sexta-feira, 23 de setembro de 2011

VIVER É RECORDAR

Com Platão, Século IV a.C., estrutura-se, pela primeira vez de maneira sistemática, a justificativa filosófica de cunho metafísico, que se tornará paradigmática no Ocidente. [1] Embora Platão não usar a palavra “metafísica” que não existia em sua época, ele busca, através de seus diálogos, a realidade causal, o mundo das justificativas e, portanto, o mundo real.
Dessa forma, chega a conclusão da existência de dois mundos: o Mundo das Idéias e o Mundo Sensível. O Mundo das Ideias em Platão – e  “ideia” aqui não deve ser confundida com “conceitos de nossa mente” – é um mundo supramaterial, eterno, onde reina a verdade, a perfeição e a suprema importância do Bem. Esse mundo representaria a “forma” do mundo material, pois para tudo que existe aqui, haveria um modelo causal  e perfeito no Mundo das Ideias.
O Mundo Sensível representaria, por sua vez, o mundo material com as imperfeições que lhes são inerentes. É o mundo ilusório, dos sentidos, mutável, perecível e caótico. Logo, um reflexo imperfeito do Mundo das Idéias.  Nesse sentido, o conhecimento representaria uma importante via de transição, para o ser humano, da ilusão para a realidade, onde a ideia do Bem consubstanciaria o auge desse processo.
Dos textos[2] de Platão podemos extrair inúmeras afirmativas concernentes a teoria da reminiscência. Sim, estamos falando daquela famosa frase platônica que “aprender é recordar”[3]. Esse “recordar” está relacionado com a ideia das vidas sucessivas.
Em seu valioso estudo sobre os mitos platônicos, Geneviève Droz, filósofa e professora em Montpellier, destaca no Ménon (80d-86c), a afirmação sobre a imortalidade  e a transmigração das almas. Platão, através dos diálogos de Sócrates, afirma que: “pesquisar e aprender não é senão se lembrar, quer dizer, encontrar em si mesmo, no seu próprio cabedal, um saber que já lá está.” A afirmação é Socrática:

A alma é imortal e renasce várias vezes.  Contemplou, portanto, antes de qualquer existência encarnada, todas as coisas e possuiu o conhecimento. Portanto, não há nada de espantoso em que tenha, aqui na Terra, lembranças desse saber. Uma lembrança puxando outra, é possível reencontrar a integralidade do já conhecido. [4]

Analisando o argumento da reminiscência, Droz assim se expressa: “Se a alma viu, desencarnada, e esqueceu ao encarnar-se, impõe-se que tenha, aqui em baixo, a faculdade de lembrar-se. O amor é um dos meios para esse resultado.” [5]  Em seus diálogos metafísicos, Platão não se esquivou em defender o argumento da imortalidade da alma e de suas sucessivas existências. Em seu livro A República, narra a história de um homem chamado Er que, morre gravemente ferido em uma batalha, mas por ocasião de seu funeral, doze dias depois, ele volta a vida, informando o que seu espírito vivenciou nesse período. Platão descreve essa experiência fora do corpo, que chamaríamos hoje de “morte aparente”. Er, recordava-se de ter visitado planos superiores e inferiores à Terra onde as almas venturosas ou infelizes viviam por determinados períodos, findo os quais, retornavam novamente à Terra servindo-se de novos corpos.


E era digno de se ver esse espetáculo, contava ele, como cada uma das almas escolhia a sua vida. Era, realmente, merecedor de piedade, mas também ridículo e surpreendente. Com efeito, a maior parte fazia a sua opção de acordo com os hábitos da vida anterior.  [...] Assim que todas as almas escolheram  as suas vidas, avançaram, pela ordem da sorte que lhes coubera, para junto de Láquesis. Está mandava a cada uma o gênio que preferira para gardar a sua vida e fazer cumprir o que escolhera. [6]


Platão não usou o vocábulo reencarnação, pelo simples fato dessa palavra não existir à época. Mas deixou claro, como exposto no texto acima, a crença no retorna do espírito ao corpo físico vinculando-o a escolha de um projeto existencial. Nota-se, também, a importância da lei de causa e efeito como elemento determinante dessa nova vida, e a ação dos espíritos em amparar seus tutelados na nova jornada.



[1] LARA, Tiago Adão. A Filosofia nas suas Origens Gregas. Petrópolis, RJ. Vozes, 1989.
[2] Fédro (249b-250b); Teeteto (148c-151d); Ménon (80b-86b) Fédon ( O argumento da reminiscência), entre outros.
[3] PLATÃO. Fédon. Diálogos sobre a Alma e a morte de Sócrates. São Paulo: Martin Claret, 2003. p. 45.
[4] PLATÃO Apud. DROZ, Geneviève. Os mitos platônicos. Trad. Maria A. R. Keneipp. Brasília: Ed. UnB, 1997. P. 65.
[5] Idem. P. 67.
[6] PLATÃO. A República - 620 a..

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