domingo, 26 de maio de 2013

SOBRE A EDUCAÇÃO 1 (Ver nota no final do texto)

Discurso feito pelo jovem Hippolyte-Léon Denizard Rival (1804-1869)2

“A EDUCAÇÃO moral depende de uma multidão de causas que parecem minuciosas e que no entanto têm uma grande influência, principalmente numa idade em que o caráter, semelhante à cera mole, é suscetível de receber todas as impressões. Frequentemente um vício se manifesta numa criança sem que possamos conhecer-lhe a causa; então jogamos a falta sobre a natureza, enquanto ela provém, talvez, de uma impressão que recebeu, e que se poderia ter evitado com mais precaução. 
Na maioria de nossas instituições, as punições que são empregadas, quase sempre muito severas, quase sempre infligidas com parcialidade e num momento de impaciência, irritam a criança; ela se revolta, se enraivece contra a autoridade, e é assim que lhe damos ocasião de ser mentirosa, colérica, desrespeitosa, insubordinada, etc.: ocasiões que poderiam ter sido evitadas. Devemos nos surpreender ao ver os jovens experimentarem desgosto por seus estudos, quando nas classes tudo respira tristeza, tudo é feito para desgostar do trabalho, eu diria mesmo para fazer odiá-lo? Com efeito, como as crianças podem amar uma coisa da qual não se lhes mostra senão o lado mais desagradável, de que se servem mesmo para as punir? Como elas poderiam amar as pessoas que estão sempre ocupadas em lhes atormentar, sob os caprichos das quais elas estão continuamente em luta? Como podem elas estimar essas pessoas, quando frequentemente vêm suas ações contrariar seus preceitos? Como podem elas se tornar justas, se se é parcial com elas? Como podem ser boas se são tratadas com crueldade? O espírito da criança, naturalmente pouco preocupado, observa todas as nuances, mesmo as mais delicadas, do caráter do seu mestre e sabe aproveitá-las com habilidade. Eu vi uma criança de dez anos empregar a bajulação com tanta arte, quanto o mais hábil cortesão. O caráter frágil de um mestre a havia feito tal. Eis como havia cumprido sua tarefa de professor, sem ter, no entanto, a mínima má intenção.
 Toda prudência se faz necessária quanto à conduta que temos diante das crianças, pois facilmente criamos nelas uma boa ou má impressão. Tudo, até o próprio tom com que lhes falamos, em certas circunstâncias, pode influenciá-las. Deve causar surpresa o fato de nelas se desenvolverem vícios dos quais se ignora a fonte? Uma criança pode aprender a doçura com homens que se deixam dominar por suas paixões? Pode adquirir sentimentos nobres com almas vis? Pode aprender a ser boa com aqueles que a maltratam? Pode se tornar polida com um homem que não o é? Pode, em uma palavra, adquirir as virtudes sociais com aquele que não as possui? Sem falar dos vícios mais palpáveis, estão aí uma série de observações minuciosas que contribuem essencialmente para a formação do moral da criança. São essas atenções que se negligencia na maioria das instituições, e outras bem maiores, as quais se pode perceber sem esforços. Mas, dir-se-á, qual é o homem bastante paciente para entrar nesses pequenos detalhes? Quem é que tem suficiente império sobre si mesmo, para atentar sobre suas pequenas falas, sobre suas mínimas ações? Quem é que sacrificará, por assim dizer, sua existência, para não se ocupar senão em ser útil a seu aluno? Esse homem seria o ser por excelência. Eu respondo: O professor, tal como eu o entendo, e não um mercenário cujo objetivo é ganhar dinheiro, e que sacrifica tudo ao seu próprio interesse. A reunião de todas essas qualidades no mesmo indivíduo é difícil, eu o confesso; mas se ele não pode aspirar à perfeição, deve tratar de, pelo menos, dela se aproximar o máximo possível. A obrigação que um professor se impõe é bem difícil de preencher, é uma obrigação sagrada quando se quer fazer honrado. 
Alguém me perguntou um dia se existe um homem, tal como o que acabo de descrever, e se esse não seria um ser quimérico para o nosso século; pois eu não conheço, dizia ele, ninguém que não seja dominado por um espírito de interesse e de egoísmo, mesmo aqueles que querem parecer filantropos. Respondi que não censurava que se tivesse em vista um pouco o seu interesse, nessa parte, porque cada um deve assegurar seus meios de existência; mas que se faça disso um ramo de comércio, uma especulação; que se sacrifique o interesse (físico, moral ou intelectual) de seus alunos ao seu próprio interesse, eis o que censuro. Existem, no entanto, homens como os que descrevi, mesmo em nosso século; existem poucos, é verdade, mas é o que os torna ainda mais estimáveis. Provavelmente terei oportunidade de voltar a falar sobre este artigo, e aí darei a conhecer alguns desse homens.”

