segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A SÍNTESE KARDEQUIANA


Maurice H. Jones

Segundo o filósofo e pacifista britânico Bertrand Russel, a Filosofia é algo que se situa entre a Teologia e a Ciência. Todo o conhecimento definido pertence à Ciência e todo dogma, pertence à Teologia. Mas, entre a Teologia e a Ciência existe um território de ninguém, onde as nossas reflexões, as nossas idéias, os nossos mais simples pensamentos, transitam sem dificuldades, sem formalismos – esta terra de ninguém é uma terra de todos: é o chão da Filosofia.
O mundo, indaga ele, está dividido em espírito e matéria?  Se assim é, o que é o espírito e o que é a matéria? Quem está sujeito a quem? Será o espírito dotado de alguma independência?  Possui o universo alguma unidade ou propósito e se possui estará ele evoluindo a caminho da sua finalidade? Será que existem mesmo leis da natureza ou acreditamos nelas devido ao nosso amor pela ordem? Existe alguma maneira de viver que seja mais nobre ou menos nobre? Em que consistiria o modo de vida nobre e como realizá-lo?
Evidentemente não encontraremos respostas a estas questões nos laboratórios. Responder a elas é empenho da Filosofia pois, se nem  todas as nossas especulações podem ser respondidas pela Ciência, é também verdade que  as respostas confiantes dos teólogos, aceitas no passado, já não nos convencem mais,  conclui o pensador na suaHistória da Filosofia Ocidental”.
Seria o Espiritismo numa resposta inteligente a estas profundas questões de ordem filosófica? Vários elementos que estruturam o pensamento espírita respondem positivamente a esta indagação e o credenciam como um modo moderno, ventilado e revolucionário de percepção do homem e do mundo, bem como precioso instrumento pedagógico para o autoconhecimento e controle racional da própria evolução. 
O grande problema da ética como estudo racional da moralidade se resume em saber se é desejável ser bom e, em caso afirmativo, como pode ser o homem persuadido a ser bom. A esta intrigante questão o Espiritismo responde com a idéia da evolução e, sobretudo, com os princípios da reencarnação e da causalidade que oferecem substrato racional riquíssimo para a adoção consciente de um modelo comportamental fundamentado na tolerância racial e social, configurando assim a ética natural, sonhada por Sócrates, capaz de construir um sistema de moralidade independente de credos teológicos.
Na visão do filósofo J.Herculano Pires, o Livro dos Espíritos, veículo privilegiado destas ideias inovadoras, mesmo não tendo sido elaborado em linguagem técnica e nem observe as minúcias da exposição filosófica, revela todo um complexo e amplo sistema de filosofia. É, portanto,  o arcabouço filosófico do Espiritismo.
Como se vê, Kardec não foi um filósofo na acepção mais usual do termo, nem exatamente um cientista. Foi, isto sim, e acima de tudo, um extraordinário pedagogo, qualificação essencial para a compreensão e propagação do Espiritismo até os dias atuais.
A precoce percepção de que somente a educação e o amor poderiam encaminhar solução para os problemas sociais e morais do seu tempo fez de kardec  herdeiro natural de uma magnífica linhagem de educadores que começa, no século XVII, com Comenius, o pai da didática moderna, passa, no séc. XVIII, pelo filósofo J.J. Rousseau e seu “Emílio”, terminando  no grande e sábio mestre da educação como ato de amor, J.H. Pestalozzi.  
Como um estuário das correntes de idéias mais generosas e libertárias que irrigaram a cultura da Europa desde a renascença, Kardec chegou à maturidade equipado, moral e intelectualmente, para a grande tarefa de sua vida: a construção de uma síntese conceptual do mundo moderno, a Codificação Espírita, centrada na idéia da evolução e na realidade e primado da vida espiritual.
Esta extraordinária façanha, resultado do trabalho de homens encarnados, assessorados por homens desencarnados, tornou-se possível, no tempo e no espaço, pela feliz conjugação de fatores políticos, sociais, econômicos e culturais aliados à sensibilidade, lucidez e coragem do mestre educador Hippolyte Léon Denizard Rivail cujo bicentenário de nascimento estamos comemorando neste 3 de outubro de 2004.
