segunda-feira, 3 de maio de 2010

O AMOR REABILITADO

Os gregos possuíam várias palavras para se referirem ao amor. Essas várias denominações, na verdade, definem aquilo que podemos chamar de “tipos de amor”. Essa tipologia do amor representa, por sua vez, os estágios da evolução dos sentimentos humanos de uma ordem “material-instintiva” para a “espiritual-evangélica”.
Considerado o deus grego do amor, Eros era tido como uma das forças primordiais da natureza, filho de Zeus, Ares ou Hermes e tendo como mãe Afrodite, ele era representado como menino alado, munido de um arco e flechas destinadas a instigar os ardores da paixão e da sensualidade. Portanto,. Eros significava o amor vinculado à atração e ao desejo sexual. Os romanos, ao absorverem com suas conquistas a cultura grega, identificaram Eros como Cupido filho de Vênus.
Sendo uma força primordial da vida, Eros torna-se um problema quando, no dizer de Joanna de Ângelis: “... toma conta dos sentidos e responde pelas paixões desenfreadas, pelos conflitos da insatisfação, que levam ao crime, (...), ao desespero.” Nesse caso, estamos diante de situações do tipo: “Fulano matou por amor.” São os tantos crimes entre casais movidos pelas paixões, pela mente em desequilíbrio e pela sexualidade alucinada e “envenenada” pelo ciúme. Nesse caso, assim como em outros, estamos diante de uma combinação “explosiva”, cujos resultados terminam por gerar infelicidade e sofrimento, ao invés de felicidade e paz.
Para os gregos, a palavra “Storgé” vinculava-se à “afeição”, especialmente no âmbito das relações familiares. É o amor de pai, de mãe, de filhos, fundado nos laços de consangüinidade ou mesmo nas relações familiares não necessariamente, biológicas. Assim, a condição familiar enseja sentimentos gregários, fruto dos vínculos afetivos. No casal, o amor Eros vincula-se, agora, ao amor Storgé, ampliando a dimensão do amor.
O casamento, portanto, possui uma finalidade que transcende à satisfação biológica, sexual, embora essa ser parte integrante e importante do casamento. Referimos-nos ao desenvolvimento das emoções que visam consolidar os vínculos afetivos, do companheirismo e da realização entre os seres humanos. Todavia, é natural considerarmos que as relações conjugais e familiares enfrentam os seus revezes, seus desafios de convivência. Isso, evidentemente, faz parte do processo de crescimento e amadurecimento emocional e psicológico do espírito humano, o que não invalida que mesmo as experiências conflitivas possam ser enfrentadas, servindo para fortalecer os vínculos do amor familiar.
O termo philos referia-se ao sentimento de amor vinculado a amizade (daí vem a palavra: filosofia ou “amor à sabedoria”). O amor Philos nas relações cotidianas é o amor, muitas vezes condicional, limitado por um sentimento egocêntrico: “eu só ajudo quem me ajuda”. É o amor que ainda não compreendeu aquela velha frase do “fazer o bem sem olhar a quem”. Logo, Philos é o bem que impõe condições para poder ser útil, é aquela pessoa que diz: “Eu ajudo! Mas tem que ser do meu jeito.” Rizzini anotou também que o termo se relaciona com a “amizade”, o que faz com que o amor Philos transcenda, mesmo dentro de seus limites, em relação ao amor do núcleo familiar, consangüíneo. .
A palavra Ágape é alusiva ao amor evangélico, manifestado na ceia dos cristãos primitivos, sinônimo, também, de “comunhão fraternal”. Ágape aparece em Mateus, cap. 22, vv.34 a 40, e Coríntios, cap. 13, e define uma série de qualificativos necessários ao crescimento moral da humanidade. Dentre esses vários qualificativos encontram-se: a paciência, a humildade, a generosidade, a tolerância, a bondade. Tais sentimentos, ensinados e vividos por Jesus, representam um apelo da vida para que a humanidade possa experimentar os benefícios da própria vida.
Sem amor, de que valeriam todas as conquistas intelectuais e tecnológicas? Já temos exemplos suficientes na história para afirmar que o desenvolvimento da inteligência, sem o aperfeiçoamento do amor, termina gerando verdadeiras catástrofes. Não é por acaso que o amor, enquanto sentimento profundo fez parte de todos os ensinos do Ocidente e do Oriente, em todas as épocas da humanidade. Não se trata, portanto, de um mero princípio religioso, mas de um sentimento ontológico capaz de elevar a vida humana a um novo nível de realização planetária.


