sábado, 2 de novembro de 2013

A PROPÓSITO DA COMEMORAÇÃO DOS MORTOS

Revista Espírita, dezembro de 1864
Da Comunhão do pensamento 
A PROPÓSITO DA COMEMORAÇÃO DOS MORTOS

ALLAN KARDEC

A Sociedade Espírita de Paris reuniu-se especialmente, pela primeira vez, a 2 de novembro de 1864, visando a oferecer uma piedosa lembrança a seus falecidos colegas e irmãos espíritas. Naquela ocasião o Sr. Allan Kardec desenvolveu o princípio da comunhão do pensamento, no discurso seguinte:

Caros irmãos e irmãs espíritas,

Estamos reunidos, neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para dar aqueles dos nossos irmãos que deixaram a terra, um testemunho particular de simpatia, para continuar as relações de afeição e de fraternidade, que existiam entre eles e nós, enquanto vivos, e para chamar para eles as bondades do Todo-Poderoso. Mas, porque nos reunirmos? porque nos desviarmos de nossas ocupações? Não pode cada um fazer em particular aquilo que nos propomos fazer em comum? Não o faz cada um pelos seus? Não o pode fazer diariamente todos os dias e à cada hora? Qual, então, a utilidade de assim se reunir num dia determinado? É sobre este ponto, senhores, que me proponho apresentar-vos algumas considerações.
O favor com que a ideia desta reunião foi acolhida é a primeira resposta a essas diversas questões. Ela é o índice da necessidade que experimentamos ao nos acharmos juntos numa comunhão de pensamentos.
Comunhão de pensamentos! Compreendemos bem todo o alcance desta expressão? É permitido duvidá-lo, pelo menos do maior número. O Espiritismo, que nos explica tantas coisas pelas leis que revela, ainda vem explicar a causa, os efeitos e a força dessa situação de espírito.
Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força. É, porém, uma força puramente moral e abstrata? Não: do contrário não se explicariam certos efeitos do pensamento e, ainda menos, da comunhão de pensamento. Para compreendê-lo é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elemento que constituem nessa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.
O pensamento é o atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o espírito da matéria; sem o pensamento o espírito não seria espírito. A vontade não é um atributo especial do espírito; é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento transformado em força motriz. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas se tem a força de agir sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam! O pensamento age sobre os fluídos ambientes, como o som sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode, pois, dizer-se com toda a verdade que há nesses fluidos ondas e raios de pensamento que se cruzam sem se confundir, como há no ar ondas e raios sonoros.
Uma assembleia é um foco onde irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos onde cada um produz a sua nota. Disto resulta uma porção de correntes e de eflúvios fluídicos dos quais cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.
Mas, assim como há raios sonoros harmônicos ou discordantes. Se o conjunto for harmônico a impressão é agradável; se for discordante, a impressão será penosa. Ora, por isto, é necessário que o pensamento seja formulado em palavras; a radiação fluídica não deixa de existir, quer seja, ou não expressa. Se todas forem benevolentes, todos os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar, sentir-se-ão à vontade; mas se se misturarem pensamentos maus, produzirão o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.
Tal é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática; aí como que reina uma atmosfera salubre, onde se respira à vontade; dai se sai reconfortado, porque aí nos impregnamos de eflúvios salutares. Assim também se explicam a ansiedade, o mal-estar indefinível dos meios antipáticos, onde pensamentos malévolos provocam, por assim dizer, correntes fluídicas malsãs.
A comunhão de pensamentos produz, pois, uma espécie de efeito físico que age sobre o moral. Só o Espiritismo poderia faze-lo compreender. O homem o sente instintivamente, desde que procura as reuniões onde sabe encontrar essa comunhão; nessas reuniões homogêneas e simpáticas, colhe novas forças morais; poderia dizer-se que aí recupera pelos alimentos as perdas do corpo material.
Essas considerações, senhores e caros irmãos, parecem nos afastar do objetivo principal de nossa reunião e, contudo, elas para aqui nos conduzem diretamente. As reuniões que têm por objeto a comemoração dos mortos repousam na comunhão de pensamentos. Para compreender a sua utilidade, era necessário bem definir a natureza e os efeitos desta comunhão.
