quinta-feira, 4 de junho de 2009

MORTES & PERDAS


“A certeza de reencontrar seus amigos depois da morte, de reatar as relações que tivera na Terra, de não perder um só fruto do seu trabalho, de engrandecer-se incessantemente em inteligência, perfeição, dá-lhe paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas transitórias da vida terrestre.”
Allan Kardec


É sempre muito complexo o relacionamento humano com as perdas. Desde o nascimento, o ser começa a perceber a importância de possuir pessoas e coisas como medida fundamental de seu relacionamento com a vida. Inicia-se com a necessidade de possuir uma mãe, uma família, um lugar onde apoiar o pequeno corpo, o alimento, roupas... Na medida em que o indivíduo vai desenvolvendo suas experiências, o ato de sobreviver e o ato de conviver lhe ensejam, naturalmente, a necessidade, mesmo que flutuante ou relativa, das conquistas, do “ter”.
Com a mesma naturalidade com que percebemos o papel da posse em nossas vidas, deveríamos perceber o papel das perdas. Mas, não é assim. A perda é sempre uma ruptura com algo ou alguém que fazia parte de nosso cotidiano e que já havíamos estabelecido uma relação psíquica e emocional de certa dependência. É nesse sentido que a idéia e a experiência da perda nos desarmoniza e nos conduz, às vezes de súbito, a uma situação desafiadora de ter que conviver ou viver sem aquela pessoa ao nosso lado ou com a falta de algo que, antes, fazia parte de nós.
A experiência de “perda”, qualquer que seja, é algo ainda não suficientemente digerido pelo gênero humano. Pela proposta desse texto, nos deteremos, efetivamente, em analisar a questão da perda diante da morte.
A confrontação com as perdas desestabiliza o construído. Mas como enfrentar tão dolorida situação? Algumas questões são fundamentais para nossa reflexão.

Perdas e sofrimento

A emoção de sofrimento, por ocasião de uma perda, representa um estado natural da condição humana. Convém lembrar, entretanto, que tal estado emocional terá uma permanência breve ou demasiada conforme o significado que atribuímos ao sentido da própria vida, e ao nível de afeto construído com a pessoa que morre. Naturalmente, quem nutre uma visão religiosa, por certo, encontrará mais reforço íntimo para compreender que a vida é feita de experiências e que, delas, fazem parte as perdas e as posses. Com isso não queremos considerar que a religião removerá os sofrimentos das perdas, mas que contribuirá para que essa dor não nos paralisem demasiadamente num estado mental negativista e desolador.
Refletir, de forma saudável, sobre a possibilidade das perdas e da transitoriedade da existência física, já é uma medida interessante de adequação do nosso mundo emocional às vicissitudes e agruras do cotidiano. Uma doença grave, um acidente fatal ou qualquer outro fato que possamos imaginar, perturbador para a vida, nossa ou de alguém com quem convivemos, muitas vezes geram tal gama de sofrimentos que o indivíduo, fragilizado interiormente, mergulha num vazio existencial, desnorteado...
Foi muito comum no século XIX o “luto histérico”, onde os parentes resistiam em aceitar a morte do outro, entregando-se à rebeldia e a revolta contra Deus em verdadeiras manifestações de histeria coletiva. É o sofrimento que gera sofrimento. Para evitar-se um sofrimento maior, naqueles momentos em que o “mundo parece desabar sobre nós”, o papel da prece, certamente, terá uma função fundamental: fortalecer o nossa vida interior, que é o espaço da coragem, da confiança, do equilíbrio... Entretanto, não podemos esquecer que há coisas que somente o tempo poderá realizar pois, perder dói e não há como não sofrer.
O desafio será evitar com que o sofrimento nos conduza ao desequilíbrio emocional, pois, nesse caso, suas derivações tenderão a desestruturar , também, nossa vida afetiva, familiar, profissional, biológica... Administrar tal sentimento é imperiosa tarefa de todos nós. Vivenciar somente a dor que a perda causou, sem movimentar recursos para o processo de readaptação, é insistir no sofrimento que caracteriza um comportamento desajustado da própria personalidade.