rEFERÊNCIA bIBLIOGRÁFIA

ALMEIDA, Jerri Roberto S. O DESAFIO DA FELICIDADE - Em um mundo em transformação. Porto Alegre: Francisco Spinelli, 2007.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O INÍCIO DO ESPIRITISMO NO BRASIL - BREVES APONTAMENTOS

O contexto sociocultural e mental da França, pós-revolucionária, vivia o irreconciliável dilema entre o cientificismo irredutível e o pensamento religioso, já devidamente desgastado em seu discurso ético. A Europa via-se diante do emergente processo de industrialização, iniciada na Inglaterra no final do século XVIII, definindo novos ritmos sociais, ao lado das teorias evolucionistas (darwinismo, marxismo, positivismo..) que permearam o pensamento filosófico e científico do século XIX. Havia uma “certeza”, quase ingênua, de que a técnica aliada à ciência, elevasse a humanidade para um novo patamar de plenitude.
Surgindo no século XIX, na França, e convivendo com esse quadro sociocultural, o Espiritismo, por um lado, alinha-se levemente com as teorias evolucionistas e racionalistas de sua época, mas afasta-se delas, na medida em que traz novos elementos de análise e estudo, dilatando as fronteiras do pensamento organicista vigente. O Espiritismo formulando uma teoria evolucionista bastante plausível, sem abandonar totalmente os recursos metodológicos vigentes nas academias, foi conquistando cada vez mais espaço no solo francês e europeu.
Durante um discurso que lhe foi oferecido em Lyon, Allan Kardec afirma: “O Espiritismo propagou-se primeiro nas classes esclarecidas, para lhe dar mais crédito; depois, para que fosse elaborado e expurgado das idéias supersticiosas que a falta de instrução nele poderia introduzir.”
Apesar de contar com os ataques naturais, as críticas corrosivas de diversos setores, a Doutrina Espírita ganhou outros países da Europa, cruzando o oceano com extrema rapidez. No Brasil, as primeiras traduções das Obras de Kardec remontam ao período final do século XIX, primeiro pelo jornalista baiano Luiz Olimpio Telles de Menezes, já na década de 1860, e pelo médico Joaquim Carlos Travassos, por volta de 1875.. Conforme anunciara Kardec, as idéias espíritas articulavam-se, também no Brasil, entre a classe social mais erudita. No entanto, intelectuais como Castro Alves, em 1865, conforme anotou Machado, escrevendo para o folhetim o Diário do Rio de Janeiro, após indagar se o leitor acreditava na nova doutrina, afirmara sua posição em contrário a “essas superstições.”
Com a instalação da República em 1889, muito embora o princípio constitucional da liberdade religiosa e do Estado laico, o meio médico que via na mediunidade uma espécie de transtorno mental do médium, pressionou o governo para uma cruzada contra essas práticas. Com isso, o Código Penal de 1890, em seu artigo 157, qualificava como “delito” as práticas dos “médiuns receitistas.” Além disso, ainda no final do século XIX lia-se notícias do tipo:

"Não foi sem razão que no dia 19 de janeiro deste anno encetamos accerrima campanha sobre esta seita religiosa, que se encobre cynicamente sob o apparatoso nome de SPIRITAS. Seita que acarreta comsigo um grande numero de responsabilidade, visto a correntesa que toma, dia para dia; a onda cresce, se avoluma, arrebenta, vomitando do seio pejado de sombras um sem numero de victimas inconscientes." (A Gazetinha, 6/2/1896, p. 1)

Como se isso não bastasse, nas primeiras décadas do século XX, médicos formados na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, não tinham dúvidas na associação entre Espiritismo e loucura, uma verdadeira questão de “saúde pública”. Em sua tese de doutorado em psiquiatria, defendida naquela faculdade em 1929, João Coelho Marques escreveu:

"O combate ao espiritismo deve ser igualado ao que se faz à sífilis, ao alcoolismo, aos entorpecentes (ópio, cocanina...), à tuberculose, à lepra, às verminoses, enfim, a todos os males que contribuem para o aniquilamento das energias vitais, físicas e psíquicas de nosso povo, da nossa raça em formação."