H. L. D. RIVAIL.

NOTAS
1 Le Petit Album de la jeunesse, par Alexandre de Villiers. Paris, 1825. Traduzido do francês pela equipe do GEAK.
2. Diretor de escola, membro da Academia da indústria, da Sociedade Universal de Estatística, do Instituto Histórico, da Sociedade gramatical, da Sociedade de Métodos, Correspondente da Sociedade de Emulação de Ain, etc. etc. Rivail assumiu, em 18 de abril de 1857, o pseudônimo de Allan Kardec, por ocasião da publicação da primeira obra fundamental da Ciência Espírita, em Paris, França, intitulada O Livro dos Espíritos. 

FONTE: http://geak.com.br/site/conteudo.php?id=56&idioma=1
Grupos de Estudos Allan Kardec

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O FUTURO DE QUAL ILUSÃO?


Jerri Almeida

Kardec e Freud
Em um ensaio publicado em 1927, num delicado contexto histórico que marcava o período entre guerras, Sigmund Freud procurou analisar as origens da necessidade do ser humano possuir uma crença religiosa. O texto “O futuro de uma ilusão” é o quarto de uma série de seis ensaios onde Freud aborda temas ligados à cultura e a sociedade. Ao que parece, o médico vienense pretendia combater, sob o olhar da psicanálise, os argumentos da fé religiosa, pelo menos, daquelas que ele conhecera.
Um grande amigo de Freud chamado Oskar Pfister, reverendo que havia se tornado psicanalista, pois que desejava utilizar a psicanálise em sua tarefa de “pastor das almas”, reagiu ao ensaio de Freud, escrevendo um artigo intitulado: “A ilusão de um futuro”, onde afirmava que a verdadeira fé é uma proteção contra a neurose, e que a posição freudiana era, ela própria, uma ilusão.[1]
Freud buscou explicar a origem do sentimento religioso, através dos elementos do mundo psíquico, ou seja, as ideias religiosas não são produtos da experiência, são ilusões, são a busca de realizações de desejos mais antigos e fortes da humanidade, e o segredo de sua força estaria na força desses desejos. Em suas palavras:

Já sabemos que a apavorante impressão do desamparo infantil despertou a necessidade de proteção – proteção através do amor -, que é satisfeita pelo pai; a percepção continuada desse desamparo ao longo de toda a vida foi a causa de o homem se aferrar a existência de um outro pai – só que agora mais poderoso. Através da ação bondosa da Providência divina, o medo dos perigos da vida é atenuado; (...). [2]

Ao que parece, Freud, que vinha de uma origem judaica, via no sentimento religioso uma forma de dominação e de imposição de proibições ao pensamento.  Todavia, assim como Kardec teve o bom senso de aceitar a contribuição da ciência no caráter de progressividade do conhecimento espírita, Freud por sua vez, também teve a grandeza de manifestar-se de forma muito semelhante: “Se a experiência chegasse a mostrar – não a mim, mas a outros depois de mim que pensem do mesmo modo – que nos enganamos, renunciaríamos a nossas expectativas.”[3]
Oportunamente, um amigo simpatizante do Espiritismo, mostrou-me o referido livro de Freud, presenteado a ele por um “ateu”, que tentava lhe fornecer argumentos sobre a infantilidade da fé e do sentimento religioso. Disse-me ele que jamais leria esse livro, com o qual, mesmo sem ter lido, não concordava, além de considerar um verdadeiro absurdo que alguém escrevesse um livro para dissimular a ideia religiosa. Mesmo sem lhe responder nada, a questão do livro me pareceu intrigante, bem como o comportamento do meu amigo.
Em 1869 foi publicado uma obra escrita por Kardec e ainda muito desconhecida no Brasil: “Catálogo Racional – Obras para se fundar uma Biblioteca Espírita”. Nessa publicação, Kardec escreve um capítulo onde argumenta que o espírita deveria, sim, ler obras que se colocam contra o Espiritismo. Em suas palavras: “Proibir um livro é sinal de que se o teme. O Espiritismo, longe de temer a divulgação dos escritos publicados contra si e proibir-lhes a leitura a seus adeptos, chama a atenção destes e do público para tais obras, a fim de que possam julgar por comparação.”[4]
Os argumentos de Freud sobre as manifestações mediúnicas serem um produto da atividade psíquica dos médiuns e, portanto, considerando o Espiritismo um absurdo, em nada abala a fé racional construída pelos espíritas. Percebemos, em seus escritos que ele combatia o que, de fato, não conhecia.

É aqui que entra a atividade dos espíritas, que estão persuadidos da continuidade da alma individual e que pretendem nos demonstrar que essa proposição da doutrina religiosa é isenta de dúvidas. Infelizmente, não conseguem refutar o fato de as aparições e as manifestações de seus espíritos serem apenas produtos de sua própria atividade psíquica. [5] [Grifos meus]

Faltou para Freud, nesse particular, a seriedade do investigador que examina os fenômenos com o devido cuidado, buscando analisar meticulosamente os trabalhos de Kardec, Willian Crookes, Oliver Lodge, Frederic Myers, dentre outros. Se Freud tivesse lido os textos de Kardec teria percebido que o Espiritismo jamais tentou afastar a dúvida e a racionalidade de suas investigações e conhecimentos, bem como, jamais negou a possível influencia dos médiuns nas comunicações.  Também Freud evidenciou a fragilidade de seus conhecimentos nessa área, ao relacionar o Espiritismo ao conjunto das doutrinas religiosas.
Com isso desejamos ressaltar que a fé racional, quando bem estruturada no conhecimento e na reflexão, jamais abalará os seus alicerces diante dos opositores da Doutrina. Pelo contrário, perceberá o quanto os seus argumentos são superficiais, mesmo vindos de nomes vultosos. Por isso, a fé racional é inabalável, por assentar suas bases numa estrutura sólida e lógica, que não teme o contraditório; se fortalece com ele.