Recursos

Necessitamos de recursos para enfrentar as perdas. Em uma interessante crônica intitulada “As perdas & os ganhos”, a escritora Lya Luft, escreve:

“O apoio dos outros é relativo e passageiro. A força decisiva terá de vir do nosso interior, onde vai sendo depositada a bagagem de nossa vida. Lidar com a perda vai depender do que encontraremos ali: se nesse lugar crescem árvores sólidas, teremos onde nos agarrar. Se houver apenas plantinhas rasteiras, estaremos mal. Por isso, aliás, a tragédia faz emergir forças insuspeitadas em algumas pessoas, e para outras aparece como uma injustiça pessoal ou uma traição da vida.”

Sem dúvida, a forma como cada um age ou reage diante das perdas, está associada às suas construções mentais, emocionais, vivenciais... nutridas ao longo do tempo. Vejamos algumas atitudes mentais importantes:
Primeiro, pensar sobre a morte e a nossa finitude biológica é uma forma de nos prepararmos intimamente para o enfrentamento com a morte de uma pessoa querida. Sabemos que todos teremos que enfrentar tal ocasião, e, aliás, esse é o grande determinismo que marca inexoravelmente o ser biológico.
Segundo, pensarmos sobre nossa natureza verdadeira, real: espíritos imortais. A grande contribuição do espiritismo é justamente, nos desvelar essa realidade imortalista, ou seja, o corpo é somente um acessório do espírito. A morte do corpo físico não exaure ou termina com a vida do Ser. Este, continua vivo, nutrindo os mesmos sentimentos por nós, alegrando-se com nossas conquistas e seguindo o seu caminhar rumo a novas conquistas e experiências.
Terceiro, a partir disso pensarmos sobre a questão das perdas dentro de uma nova visão da vida. Quando uma pessoa com quem havíamos contraído laços de afeto e carinho morre, nós realmente a perdemos? Do ponto de vista da existência física, naturalmente, não a teremos mais conosco. Entretanto, podemos perceber que essa “perda” é transitória e, talvez, fosse melhor chamarmos isso de “afastamento temporário”, pois que, logo mais, após essa existência, retomaremos o contato pessoal e relacional. A perda ou o afastamento, nesse caso, é uma mera forma de “vermos as coisas”, mas que – no fundo – fará muita diferença.
Voltando ao pensamento da escritora Lya Luft, o melhor mesmo é “plantar árvores sólidas” em nosso mundo interior. Caso contrário, não contaremos com os recursos íntimos capazes de nos sustentar nesse momento, e, sem os instrumentos da fé racional para compreendermos o que se passa, caímos na idéia da “traição da vida”. Sim, tudo isso não é tão simples na pratica. Entretanto, são os desafios que fazem emergir forças e potenciais ou, pelo menos, oportunidades para reflexão sobre si mesmo e a vida.
A metáfora da “árvore” e da “plantinha” é oportuna. Chega um determinado momento da vida de cada um, que ficar plantando somente “plantinha rasteira” não mais atende nossas necessidades. O que seriam, então, essas “plantinhas”? Sim, todos aqueles sentimentos que limitam a vida e que lhe destitui o sentido. O pessimismo, o negativismo, a insegurança, o materialismo, entre outros, são representações concretas da metáfora da “plantinha rasteira”. Por sua vez, a “árvore sólida” é aquela que nos permite “onde nos agarrar”: todas as construções positivas efetuadas no espaço de nosso mundo íntimo e, especialmente, aquelas que nos ofertam uma visão mais ampla e racional da vida.
A árvore frondosa que atinge as alturas ou a plantinha rasteira preza ao solo, simbolizam estados da própria consciência humana. Recebemos constantemente as injunções danosas ou benéficas da vida, conforme pensamos, sentimos e conduzimos o nosso estar-no-mundo.
As escolhas são importantes. Escolher como parceiros íntimos o pessimismo ou o otimismo, a esperança ou a desilusão, a fé ou a descrença, a alegria ou a melancolia, são opções de cada pessoa. Certamente, necessitamos de motivação para revitalizarmos nossas perspectivas e o nosso caminhar. É preciso identificar um, ou vários, sentidos da vida. Sem sentido a vida não tem beleza, tudo é sombrio, desconcertante.
O homem é um ser inquieto e inquietante. Nossas inquietações representam o conteúdo das nossas fragilidades. É verdade, somos seres frágeis e incompletos. Nossa incompletude nos inquieta e atormenta e, por isso, vivemos de escolhas e experiências que nos levem a um estado maior de plenitude. Nossas inquietações também representam os significados que atribuímos as coisas. Exemplificando: a morte. Qual o significado que lhe é atribuído? O fim. Daí o termo “falecer”, chegar ao fim, acabar. Essa idéia do fim nos inquieta. Não somos seres voltados ao “nada”, nossa natureza íntima, progressista, repele essa idéia e a transforma, psiquicamente, num drama emocional.
A natureza não é simplista, é sábia. O homem não é um ser descartável, mas eterno. Aqui vale pensarmos sobre uma fábula interessante. Um homem muito simples e pobre vivia nas imediações de grande castelo fortemente guarnecido. Sem nunca ter lá adentrado, o homem vivia sonhando com as maravilhas que certamente existiriam no interior daquela fortaleza. Curioso e disposto a desvendar tais mistérios, certo dia implorou aos vigilantes que lhe deixassem entrar, seria o maior prêmio de sua vida. Um momento só. Após várias tentativas malogradas, o simples homem recebeu de um vigilante mais sensível a autorização para chegar aos jardins do castelo. Ao transpor a grande muralha, e fitar os jardins, foi tomado pela sensação de estar diante de um grande tesouro. Na verdade, ele observou somente “os jardins”, não entrou em contato com as verdadeiras jóias de ouro e pedras preciosas que a fortaleza velava em suas salas e aposentos.
Ora, o que vemos? Vemos as coisas materiais e achamos que elas são a fonte de todas as riquezas. Ignoramos que além da vida material, floresce uma riqueza muito maior, toda uma vida exuberante, pujante que não se limita a vida do corpo físico. Somos o “homem simples” que se contenta apenas com os jardins? Ou nossas inquietações nos estimulam a transpor as muralhas de uma vida simplista, reduzida meramente a um fatalismo biológico?
O que temos não perdemos. Quando contraímos laços sólidos de afeto e consideração por nossos parentes e amigos, esses laços perduram. Nem mesmo a morte os rompem.
Diante de uma situação de “perda” (já vimos que o melhor é denominarmos “afastamento temporário”) de alguém querido, necessitamos (as vezes exigimos) apoio de outros corações amigos. O apoio de outras pessoas será sempre importante mas devemos compreendê-lo, na maioria das vezes, como algo inconstante, temporário. Perceber que alguém se preocupa com nosso sofrimento é alentador, mas os estímulos reais deverão eclodir de nosso íntimo.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A FISIOLOGIA DA DESENCARNAÇÃO (Final)


