quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O NATAL

Jerri Almeida

Os historiadores do cristianismo empenham-se por encontrar os indícios materiais que comprovariam a existência do homem Jesus. Além da Bíblia, encontramos outras poucas referências a Jesus em autores como Flavius Josephus, um historiador judeu do primeiro século. Em sua obra: Antiguidades , ele afirma: “Havia por aquele tempo Jesus, um homem sábio, se for direito chamá-lo de homem...” [1]
No século II, Tácito, um famoso historiador romano também se refere a: “...Cristo, que o procurador Pôncios Pilatos entregou ao suplício.” [2] Seria desnecessário enumerar outras referências. O fato é que o cristianismo ganhou cada vez mais espaço dentro do declinante império romano, passando, também, a sofrer uma mistura cultural, quase inevitável.
No ano 313 d.C. o imperador Constantino, por meio do documento denominado Edito de Milão, reconhece o cristianismo como religião e libera suas manifestações no interior do império. Era uma forma de conseguir apoio dos cristãos, cada vez mais numerosos, para um império cada vez mais imerso em crises. No ano 380, o imperador Teodósio aderiu ao cristianismo e em 391 baixou uma lei proibindo a prática de todos os cultos considerados pagãos ou politeístas. Nesse sentido, o cristianismo torna-se a religião oficial do estado romano, todavia, apesar da proibição, as crenças pagãs jamais desapareceram totalmente. Passa ocorrer, a partir daí uma “transfusão” de elementos culturais-religiosos externos para o interior do cristianismo, deturpando sua simplicidade original.
 Dessa forma, a data que hoje conhecemos como atribuída ao Natal, foi definida no ano 336 d.C. O 25 de dezembro, oficializado no século IV,  originou as festividades do nascimento de Jesus. Foi uma transposição cultural às comemorações, na mesma data, do nascimento de Mitra, o deus-sol de origem Persa.[3] O dia da semana que se dedicava, tradicionalmente, ao culto ao “Sol invencível”, chamado na cultura pagã de: “dia do sol”, passou a se chamar “domingo”, o “dia do Senhor”. [4] Para o historiador Ernest Renan, Jesus teria nascido por volta do ano 750 da data da fundação de Roma, na cidade de Nazaré, uma pequena cidade da Galiléia.[5] O 25 de dezembro é, portanto, uma data simbólica, no entanto, impregnada de grande significado espiritual. 
O Natal aí está, quer seja nos seus aspectos simbólicos, econômicos, ou no sentimento que impele o ser humano a uma profunda revisão de seus valores. Na crise de civilização que a humanidade atravessa a proposta cristã – fundada na ética do amor – é muito mais profunda do que as meras apelações comerciais construídas pela sociedade capitalista.
Na verdade, podemos identificar na mensagem natalina um verdadeiro desafio à renovação interior. Muito embora sem nada escrever, Jesus Cristo continua influenciando milhões de pessoas, em todo o mundo.  Longe de estarem superados, os seus ensinos morais representam um admirável repositório de sabedoria capaz de promover uma convivência, entre indivíduos e povos mais pacífica e fraterna. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec na questão 625 indagando os benfeitores espirituais sobre quem seria o Ser mais notável que Deus enviou à Terra para nos servir de modelo e guia, obteve como resposta: “Jesus”.
Figura paradigmática, Jesus é o homem mais falado da história. Sobre nenhum outro personagem se escreveu tantos livros, seja para desvendar sua personalidade, para interpretar seus ensinos ou para mencionar seus fatos notáveis. Apesar disso, o jornalista e psicólogo espanhol Juan Árias chegou a afirmar sobre Jesus: “Esse grande desconhecido”.  Antes dele, no entanto, o historiador francês Ernest Renan já havia dito que Jesus era: “Um homem incomparável”.
O Natal não deve ser visto nos acanhados limites dos rituais religiosos ou nos festejos para troca de presentes. A proposta apresenta por Jesus nesses vinte e um séculos de cristianismo é profundamente inovadora, repercutindo numa nova ética para a vida. O valor da Boa Nova, mensagem de amor trazida por ele, é de alta transcendência para o homem.
Nos dias atuais, marcados por tanta rigidez dos sentimentos, de violência e de desigualdades sociais marcantes caracterizando uma sociedade que atingiu alto nível de desenvolvimento tecnológico, mas que ainda se encontra encarcerada nos grilhões da indiferença, a mensagem do Cristo é emblemática para a edificação de um novo ser humano.
 O verdadeiro sentido do Natal, portanto, se dará quando Jesus, e tudo aquilo que ele representa nascer efetivamente na Terra. Dessa vez, não mais em uma tosca cabana, mas no coração do próprio ser humano.

