sábado, 29 de março de 2014

O ESTUDO ESPÍRITA

Jerri Almeida

Nos anos 50, o escritor e sociólogo Deolindo Amorim defendia um estudo integrado e aprofundado das obras de Kardec. Passou o tempo, chegamos ao século XXI, mas o Espiritismo continua sendo uma doutrina pouco compreendida na sua essência. O pensamento de Kardec ainda é muito desconhecido, mesmo no meio espírita. Suas obras são estudadas (quando são) de forma superficial e fragmentadas. O próprio professor Rivail já alertava na Revista Espírita de novembro de 1864: “Está provado que o Espiritismo é mais entravado pelos que o compreendem mal do que pelos que não o compreendem absolutamente, e, mesmo, pelos inimigos declarados.”
Em pouco tempo, se os espíritas não se voltarem para o estudo da ampla obra kardequiana, o Movimento Espírita, de “espírita”, só terá o nome. Observamos com certa preocupação, em certos encontros, “preces em círculo”, ou “de mãos dadas”, entre outras posturas incoerentes com os ensinamentos espíritas que, infelizmente, se proliferam. Voltar-se para a fonte primária, buscando absorver dela, em primeiro plano, o que é realmente o Espiritismo, eis o desafio do momento.
Léon Denis, em seus escritos chegou advertir: “O espiritismo será o que dele fizerem os homens”. Com sua lucidez habitual, o filósofo percebia, desde sua época, o descompromisso de muitos “espíritas” com o estudo sério, nos moldes apresentados por Allan Kardec, com senso crítico e analítico dos textos e dos fenômenos.
Em seu livro O Que é o Espiritismo, no terceiro diálogo, Kardec aconselha o estudo da teoria espírita, indicando suas publicações como roteiro para a compreensão dos princípios fundamentais do Espiritismo. Vejamos:

“Dissemos que o melhor meio de se esclarecerem sobre o Espiritismo é estudarem previamente a teoria; os fatos virão depois, naturalmente, e serão facilmente compreendidos, qualquer que seja a ordem em que as circunstâncias os façam vir. As nossas publicações são feitas no intuito de favorecer esse estudo; eis aqui a ordem que aconselhamos. A primeira leitura a fazer-se é a deste resumo, que apresenta o conjunto e os pontos mais salientes da ciência; com isso, pois, já se pode fazer dela uma ideia e ficar-se convencido de que, no fundo, existe algo de sério. Nesta rápida exposição esforçamo-nos por indicar os pontos sobre que particularmente se deve fixar a atenção do observador.  A ignorância dos princípios fundamentais é a causa das falsas apreciações da maioria daqueles que querem julgar o que não compreendem, ou que se baseiam em ideias preconcebidas. Se desta leitura nascer o desejo de continuar, deve-se ler O Livro dos Espíritos, onde os princípios da doutrina estão completamente desenvolvidos; depois, O Livro dos Médiuns, para a parte experimental, destinado a servir de guia aos que desejarem operar por si mesmos, como aos que quiserem bem compreender os fenômenos. Vêm depois as diversas obras onde são desenvolvidas as aplicações e as consequências da doutrina, como: O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno segundo o Espiritismo, etc.”  

Havia uma nítida preocupação de Kardec com o estudo e compreensão da doutrina espírita. Ele, como bom pedagogo, oferece uma alternativa para isso, pois afirmava que a ignorância dos princípios fundamentais é a causa das falsas apreciações e das práticas incoerentes.

Estudar Kardec de forma integrada e problematizada é um caminho para resgatarmos o pensamento espírita, em suas bases mais sólidas. 

sábado, 1 de março de 2014

PENSAMENTO ALARGADO

Jerri Almeida

Na Revista Espírita de janeiro de 1858, Kardec publicou a emocionante narrativa da mãe que havia perdido uma filha de catorze anos. Essa jovem havia sucumbido a uma longa e dolorosa doença. Inconsolável com essa perda, dia a dia a mãe via sua saúde fragilizar-se, alimentando diante de suas angústias e desgosto pela vida, ideias de suicídio. Instruída sobre a vida espiritual e a possibilidade de comunicação com sua filha, encontrou em uma reunião doméstica, através de uma senhora médium, o reencontro com sua amada filha.
Mas, seria mesmo sua filha?

