sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
O MUNDO ÀS AVESSAS
Nas sociedades antigas, anteriores à Era Cristã, as festas pagãs estavam fortemente vinculadas às mudanças de estação, configurando os ritos de passagem. As cerimônias de passagem e de purificação compunham, no universo das representações, a transição do inverno (estação que simbolizava a morte) para a primavera, que anunciava o renascimento da vida. As “saturnalias”, por exemplo, eram festividades oferecidas a Saturno, o deus da fertilidade e, ao qual, associava-se a idéia da abundância e do excesso.
Por ocasião desses festejos, instituiu-se uma espécie de reversão da ordem social. Momentaneamente, os escravos assumiam a posição dos senhores, sendo-lhes permitido gozar dos benefícios da classe dominante, em meio a muita comida e bebida. Vivia-se um período festivo onde buscava-se a transgressão temporária da ordem estabelecida. Tais festejos e cerimônias, onde certos participantes usavam máscaras (de animais), dançavam, cantavam e cometiam excessos sexuais, atingem, também, o mundo medieval.
A palavra “carnaval” teria, no mínimo, um duplo significado: o primeiro estaria vinculado aos excessos cometidos também em relação à alimentação, daí: “carne vale”; ou, numa segunda hipótese, em referência aos carros alegóricos utilizados nos cortejos: “curris navalis”. Seja como for, o fato é que a “festa dos loucos”, assim denominada na Idade Média, permitia a exaltação dos pobres e oprimidos, na reversão momentânea de suas posições sociais, liberando seus desejos e imaginação.
Na prática, essa tradição ancestral, permeada de sincretismo – com suas variações – fazia parte da cultura dos Celtas e Germânicos, povos extremamente importantes na formação da Europa medieval. Esses festejos, muito embora o confronto com a Igreja Católica, terminaram sendo incorporados na cultura Ocidental cristã.
Para o filósofo russo Bakhtin, o carnaval representava o “mundo às avessas”, pois originava um mundo “não-oficial”, exterior à Igreja e ao Estado. Assim, o tempo do carnaval ficava pleno de possibilidades e deixava de ser mediado pelas categorias usuais que distinguem os indivíduos: riqueza, posição social, poder, etc.
A rigor, adotando-se o viés da “loucura”, ou “loucos” (foliões) poderiam agir com extrema liberdade na manifestação de seus impulsos reprimidos pela ordem religiosa e social vigentes. Todavia, deste o século IV, a Igreja havia instituído o período da quaresma: nos quarenta dias que antecediam a Páscoa os fiéis eram constrangidos a viverem em abstinência da carne (menos de peixe), de sexo e de divertimentos. Isso objetivava um duplo fim: fazer os fiéis relembrarem anualmente o martírio, morte e ascensão de Cristo, e puni-los pelos excessos cometidos no ciclo festivo de inverno (no hemisfério norte), o carnaval.
A “festa dos loucos”, trazida pelos portugueses, chegou ao Brasil por volta do final do século XVI. Provavelmente foi nesse período que se introduziu no Brasil o Entrudo. Trazidos por colonizadores portugueses das ilhas da madeira, açores e cabo, No Entrudo as pessoas se jogavam água suja, farinha, ovos, etc. Essa “brincadeira” era praticada em família e, mesmo, nas ruas, gerando-se um problema para as autoridades locais. Para muitos pesquisadores, há uma relação próxima entre esse divertimento e o carnaval. Nesse caso, ocorreu provavelmente, pelo processo histórico, uma fusão ou mescla entre esses dois elementos, definindo novos comportamentos socioculturais.
No período monárquico brasileiro, a elite aderiu, obviamente, ao modelo de festa carnavalesca européia, principalmente o de Veneza. Aderiu-se aos bailes de máscara em clubes e teatros. Segundo o antropólogo Roberto Damatta, a partir de 1840 é que os chamados bailes de clubes passaram a ganhar mais espaço na sociedade carioca. Antes disso, o carnaval, no Brasil, era uma espécie de festa familiar e de bairro.
Mesmo no início do século XX, por mais que a presença popular fosse ganhando espaço, o carnaval ainda continuava uma festa para os mais abastados. Todavia, foi com o governo de Getúlio Vargas, a partir dos anos 30, que os interesses políticos vigentes permitiram que o carnaval brasileiro assumisse uma matriz mais popular, também de influência negra. Pode-se dizer que no período do Estado Novo (1937-1945), Getúlio buscou a definição de uma “identidade nacional” para o Brasil. Com isso, o carnaval passou a ser trabalhado como um dos três pilares dessa identidade, funcionando como uma espécie de ”festa agregadora” na nacionalidade.