Na obra “Voltei” psicografada por Francisco C. Xavier, e de autoria espiritual de Irmão Jacó, temos a narrativa da experiência da desencarnação do próprio autor espiritual:
“As mãos do passista espiritual concentravam-se-me agora no cérebro. Demoraram-se, quase duas horas, sobre os contornos da cabeça. Suave sensação de bem-estar voltou a dominar-me, quando experimentei abalo indescritível na parte superior do crânio. (...) Semelhava-se a um choque elétrico, de vastas proporções, no íntimo da substância celebral. Aquelas mãos amorosas, por certo, haviam desfeito algum laço forte que me retinha no corpo de carne...” (Voltei, cap. 2. P. 31. Ed. FEB.)
Do exposto, devemos considerar que o Centro Coronário é tido como o mais significativo, em razão de seu alto potencial de radiações, uma vez que nele assenta a ligação com a mente, sede da consciência. Deve-se a isso, o fato de o desligamento do Espírito ao corpo concluir-se com o rompimento do “fio prateado” conectado no centro coronário (na região central do cérebro), justamente por encontrar-se aí o ponto de interação entre as forças determinantes do espírito e as forças fisiopsicossomáticas organizadas. No livro “Obreiros da Vida Eterna”, o instrutor espiritual Jerônimo chama-nos a atenção para três regiões orgânicas fundamentais que demandam extremo cuidado nos serviços de liberação da alma:

Centro Vegetativo

Ligado ao ventre, sede das manifestações fisiológicas. Plexo Solar/Gástrico. Produz o esticamento dos membros inferiores: esfriamento do corpo.

