sábado, 13 de agosto de 2011

DISTONIAS MENTAIS E OBSESSIVAS NA PERSPECTIVA DA TEORIA ESPÍRITA - Parte I

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Jerri Almeida


“(...) assim como o Espírito atua sobre a matéria, também esta reage sobre ele, dentro de certos limites, e que pode acontecer impressionar-se o Espírito temporariamente com a alteração dos órgãos pelos quais se manifesta e recebe as impressões. Pode mesmo suceder que, com a continuação,  durando longo tempo a loucura, a repetição dos mesmos atos acabe por exercer sobre o Espírito uma influência, de que ele não se libertará senão depois de se haver libertado de toda impressão material.” 

(LE. Questão 375 a.)
1- Definição do problema

A problemática das distonias mentais é por demais complexa como, naturalmente, complexo é o ser humano. Em linhas gerais, sem adentramos em maior amplitude na área clinica, haja visto não ser nossa especialidade, nos propomos a algumas reflexões sobre esse difícil tema, especialmente,  buscando demonstrar  o erro de análises simplistas  e/ou exclusivistas por parte, não raro, de dirigentes espíritas em rapidamente  diagnosticar  fenômenos obsessivos nas pessoas que chegam ao Centro Espírita.
Inicialmente cumpre-nos diferenciar  a correlação cérebro-mente. Segundo considera Balduino [1] (p.259): “As doenças mentais de fundo espiritual podem ocorrer pelo simples fato de não ser a mente um epifenômeno do cérebro, ou um mero agregado de funções neuronais, mas assenta suas bases funcionais nas profundezas do próprio núcleo da personalidade que, como já foi dito, é de natureza espiritual.” O cérebro é, portanto, o equipamento biológico complexo que permite ao ser espiritual estruturar e manifestar sua consciência e pensamentos, enquanto encarnado.  A mente [2], por sua vez, representa  a realidade  promotora do pensamento contínuo, das emoções e da capacidade volitiva. Mente é sinônimo de espírito.  Exemplificando: o computador é o cérebro, o digitador é o espírito.  Nesse sentido, se o computador apresenta defeitos ele não permite ao digitador expressar suas possibilidades  plenas.  Por sua vez, se o computador estiver em perfeita ordem, ótimo nível de memória, componentes sofisticados... mas o digitador  estiver com problemas, doente, confuso ou mesmo limitado, isso   se tornará  compreensível através do próprio aparelho que, também não responderá de forma adequada.
Com isso, queremos  considerar que as distonias mentais poderão ter fatores intrínsecos ou extrínsecos  ao próprio indivíduo. No centro, entretanto, estará sempre o núcleo espiritual com seus méritos e deméritos, virtudes ou vícios,  fruto de suas múltiplas experiências no continuo histórico no corpo ou fora dele, individual e coletivamente, no tempo e no espaço. Depreende-se, portanto, problemas de ordem psicológica (mental),  fisiológica (cerebral)   e obsessiva, devido a intervenção de um agente espiritual parasitário externo. A complexidade das distonias mentais reside, também, na dificuldade de seu diagnóstico, em face a esses três possibilidades ora mencionadas.
No Centro Espírita, como não dispomos (nem é seu objetivo) de uma estrutura que examine os aspectos clínicos e psíquicos dos indivíduos,  ficamos com o foco na dimensão espiritual. Em que pese esse fato, não poderemos desconsiderar em nenhum momento as demais possibilidades psico-físicas, suscetíveis de estarem norteando possíveis distonias mentais.  Para isso, deverá o atendente fraterno, e os demais dirigentes da instituição, estar vigilante e responsável.  Alerta o psiquiatra Jorge Andréa que: “O processo obsessivo muitas vezes apresenta-se com sintomas pouco definidos, com características ora neuróticas, ora psicóticas. A distinção entre o sintoma psiquiátrico e o sintoma obsessivo é muito difícil, até porque algumas vezes o processo se acopla ao já existente sintoma psiquiátrico, enquanto outras vezes dá-se o contrário, o processo possibilita o nascimento da distonia mental.”[3]
Difícil saber as balizas demarcatórias entre a sanidade e a insanidade, a obsessão ou a doença mental, e esta, para as doenças fisiológicas. Assevera ainda o autor que “a sintomatologia obsessiva desfila de modo preponderante, nos grupos das histerias e das epilepsias,  em imensas variações revestidas dos coloridos das personalidades psicopáticas, e das inserções psicóticas.” Ora, tanto o histérico como o epiléptico poderão estar sob influência espiritual obsessiva, entretanto, parece-nos  irresponsável ou, no mínimo,  premeditada a postura totalizante daqueles que consideram todos os fenômenos como obsessões ou manifestações espirituais.  O próprio Aksakof, a seu turno, já alertava [4] para os riscos das posturas unilaterais: “o grande erro dos partidários do Espiritismo é ter querido atribuir todos os fenômenos, geralmente conhecidos sob esse nome, aos Espíritos.” Aksakof refere-se justamente aos casos de distúrbios psíquicos ou personismo que poderiam ser , em alguns casos, animismo ou  espirituais (externos).
O problema é compreendermos qual das hipóteses é preciso atender. No Centro Espírita deveremos ter o cuidado em rotular todos os fenômenos psíquicos que possam se passar com os frequentadores (ou mesmo trabalhadores) como oriundos de espíritos obsessores. Por vezes poderemos estar diante de alguém passando por uma crise convulsiva e, simplesmente, ficarmos “doutrinando o espírito” que, supostamente, está provocando o fenômeno. Estamos lidando com questões de saúde e, nesse terreno, não podemos “supor”. Mas como saber efetivamente o que se passa com aquela pessoa que, de repente, cai no chão e começa debater-se?  Manda o bom senso que se faça um atendimento de emergência. Nesse momento, outros trabalhadores buscam alguém que possa estar acompanhando essa pessoa averiguando sua saúde física e psíquica. Caso a constatação de que a pessoa sofre de convulsões e/ou epilepsia ou outro problema nessa área, cremos que a saída mais responsável é encaminhá-la rapidamente para o hospital mais próximo.
Mas algum trabalhador poderá considerar que exista, também, um fenômeno espiritual – o que é possível – então reúnem-se um grupo para, a distância,  continuar o trabalho de assistência espiritual. Médicos cuidam do corpo. E, para isso, não há a necessidade inexorável da pessoa (paciente) estar presente fisicamente.  No leque dos problemas psicológicos, muitas vezes, os casos de depressão, igualmente, devem ser tratados por especialistas. O encaminhamento para um especialista, no entanto, não exclui a terapia espírita de desobsessão e/ou fluidoterápica. Pelo contrário, a terapêutica espírita vem contribuir sobejamente com a ideia do tratamento global e sistêmico ao indivíduo numa dimensão bio-psico-socio-espiritual.   

Obs: Continua na próxima postagem.

NOTAS


[1] BALDUINO, Leopoldo. Psiquiatria e mediunismo.  1ª ed.  Brasília. FEB. 1993.
[2] LUIZ, André. Evolução Em Dois Mundos. Cap. 16. “Mecanismos da Mente”.
[3] ANDRÉA. Jorge. Limites entre processo obsessivo e doenças mentais. In.  BOLETIM MÉDICO-ESPÍRITA N.º. 9. Associação  Médico-Espírita de São Paulo. São Paulo, 1994. Página 51.
[4] Apud. BALDUINO, Leopoldo. Psiquiatria e Mediunismo. Ed. Feb.  Página. 281.

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