O carnaval não é, portanto, uma festa tipicamente brasileira. Em Nova Orleans (EUA) o carnaval começa em 6 de janeiro. Em Veneza, o carnaval ocorre ao longo de dez dias, iniciando em 6 de fevereiro. É um carnaval mais comportado, com as tradicionais máscaras e fantasias que remetem a realeza do passado. Não há músicas características. Na programação se inclui até shows de jazz. Já na Inglaterra o carnaval é celebrado somente em dois dias do feriado bancário do mês de agosto. A festa londrina, por exemplo, envolve desfiles e comilança farta.
Em seu livro, “Carnavais, Malandros e Heróis”, Damatta situa o carnaval no universo dos rituais brasileiros, onde uma parcela mais despossuída da sociedade ganha o centro das avenidas e o foco das atenções.
É nesses dias que a “atriz global” vai ao encontro dos pobres e anônimos integrantes das escolas de samba, para “aprender” sobre o desfile e ensaiar os passos certos. Esse parece ser um rito que pretensa e superficialmente, assume o papel de homogeneizar as categorias sociais. Categorias que, via de regra, estão à margem da sociedade. Dessa forma, os ritos “revelam coisas”, mas também “encobrem coisas”.
Referências
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Hucitec/Unb, 1987.
DAMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis. Para uma sociologia do dilema brasileiro. 6a. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
MACEDO, José Rivair. Riso, Cultura e Sociedade na Idade Média. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 2000.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
ESPIRITISMO E POLITICA
Embora se preocupe diretamente com o melhoramento ético e moral do homem, o pensamento espírita não se exime de analisar a dimensão política da vida em sociedade. Allan Kardec, quando tratou dos fins e formação das Sociedades espíritas, no Capítulo 30 Art. 1º. de O Livro dos Médiuns, advertiu que as “questões políticas” deveriam delas se manter afastadas. A preocupação de Kardec era certamente pertinente, considerando-se que as Instituições espíritas jamais devem assumir posicionamento político-ideológico ou político-partidário. Nesse sentido, podemos considerar que não há uma aproximação direta entre Espiritismo e política.
Léon Denis foi enfático ao considerar: “A influência do Espiritismo no progresso da sociedade se processa, não no estímulo à luta de classe, mas no campo íntimo, ampliando os horizontes sobre a natureza humana e sua destinação.” [1] As relações com o poder temporal fizeram, historicamente, muitas instituições religiosas respeitáveis tombarem ante seus fins mais profundos.
Mas o ser humano, diante das contingências evolutivas da Terra, é, na definição de Aristóteles, um “animal político”. No plano da individualidade, o espírita é alguém que está inserido na sociedade e que, portanto, como todo cidadão, possui responsabilidades com sua formação política, mesmo que não necessariamente partidária. Platão já dizia que, mesmo que o indivíduo não goste da política, será governado por políticos. Não devemos como cidadãos e, espíritas em particular, assumirmos uma postura de simples “indiferença” ao universo político que nos envolve.
Há uma problemática histórica no Brasil, onde o povo foi afastado das decisões, posto como um mero expectador das relações de poder. A sociedade brasileira viveu uma experiência democrática muito reduzida. Isso distanciou o indivíduo de seu protagonismo social, alienando-o das decisões políticas. No final dos anos 80, retomamos uma via democrática fundamental para o exercício das eleições e das escolhas que instituem uma sociedade mais horizontalizada.
A democracia, no dizer do saudoso professor Deolindo Amorim, é o regime que melhor corresponde à índole da Doutrina Espírita, pois a estrutura filosófica do Espiritismo não se adapta a nenhuma forma de poder totalitário. Afirmando, ainda, que: “A democracia é regime de conciliação, de equilíbrio, porque repele instintivamente qualquer hegemonia e permite a participação de todos no progresso comum, sem distinção de classes.” [2]
Fazer escolhas e opções faz parte determinante de nossa caminhada evolutiva. É nesse sentido que enquadra-se o pensamento aristotélico do “ser político”. A noção de “maturidade humana” engloba as responsabilidades inerentes aos papéis sociais. Ser cidadão é um desses papéis.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
O TEMPO E NÓS!