Segundo muitos historiadores, o Renascimento  e a Reforma Luterana são as duas mais importantes nascentes da história moderna. Uma libertou o espírito e embelezou a vida, oferecendo ao homem o direito à felicidade aqui na terra; a outra estimulou a crença e o senso moral. As idéias contidas no bojo destes movimentos, propagadas pelas facilidades oferecidas pela descoberta de Gutenberg e dinamizadas pela revolução conceptual produzida pela descoberta da América e pela revelação de Copérnico, varreram a Europa a partir do final do Séc. XV e início do Séc. XVI, desencadeando uma  irresistível avalanche de mudanças, crises  e conflitos ideológicos num mundo cansado do repouso medieval e ansioso pela descoberta de novos mundos, novos caminhos, novas idéias.
No Século XVIII o Renascimento cede espaço para o Iluminismo que, tendo razão e liberdade como estandarte, enfrenta a superstição e a opressão, produzindo significativa redução de importância da Igreja e influindo por seus princípios na independência dos Estados Unidos e na Revolução Francesa, fatos que, entre outros, assinalam o colapso da França feudal, uma importante ampliação das liberdades civis e a transição da Idade Moderna para a Contemporânea.
Se acrescentarmos a este sintético painel o crescimento exponencial da população a partir de 1750 em função de avanços na produção agrícola, higiene e medicina e mais a revolução industrial iniciada na Inglaterra provocando intenso deslocamento das populações rurais para as cidades com todo o conjunto de conseqüências sociais, políticas e econômicas, encerraremos o século das luzes já experimentando um certo cansaço da arrogância racionalista e criando espaço para o surgimento do Romantismo que valorizando o sentimento caracteriza o século XIX, o século de Kardec.
O nascimento em 1804 e a formação intelecto-moral  do futuro Codificador do Espiritismo ocorre em plena era de Napoleão que, no mesmo ano é coroado Imperador  e promulga o Código Civil dos Franceses ou “Código de Napoleão”, de importância decisiva no direito ocidental e, conforme o próprio Imperador, sua maior obra.
Kardec era um homem da sua época, cosmopolita, sensível, arguto e naturalmente aberto às influências mais nobres que a história e a experiência lhe ofereciam. Enquanto aprimorava sua formação no Instituto de Pestalozzi em Yverdon e, depois, na vida profissional, como educador, outros acontecimentos ocorriam, com enorme significado e presença na sua futura e máxima obra.
Além dos importantes desdobramentos geopolíticos do período napoleônico, podemos identificar as revolucionárias teorias evolucionistas de Lamark e Darwin de enorme repercussão,  a Filosofia Positivista de Auguste Comte e, até, o Manifesto Comunista de Marx e Engels, produto da agitação social da nova classe operária.
Neste cenário imponente e desafiador, buscava-se afanosamente um novo modelo conceptual para o tempo novo que surgia, pois os paradigmas vigentes haviam esgotado a capacidade de oferecer segurança e identidade.  É então que, já maduro e sensível às inquietações do seu mundo e à convocação do mundo espiritual, Kardec aceita a responsabilidade de liderar o grande esforço para construção de uma nova visão de homem e de mundo, humanista e dinâmica, na qual razão e sentimento pudessem, harmonicamente, buscar a verdade.
E assim, como uma flor tardia da primavera iluminista, nascida no solo adubado pelo romantismo de Rousseau e Pestalozzi, surgiu o Espiritismo que, com seu “humanismo espiritocêntrico”, busca superar, dialeticamente, o conflito entre o pensamento medieval centrado em Deus e o humanismo organocêntrico da renascença e iluminismo. A cosmovisão inovadora e sintética oferecida por Karde ao mundo nascia, robusta e perturbadora, desafiando os paradigmas senis e anunciando, no dizer do físico inglês Oliver Lodge, “uma nova revolução copérnica”.
                                                                                                
