava o brilho.  Os pais parecem não ter conversado sobre o problema, deixando que ele se agigantasse.
A comunicação é faculdade natural do espírito humano, disposta para sua vida de relações. O mutismo, por seu turno, pode ser decorrente de ressentimentos e mágoas cristalizadas nos porões da mente.
O cuidado com o uso da palavra é de extrema importância. André Luiz, em seu livro Entre a Terra e o Céu, Cap. 22, explica que:

(...) a palavra, qualquer que ela seja, surge invariavelmente dotada de energias elétricas específicas, libertando raios de natureza dinâmica.  A mente, como não ignoramos, é o incessante gerador de forças, através dos fios positivos e negativos do sentimento e do pensamento, produzindo o verbo que é sempre uma descarga eletromagnética, regulada pela voz. Por isso mesmo, em todos os nossos campos de atividade, a voz nos tonaliza a exteriorização, reclamando apuro de vida interior, de vez que a palavra, depois do impulso mental, vive na base da criação; é por ela que os homens se aproximam e se ajustam para o serviço que lhes compete e, pela voz, o trabalho pode ser favorecido ou retardado, no espaço e no tempo. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

VALIOSAS INSTRUÇÕES DE ALLAN KARDEC



“[adeptos sinceros são] ...todos os que militam pela causa com coragem, perseverança, abnegação e desinteresse, sem segunda intenção pessoal, que buscam o triunfo da doutrina pela doutrina, e não pela satisfação de seu amor-próprio.” [Grifos meus]

Allan Kardec. O Espiritismo é uma ciência positiva. Alocução de Allan Kardec aos espíritas de Bruxelas e Antuérpia. Revista Espírita, novembro de 1864..

“Aquele que tem a intenção de organizar um grupo em boas condições deve, antes de tudo, assegurar-se do concurso de alguns adeptos sinceros, que levem a doutrina a sério e cujo caráter conciliatório e benevolente seja conhecido. [Grifos meus]

Allan Kardec – Organização do Espiritismo, item 14. Revista Espírita, dezembro de 1861.

“Como se vê, nossas instruções se dirigem exclusivamente aos grupos formados por elementos sérios e homogêneos; os que querem seguir a rota do Espiritismo moral, visando o progresso de cada um, fim essencial e único da doutrina.” [Grifos meus]

Allan Kardec – Organização do Espiritismo, Revista Espírita, dezembro de 1861, item 17.

“Sem homogeneidade, não há união simpática entre os sócios, não há relações afetuosas; sem união, não há estabilidade; sem estabilidade, não há calma; sem calma, não há trabalho sério. De onde concluímos que a homogeneidade é o princípio vital de toda sociedade ou reunião espírita.” 

Allan Kardec – Sociedade Espírita, dita da caridade de Viena – Austria -
 Revista Espírita, Junho/ 1862. 

“Cultivemos, acima de tudo, as plantas férteis, que não pedem senão para germinar. Elas são bastante numerosas para ocupar todos os nossos instantes, sem consumir nossas forças contra os rochedos inamovíveis, que Deus se encarrega de abalar ou de remover quando chegar o tempo...”

Allan KardecA luta contra o passado e o futuro. Revista Espírita, março/1863.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

TANATOS

Jerri Almeida

Os Gregos buscaram, inicialmente, explicar ou representar a realidade através do mito. Aproximadamente entre os séculos XII e IX a.C.,  o pensamento grego encontro na faculdade mitogênica os modelos explicativos para a vida e a morte. O que desafiava o homem a produzir os mitos? O mistério. Nesse sentido se estrutura uma visão de mundo dualista, onde o físico se explica pelo transcendente e a busca pelo significado das coisas se processa pela imaginação.
Os mitos foram, sem dúvida, os modelos explicativos possíveis ao longo de diversas culturas e civilizações. Entretanto, não podemos vê-los como simples fantasias ou delírios da imaginação, pelo contrário, neles vemos toda uma forma de explicação simbólica da vida que, atualmente, encontra valiosos instrumentos interpretativos, por parte das ciências psicológicas.
Na mitologia grega, Tanatos é o deus da morte, filho de Érebo e da Noite que o criou sozinha, gêmeo de Hipnos, deus do sono. Daí a relação estreita entre a morte e o sono/o morrer e o dormir. Tanatos era representado como um homem alado, portando uma tocha apagada. Evidentemente não deveria ser um deus muito apreciado, provavelmente,  vivia na solidão, rejeitado pelos seres humanos em seu intento infame.
A filosofia grega tem seu nascimento entre os séculos VII e VI a C. não significou, contudo, uma ruptura total com o pensamento mítico, mas pode-se dizer que houve um amadurecimento na forma do pensar. O discurso filosófico busca um saber racional, construído em boa argumentação. 
Com Pitágoras (570-496 a.C.) a morte é vista como a libertação da alma que, encerrada no corpo, cumpre um processo de aperfeiçoamento através de várias migrações em busca de uma vivência ética perfeita. Pitágoras e os pitagóricos contribuíram para o surgimento do conceito de imortalidade da alma individual e da transmigração desta, de um corpo para outro. 
 As filosofias dualistas (orfismo, pitagóricos, platonismo, Socráticos...) consideravam, de forma geral, a morte não como o fim da vida do ser, mas o término de um ciclo existencial onde o físico somente se explica pelo extrafísico, supra-sensível, transcendente.
O culto aos mortos entre os romanos  foi, provavelmente, uma herança deixada pelos etruscos e antecedeu a adoração aos deuses.  Segundo Ferreira: “A tradição antiga de manter permanentemente acesso o fogo sagrado nos lares, em homenagem aos ancestrais, nasceu juntamente com a cidade e significava uma expressão do culto aos mortos.” [1] 
Os primeiros romanos praticavam o ato de sepultar e homenagear com alimentos e bebidas os seus mortos.  Os cemitérios romanos eram construído ao longo das estradas como uma forma de afastar os mortos do convívio das cidades [2].  Entre os romanos as ideias de castigos ou recompensas após a morte praticamente não existia. A prática de adoração dos mortos, entretanto, consubstanciava uma importante forma de compensação as pessoas que haviam “deixado a vida”.
Ao contrário dos gregos, os Romanos parecem não ter demonstrado grande preocupação com a ideia da imortalidade da alma e a vida no além. Entendia-se, mesmo, que a morte seria um “repouso” após uma longa viagem [3]. O problema da vida após a morte, por certo, começa a ser divulgada entre os romanos antigos, através das várias concepções religiosas vindas, principalmente, da Grécia, da Pérsia e da Palestina, em virtude das conquistas territoriais realizadas pelos exércitos romanos. Com o Edito de Milão em 313, o imperador Constantino[4] reconhece o Cristianismo como religião (ainda não oficial) e libera sua crença no Império. Daí em diante, as ideias cristãs sobre a vida futura ganharam, cada vez mais, adeptos entre os romanos.

Notas

[1] FERREIRA, Olavo Leonel. Visita à Roma Antiga. São Paulo, Moderna, 1997, P. 60
[2] ARIÉS, Philippe e DUBY, Georges. História da Vida Privada: Do Império Romano ao ano mil.  Vol. 1. São Paulo, Cia das Letras, 1997. P. 486.
[3] Idem. P. 210-211.
[4] MACEDO, José Rivair. Religiosidade e Messianismo da Idade Média. 1ª ed. São Paulo, Moderna. Cap. 1.

Pesquise no Blog

Loading

TEXTOS/ARTIGOS ANTERIORES