NOTAS


[1] CROMBERG, Renata Udler. Prefácio. FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. Porto Alegre: L&PM, 2011.
[2] FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. Porto Alegre: L&PM, 2011. P. 83.
[3] Idem. P. 126.
[4] KARDEC, Allan. Catálogo Racional – Obras para se fundar uma Biblioteca Espírita. São Paulo: Mandras, USE, 2004. P. 85.
[5] FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. Porto Alegre: L&PM, 2011. P. 78.

domingo, 28 de abril de 2013

BURGOS DO MUNDO LÍQUIDO MODERNO


Jerri Almeida

Observa-se uma tendência crescente na sociedade atual: a proliferação dos condomínios fortemente protegidos. Diante do aumento da violência e da insegurança que permeia nas médias e grandes cidades, uma parcela das classes mais aquinhoadas, busca nos condomínios fechados proteção e  privacidade contra o mundo violento. Grandes muralhas buscam oferecer garantias contra a insegurança de quem tem medo de perder o que tem, e pode pagar mais caro por sua segurança.
 A arquitetura do século XXI, com todas as suas inovações tecnológicas, faz lembrar – paradoxalmente – do mundo medieval com suas fortificações.  Naqueles tempos vivia-se a instabilidade de uma sociedade violenta e fortemente belicosa. Saques constantes, roubos, guerras, impeliam a ascendente classe burguesa, por volta do século X, a fortalecer as feiras, onde os comerciantes da época reuniam-se para vender seus produtos.  Com o tempo, esses locais, conhecidos como burgos, passam a se transformar em verdadeiras cidades medievais.
Não somente as cidades medievais eram cercadas por muralhas, as pólis, cidades-estados da Grécia, também eram fortalecidas com o propósito de oferecer aos seus habitantes mais segurança, onde à vida, à liberdade e à propriedade, a cada instante corriam risco de se perder.
Em pleno século XXI, retomamos a mesma lógica, com um novo formato, dos burgos medievais. Os novos burgos são denominados hoje, de “condomínios”. A Revue Française de Psychanalyse, em janeiro de 1970, publicou um texto de Freud onde ele afirmava: “O termo civilização designa a totalidade das obras e organizações cuja instituição nos distancia do estado animal de nossos ancestrais e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação das relações dos homens entre si.”
 O estado de civilização tem ensejado, ao longo do tempo, certa ideia de polidez e prudência que nos “distancia” do estado de embrutecimento do homem dos períodos mais primitivos.No entanto, embora as valiosas conquistas na área da cultura e da tecnologia, o ser humano mantém sua tradição dominadora e violenta. A agressividade se alastra, no mundo liquido moderno, em proporções alarmantes, gerando um verdadeiro mal-estar na civilização. O estado de guerra é incompatível com a proposta dos elementos que compõem  a ideia de civilização: racionalidade, altruísmo, bom senso, espiritualidade... 
Os “burgos do mundo líquido moderno” nada mais são do que representações de uma civilização incompleta. Nesse sentido deixamos, para a reflexão do leitor, as seguintes questões de O Livro dos Espíritos:
791. Apurar-se-á algum dia a civilização, de modo a fazer que desapareçam os males que haja produzido? “Sim, quando o moral estiver tão desenvolvido quanto a inteligência. O fruto na pode surgir antes da flor.”
793. Por que indícios se pode reconhecer uma civilização completa? “Reconhecê-la-eis pelo desenvolvimento moral. Credes que estais muito adiantados,porque tendes feito grandes descobertas e obtido maravilhosas invenções; porque vos alojais e vestis melhor do que os selvagens. Todavia, não tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização.”

quinta-feira, 18 de abril de 2013

18 de abril: Um novo paradigma filosófico



Nosso agradecimento ao investigador Allan Kardec por desbravar, por meio de sólida metodologia (veja em: O Livro dos Médiuns – Cap. III- Método) as fronteiras entre o mundo físico e extrafísico, desvelando novos horizontes conceituais para situar o ser humano na condição de espírito imortal e pluriexistecial, em sua marcha evolutiva pelas veredas da vida. O Livro dos Espíritos, surgido em 18 de abril de 1857 na capital francesa, e vendido pela primeira vez na Livraria Dentu, na Galeria d`Orléans, no Palais Royal, é a síntese histórica desse novo paradigma filosófico. 

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