Para a explicação das coisas espirituais, por vezes me sirvo de comparações muito materiais e, talvez mesmo, um tanto forçadas, que nem sempre devem ser tomadas ao pé da letra. Mas é procedendo por analogia, do conhecido para o desconhecido, que chegamos a nos dar conta, ao menos aproximadamente, do que escapa aos nossos sentidos; é tais comparações que a doutrina espírita deve, em grande parte, ter sido facilmente compreendida, mestiço pelas mais vulgares inteligências, ao passo que se eu tivesse ficado nas abstrações da filosofia metafísica, ainda hoje ela não teria sido partilhada senão de algumas inteligências de escol. Ora, desde o princípio, importava que ela fosse aceita pelas massas, porque a opinião das massas exerce uma pressão que acaba fazendo lei e triunfando das oposições mais tenazes. Eis por que me esforcei em simplificá-la e torná-la clara, a fim de a pôr ao alcance de todos, com o risco de a fazer contestada por certa gente quanto ao título de filosofia, por que não é bastante abstrata e saiu do nevoeiro da metafísica clássica.
Aos efeitos que acabo de descrever, tocante a comunhão de pensamentos junta-se um outro, que é sua conseqüência natural, e que importa não perder de vista: é a força que adquire o pensamento, ou a vontade, pelo conjunto dos pensamentos ou vontades reunidas. Sendo a vontade uma força ativa, essa força é multiplicada pelo número de vontades idênticas, como a força muscular é multiplicada pelo número de braços.
Estabelecido este ponto, concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os Espíritos haja, numa reunião onde reine perfeita comunhão de pensamentos, uma força atrativa ou repulsiva, que nem sempre possui a criatura isolada. Se, até o presente, as reuniões muito numerosas são menos favoráveis, é pela dificuldade de obter uma perfeita homogeneidade de pensamentos, e que se deve à imperfeição da natureza humana na terra. Quanto mais numerosas as reuniões, mais aí se mesclam elementos heterogêneos, que paralisam a ação dos bons elementos, e que são como os grãos de areia numa engrenagem. Assim não é nos mundos mais avançados e tal estado de coisas mudará na terra, à medida que os homens se tornarem melhores.
Para os Espíritas, a comunhão dos pensamentos tem um resultado ainda mais especial. Temos visto o efeito desta comunhão de homem a homem. O Espiritismo nos prova que ele não é menor dos homens aos Espíritos, e reciprocamente. Com efeito, se o pensamento coletivo adquire força pelo número, um conjunto de pensamentos idênticos, tendo o bem por objetivo, terá mais força para neutralizar a ação dos maus Espíritos. Também vemos que a tática destes últimos é levar à divisão e ao isolamento. Sozinho, um homem pode sucumbir, ao passo que se sua vontade for corroborada por outras vontades, ele poderá resistir, conforme o axioma: A união faz a força, axioma verdadeiro, tanto no moral quanto no físico.
Por outro lado, se a ação dos Espíritos malévolos pode ser paralisada por um pensamento comum, é evidente que a dos bons Espíritos será ajudada; sua influência salutar não encontrará obstáculos; seus eflúvios fluídicos, não sendo detidos por correntes contrárias, espalhar-se-ão sobre todos os assistentes, precisamente porque todos os terão atraído pelo pensamento, não cada um em proveito pessoal, mas em proveito de todos, conforme a lei da caridade. Descerão sobre eles como em línguas de fogo, para nos servirmos de uma admirável imagem do Evangelho.
Assim, pela comunhão de pensamentos, os homens se assistem entre si e, ao mesmo tempo, assistem os Espíritos e são por estes assistidos. As relações do mundo visível e do mundo invisível não são mais individuais, são coletivas e, por isto mesmo, mais poderosas em proveito das massas, como no do individuos. Numa palavra, estabelece a solidariedade, que é a base da fraternidade. Ninguém trabalha para si só, mas para todos; e trabalhando para todos, cada um aí encontra a sua parte. É o que o egoísmo não compreende.
Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; é aí, com efeito, que podem e devem exercer toda a sua força, porque o objetivo deve ser o desligamento do pensamento do domínio da matéria. Infelizmente a maioria se afasta deste princípio, à medida que tornam a religião uma questão de forma. Disto resulta que cada um, fazendo seu dever consistir na realização da forma, se julga quites com Deus e com os homens, desde que praticou uma formula. Resulta ainda que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por conta própria e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade, em relação aos outros assistentes: isola-se em meio à multidão e só pensa no céu para si próprio.