Alguns psiquiatras chegaram a divulgar estatísticas, evidentemente sem cunho científico, apontando o Espiritismo como uma das principais causas de “distúrbios mentais” no país. Obviamente que com a estruturação do Movimento Espírita no Brasil, principalmente a partir de 1884 com a fundação da Federação Espírita Brasileira, e o processo de Unificação daí decorrente, tais ataques passaram a receber o devido esclarecimento da opinião pública. O próprio Bezerra de Menezes ocupava coluna, escrevendo no famoso jornal “O Paiz”, do Rio de Janeiro. Seu esforço por esclarecer os argumentos que buscavam associar o Espiritismo com a loucura, lhe motivou a escrever, no final do século XIX, seu livro “A loucura sob novo prisma”, onde defende a tese da interferência, também em certos casos de loucura, de agentes espirituais com influência obsessiva sobre o encarnado.
Mas o Espiritismo, apesar de todos os esforços dos espíritas da época, ainda não havia se consolidado. Tratado como doutrina de loucos por uns, associado a uma “seita”, por outros, sua consolidação só veio com a figura paradigmática de Francisco C. Xavier, no século XX. Para o antropólogo Bernardo Lewgoy, Chico foi o grande mediador entre o Espiritismo e a cultura brasileira.

Bibliografia

KARDEC, Allan. Viagem Espírita de 1862 e outras viagens de Kardec, p. 191.
MACHADO, Ubiratan. Os Intelectuais e o Espiritismo. Niterói: Lachátre, 1996. P. 63.
MIGUEL, Sinuê Neckte. Espiritismo fin de siècle: a inserção do Espiritismo no Rio Grande do Sul (1896-1898). In. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano II, n. 4, Mai. 2009 –
Disponível em: http://www.dhi.uem.br/gtreligiao - Artigos
ISAIA, Artur Cesar. Loucura Coletiva? In. Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, junho de 2008. P. 20-25.

domingo, 18 de abril de 2010

A FALÁCIA DO DIA "19 DE ABRIL"

Datas comemorativas representam, via de regra, acontecimentos que nem sempre encontram motivos reais e históricos que as justifiquem. O “dia do índio” se ajusta bem nesse argumento. O dia 19 de abril passou a ser comemorado no Brasil em 1944, através de uma determinação de Getúlio Vargas, já no final do Estado Novo. De lá para cá, renovam-se as manifestações bucólicas, principalmente nas escolas, onde as crianças tradicionalmente recebem o desenho de um “indiozinho” cheio de penas na cabeça e na cintura para pintar. Idilicamente, construíu-se um índio mitológico, por vezes, distante do personagem real, extirpado de sua cultura original, violentado pelo branco que, num ímpeto belicoso, toma suas terras e sua alma.
Calcula-se que na época em que a frota cabralina realizou o “achamento” (termo usado por Pero Vaz de Caminha) do Brasil, aqui existia uma população indígena que variava entre 1 a 5 milhões . De lá para cá, o decréscimo estatístico representou um verdadeiro genocídio. Em 1957, o etnólogo Darcy Ribeiro, em seus estudos calculava, na segunda metade do século XX, uma população indígena entre 70 mil a 100 mil indivíduos. Na prática, se colocássemos toda a população indígena existente no Brasil, atualmente, no estádio do Maracanã, que possui capacidade para 200 mil pessoas, sobraria muitos lugares.
Estima-se que só na costa litorânea do Brasil do século XVI, vivessem aproximadamente um milhão de Tupinambás . Entretanto, o contexto de expansão marítima-européia, dos séculos XV e XVI, exigia que os nativos fossem combatidos, pelo menos, todos aqueles que resistiram à escravização do trabalho colonial. O controle territorial da faixa litorânea representou, inicialmente, o processo centenário, que – historicamente – vem se efetivando de usurpação do território indígena no Brasil. Violentados, reduzidos à escravidão e, por fim, dizimados. Isso faz lembrar a famosa frase do general Custer, na marcha para a conquista do Oeste americano: “Índio bom é índio morto.”
O tormento dos nativos brasileiros com a ferocidade européia não foi exclusividade só nossa. Três anos após ter descoberto a América, Cristóvão Colombo dirigiu pessoalmente a campanha militar contra os indígenas da Ilha Dominicana: “um punhado de cavaleiros, duzentos infantes e alguns cães especialmente adestrados para o ataque dizimaram os índios” O próprio Colombo havia nominado de “índios”, os nativos que havia encontrado quando, ao chegar na América, pensou ter circunavegado a Europa e chegado as Índias. O navegar genovês morreu sem haver descoberto o seu erro.
A rigor, o processo histórico se estrutura nas mudanças e nas permanências. Se, no entanto, é relativamente fácil identificarmos as mudanças, o mesmo não ocorre com as permanências. Essas são, muitas vezes, tornadas “invisíveis”, ou mesmo lúdicas no cotidiano. Os índios não se integraram culturalmente ou socialmente à sociedade brasileira e, por outro lado, também enfrentam enormes dificuldades para manter sua cultura original. A invasão de terras indígenas, ainda hoje, é fruto de uma cultura exploratória sedimentada pela racionalidade portuguesa colonial, cujos reflexos insistem em permanecer na mentalidade contemporânea.
Pelo menos, hoje já não se discute mais se os índios possuem ou não alma. Todavia, muitos índios espalhados pela imensa territorialidade brasileira, acabam se proletarizando ou virando mendigos, sentados em uma calçada qualquer à espera de doações para sobreviverem, distantes de sua origem comunal. Sendo assim, o “achamento” do Brasil consubstanciou o genocídio das populações indígenas e sua conseqüente fragmentação sócio-cultural e territorial.
Sobre as demarcações de terras, vale lembrarmos que em 1996, o então sociólogo-presidente, Fernando H. Cardoso, em seu decreto 1.775/96, vulnerabilizava a posse das terras indígenas, na medida em que facilitava aos posseiros interferirem na definição dos limites das áreas a serem demarcadas. . No governo de FHC foram realizadas 63 demarcações de terras indígenas, sendo que 254 haviam sido demarcadas em governos anteriores, restando ainda 239 a demarcar. Esses números mostram, ainda hoje, que a questão indígena está longe de ser apreciada em seu lídimo valor.
O dia 19 de abril, a semelhança do 13 de maio, do 20 de setembro, do 15 de novembro, e de tantas outras datas comemorativas, quase sempre comemoradas num espírito de superficialidade, deveriam servir para remeter o cidadão e a sociedade a um momento de reflexão crítica e revisão de seu processo histórico. Somente assim poderemos transitar para um nível mais elaborado de lucidez social, em face dos desafios que persistem, na base estrutural da nossa civilização e do nosso país.