Centro Emocional

Situado no tórax; zona dos sentimentos e desejos. Plexo Cardíaco. Produz desregularidade do coração, aflição, angústia, pulso fraco.

Centro Mental

Situado no cérebro; o mais importante. Centro Coronário/Epífise/ Fossa Romboidal. Desatamento do “fio prateado”. Inutilização do tronco encefálico.

Cumpre observarmos que o desprendimento do períspirito, no entanto, não se dá subitamente, mas gradualmente, e com uma lentidão variável conforme o nível educacional ou de desenvolvimento moral do indivíduo. Em uns, é bastante rápido, podendo dizer-se que o momento da morte é mais ou menos o da libertação. Em outros, cujas vidas enalteceram hábitos negativos, contra si e/ou contra a vida, o desprendimento é mais lento, devido à “força adesiva”, que, por afinidade, mantém unidos perispírito e corpo físico. Percebemos, ainda, que nos casos de morte causada por doenças de longo período, a desagregação tem início prévio pelo fato de a doença ensejar o esgotamento gradual das energias vitais do corpo. O mesmo não ocorre nas mortes violentas, pois nenhuma desagregação pôde iniciar-se previamente considerando-se que a vida orgânica estava em plena exuberância quando foi subitamente aniquilada. Em tais condições, o processo desencarnatório inicia com a morte e de forma gradativa, conforme nos observa o Codificador em comentário à questão 162 de “O Livro dos Espíritos”: “(...) Em todos os casos de morte violenta, quando não resulta da extinção gradual das forças vitais, os laços que prendem o corpo ao perispírito são mais tenazes, e o desligamento completo é mais lento.”

Visões no leito da morte

As chamadas “visões no leito da morte” compreende a percepção pelo moribundo, em certos casos, de espíritos familiares e amigos que se fazem presentes nesse relevante momento de regresso à vida espiritual. Muitas vezes, por desconhecimento dessas questões, familiares e médicos interpretam essas manifestações como “alucinações” geradas por drogas ou oriunda da própria doença ou mesmo produzidas por tensão excessiva. Mas nem toda percepção dessa natureza pode e deve ser enquadrada como “alucinação”. Limitar um acontecimento a uma “única explicação” não nos parece ser coerente ou “científico”.
O pesquisador italiano Ernesto Bozzano, realizou exaustiva pesquisa sobre os “fenômenos psíquicos no momento da morte” Em suas investigações, Bozzano também estudou os “casos nos quais as aparições dos mortos são percebidas unicamente pelo moribundo e se referem a pessoas cujo falecimento era por ele conhecido.” Natural que sejamos assistidos nesse momento e percebamos – devido ao enfraquecimento da vitalidade física – a presença de nossos protetores e orientadores, bem como, familiares e amigos espirituais que nos vem receber de retorno à vida espiritual.

Consciência

A desencarnação é sempre seguida de um período de perturbação ou torpor, de duração variável. Na transição da vida corporal para a espiritual, o estado de maior ou menor lucidez ou autonomia consciencial do desencarnante, estará sempre vinculado ao construído no espaço do seu mundo interior: seus valores alimentados durante a experiência existencial. Maior perturbação sofre quem mais apegado estava à vida terrena. Todavia, aquelas pessoas que nutriram ideais de beleza, caracterizados pela elevação dos sentimentos e o emprego nobilitante da inteligência, conquistaram para si mesmas possibilidades transcendentes de percepção, podendo contemplar conscientemente o seu próprio desprendimento e até, em certos casos, auxiliar os benfeitores espirituais incumbidos de tão delicada tarefa. Há casos que, principalmente quando a desencarnação se dá após enfermidade prolongada, o espírito, antes de “adormecer” a sua consciência, consegue observar seu corpo material inerte, comunicar-se com outros espíritos e/ou deslocar-se através do ambiente onde se encontra, percebendo o comportamento e a reação das pessoas à sua volta.
Nas pesquisas desenvolvidas pelo Dr. Raymond ª Moody Jr, registradas em seu famoso livro “Vida Depois da Vida”, baseado em fatos narrados por pessoas que vivenciaram a denominada experiência de “quase-morte”, mas voltaram depois à consciência física, encontramos inúmeros relatos de pessoas que ouviram seus médicos e/ou parentes declará-las mortas, algumas percebem ainda a movimentação na sala cirúrgica, o estado aflitivo dos parentes e amigos, ..., mantendo certo nível de consciência sobre os acontecimentos.