Certamente não era assim que o entendia Jesus, quando disse: Quando estiverdes diversos, reunidos em meu nome, eu estarei em vosso meio. Reunidos em meu nome, isto é, com um pensamento comum. Mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, a sua doutrina. Ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e ação. Os egoístas e os orgulhosos mentem quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus não os conhece por seus discípulos.
Tocados por esses abusos e desvios, algumas pessoas negam a utilidade das assembleias religiosas e, conseqüentemente, dos edifício a elas consagrados. Em seu radicalismo, pensam que seria melhor construir hospícios do que templos, visto como o templo de Deus está em toda a parte e em toda a parte pode ser adorado, que cada um pode orar em sua casa e a qualquer hora, ao passo que os pobres, os doentes e os enfermos necessitam de lugar de refúgio.
Mas porque se cometem abusos, porque se afastam do reto caminho, segue-se que não existe o reto caminho e que é mau tudo de que se abusa? Não, por certo. Falar assim é desconhecer a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos, que deve ser a essência das assembleias religiosas; é ignorar as causas que a provocam. Que os materialistas professam semelhantes idéias, compreende-se; porque, para eles, em tudo fazem abstração da vida espiritual; mas da parte dos espiritualistas e, melhor ainda, dos Espíritas, seria insensatez. O isolamento religioso, como o isolamento social, conduz ao egoísmo. Que alguns homens sejam bastante fortes por si mesmos, fartamente dotados pelo coração, para que sua fé e caridade não necessitem ser aquecidas num foco comum, é possível. Mas não é assim com as massas, a que falta um estimulante, sem o qual poderiam deixar-se tomar pela indiferença. Além disso qual o homem que poderá dizer-se bastante esclarecido para nada ter que aprender no tocante aos interesses futuros? bastante perfeito para prescindir dos conselhos para a vida presente? Será sempre capaz de instruir-se por si mesmo? Não. A maioria necessita de ensinamentos diretos em matéria de religião e moral, como em matéria de ciência. Sem contradita, tais ensinos podem ser dados em toda a parte, sob a abóbada do céu, como sob a de um templo. Mas, por que os homens não haveriam de ter lugares especiais para as coisas celestes, como os têm para as terrenas? Porque não teriam assembleias religiosas, como têm assembleias políticas, científicas e industriais? Isto impede as fundações em beneficio dos infelizes. Dizemos, ainda mais, que quando os homens compreenderem melhor seus interesses do céu, haverá menos gente nos hospícios.
Falando de maneira geral e sem alusão a nenhum culto, se as assembleias religiosas muitas vezes se afastaram de seu objetivo principal, que é a comunhão fraterna do pensamento; se o ensino que aí é dado nem sempre seguiu o movimento progressivo da humanidade, é que os homens não cumprem todos os progressos ao mesmo tempo; o que não fazem num período, fazem em outro; à medida que se esclarecem, vêem as lacunas existentes em suas instituições, e as preenchem; compreendem que o que era bom numa época, em relação ao grau de civilização, torna-se insuficiente numa etapa mais adiantada, e restabelecem o nível. Sabemos que o Espiritismo é a grande alavanca do progresso em todas as coisas; ele marca uma era de renovação. Saibamos, pois, esperar, e não peçamos a uma época mais do que ela pode dar. Como as plantas, é preciso que as idéias amadureçam para colher os frutos. Saibamos, além disso, fazer as necessárias concessões às épocas de transição, porque nada na natureza se opera de maneira brusca e instantânea.
Em razão do motivo que hoje nos reúne, senhores e caros irmãos, julguei oportuno aproveitar a circunstância para desenvolver o princípio da comunhão de pensamentos, do ponto de vista do Espiritismo. Sendo o nosso objetivo unirmo-nos em intenção para oferecer, em comum, um testemunho particular de simpatia aos nossos irmãos falecidos, poderia ser útil chamar nossa atenção para as vantagens da reunião. Graças ao Espiritismo, compreendemos a força e os efeitos do pensamento coletivo; podemos melhor explicar-nos o sentimento de bem-estar que se experimenta num meio homogêneo e simpático; mas, igualmente, sabemos que o mesmo se dá com os Espíritos, porque eles sabem receber os eflúvios de todos os pensamentos benevolentes, que para eles se elevam, como uma nuvem de perfume. Os que são felizes experimentam a maior alegria neste concerto harmonioso; os que sofrem sentem com isto o maior alívio.Cada um de nós, em particular, ora de preferência por aqueles que o interessam ou que mais estima. Façamos que aqui todos tenham sua parte nas preces dirigidas a Deus.

