quinta-feira, 26 de julho de 2012

O CASO ILDEU E MARCELA


No livro Ação e Reação, psicografado por Francisco Cândido Xavier, o espírito André Luiz narra o caso de Ildeu e Marcela. Ele era o esposo problemático, de temperamento agressivo, facilmente seduzido pelo álcool e por outras mulheres. Marcela era esposa dedicada. O casal tinha três filhos: Roberto, Sonia e Marcia. Não raras vezes, Ildeu chegava de madrugada em sua casa, alcoolizado e exibindo sinais de aventuras sexuais. Mara, uma jovem mulher que tornara-se sua amante, não lhe saía da cabeça como sendo a mulher ideal.  No outro dia tornava-se agressivo e grosseiro com sua esposa, nutrindo especial antipatia de seu filho Roberto. Com suas filhas era, no entanto, cheio de cuidados e carinhos.
Com o tempo, a situação do lar tornava-se cada vez mais complexa. Ildeu mostrava-se ainda mais irritadiço. Fascinado pela amante, passou a odiar terrivelmente sua esposa. Não amava a Roberto, o filho pequeno que o olhar o acusava sem palavras. Mas não imaginava afastar-se de suas duas filhas. Em caso de separação, certamente elas ficariam com a esposa. Foi assim que lhe surgiu na mente a ideia de assassinar Marcela. Passou a articular um plano, para que a morte da esposa fosse vista, aos olhos do mundo, como um suicídio. O filho se livraria depois. Para isso, alteraria o comportamento doméstico, especialmente com a esposa. Tornou-se mais brando, afastou-se, temporariamente do álcool, e assumiu a máscara do esposo atencioso e gentil.
Ildeu armava mentalmente o quadro criminoso. Certa noite, quando a família já estava dormindo, entrou sorrateiramente em casa com um revólver em punho. Ao chegar em seu quarto, encontrou Marcela dormindo. Diante dos quadros de oração e da conduta ilibada de Marcela, os orientadores espirituais, percebendo o fato, alertaram uma das filhas do casal que encontrava-se desdobrada espiritualmente para que retornasse ao corpo. A pequena Márcia, experimentando o terrível quadro que se configurava, volta ao corpo como quem voltasse de um grave pesadelo. Gritava para que o pai não matasse sua mãe.
Diante do alvoroço geral, Marcela acorda e percebe Ildeu com a arma na mão. A mulher incapaz de suspeitar da verdadeira intenção do marido deduz que ele está disposto a se suicidar. Ela lhe implora que não cometa tão desatinado ato, esclarecendo que sabe que ele não é feliz naquele lar e que se for de sua vontade ela lhe daria o direito de separar-se, de viver definitivamente com sua amante. Ildeu aproveita o mal-entendido da esposa para evadir-se do lar, cedendo ao princípio do prazer.
Os orientadores esclarecem a André Luiz que em outra encarnação Ildeu também era esposo de Marcela. Abandonou-a para aliciar duas jovens, com quem passou a viver. Marcela casou novamente e vivia feliz. Mas, após muitos anos, doente pela instalação de um câncer, o antigo marido retorna ao lar e percebendo sua ex-esposa casada, termina por assassinar seu marido. Na seguinte reencarnação, retornam novamente na expectativa de que Ildeu eduque sua sensibilidade e repare seus equívocos. Marcela aceita ser novamente sua esposa, o filho a quem ele não gostava era o antigo marido da esposa a quem ele assassinou, as filhas com quem tinha afinidade maior eram as jovens que foram aliciadas por ele no passado.  Ildeu continuou cometendo os mesmos erros do passado.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