- És tu mesma, minha filha, que me respondes?  Como posso saber que és tu?

A resposta veio rápida:

-Lili

Era um pequeno apelido familiar dado à jovem em sua infância, mas que não era de conhecimento da médium, considerando-se que há vários anos, só a chamavam pelo seu nome: Júlia.

Qual a mãe que não conhece realmente seu filho? Esse e outros dados foram trazidos pela jovem, eram os sinais, a identidade era evidente. Não podendo dominar a emoção, a mãe explode em lágrimas!

- Mãe! Por que te afliges? Sou feliz, bem feliz: não sofro mais e te vejo sempre.

O diálogo e o relato prosseguem! Kardec faz sua observação:

Em presença de semelhantes fatos, quem ousaria falar do vazio do túmulo, quando a vida futura se nos revela assim tão palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, experimenta hoje uma felicidade inefável em poder conversar com a filha; não há mais separação entre elas; suas almas se confundem e se expandem no seio uma da outra, pela permuta de seus pensamentos.


O sofrimento é inerente ao viver! A experiência humana é inquietante, por vezes, mergulhada em angústias dos mais variados matizes. Viver sem significado, é como o indivíduo que tenta buscar todas as explicações estudando somente a folha, ignorando por completo a árvore. A existência material é, metaforicamente, a “folha”. A vida, na perspectiva espiritual, a árvore. Olhar apenas a folha é angustiante. É uma busca melancólica, torturante, Indiferente e fria. Como compreender os processos químicos que ocorrem na folha, sem temos a sapiência de estudarmos a árvore que a originou? 
Os críticos do espiritualismo asseveram que o homem criou a metafísica para digerir melhor a ideia de sua própria finitude. Os que assim se manifestam, imaginam reter a verdade em suas crenças filosóficas ou científicas, também limitadas pela condição humana.
Viver com vida, com confiança nas disposições humanas e numa ordem que pensou inteligentemente a natureza, pode ser uma perspectiva para se viver esperançosamente. Kardec ofereceu uma lente de reflexão, para pautarmos nosso olhar. O desgosto pela vida poderá, assim, simbolizar ou representar, uma fragilidade do olhar.
A condição humana é um constante conviver com “espaços vazios”, ou seja, com interrogações e dúvidas inerentes a incompletude relativa do homem, em busca da perfectibilidade relativa do espírito. Sendo a existência, como defendem alguns, algo de incerto e inseguro, sem garantias de sucesso, a fé é uma possibilidade radical, para a manutenção dos sonhos possíveis. 

De fato, o espiritismo não afasta o sujeito da existência, nem mesmo a critica. Entretanto, percebe a vida numa perspectiva de serenidade, com todos os seus desafios, na sua estrutura vivencial e reencarnatória. O ser humano se completa na existência e se plenifica na vida. Essa vida, quanto mais rica de significados, mais complexa se torna, no sentido de permitir um olhar para diferentes possibilidades. Uma espécie de pensamento alargado. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ID, EGO E SUPEREGO EM TEMPOS DE CARNAVAL


Crônica de Moacyr Scliar (Jornal Zero Hora, 08/02/97)