A experiência do túnel

Conforme os estudos do Dr. Raymond A. Moody Jr. há interessantes relatos de pessoas que, no processo da morte – no momento do “desligamento” – tiveram “a sensação de estar sendo muito rapidamente puxada através de uma espécie de espaço escuro” . A pessoa parece atravessar um “túnel”, em grande velocidade, na direção de um ponto de luz As pesquisas, entretanto, não indicam que essa experiência seja regra geral.

Retrospectiva existencial

Imagine-se revendo todos os fatos de sua existência como se estivessem passando em uma tela de cinema! Sim, esse é um dos fenômenos registrados por ocasião da desencarnação. Por ocasião do desligamento do corpo, o ser espiritual experimenta um processo de recapitulação sistemática de sua existência. Esse mecanismo oferece, ao desencarnante, um intenso processo de auto-análise, não somente mostrando-lhe os painéis de sua existência mas, também os efeitos de suas ações edificantes ou não.
Emergem, de forma panorâmica, farto material que nos desnuda diante da própria consciência. O cintilar das emoções, nesse momento, é oportuno para uma avaliação pessoal de como estamos conduzindo a nossa vida. Observe o seguinte relato:

“Vi-me diante de tudo o que eu havia sonhado, arquitetado e realizado na vida. Insignificantes idéias que emitira, tanto quanto meus atos mínimos, desfilavam, absolutamente precisos, ante meus olhos aflitos como se me fossem revelados de roldão, por estranho poder, numa câmara ultra-rápida instalada dentro de mim.” (Livro: Voltei. Francisco C. Xavier, pág. 31)

Por mais aflitivo que seja esse exame é necessário, porque pode ser o ponto de partida de resoluções salutares, caracterizando um clima de estímulo ao autoconhecimento. A recapitulação é um ato da memória, mas não um tipo normal de lembrança. Primeiro, é extraordinariamente rápido e, quase sempre, descrita como uma exibição de imagens visuais, seguindo em ordem cronológica . Em alguns casos, em cores vibrantes. Segundo, os sentimento e emoções associados com as imagens são novamente experimentados, de forma intensa. Do mais insignificante ao mais significativo. Mas a experiência da recapitulação pode-se limitar, em alguns casos, somente aos pontos mais essenciais ou principais da existência
Essa retrospectiva motiva – interiormente – uma pergunta: o que você fez na sua vida? Para o Dr. Moody, algumas pessoas caracterizam isso como um esforço educacional que parece acentuar a necessidade de “a amar outras pessoas e adquirir conhecimento.”

Percepções

Quando os familiares não aceitam de forma equilibrada a perspectiva da separação e alimentam profunda inconformidade e desespero, que se prolonga no tempo, criam mentalmente uma espécie de “teia de retenção”, envolvendo o desencarnante. Esse quadro mental e afetivo tende a dificultar ou retardar o processo de liberação e/ou adaptação do desencarnante. Não raras vezes, os orientadores espirituais lançam mão de alguns recurso para promover a chamada “melhora da morte”. Operando uma melhora artificial no paciente, sua família –aliviada – retoma um estado mental de confiança na vida. Aproveitando a “trégua” dos familiares, os espíritos responsáveis aceleram o processo desencarnatório.
Mesmo após a desencarnação, reações positivas, de aceitação do fato, de compreensão e de preces, partidas de familiares e amigos, atuaram para auxiliar o desprendimento e, desse modo, amenizar o estado de confusão que, normalmente, acompanha o desencarnante. As preces feitas com sentimentos ressoam em torno do espírito como as vozes amigas que nos fazem despertar de um sono .