PREDISPOSIÇÃO INSTINTIVA

Jerri Almeida

A natureza dotou a criatura humana, com amplas capacidades e instrumentais necessários ao seu desenvolvimento ao longo de sua longa jornada de evolução antropológica-espiritual. A evolução da estrutura cerebral é exemplo disso. Conforme aponta o cientista Eugênio Mussak, a primeira parte do cérebro, a mais antiga formada a cerca de 350 milhões de anos, é constituída pelo hipotálamo e pelos núcleos de base, é o denominado “cérebro reptiliano”. Ele seria responsável, entre outras coisas, pelo nosso comportamento instintivo, vinculado à necessidade de preservação da vida. Assim, numa situação de perigo real ou imaginário, o indivíduo assume comportamentos instintivos, muitas vezes também agressivos, no intuito de se auto-preservar. Imaginem dois indivíduos numa ilha isolada com imensa restrição de alimentos? Haveria espaço para uma divisão “civilizada” do alimento? Talvez houvesse até o momento limite da sobrevivência para ambos. Nesse momento crítico, as pessoas não conseguiriam mais raciocinar adequadamente, assumindo posturas maquinais, instintivas e agressivas na defesa de sua preservação.
Ocorre que com a evolução morfológica e fisiológica do cérebro, surge outra parte, “mais nova”, (algo em torno de 10 milhões de anos atrás) responsável no ser humano, pelas emoções e sentimentos: o sistema límbico. Há muitas mulheres que vivem sob o domínio das emoções. Deixam-se dominar por seus companheiros e, quando ocorre uma ruptura nesse relacionamento, não conseguem mais fazer nada. Deprimem-se, a vida perde o sentido, não se alimentam adequadamente, afastam-se dos amigos e da família. Quando se apaixonam, independente do caráter ou temperamento do outro, ficam fascinadas. Não desejam perceber o outro como ele realmente é, mas conforme aquela matriz idealizada por elas.
 A parte mais nova do cérebro, com apenas 50 mil anos, o neocórtex (também chamado de massa cinzenta), seria o responsável pela função do pensamento. Logo, a parte instintiva é a mais antiga no ser humano, seguida pelas emoções. Pode-se dizer, sem nenhum demérito para ninguém, que possuímos um “animal” dentro de nós.
Mas também, como já mencionamos, existem pessoas que se deixam governar pelas emoções. O sistema límbico está fortemente vinculado ao princípio do prazer e para a fuga do desprazer. Nesse ponto, devemos articular também o princípio da paixão. A paixão é uma emoção forte, arrebatadora que compromete o discernimento. As paixões, portanto, estão muito vinculadas a temas como: sexo, dinheiro, fama, jogo, poder e beleza.
A própria ideia de “justiça” muitas vezes, termina sendo cooptada ou corrompida pela paixão, conforme esclarecem os espíritos para Allan Kardec na questão 874 de O Livro dos Espíritos:  “É porque a esse sentimento [de justiça] se misturam paixões que o alteram, como sucede à maior parte dos outros sentimentos naturais, fazendo que os homens vejam as coisas por um prisma falso.” Ou seja, quando a paixão domina no homem, ele acaba elaborando sua própria, e muitas vezes errada, noção de justiça. A capacidade de pensar e raciocinar, como aludimos, é algo muito recente para a espécie humana. O pensamento, do ponto de vista da evolução cerebral, foi a última estrutura que apareceu. Por isso, em termos de nossa evolução planetária, grande parte das pessoas são muito instintivas (com boa dose de agressividade) e também bastante emocionais (com forte apelo das paixões).
A mistura entre “instinto” e “paixão” é um componente extremamente perigoso. Isso abre espaço para relacionamentos precipitados, já com “data de validade” vencida. Pessoas assim terminam criando relacionamentos desastrosos, permeados de emoções em desequilíbrio. O princípio da paixão não é originariamente mal. O problema, alerta a questão 907, de O Livro dos Espíritos, reside no “excesso” ou o “abuso” que delas fazem os homens. Ocorre que quando o indivíduo deixa-se dominar pelos instintos e pelas paixões, volta a bestialidade da fera. Nesse sentido, o grande desafio da evolução, é permitir ao pensamento uma ascendência sobre essa estrutura ancestral, empenhando esforços na educação de seus impulsos, emoções e sentimentos. Para isso, no entanto, é necessário que o sujeito já tenha atingido certo nível de maturidade interior que lhe permita essa disposição. A rigor, vamos observar a pergunta de Kardec para os benfeitores, e a resposta bastante clara, da questão 845 de O Livro dos Espíritos:

Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as predisposições instintivas que o homem traz consigo ao nascer?
“As predisposições instintivas são as do Espírito antes de encarnar. Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-lo à prática de atos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos que querer é poder.”  


domingo, 1 de julho de 2012

Apreciando Léon Denis


“O Espiritismo baseia-se num completo conjunto de fatos: uns simplesmente físicos nos têm revelado a existência e o modo de ação de forças há muito tempo desconhecidas; outros têm um caráter inteligente. São eles: a escrita direta ou automática, a tiptologia, os discursos pronunciados em transe ou por incorporação. Todas essas manifestações, já as passamos em revista e já as analisamos em outras publicações. Vimos que elas são frequentemente acompanhadas de sinais, de provas que estabelecem a identidade e a intervenção das almas humanas que viveram na Terra e que foram libertadas pela morte. Foi por meio desses fenômenos que os espíritos espalharam seus ensinamentos no mundo, e esses ensinamentos foram, como veremos, confirmados experimentalmente em muitos lugares.
O Espiritismo se dirige, portanto, ao mesmo tempo aos sentidos e à inteligência. Experimental, quando estuda os fenômenos que lhe servem de base; racional, quando verifica os ensinamentos que deles derivam. Constitui um instrumento poderoso para a busca da verdade, uma vez que pode servir simultaneamente em todos os domínios do conhecimento.
As revelações dos espíritos, dizíamos, são confirmadas pela experiência. Sob o nome de fluidos, os espíritos nos têm ensinado teoricamente e demonstrado na prática, desde 1850, a existência das forças incalculáveis que a ciência rejeitava a priori. Sir W. Crookes, entre os sábios que tinham grande autoridade, foi o primeiro que constatou depois a realidade dessas forças, e a ciência atual reconhece nelas, a cada dia, a importância e a variedade, graças às descobertas célebres de Roentgen, Hertz, Becquerel, Curie, G. Le Bon, etc.
Os espíritos afirmavam e demonstravam a ação possível da alma sobre a alma, em todas as distâncias, sem o auxílio dos órgãos, e essa ordem de fatos gerou oposição e incredulidade. Acontece que os fenômenos da telepatia, da sugestão mental, da transmissão dos pensamentos, observados e provocados hoje em todos os meios, vieram, aos milhares, confirmar essas revelações. Os espíritos ensinavam a preexistência, a sobrevivência,  as vidas sucessivas da alma. E eis que as experiências de F. Colavida, E. Marata, as do coronel De Rochas, as minhas, etc. estabeleceram que não apenas as lembranças dos menores detalhes da vida atual até a mais tenra infância e mais ainda as das vidas anteriores estão gravadas nas profundezas da consciência. Um passado inteiro, ocultado no estado de vigília, reaparece, revive no estado de transe. De fato, essas lembranças puderam ser reconstituídas num certo número de pacientes adormecidos, como mais tarde o estabeleceremos, quando abordarmos mais especificamente essa questão.
Vê-se que o Espiritismo não poderá, a exemplo das antigas doutrinas espiritualistas, ser considerado um puro conceito metafísico. Ele se apresenta com um caráter muito diverso e responde às exigências de uma geração educada na escola do criticismo e do racionalismo, que se tornou desconfiada dos exageros de um misticismo mórbido e agonizante. Hoje, já não basta crer; quer-se saber. Nenhuma concepção filosófica ou moral tem a chance de ter sucesso se não se apoiar sobre uma demonstração ao mesmo tempo lógica, matemática e positiva e se, além disso, não a coroar uma sanção que satisfaça a todos os nossos instintos de justiça. Pode-se observar que essas condições foram perfeitamente preenchidas por Allan Kardec na magistral exposição feita por ele em O Livro dos Espíritos.” (Páginas 27 a 29)

 Fonte:
DENIS, Léon, 1846 - 1927. O problema do ser: 1ª parte / Léon Denis; [tradução Renata Barboza da Silva, Simone T. Nakamura Bele da Silva]. – São Paulo : Petit, 2000. – (Coleção o problema do ser, do destino e da dor)

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