Referências

GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. 20ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
HECK, Egon Dionísio. 500 Anos de conquista e dominação. In. RAMPINELL, Waldir José, OURIQUES, Nildo Domingos (Orgs) Os 500 anos. A conquista interminável. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
LOPEZ, Luiz Roberto. A Aventura dos Descobrimentos. Porto Alegre: Novo Século, 1995.
MAESTRI, Mário. Os Senhores do Litoral. Conquista Portuguesa e Agonia Tupinambá no Litoral Brasileiro. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 1994.
MELATTI, Júlio Cezar. Índios no Brasil. 7 ed. São Paulo: Hucitec, 1994.
RAMPINELL, Waldir José, OURIQUES, Nildo Domingos (Orgs) Os 500 anos. A conquista interminável. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
RIBEIRO, Darcy. Os Índios e a Civilização. Petrópolis, RJ: Vozes, 1982.

sábado, 10 de abril de 2010

NO RITMO DOS ANOS 80...UM OLHAR SOCIOCULTURAL


Como esquecer a década de 80? Nessa época, o mundo passou por mudanças expressivas na geopolítica internacional, com impactos na sociedade e na cultura. O historiador britânico Eric Hobsbawm, em seu livro A Era dos Extremos, chegou a mencionar essa década como a "Era do Desmoronamento", tais os múltiplos eventos ocorridos nesse período que impactaram o mundo. Para nós brasileiros, essa década ficou profundamente marcada no contexto da transição para a redemocratização do país.
Aos poucos, um movimento foi tomando conta, mais e mais, da população brasileira que aspirava pelo retorno da democracia. No fim do ano de 1980, o Congresso finalmente aprova uma emenda constitucional que determinava a realização de eleições diretas para o governo dos Estados. Em 1982 a população, após um longo tempo, pode escolher seus governadores. Era o prenúncio da transição sonhada por tantos brasileiros. Nesse período, Leonel Brizola assume o governo do Rio de Janeiro, tendo como vice o antropólogo Darcy Ribeiro. Iniciava-se, nesse ritmo, a campanha das Diretas Já para presidente do país. Militantes de várias orientações políticas e ideológicas se uniram para reivindicar o fim do estado de exceção, numa onda de manifestações que tomou conta do Brasil.
A ditadura atingia altos índices de impopularidade! Sob a liderança do deputado federal Ulysses Guimarães, do PMDB, o movimento das Diretas Já ampliava seu espaço, imaginando-se a sucessão do último remanescente dos governos militares: o General Figueiredo. É nesse momento que o Deputado Federal Dante de Oliveira envia ao Congresso sua emenda propondo eleições “diretas já” para presidente. Em meio aos comícios e passeatas que agitaram o País, ainda sob as pressões do decadente regime, a emenda é rejeitada.
O impasse, no entanto, seria decidido seguindo-se a velha tradição do autoritarismo brasileiro, com a realização de eleições indiretas para a escolha do novo presidente. Seguia-se, agora, a corrida política em torno dos nomes que concorreriam as eleições majoritárias no âmbito federal. As eleições terminaram polarizadas em dois candidatos: Paulo Maluf, candidato do PDS (Partido Democrático Social) à sucessão de João Batista Figueiredo, e Tancredo Neves pelo Partido da Frente Liberal (PFL) como candidato de oposição. Em janeiro de 1985, o Congresso Nacional deu a vitória a Tancredo e seu vice, José Sarney. Chegava ao fim o regime militar que, por 21 anos, afastou a população brasileira das decisões políticas, amordaçando-a de maneira infame.