“A nossa mente é como uma casa em que vivem três habitantes. No térreo, mora um sujeito meio atucanado chamado Ego. Ele não é propriamente o dono da casa, mas cabe-lhe pagar a luz, a água, o IPTU, além de varrer o chão, lavar a roupa e cozinhar. Como essas tarefas fazem parte da vida cotidiana, Ego até que não se queixa. O pior é ter que conviver com os dois outros moradores.
O andar superior é decorado em estilo austero, com estátuas de grandes vultos da humanidade e prateleiras cheias de livros sobre leis e moral. Aí vive um irascível senhor chamado Superego que dedica todos os seus esforços a uma única coisa: controlar o pobre Ego. Quando Ego se lembra de uma boa piada e ri, ou atreve-se a cantar um sambinha, Superego bate no chão com o cetro que carrega sempre, exigindo silêncio. Se Ego resolve trazer para casa uma namorada ou mesmo uns amigos, Superego, de sua janela, adverte que não quer festinhas em domicílio.
No porão sujíssimo, mora o terceiro habitante da casa, um troglodita conhecido como Id, que não tem modos, não tem cultura, na verdade, mal sabe falar. Em matéria de sexo, porém, tem um apetite invejável. Superego, que detesta essas coisas, exige que Ego mantenha a inconveniente criatura sempre presa. É o que acontece durante todo o ano.
No carnaval, contudo, Id se solta. Arromba o portão do porão e vai para a folia, arrastando o perplexo Ego, que num primeiro momento, resiste, mas depois acaba aderindo. E aí são três dias de samba, bebidas, mulheres.
Quando volta pra casa na quarta-feira, a primeira pessoa que Ego vê é o Superego, olhando-o fixo da janela do andar superior. Ego sabe que errou e, humilde, enfia-se em casa, abre a porta do porão para que o saciado Id volte ao seu reduto, e aí começa a penitência, que durará exatamente um ano.

De vez em quando Ego tem um sonho. Imagina que os três fazem parte de um mesmo bloco carnavalesco e que juntos, se divertem a valer. O Superego é inclusive, o folião mais animado. Mas isso, naturalmente, é apenas um sonho.”

sábado, 1 de fevereiro de 2014

LEITURA E POSSIBILIDADES

De forma muito evidente, Goulemot explica que: “Ler é dar um sentido de conjunto, uma globalização e uma articulação aos sentidos produzidos pelas sequencias.”[1] Ler é constituir sobre o texto, um sentido não fragmentado, mas de conjunto. A situação de leitura busca oferecer ao leitor, na interação com o texto, não um simples sentido das palavras ou do grupamento de frases, mas o mergulho mais profundo no oceano das “ideias”.
O ato de ler implica numa série de variáveis importantes, auto evidentes. Roland Barthes espantou os professores em um congresso na França, ao declarar que lia com maior frequência e aproveitamento no banheiro. Certamente com esse exemplo, ponderava que o ato da leitura implica também numa relação ou atitude com o meio: ler em pé, sentado, em grupo, solitário, em público, à luz de um abajur, num ambiente em condições climáticas adversas, influencia a disposição pessoal no ato de ler.
No aspecto psicológico, as condições emocionais, espirituais, religiosas e culturais, em casos mais ou menos extremos, irão reverberar sobre o indivíduo no momento de sua interação com o texto, podendo constituir fatores de aproximação ou distanciamento de sentido. Assim, ideias cristalizadas sobre um determinado assunto, preconceitos, valores edificados sobre algo, fatores midiáticos, ideológicos, políticos, atavismos religiosos, entre outros, participarão, com maior ou menor intensidade, na interação com o texto e na produção pessoal de sentidos sobre ele.
A cada leitura, o que já foi lido muda de sentido, podendo aprimorar seu significado. Logo, ler é “estar aberto” constantemente para novas possibilidades.
Nos grupos de estudos do espiritismo, a leitura deixa de ser simplesmente um ato privado, íntimo e particular, para se conjugar com outras leituras e se socializar determinados “sentidos”. Passa a ter o caráter de um “deciframento” coletivo que, por vezes, ultrapassa a percepção individual de leitura. É um grupo que “interroga” um mesmo ou vários textos, buscando articular um (ou vários) sentidos sobre ele ou eles.
Todavia, o abrir-se para os textos, ao longo dos estudos em grupo, não deve gerar uma preocupação radical com a uniformidade dos sentidos, ou necessariamente adequar-se a compreensão que comumente a maioria do grupo construiu.
Essa leitura convergente, seguida de debates, permite de certa forma, uma autoanalise sobre os sentidos (individuais) atribuídos ao texto, conforme menciona o sociólogo Pierre Bourdieu: “Se é verdade que o que eu digo da leitura é produto das circunstancias nas quais tenho sido produzido enquanto leitor, o fato de tomar consciência disso é talvez a única chance de escapar ao efeito dessas circunstancias.”[2]
A leitura, e o consequente estudo, da obra kardequiana é um constante convite para se escapar ao efeito dessas circunstancias, na medida em que estimula a construção de novos significados, mexendo com velhas estruturas de pensamento. Dessa forma, a leitura é um processo inquietante, mas não necessariamente, angustiante. Aproximar-se da leitura e experimentar sua presença constante ao longo dos estudos espíritas, eis o primeiro convite, pois o segundo consiste no processo de interpretação dos textos, assunto que discutiremos na sequencia.
Deve-se, portanto, perceber que no processo da leitura é fundamental articular os vários sentidos produzidos pelo texto, socializando-os dialeticamente nas reuniões de estudo para reconfigurar, ou não, o teor desses sentidos. Um dos primeiros desafios a ser superado pelo leitor é a ideia de “sacralização do texto”. Nenhum texto, no espiritismo, é sagrado, isto é, nenhum texto ou autor, está acima de qualquer análise. O leitor deve se revestir dessa tranquilidade, para interagir com o texto com naturalidade e senso crítico.  
Qualquer texto (e autor) que entre para “a ordem do sagrado” afasta o leitor dos pressupostos das análises e das trocas intelectuais horizontalizadas. Isso pelo fato do conteúdo do texto ser entendido de forma verticalizada, pelo viés da revelação.  O que sempre representa uma manifestação do poder totalitário e dogmático.
Após sua Viagem de 1862, Kardec entusiasticamente percebendo a multiplicação de grupos de estudos, anotou:
Neles ocupam-se pouco ou nada das manifestações. Toda a atenção se volta para a leitura e explicação de ‘O Livro dos Espíritos’, ‘O Livro dos Médiuns’, e de artigos da ‘Revista Espírita’. (...) Aplaudimos de todo o coração essa iniciativa que, esperamos, terá imitadores e não poderá, em se desenvolvendo, deixar de produzir os melhores resultados. (Grifos meus)