Notas



[1] CARREIRO, Marcelo. Contemporizando Cristo: Um estudo histórico e Documental do Cristianismo Primitivo. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 1999.  Capítulo V: Fontes Históricas.  Pág. 62 – 78.
[2] Idem.
[3] MACEDO, José Rivair. Religiosidade e Messianismo na Idade Média. São Paulo: Moderna, 2006. Pág. 12-13.
[4] Idem. Pág. 13.
[5] RENAN, Ernest. Vida de Jesus. São Paulo: Martin Claret, 2003. Capítulo 2, Pág. 99-100. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

BASES DA "FÉ CEGA"


Jerri Almeida

A fé abraâmica definiu profundamente o arcabouço teológico e psicológico das relações entre os homens e o “sagrado”. A rigor, devemos lembrar que Abraão é visto como uma figura importante para as três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, isto porque ele representa uma espécie de “encruzilhada” entre os vários povos. Paulo, por sua vez, argumentará que Abraão foi o “pai da fé”. (Romanos 4: v.16-19  e Gálatas 3: v.7)
 O contato entre Abraão e Javé (Yahveh), na alegoria bíblica, traduz uma relação, certamente, fundadora da fé baseada em quatros pilares fundamentais que constituíram grande influência na tradição do pensamento religioso, permanecendo até hoje: “revelação”, “temor” (Gn 22: 11-12), “submissão” e “fidelidade”. Essa lógica ensejou no Ocidente, principalmente durante o Medievo, a configuração de uma teologia do medo, aspecto que analisaremos oportunamente.
A revelação de um deus que se desvela muito parcialmente a um “escolhido” (Abraão), torna-o emissário de suas promessas (uma grande descendência e a terra de Canaã) e, por isso mesmo, propõe-lhe uma “aliança” ou uma relação de fidelidade. (LAMBERT, 2011 p. 371) Essa “fidelidade” estava baseada numa lógica de submissão e confiança ao poder divino. O contexto javista é, portanto, o da aliança estabelecida com Abraão. Inicia-se uma monolatria (fidelidade a deus) onde o patriarca hebreu apesar de não compreender certas determinações divinas, o exemplo mais claro é o sacrifício de Isaac, se preocupa em obedecê-las com total submissão.
Para Guy Lafon, analisando o fato abraâmico, a fé é a posse antecipada do que se espera, ou um meio de demonstrar certas realidades que não estão assim tão claras ou evidentes. Em suas palavras: “foi pela fé que Abraão, respondendo ao chamado, obedeceu e partiu para uma terra que devia receber como herança, e partiu sem saber para onde iria.” (LAFON, 1998 p. 60) Está presente nessa narrativa, portanto, uma “fé cega” depositada na promessa divina.  Submisso a essa “promessa”, sem nada mais precisar fazer além de crer, Abraão esperava os benefícios divinos.
Num segundo momento, no livro de Isaías (capítulos 40 a 56) podemos identificar a origem de um monoteísmo radical e de uma escatologia. Conhecido pelo nome de “Dêutero-Isaías” ou “segundo Isaías”, temos a introdução do monoteísmo javistico: “Eu sou o primeiro e o último, fora de mim não há deus.” (Isaías 44:6-45:18-22) E ainda: “Sim, sou deus e não há quem seja igual a mim.” (Isaías 46:9) Em relação ao pensamento escatológico, o texto assinala: “Voltai-vos para mim e sereis salvos, todos os confins da Terra, porque eu sou deus e não há nenhum outro.” (Isaías 45:22-56:1-7) A origem de um único deus e, pela sua onipotência, “salvador”, ensejaria uma mentalidade, por um lado, associada a um profetismo escatológico, e por outro, a um estímulo ao medo, como se percebe em Ageu (2:6), quando anuncia que Javé “abalará o Céu e a Terra, o mar e o continente.”
A narrativa bíblica possui uma racionalidade própria, com grande poder de representação. O problema, todavia, é quando esses elementos imagéticos, apropriados por certos grupos e povos, tornam-se verdades fechadas, vistas pelo viés da “letra”. Na medida em que a cultura escrita se proliferava, as tradições orais vão sendo apropriadas pela cultura do livro e, a “letra”, passa a ser um instrumento do “sagrado”: a “palavra de deus está escrita.”
A fé, com o tempo, assume um papel relevante nas estruturas religiosas institucionalizadas. A rigor, a “dúvida” deve ser anulada, pois se torna um instrumento desestabilizador, capaz de fomentar uma ruptura com a submissão ao sagrado. Saindo das tradições mitológicas hebraicas, e tocando rapidamente no pensamento filosófico, vamos identificar que a fé, quando mais elaborada é constituída a partir de um elemento inicial, que é a dúvida. A confiança, quando respaldada numa crença justificada pela razão, demonstra a superação relativa da própria dúvida. Assunto que trataremos com mais profundidade na segunda parte desse trabalho.