O Despertar na vida espiritual

É comum os espíritos recém-desencarnados acordarem em hospitais, institutos ou casas de tratamento ou refazimento e readaptação. Questiona Kardec:

Que sensação experimenta a alma no momento em que reconhece
estar no Mundo dos Espíritos ?
- Depende. Se praticaste o mal, impelido pelo desejo de o praticar, no primeiro momento te sentirás envergonhado de o haveres praticado. Com a alma do justo as coisas se passam de modo bem diferente. Ela se sente como que aliviada de grande peso, pois que não teme nenhum olhar perscrutador.
(O Livro dos Espíritos – questão 159)

O estado moral do ser humano é fruto de suas construções mentais, emocionais e volitivas no transcurso de seu histórico espiritual e, mais substancialmente, de sua existência atual, com influência decisiva para maior ou menor facilidade de sua desencarnação e despertar na espiritualidade. Refletindo em si próprio, a lei de afinidade estabelece que, quanto mais espiritualizado for o indivíduo, mais rápido se processa a desencarnação e melhor o nível do grupo espiritual em que o espírito se classifica imediatamente após a morte. Portanto, as construções interiores, que nos alimentam a jornada existencial, refletirão nosso estado feliz ou desditoso, harmonizado ou desequilibrado, após a libertação da indumentária orgânica.
Nesse sentido, o conhecimento espírita, oferta-nos uma cosmovisão de vida, esclarecendo, consolando, gerando estímulos e motivações, com base na fé racional, para instrumentalizar o processo de auto-educação consciencial do homem imortal, para vivências enobrecedoras, nas quais valores e hábitos, pensamentos, sentimento e ações, tipifiquem a dinâmica do bem.
A grande alegria do ser, ao atravessar a cortina da morte, é a percepção de continuar e sentir-se vivo. André Luiz, anotou a afirmativa de um espírito amigo: “Depois da morte física, o que há de mais surpreendente para nós é o reencontro da vida.” Que maravilha!
Nossa cultura Ocidental foi profundamente enrijecida pela “idéia do nada”, fruto de reflexões materialistas de pensadores e filósofos, ao longo de nossa história. Freud, por exemplo, considerava que diante do fim irremediável da vida, o homem havia – como fuga dessa realidade – criado o “imaginário da imortalidade”. É bem verdade que a idéia da vida após a morte com céu (de ociosidade eterna), inferno (de sofrimento infinito) e juízo final, tal como asseveram as religiões tradicionais, ensejaram a descrença e o antagonismo de muitos pensadores. Entretanto, criou-se uma “ditadura materialista” que não contribuiu em nada para desvelar um universo realmente rico de sabedoria, fruto, sim, de uma inteligência suprema e absolutamente sábia.

Referências Bibliográficas

BOZZANO, Ernesto. A Crise da Morte, 7ª Ed. FEB.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 34ª Ed. FEB.
_______. O Livro dos Espíritos. 68ª Ed. FEB.
LUIZ, André. Evolução em Dois Mundos. 17ª Ed. FEB.
_______. Obreiros de Vida Eterna. 17ª Ed. FEB.
_______. Os Mensageiros. 28ª. Ed. FEB.
PERALVA, Martins. Estudando a Mediunidade. 12ª Ed. FEB.
PIRES, J. Herculano. Educação para a Morte. 3ª Ed. Correio Fraterno.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A FISIOLOGIA DA DESENCARNAÇÃO - Parte I


“Por ser exclusivamente material, o corpo sofre as vissicitudes da matéria. Depois de funcionar por algum tempo, ele se desorganiza e decompõe. O princípio vital, não mais encontrando elemento para sua atividade, se extingue e o corpo morre. O Espírito, para quem, este, carente de vida, se torna inútil, deixa-o, como se deixa uma casa em ruínas, ou uma roupa imprestável.”
(Allan Kardec, A Gênese, Cap. XI, item 13)


O Espiritismo apresentou-nos valiosa contribuição para elucidar a temida e conturbada questão da morte, situando o homem na condição de espírito imortal e pluriexistencial, que, no corpo ou fora dele, realiza as experiências múltiplas necessárias ao desenvolvimento de suas potencialidades criadoras: inteligência e sentimentos. São, portanto, de alta relevância para o homem moderno as informações contidas na Doutrina Espírita sobre o regresso do ser à vida espiritual, bem como suas correlações e implicações ético-morais. Nesse sentido, a compreensão dessas informações nos remeterá a uma reflexão de ordem ético-comportamental como medida possível à construção de uma psicologia otimista, psicoprofilática e auto-educativa para a vida.