A década de 80 viu nascer a chamada Nova República no Brasil. Mas o povo acompanhou a inusitada doença do novo presidente, o repentino internamento às vésperas de sua posse, seguido de sua morte. Foram as contingências da vida, mais do que as armações políticas, que – nesse caso – conduziram José Sarney ao posto de presidente da república. Depois disso, a sucessão de planos econômicos do governo, na tentativa de conter os altos índices de inflação que o país atingia, promoveu o aparecimento de figuras populares como as donas de casa que, regularmente, monitoravam os preços dos alimentos nos mercados, zelando pelo “congelamento dos preços”. Quem não se lembra das “ fiscais do Sarney”?
No cenário televisivo brasileiro, o destaque foi José Abelardo Barbosa de Medeiros, o “Chacrinha”. Apresentador do programa de auditório de enorme sucesso, o Cassino do Chacrinha, foi responsável, com seu estilo singular, pela revelação de vários artistas no cenário musical brasileiro. Nos anos 80, tivemos uma verdadeira explosão do rock nacional. Bandas, saídas das garagens, passaram a ocupar a programação das rádios FMs, após fazerem sucesso no Programa do “velho guerreiro”.
O ritmo musical dos anos 80 foi bem diversificado. Ainda sob o forte impacto da ditadura militar, o rock brasileiro mostrou sua face contestatória nas letras da Plebe Rude, como nos rits: Proteção e Censura. Essa última tinha como refrão: “Unidade repressora oficial, a censura, a censura, única entidade que ninguém censura...” O chamado rock engajado discutia questões político-sociais mesclando um ritmo dançante com guitarras distorcidas e letras que criticavam, entre outros, o autoritarismo e o consumismo. Grupos como Ira, Legião Urbana e Titãs conquistavam cada vez mais o público adolescente da época.
Numa linha mais intermediária, mesclando letras românticas com críticas sociais, sobretudo investindo num estilo pop que permeava as danceterias, estava o RPM de Paulo Ricardo. Músicas como Alvorada voraz, Loiras geladas e Rádio Pirata embalaram e continuam embalando gerações. Por sua vez, o rock irônico e debochado dos grupos Ultraje a Rigor e Camisa de Venus assumiam o lado rebelde da juventude onde temas como sexo, ciúme, relacionamentos, regados a uma boa dose de humor, eram os destaques nas letras. Lembremos de: Inútil, Ciúme, Nós vamos invadir sua prária (do Ultraje), e Eu não matei Joana D´arc (do Camisa).
A rigor, o grande evento musical dos anos 80 foi realizado em janeiro de 1985. O evento que reuniu aproximadamente 1.400 mil pessoas, foi realizado no Brasil numa atmosfera geral de euforia no contexto da eleição de Tancredo Neves: o Rock In Rio. Foram 10 dias de muita música numa verdadeira “cidade do rock” (uma área de 250 mil m2 na Barra da Tijuca – Rio de Janeiro) num impacto internacional que colocou o Rio de Janeiro no roteiro dos grandes shows mundiais. Artistas nacionais como Pepeu Gomes, Barão Vermelho, Gilberto Gil, Rita Lee, Paralamas do Sucesso, entre outros, se apresentaram com grandes estrelas da música internacional como, por exemplo: AC/DC, George Benson, B52, James Taylor, Iron Maiden, etc.
Nesse período destacou-se, também, o rock gaúcho. As “bandas de garagem” aqui tiveram sua plenitude, sobretudo, a partir de festivais promovidos por cursos pré-vestibulares na Capital. Nessa década emergiram grupos como: Taranatiriça, Replicantes, TNT, Garotos da Rua, Cascaveletes, entre outros. Os shows e as danceterias, ambos realizados no espaço social de clubes das cidades, atraíam os adolescentes nos finais de semana.
Se for verdade que os anos 80 representaram uma verdadeira virada na história contemporânea, também é verdade que o ano de 1989 demarcou, simbolicamente, o fim da divisão do mundo em dois extremos ideológicos com o fim da guerra fria. Em certos momentos a produção artística antecede os fatos históricos. Foi o que aconteceu com a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii ao lançar seu disco, talvez, mais popular: O Papa é pop, cujo destaque era a música Alívio imediato. A letra fazia referência direta ao “Muro de Berlim”, antes de sua queda:

Há um muro de concreto
Entre nossos lábios
Há um muro de Berlim dentro de mim
Tudo se divide, todos se separam
Duas Alemanhas, duas Coréias
Todo se divide, todos se separam
Que a chuva caia como uma luva
Um dilúvio, um delírio
Que a chuva traga alívio imediato
Que a noite caia, de repente caia
Tão demente quanto um raio
Que a noite traga alívio imediato.

No ano em que se comemoravam os 200 anos da Revolução Francesa (1789-1989), na madrugada do dia 9 de novembro, o Muro de Berlim, tão “demente”, caiu como um “raio,” preconizando o fim da utopia socialista do Leste Europeu e garantindo, a partir daí, a hegemonia americana no mundo. Lembremos que desde 1985 a União Soviética passava por crises e mudanças internas. As reformas de Gorbachev conduziram a URSS ao chamado fim do socialismo real, advindo sua fragmentação em diversas repúblicas no início dos anos 90.
Mas, o mundo também havia se assustado com a explosão, anos antes, do reator principal da usina nuclear de uma, até então, desconhecida cidade do norte da Ucrânia: Chernobyl. Com a explosão uma nuvem radiativa espalhou-se por diversos países da Europa e da Ásia, contaminando pessoas, animais e o meio ambiente. Até hoje os efeitos devastadores da radiação se fazem presentes nos países atingidos, através de doenças como o câncer.
Crises, explosões, contestações...Liberdade! Liberdade que os jovens berlinenses por tanto tempo esperaram. Mas também os estudantes chineses, movidos por suas angústias diante de um governo totalitário, invadem a “Praça da Paz Celestial” em Pequim , em 15 de abril de 1989. O protesto se estendeu por semanas e agregava cada vez mais pessoas. Esperava-se que a abertura política que ocorria no Leste Europeu envolveria também a China. A imprensa internacional realizava uma grande cobertura desses protestos por abertura e liberdade. Todavia, a liderança do Partido Comunista Chinês determinou que as manifestações deveriam acabar a qualquer custo.
O exército recebeu ordem de dispersar a multidão. No dia 5 de maio, o mundo assistiu surpreso um jovem manifestante colocar-se diante de uma fila de tanques que marchavam para dispersar a multidão. O nome desse jovem e do seu destino nada se sabe. Mas o sonho de uma China democrática morreu junto com os manifestantes na “Praça da Paz Celestial”.
Como poderíamos perder o ritmo dos anos 80, onde a juventude vivia sem computador, internet, MSN, Orkut, celular, mp3...? Para muitos, no entanto, a década trazia mudanças que, de certa forma, sinalizavam o fim das ilusões: “Ideologia, eu quero uma pra viver”, “a gente não sabemos escolher presidente”, ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”. E, finalmente, nós brasileiros nos indagávamos: “Que país é esse?”
Lembremos que a história é um processo de mudanças e de permanências. O século 21 apresentou-nos um novo panorama sociocultural, sem dúvida, mas foi na década de 80 que nos sentimos, e refiro-me a geração dos “quarentões” de hoje, um pouco mais protagonistas da história.



Referências

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. O breve Século XX. 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

PESAVENTO, Sandra J. O Brasil Contemporâneo. 2a. Ed. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1994.

Cultura e Música anos 80, disponível em: http://www.autobahn.com.br/

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