sábado, 26 de outubro de 2013

LUC FERRY: UM OLHAR SOBRE O AMOR

“O amor é uma das poucas coisas absolutas, indiscutíveis hoje em dia. E a única coisa capaz de dar sentido à vida é o absoluto. Antigamente, o valor absoluto era uma coisa transcendente, ou seja, superior a nós, como Deus e a eternidade. O valor absoluto caía do céu. Mas, agora, ele está em nós. É o que chamo de transcendência na imanência. É mais ou menos como quando alguém se apaixona: ele descobre a transcendência do outro, mas consciente de que o sentimento foi criado dentro de si. Hoje, a verdade não é mais descoberta  sob argumentos autoritários e superiores, mas na sua parte mais íntima – o coração.”

Assista Luc Ferry: A sabedoria do amor: existem três relações que podemos estabelecer com aqueles que amamos: http://youtu.be/rrT5xt1SWQI

A boa vida: morte, doença, educação e banalidades do cotidiano são questões ara além da moral: http://youtu.be/zwIfuuYgnr0

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O MOMENTO É DE REVISITARMOS KARDEC!



 Jerri Almeida

Se um grande problema no entendimento do espiritismo é o estudo fragmentado, sem conexão entre os textos de Kardec, podemos considerar que isso irá repercutir em outro problema: a não compreensão, ou compreensão distorcida e limitada, de algumas palavras utilizadas pelos espíritos ou pelo próprio Kardec. Uma leitura apressada compromete o entendimento de toda teoria. Uma palavra costumeira poderá ser empregada, dentro de uma doutrina, com outro sentido, diferente daquele que estamos habituados.  Assim, se fizermos uma leitura fragmentada, atribuiremos um significado cotidiano para certa palavra, nos distanciando do seu real significado no conjunto da teoria. Um exemplo bem significativo é a palavra “castigo” (ou “punição”), por vezes encontrada em questões (258 a., 295, 328, 714 a., 964, 973, 1009...) de O Livro dos Espíritos.
Uma leitura impulsiva, superficial, desses textos poderá levar o leitor à conclusão de que Deus castiga o ser humano em seus deslizes vivenciais. Kardec, na questão 258 a., chegou indagar: “Não é Deus, então, quem lhe impõe as tribulações da vida, como castigo?”. As crenças equivocadas que construímos sobre Deus, ao longo de séculos de teologia do medo, ao lado de explicações pueris para os sofrimentos humanos, criou um arquétipo em nosso psiquismo do Deus, como dizia Voltaire, “a imagem e semelhança do homem”. Trata-se do deus Javístico, possuidor das mesmas imperfeições humanas.
Após longos séculos de vivências de um imaginário religioso arbitrário, chegamos ao espiritismo e somos convidados por ele a mudarmos esse imaginário perverso. Ocorre que mesmo aí, o espiritismo não foi bem compreendido. Para muitos, que costumam fazer leituras fragmentadas, Deus continua castigando. Não perceberam que o termo “castigo” utilizado nas obras, longe de expressar aquele conceito teológico tradicional, traduz uma ação educativa, como consequência natural, derivada de certos movimentos das experiências vivenciais do espírito. A forma como nos movimentamos na vida, repercute como ondulações de variadas intensidades, gerando processos/estímulos que objetivam a harmonia do sistema indivíduo/evolução.
Ainda não compreendemos muitas coisas sobre Deus, o que é natural, mas já percebemos o que não deriva Dele. O espiritismo não é reducionista, sua base teórica não repousa na teologia, mas na experimentação e na filosofia, o que lhe permitiu desenvolver um pensamento aberto, antidogmático, crítico e, portanto, racionalista. Não viria ele reafirmar princípios já existentes e ultrapassados para o pensamento moderno. Por isso, chamamos atenção para o estudo meticuloso, integrado ou sistêmico das obras básicas e dos demais escritos de Kardec. Somente assim, evitaremos o entendimento simplista dos princípios espíritas.
O momento é de revisitarmos Kardec! Retomarmos o estudo meticuloso de sua variada obra, pois dessa forma, ouvindo a voz da essência, compreenderemos o que é de fato o espiritismo.