A atenção se voltava para a “leitura” e “explicação”, em grupo, de alguns textos publicados por ele até aquele ano. Aqui já percebemos uma prática inicial de estudo, ao que tudo indica, integrando vários textos de Kardec. Mas não se trata de uma simples leitura, mas de uma leitura seguida de explicações que conduzem para a compreensão. A afirmação é do próprio professor Rivail: “Um (...) sinal característico dessa época é o número incalculável de adeptos que nada viram e que, nem por isso, deixam de serem menos fervorosos, simplesmente porque leram e compreenderam.”[3]
Durante os estudos é natural que surjam objeções e dúvidas sobre o conjunto ou partes da teoria, sobre aspectos pertinentes a determinado tema, confrontação de textos de outros autores com os de Kardec e dos espíritos, o que deve estimular o estudante a encontrar respostas através da própria leitura.[4]  Ler bem é tornar-se apto para perceber as “dobras do texto”, tema que está associado a questão da interpretação. No entanto, desejamos ponderar que para “ler bem” não se faz necessário grandes habilidades linguísticas, mas o comprometimento com a compreensão do espiritismo.


NOTAS

[1] GOULEMOT, Jean Marie.  Da leitura como produção de sentidos. In. CHARTIER, Roger. (Org) Práticas da Leitura. Trad. Cristiane Nascimento. 5ª. Ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2011. p.108.
[2] BOURDIEU, Pierre. A leitura uma prática cultural. In. CHARTIER, Roger. (Org) Práticas da Leitura. Trad. Cristiane Nascimento. 5ª. Ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2011. p. 234.
[3] KARDEC, Allan. Viagem Espírita de 1862. Impressões Gerais. Ed. Feb, p.11.
[4] Idem, p. 14.

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