Desligamento: alma-corpo

O Ser Humano na visão espírita é um composto ternário: espírito, individualidade promotora do pensamento continuo, causa da inteligente, da consciência, da vontade, portadora de sentimentos, senso moral e detentora do livre-arbítrio; perispírito, invólucro fluídico do espírito, representando o molde fundamental do corpo físico para o homem, subsistindo além da morte. Finalmente, o corpo físico representa o instrumento ou indumentária da alma para o Ser espiritual exercitar suas faculdades nas diversas relações com o mundo material.
A obra de André Luiz viria oferecer valiosas informações no tocante à separação da alma e o corpo. No livro “Evolução em Dois Mundos”, o espírito André Luiz, através da psicografia de Francisco C. Xavier e Waldo Vieira, nos informa que a atividade funcional do corpo físico encontra sua base de sustentação em sete centros vitais mais relevantes, localizados na estrutura perispíridica em associação dinâmica com a rede plexiforme e as glândulas endócrinas no corpo físico, concorrendo para a harmonia do sistema psicofisiológico . Os centros vitais podem ser compreendidos como disquetes energéticos ou “rodas”, verdadeiros centros reguladores de energias que partem do corpo mental para o corpo físico e vice-versa.
Reportando-se sobre a questão do “desligamento” dos “laços” entre a alma e o corpo, Kardec obtém a seguinte informação dos espíritos: “Rotos os laços que a retinham, ela se desprende.”
Compreendemos que os “laços”, aos quais os espíritos orientadores se referem na resposta a Kardec, sejam esses elos tenuíssimos que mantém conectados os centros vitais (no perispírito ) à estrutura somática, e que se consubstanciam – por analogia – a “laços” ou “fios” fluidico-magnéticos que somente irão se romper quando houver a morte orgânica, isto é, uma ruptura do equilíbrio biológico, químico-físico, capaz de produzir a cessão irreversível das funções vitais do corpo, devido a certas patologias, acidentes, ...
Caracterizada essa perspectiva, o desprendimento do perispírito ao corpo físico ocorre quando esses laços se desatam, à semelhança de um plugue deixando a tomada. A tomada está no corpo material, e, por falta de energia ou vitalidade, libera o plugue que se situa no psicossoma ou perispírito, promovendo a “desemantação” do espírito em relação ao corpo. A operação desse processo, chamado desencarnação, inicia-se, normalmente, pelas extremidades inferiores do corpo físico (o que contribui também para desencadear o resfriamento dos membros inferiores do moribundo), terminando no cérebro.
Lembremos algumas das várias descrições feitas por André Luiz:



Caso 1

“Aproveitou Aniceto a serenidade ambiente e começou a retirar o corpo espiritual de Fernando, desligando-o dos despojos, reparando eu que iniciara a operação pelos calcanhares, terminando na cabeça, à qual, por fim parecia estar preso o moribundo por extenso cordão, tal qual se dá com os nascituros terrenos. Aniceto cortou-o com esforço. O corpo de Fernando deu um estremeção, chamado o médico humano ao novo quadro. A operação não fora curta e fácil. Demorara-se longos minutos, durante os quais vi nosso instrutor empregar todo o cabedal de sua atenção e talvez de suas energias magnéticas”. (Os mensageiros, p. 261. Ed. FEB).