(O Semeador, outubro de 2013)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Uma história emocionante!



Quando o senhor Brown chegou ao hospital, em uma pequena cidade da Irlanda, recebeu a notícia de que sua esposa havia dado à luz a um menino. Corria o ano de 1932. O casal Brown, como seria de se esperar, havia idealizado um filho dentro dos padrões “normais”. Criaram, certamente, expectativas de estarem gerando uma criança sadia, que seguiria um desenvolvimento natural, repleto de situações alegres. Ele iria mamar, engatinhar, aprender os primeiros passos, balbuciar pequenas sílabas, falar “mamãe” e “papai”, entrar para a escola, se formar, etc.
Mas, naquele dia em que chegou ao hospital, o senhor Brown foi tomado de um enorme choque ao ouvir dos médicos que seu filho nascera com uma paralisia cerebral que lhe tiraria todos os movimentos do corpo e que, portanto, com sorte, seu filho iria ser um pouco mais que um vegetal. Nesse momento inesperado, diante da negativa de um filho idealizado, o pai, confuso, deixa-se tomar por um sentimento de fracasso por gerar um filho deficiente.
O menino, que receberia o nome de Christy Brown, possuía movimentos somente em seu pé esquerdo. Durante sua infância e juventude, Christy viveu em uma casa simples com sua família. Sua mãe cuidava, também, de seus outros filhos e se dedicava às atividades domésticas, além de passar para os filhos uma educação religiosa com base em valores éticos. O pai, de temperamento autoritário, vivia trabalhando para sustentar o lar, conforme os padrões familiares da época.
Christy observava tudo em sua volta, buscando, apesar de suas dificuldades, interagir com a família. Mas a dificuldade de comunicação era enorme devido ao comprometimento motor e a desarmonia dos músculos da face, que obstaculizavam a articulação da fala. Sua postura e sua mobilidade enfrentavam igual complicação, Dessa forma, após algum tempo, Christy ganhou um carrinho de mão para ser transportado, já que sua família não possuía recursos para comprar uma cadeira de rodas.
Movido por um grande amor pela vida, Christy Brown, ao longo do tempo, passou a demonstrar sua inteligência e sensibilidade, quer jogando futebol com seus amigos na rua, onde ficava deitado na calçada buscando com seu pé atingir a bola, ou em casa, através de olhares afetuosos para sua família. Dessa forma, vivia com um semblante de quem não desanimava diante da existência de desafios.
Talvez um dos momentos mais marcantes da vida de Christy, foi quando ele, ainda criança, segurou, com grande esforço, um giz entre os dedos do pé esquerdo e conseguiu escrever a palavra “mamãe”, diante do espanto e surpresa de toda a família. Naquela emoção que envolveu o ambiente familiar, o senhor Brown, seu pai, pega o menino nos ombros e o leva até o bar, apresentando-o a seus amigos, não como um inválido, mas como um “gênio”.
Movimentando somente seu “pé esquerdo”, Christy descobriu que podia pintar e passou a produzir quadros. Descobriu, também, a leitura e a escrita, e tornou-se escritor. Sua primeira obra foi a história de sua própria vida. Em 1959, conheceu Mary Carr, com quem terminou se casando tempos depois. O marcante em sua história não é, como alguns poderiam pensar, suas deficiências, mas a sua determinação em superá-las, não se permitindo desanimar ou deprimir.
A história de Christy Brown foi para o cinema através do filme “Meu pé esquerdo”, do diretor Daniel Day Lewis. Sua vida é uma lição de sabedoria, vivenciada em face aos desafios das limitações impostas por um corpo frágil. Christy era, no entanto, um espírito determinado, com grande potencial interior e forca de vida para ser feliz.

Do livro: O Desafio da Felicidade: em um mundo em transformação. Jerri Almeida. Ed. Francisco Spinelli, 2007.

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