O tempo há de poder acolher o espírito, por assim dizer. E o espírito há de ser, por sua vez, afim com o tempo e com a sua essência.
Heidegger
Narra-se, no vasto universo da mitologia grega, que Urano, o Céu, fez cair sobre a Terra o seu sêmen e, desta união, nasceram as Titânidas e os Titãs. Dentre os Titãs encontrava-se Cronos, o Tempo. Sem piedade, Cronos devorava seus próprios filhos, da mesma forma que o tempo devora as criaturas humanas. Mas Zeus, um de seus filhos, consegue escapar e, por esse fato, conquista a imortalidade. Mais tarde, Zeus, retira seu pai do poder, tornando-se o mais importante deus grego. Mas Zeus, conforme era comum nas narrativas míticas, casa-se com uma mulher não-humana, uma Titânida chamada Mnemósine, a Memória. Mnemósine era irmã de Cronos, portanto, a memória é irmã do tempo.
Essa narrativa nos permite refletir sobre a interessante relação entre a memória e o tempo. Recordamos-nos de um tempo nostálgico quando ouvimos determinada música. Ao revisarmos antigas fotos de família nos lembramos de pessoas queridas que não mais estão conosco. Passamos por determinado bairro, onde vivemos nossa infância e, imediatamente, nossa memória volta no tempo, reconstituindo certas lembranças que nos marcaram. Assim, o painel vivo de nossa memória guarda o manancial de nossas vivências e experiências ao longo do tempo.
Existe um tempo para ser feliz? Para muitas pessoas sim! Certamente não é necessário examinarmos mapas estatísticos sobre o assunto – para percebermos que um número significativo de pessoas vivem condicionando a sua felicidade a uma dimensão temporal: quando se era solteiro, quando era jovem, quando tinha saúde, quando os filhos eram pequenos. Ou então, projeta-se a felicidade para o tempo futuro em forma de expectativas, sonhos, metas, conquistas: quando me casar, quando me formar, quando comprar minha casa própria, quando ver meus filhos criados, quando..., quando..., quando....
Em tais circunstâncias, a vida atual vai se cercando de amargor, perdendo o seu brilho e sua motivação. A pessoa, enclausurando mentalmente sua felicidade no passado, vai perdendo os referenciais da alegria e da jovialidade, cedendo espaços à melancolia e, muitas vezes, à depressão. O “sentir-se feliz” é um prestimoso aliado da saúde humana por vincular-lhe o otimismo indispensável.
A experiência humana pode ser muito rica no presente, tanto como foi no passado, ela só depende da disposição de cada pessoa. Disposição que começa por se libertar das amarras do passado, visando viver com consistência o presente. Isso não significar esquecer o passado, mas aproveitar-lhe as experiências, ditosas ou não, para fazer florescer no hoje a meta do bem. O passado é irrecuperável, somente servindo como experiência norteadora para os atos do presente. O passado está inscrito na linhas inalienáveis do tempo e, portanto, não pode ser mudado.
Viver de recordações ou se atormentar com as aspirações não é uma atitude saudável, isto é, o foco de nossas atenções e ações deverá, sobretudo, estar direcionado para o enriquecimento do presente. Não se trata de: “viver intensamente os prazeres do mundo”, mas viver de forma natural, sem ansiedades exageradas em relação ao futuro nem de ressentimentos ou mágoas que nos prendem ao passado. Nesse aspecto, os sentimentos de perdão e de confiança, aliados à esperança e à determinação, serão, por excelência, os sentimentos fundadores de um estado mental positivo e saudável.
Há pessoas que vivem das lembranças de suas desgraças e perdas, recusando-se obstinadamente a viver a felicidade no presente. Rancores e ódios se avolumam, projetando suas sombras do passado, no presente de quem os mantêm vivos na memória. A fragrância do amor ensinado e vivido por Jesus nos convida, a cada novo dia, a vivência do perdão e da compreensão enquanto instrumentos de libertação psicológica de fatos e ocorrências desagradáveis do passado, recente ou remoto.
Ensina o espiritismo que o ser humano está num processo de constante crescimento ético-espiritual, decorrendo o futuro de como vivemos o hoje. Daí, o sentido da temporalidade atual estar no foco do nosso destino mediato e imediato. Entretanto, projetar a felicidade para o futuro, enclausurando-a em suas metas, sonhos e conquistas é viver num constante “vir-a-ser”. Nós necessitamos viver o presente.