Caso 2

“(...) apêndice prateado era verdadeira artéria fluídica sustentado o fluxo e o refluxo dos princípios vitais em readaptação. Retirada a derradeira via de intercâmbio, o cadáver mostrou sinais, quase imediato, de avançada decomposição.” (Obreiros de Vida Eterna, p. 227. Ed. FEB)

Caso 3

“Dimas gemeu, em voz alta, semi-inconsciente. (...) o assistente estabeleceu reduzido tempo de descanso, mas volveu a intervir no cérebro. Era a última etapa. Concentrando todo o seu potencial de energia na fossa romboidal, Jerônimo quebrou alguma coisa que não pude perceber com minúcias, e brilhante chama violeta-dourada desligou-se da região craniana.” (Obreiros de Vida Eterna. P. 211. Ed. FEB)

(Continua na próxima semana...)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

VOZES DE PAPEL


Os filósofos antigos, que construíram o pensamento de nossa civilização Ocidental, perambulam pelas estantes, as vezes de madeira, de sebos e bibliotecas (as vezes de livrarias) na angustiante e inóspita tarefa de expressarem suas vozes de papel. A inquietude dos filósofos não os permite desanimar, mesmo que a situação atual, em qualquer lugar, apele para a cultura da imagem, apelativa e sedutora.
Assim sendo, Platão ou Aristóteles, Descartes ou Hegel, jamais imaginaram que os grandes desafios do pensamento humano, enfrentado por eles, seria o de – simplesmente – se fazerem lidos, cobiçados. Não! Certamente jamais imaginaram que um dia a juventude ou os curiosos do saber, pudessem esquecê-los, despreza-los nas poeiras arrogantes de qualquer estante.
Talvez Platão, no Mundo das Idéias, perceba melhor que as sombras do Mundo Sensível se devem, sobretudo, a indiferença infame – do mundo massificado e utilitarista contemporâneo – com a cultura que desafia o pensamento a voar além dos horizontes acanhados do homem cotidiano. Os filósofos antigos, reunidos em um café qualquer, tradicional de Paris, poderiam concluir, pelo menos os mais pessimistas, que esse mundo tecnológico e digitalizado do século XXI foi tomado de uma irreversível apatia intelectual.
O que pensaria Aristóteles disso tudo, uma vez ter afirmado – em seu livro Ética a Nicômaco – que “os legisladores tornam bons os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem.” ? Ora, os discurso apologéticos do presente, muito longe de estimular os bons hábitos, corroboram para que a própria fragilidade cultural dos cidadãos se multipliquem, aprisionando-os – cada vez mais – na caverna da inoperância intelectual.
Mas talvez possamos, entre um café filosófico e outro, imaginar que nem tudo está perdido, afinal, o homem – historicamente – tem se mostrado um ser capaz de superar-se, de enfrentar sua própria ignorância ou, pelo menos, de reconhece-la. Quem sabe, Nietzsche nos ajude a pensar sobre isso, quando escreveu: “Conheço muito bem as qualidades que devo ter para que alguém me compreenda...”, além da integridade de espírito, metaforicamente, assevera que é preciso “estar acostumado a viver nas montanhas”. Apesar disso, creio que o próprio Nietzsche, em seus escritos, tenha permanecido mais na base do no cume de sua montanha imaginária.
Montanhas, cavernas, ilusão, realidade, ignorância e sabedoria. Os filósofos são assim mesmo, talvez estranhos ou esquisitos para muitas pessoas. Mesmo assim, foram eles que construíram a nossa forma de pensar e talvez por isso, também sejam – isolados em suas estantes – um pouco responsáveis pela indiferença humana.
Os filósofos antigos, na vitalidade de suas páginas, oferecem o convite à filosofia, a pensar e repensar as questões contemporâneas, num constante desafio de subir à montanha e, de lá, visualizar o universo das interrogações e dos caminhos possíveis, que melhor se ajustam as inquietações de cada um. Eles abriram, em seus escritos, páginas sob as mais diversas perspectivas. Mas isso tudo não significa de devamos concordar sempre com eles, que não tenhamos idéias próprias sobre a vida e as questões que nos cercam.
As vozes de papel funcionam para nós como guias, uma vez que a verdade ainda não foi conquistada por inteiro, ela está aberta à todos. Mas não se pense que as vozes de papel são vozes mudas. São vozes perseverantes que nunca se calam! Estão sempre lá, dispostas a nos dizer algo, por isso são universais, por isso são eternas. Busca-las é aceitar o desafio intelectual de romper com os grilhões e os limites de pensamento.

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