Referências Bibliográficas

BIBLIA SAGRADA Trad. João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa bíblica brasileira, 1972.

ELIADE, Mircea. História das Crenças e da Ideias Religiosas. Vol.1, Trad. Roberto Cortez de Lacerda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2010.

LAFON, Guy. Abraão: a invenção da fé. Trad. Laureano Pelegrin. Baurú, São Paulo: EDUSC, 1998.

LAMBERT, Yves. O Nascimento das Religiões. Da pré-história às religiões universalistas. Trad. Mariana P. S. da Cunha. São Paulo: Loyola, 2011.

LEÃO, Emmanuel Carneiro. A filosofia grega hoje. In: Caderno de Letras. Faculdade de Letras, Departamento de Letras Anglo-Germânicas, UFRJ, 18, 2002, p. 23.

PINTO, Porfírio. Nas Pegadas de Abraão. Disponível em:http://religare.blogs.sapo.pt/76658.html
Religião, Sociedade e Cultura. Blog dos Docentes e Investigadores da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

PERDAS


Jerri Almeida

A emoção de sofrimento, por ocasião de uma perda, representa um estado natural da condição humana. Convém lembrar, entretanto, que tal estado emocional terá uma permanência breve ou demasiada conforme o significado que atribuímos  ao sentido da própria vida, e ao nível de afeto construído com a pessoa que morre. Naturalmente, quem nutre uma visão religiosa, por certo, encontrará mais reforço íntimo para compreender que a vida é feita de experiências e que, delas,  fazem parte as perdas e as posses. Com isso não queremos considerar que a religião removerá os sofrimentos das perdas, mas que contribuirá para que essa dor não nos paralisem demasiadamente num estado mental negativista e desolador.
Refletir, de forma saudável, sobre a possibilidade das perdas e da transitoriedade da existência física, já é uma medida interessante de adequação do nosso mundo emocional às vicissitudes e agruras do cotidiano. Uma doença grave, um acidente fatal ou qualquer outro fato que possamos imaginar, perturbador para a vida, nossa ou de alguém com quem convivemos, muitas vezes geram tal gama de sofrimentos que o indivíduo, fragilizado interiormente, mergulha num vazio existencial, desnorteado...
Foi muito comum no século XIX o “luto histérico”, onde os parentes resistiam em aceitar a morte do outro, entregando-se à rebeldia e a revolta contra Deus em verdadeiras manifestações de histeria coletiva. É o sofrimento que gera sofrimento. Para evitar-se um sofrimento maior, naqueles momentos em que o “mundo parece desabar sobre nós”, o papel da prece, certamente, terá uma função fundamental:  fortalecer o nossa vida interior, que é o espaço da coragem, da confiança, do equilíbrio... Entretanto, não podemos esquecer que há coisas que somente o tempo poderá realizar pois, perder dói e não há como não sofrer.
O desafio será evitar que o sofrimento conduza ao desequilíbrio emocional, pois, nesse caso, suas derivações tenderão a desestruturar a vida afetiva, familiar, profissional, biológica... Administrar tal sentimento é imperiosa tarefa de todos nós. Vivenciar somente a dor que a perda causou sem movimentar recursos para o processo de readaptação, é insistir no sofrimento. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O HOMEM E A MORTE