O poeta romano do século I, Horácio, costumava dizer que deveríamos “aproveitar o dia” (Carpe diem). Mas no passado, como no presente, a ideia de aproveitar o dia, muitas vezes tem assumido um ar de superficialidade, sendo vinculada à “lei do menor esforço” ou, ao gozo do prazer imediato. Para Kant (1724-1804), as pessoas deveriam se comportar com base em um código moral interno e, nesse código, estaria a base das ações corretas: “Age apenas segundo aquela máxima que possas querer que se torne uma lei universal.” Gostaríamos que a intolerância se tornasse um sentimento geral? Que a exploração do homem sobre o homem se generalizasse? Se não desejamos que algo se torne uma lei universal então não deveremos praticá-lo. Kant diz, com outras palavras, aquilo que é a essência da “ética cristã”, ou seja, “Faça somente aos outros o que desejarias que os outros te fizessem.” Isso é o mais admirável princípio ético de todos os tempos.
Voltando para a mitologia, agora romana, Jano era cultuado como o “deus dos inícios”. Divindade responsável pelo fim de uma etapa e início de outra. No calendário romano e depois cristão, deu origem ao nome “janeiro”, definido como o primeiro mês do ano. Dezembro, último mês do ano representa matemática e simbolicamente o fim de uma etapa, com suas experiências, acertos e desacertos, méritos e deméritos, felicidades e desditas. Vivemos na órbita do tempo e de suas representações.
O relacionamento humano com o tempo carrega uma forte bagagem de subjetividades ancoradas na memória que, aliás, na mitologia grega, é a irmã de Cronos. O tempo é depositário das lembranças, dos fatos vividos em família, com amigos, dos afetos e desafetos. Boas e más recordações fazem parte da vida. Algemar-se ao passado, principalmente sobre os eventos negativos, é algo que exige ser bem administrado pelo departamento da inteligência e dos sentimentos. Em nada contribui uma fixação melancólica no passado, uma vez que essa fixação, normalmente, retira da pessoa o foco principal de sua vida: o presente.
Ao aproximar-se o período de final de ano, pessoas há que se dizem envolver, sem que saibam explicar, por uma boa dose de tristeza e melancolia. Ficam quietas, buscam o isolamento evitando festas e diversões. A psicologia busca uma possível explicação para esse fenômeno em prováveis conteúdos inconscientes, vividos consciente ou inconscientemente, em algum momento da vida e que, por algum motivo, afloram nessa época: a perda de uma pessoa, um desencanto amoroso, objetivos alimentados durante aquele ano mas não atingidos, etc.
Nem todos, portanto, estão convencidos de que devem comemorar, ufanisticamente, a virada do ano. Alguns preferem o silêncio. Familiares e amigos muitas vezes não compreendem, nem respeitam, tais posturas. Cada pessoa tem sua própria forma de reagir a essas representações do tempo, pois isso mexe com conteúdos profundos de nossa alma.
Ocorre, na lógica comum, que comemorar o fim de ano é fazer o que todos fazem: vesti-se de branco, se possível ir para a beira da praia, tomar champanhe e terminar a noite numa boate ou a um show qualquer, uma verdadeira festa de passagem. Quem adota outro comportamento que fuja dessas convenções é considerado uma espécie de “subversivo”, ou deve “estar doente”.
O relacionamento do homem com o tempo possui uma dimensão cultural, simbólica, idílica ou lúdica. O final do ano, nesse contexto representa uma forte tradição cultural no universo dos rituais de passagem, herdeiros do imaginário ancestral, e dos rituais pagãos. O fato é inquestionável: somos seres fortemente influenciados pela noção de tempo. Parece haver um tempo para tudo, e comportamentos convencionados para cada situação. Negar-se a aceitar essas representações do tempo sobre nós, parece ser tarefa quase revolucionária, anarquista mesmo!
Mas, como tantas outras revoluções, que expressão até certo ponto a rebeldia humana, o rebelar-se contra o tempo, seus significados e efeitos sobre nós não mudará a temporalidade das coisas. Será uma batalha perdida! Melhor, talvez, seja aprendermos a conviver bem com o presente e tudo o que dele possamos extrair para torná-lo pleno de possibilidade e de ações afirmativas na composição de um ser humano mais ético e solidário.
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