Jerri Almeida

Ao longo de seu processo histórico o homem passou a significar, em diversas manifestações socioculturais, o seu relacionamento com a morte. A ideia de sua finitude biológica levou-o, com maior ou menor consciência, a estabelecer – desde tempos remotos – significados a esse acontecimento inexorável.  A necessidade do ser humano compreender a morte ensejou a criação de mitos, rituais funerários, modelos teóricos explicativos de sua temporalidade biológica, etc.  Da mesma intensidade com que procurou compreendê-la, o homem vem lutando contra ela. O medo do desconhecido gera insegurança, devido ao instinto de conservação. Da insegurança ou esperança, do confronto com essa realidade, nasceram  religiões e filosofias que estimularam o homem à reflexão sobre si mesmo.
Refletir sobre os significados atribuídos à morte nos ajuda a compreendê-la como experiência importante para o gênero humano. Analisando ampla bibliografia sobre o assunto, pretendemos descrever, resumidamente nesse artigo, algumas formas de relacionamento  do homem com a morte, do ponto de vista histórico, sem perder, no entanto, nossa tese central: evidenciar a morte como parceira da vida. Os significados atribuídos a morte, pelo angulo da transcendência,  nos levam a compreende-la dentro do próprio inconsciente coletivo, uma vez que o homem é um ser pluriexistencial que já vivenciou múltiplas experiências do nascer e do morrer.

Primeiros significados

A prática de enterrar os mortos, segundo Edgar Morin, conforme conhecemos, começou com o Homem de Neandertal. Não raro, encontrava-se o morto em posição fetal, o que sugere uma crença no seu renascimento. Adotou-se, também, a prática de abrir cavidade nas rochas, onde os corpos eram colocados de cócoras e coberto de pedras.  Junto ao corpo eram depositado seus objetos pessoais e alimentos. Segundo Chiavenato  pesquisadores do Museu do Homem de Paris, teriam descoberto em uma sepultura de 60 mil anos, referente ao homem de Shanidar, grãos de pólen espalhados ao redor dos fósseis. Diante de tal descoberta, concluiu-se sobre a importância dos rituais mortuários nesses grupamentos tribais.
Mais tarde, já com o Homem de Cro-Magnon, encontrou-se corpos esticados na posição horizontal de costas para baixo, ou em posição fetal.  No Mesolítico, época dos últimos caçadores e coletores, as sepulturas passam a ser ovais e pouco profundas, sendo mais comuns as sepulturas coletivas, onde identificou-se, também, indícios de oferendas ou rituais funerários. Quais os significados que esses homens ancestrais teriam dado à morte?  Difícil afirmar.  Todavia, surge a necessidade de cultuar os mortos e, ao mesmo tempo,  salvaguardar os vivos. Isso ocorre através de rituais que visavam agradar os deuses, na esperança de proteção. O sentimento religioso surge, portanto, associado a ideia do temor. E o temor será a base dos estímulos religiosos para a conduta humana nas diversas sociedades, principalmente, Antiga e Medieval.
A civilização do Nilo, por sua vez, atribuía à morte uma dimensão metafísica. Em O Livro dos Mortos, provavelmente com origem na V Dinastia (2.345 a.C.) os egípcios buscavam indicações sobre a passagem do morto pelas diversas etapas em sua jornada pós-morte.  Os rituais mortuários no antigo Egito,  tipificavam  a morte como uma continuação da vida. Daí a necessidade da preservação do corpo (privilégio, normalmente, da nobreza) para  que o espírito a ele retornasse,  após sua jornada pelo mundo dos mortos. Atribuiu-se tal importância à morte que quarenta e cinco séculos antes de Cristo, na mitologia egípcia, Anúbis ou  Anpu, era o deus da morte, presidindo o embalsamamento e o sepultamento. Acreditava-se que o corpo devia ser conservado para permitir a sobrevivência do duplo (Ka), uma espécie de matéria vaporosa e colorida que adotava a forma do corpo e do espírito. O espírito ou alma (Ba), por sua vez, era representado por uma chama ou um pássaro que voaria na direção da luz ou acompanharia o seu sepultamento.
Bem se percebe que a ideia da imortalidade da alma, do períspirito  e da  reencarnação, fazia parte da cultura religiosa, não só dos egípcios, mas de grande parte dos povos da Antiguidade. Nesse sentido, a morte personificava, no Egito, não somente a imortalidade da alma, mas, também, a “imortalidade do corpo”. A morte não era vista como “fim”, mas como um processo, imanente e transcendente  à existência corporal.  Entretanto, o destino da alma estava subordinado ao comportamento do morto, enquanto vivo.

O nascimento da morte

Segundo Long, a inevitabilidade da morte na mitologia hindu, pode ser bem compreendida em uma interessante narrativa do Mahabharata, onde um sábio tenta amenizar o sofrimento de alguém que acabou de perder uma pessoa querida, contando-lhe uma fábula sobre a origem da morte.  Segundo a história, Brahmã criou tantos seres que a Terra começou a ficar cheia a ponto de não haver mais lugar para respirar. Nessa época a morte não existia.  Nasciam multidões de criaturas mas ninguém morria. Como resultado, a Mãe Terra começou a sentir-se tão sobrecarregada com o excessivo número de pessoas que suplicou que Brahmã lhe aliviasse a “carga”. Ele conteve um pouco de sua energia criadora a fim de prover tanto a criação quanto a destruição. Com isso, Brahmã dá origem a uma mulher em túnica escarlate, olhos de intensa luz vermelha, a quem denomina “morte”. Sua missão seria a de “retirar” da Terra, a seu devido tempo, todos os seres humanos. Todavia, a morte negou-se a tal tarefa, receando, naturalmente, a ira dos parentes diante da ausência de seus afetos.  A morte afastou-se então da Terra, para levar uma vida ascética. Entretanto, Brahmã voltou a persuadi-la para que executasse seu dever. Finalmente, transformou as lágrimas de sofrimento da morte em moléstias, instrumentos para remover os seres da Terra.
A história é finalizada com um ensino moral: “Sabendo que a morte chega para todos, a pessoa não deveria sofrer. Pois tal como os cinco sentidos desaparecem quando a pessoa dorme profundamente, e depois voltam à vida quando a pessoa acorda, assim também, de modo semelhante, as criaturas que morrem vão deste mundo para outro, e depois voltam para aqui novamente, no seu devido tempo.”
Ora, o criador não poderia destruir sua própria criação! Encontrou meios de evitar uma super população na Terra, não destruindo, mas  “removendo” para outros planos da vida, as criaturas humanas. A morte, nessa fábula, representa o princípio do equilíbrio, sem o qual a vida humana na Terra seria asfixiada. É uma benção, não uma desgraça. Para alguns historiadores, entretanto, o temor da morte seria gerado pelo desenvolvimento das idéias religiosas. Os ensinos de um castigo a pós a morte para aqueles que não agiram nessa vida de forma adequada fomentaria, em diversas culturas, o medo da morte pelo que se enfrentaria depois: dores infernais, castigos eternos....

Romantismo e Realismo 

O século XIX, segundo Ariès, havia, na Europa, uma certa visão romântica da morte. Entretanto, essa relação com o imaginário sobre a morte passou, em seguida, para o plano dos fatos cientificamente analisados. Deve-se a Allan Kardec uma visão nova da morte no Ocidente. Sob suas incursões investigativas, desvelou-se uma nova atitude do homem diante da morte. Sem analisá-la de forma simplista ou misteriosa, Kardec no-la apresenta como um mecanismo da vida, ensejando ao espírito encarnado o seu natural retorno à pátria de origem.
Parece-nos que o termo “realismo” define bem o significado espírita da morte. Esse realismo espiritual, pouco a pouco, se afirma como princípio universal, onde todas significações religiosas e filosóficas convergiram num admirável sincronismo onde a morte, passará, definitivamente,  a responder pela continuidade da vida, ensejando ao homem bases mais seguras para suas vivências e experiências na Terra.

NOTAS


MORIN, Edgar. O Enigma do Homem. São Paulo, Circulo do Livro. 1973. 3ª Parte, Cap. 1, Página 107
CHIAVENATO, Júlio José. A morte: uma abordagem sociocultural. São Paulo, Moderna, 1998. Página 13
JULIEN, Nadia. Minidicionário Compacto de Mitologia. 1ª ed. São Paulo, Rideel, 2002. Páginas 38, 259, 260.
LONG, J. Bruce. Phd. A Morte que termina com a morte no Hinduísmo e no Budismo. In. Morte Estágio Final da Evolução. Elisabeth K. Ross. Nova Era.
ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Tradução: Priscila Viana. Rio de Janeiro, Ediouro, 2003. 

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