                                                                                                       25/09/2004


domingo, 16 de novembro de 2014

APRECIAÇÃO SOBRE O LIVRO: "KARDEC E A REVOLUÇÃO NA FÉ"

Meu caro Jerri:

    Terminei, dias atrás, a leitura de seu excelente "Kardec e a revolução na fé", mas, como estava envolvido no encerramento da edição de novembro do jornal Opinião, só agora encontrei tempo para cumprimentá-lo pelo trabalho. Aliás, no Opinião que deverá sair nos próximos dias, redigi uma nota sobre o livro, recomendando sua leitura. Já adquirimos alguns exemplares para vendê-lo no CCEPA.
    Referi, na nota, que seu trabalho retoma temas que foram preocupações de grandes escritores espíritas brasileiros como Deolindo Amorim e J.Herculano Pires. É ótimo que seja assim, em momento em que a maioria das publicações "espíritas" se distancia da racionalidade filosófica kardequiana, para se dedicar quase que exclusivamente a produções pretensamente mediúnicas de baixa qualidade. Vejo no seu trabalho a retomada de reflexões muito bem postas especialmente por Herculano, mas, também, ouso afirmar que, em alguns aspectos, você supera Herculano Pires, imprimindo ao texto uma linguagem mais amena e com melhor abertura ao livre-pensamento. A fé espírita, para você, diferentemente do autor de "O Espírito e o Tempo", fortalece mais a dúvida filosófica do que algumas "certezas" que Herculano entronizou como definitivas.
    Dentre outras tantas qualidades, seu livro é resultado de uma atenta busca de conteúdos da "Revista Espírita", aquele verdadeiro laboratório de ideias, em cujas páginas Kardec gestou e deu corpo a um gênero de fé perquiridor, liberto do espírito de sistema das religiões e ideologias e aberto, sempre, à progressividade do conhecimento humano.
    Parabéns por seu trabalho. Espero que continue enriquecendo a cultura espírita com outras obras, nessa mesma linha independente e destemida.
    Se isso poderá contribuir com a divulgação de sua obra, você e sua editora estão inteiramente autorizados a divulgar, onde quiserem, a opinião pessoal acima dada. Agora, e apenas para sua reflexão, me permito a seguinte observação:
    Há algum tempo, deixei de utilizar, em meus escritos ou em palestras, expressões como: Jesus Cristo, moral cristã, cristianismo, etc., como ideias afins ao espiritismo.
    Com o desenvolvimento dos estudos que separam a figura mitológica de Jesus Cristo, o deus que se fez homem para salvar a humanidade, e que é a base teológica do "cristianismo", da figura histórica de Jesus de Nazaré, nós, espíritas, devemos contribuir para a melhor compreensão de um e de outro.
    Aliás, quem primeiro atentou para isso, no meio espírita, foi o próprio Herculano Pires, na Introdução de "Revisão do Cristianismo", onde traça em belíssimo texto as diferenças entre Jesus Cristo, o deus cristão, nascido de uma virgem,  e Jesus de Nazaré, o homem apontado pelo Livro dos Espíritos como "modelo e guia da humanidade". Pena que Herculano, apesar disso, tivesse continuado a se referir a "Jesus Cristo" ou "ao Cristo" e insistido nessa ideia do "cristianismo redivivo", etc. que, me parece, são incompatíveis com as ideias modernas e progressistas assumidas pelo espiritismo.
    Penso que quando nos referimos a Jesus como "o Cristo", no espiritismo, estamos reforçando essa ideia salvacionista, do "ungido", "filho unigênito de Deus", enviado à Terra para resgatar o homem do pecado original, ideia central do cristianismo que à fé racional espírita não faz nenhum sentido.
    Bem, estou transmitindo ao amigo uma reflexão que, para nós, da CEPA, hoje, implica num consenso, que fomos construindo ao curso das últimas décadas. Sabemos muito bem que o próprio Kardec se utilizou daquelas expressões e, em alguns momentos, também se valeu de conceitos "cristãos", incompatíveis, hoje, com uma visão progressista e mais racional de espiritismo. Mas, como formamos um movimento à margem, sem compromisso com a terminologia "oficial", para nós fica mais fácil esse trabalho de atualização não apenas de conceitos, mas também de linguagem. Sei - porque já senti isso na carne - que para quem ainda está vinculado ao sistema organizacional espírita, é mais difícil esse tipo de contestação. De qualquer maneira, fica a observação e o desejo, inclusive, de trocarmos ideias a respeito do tema.
    Não se trata, absolutamente, de uma crítica ao seu livro, que guarda inteira fidelidade às ideias e à linguagem de Kardec, mas de um convite a uma reflexão que pode estar abrindo um novo caminho, mais independente, mais livre-pensador, mais moderno, ao espiritismo. Sei que essas ideias nos aproximam muito.

    Um abraço afetuoso.

    Milton Rubens Medran Moreira


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

AMO, LOGO EXISTO!

Jerri Almeida


Um dos assuntos, seguramente, mais discutidos e inquietantes do pensamento ocidental, o amor vem alimentando o imaginário humano há milênios. Desde Platão, os filósofos refletem sobre o significado e a abrangência do amor, seus limites e possibilidades em oferecer uma vida boa e virtuosa. Em seu livro O Banquete, Platão apresenta diversos oradores discursando sobre o Amor, ou o que considera: “um discurso em louvor a Eros”.
Entre eles está Sócrates, que usa um mito para explicar o Amor: Eros é descendente de Poros (Riqueza) e de Penia (Pobreza). “Pela influência da natureza que recebeu do pai, Eros dirige a atenção para tudo que é belo e gracioso”. “É capaz de desabrochar e de viver, morrer e ressuscitar no mesmo dia. Come e bebe, dá e se derrama, sem nunca estar rico ou pobre”. Nesse sentido, a questão do Amor não se resume, tão somente, à procura do outro, como afirmou Aristófanes, mas na ânsia de uma realização mais profunda: o desejo de procriação do belo.
Dessa forma, Platão julga que o Amor é um desejo cuja principal função é criar a virtude (e “a mais alta de todas as virtudes é o saber”) através da beleza.  O Amor, portanto, seria toda aspiração ou impulso, em geral, na direção das coisas boas, do bem e da felicidade.
O filósofo alemão Erich Fromm, em seu magnifico livro: A Arte de Amar, afirmava que: “O amor genuíno é uma expressão de produtividade e implica cuidado, respeito, responsabilidade e conhecimento”. Não seria o amor, a própria arte de viver? Mas seria ele incondicional?  Alguns pensadores o associam a sexualidade e ao prazer, outros, às virtudes da alma, outros ainda, como é o caso do filósofo Simon May, o definem como “o enlevo que sentimos por pessoas e coisas que inspiram em nos a esperança de uma fundação indestrutível para nossa vida.”
Estudado em várias áreas do conhecimento, o certo é que o amor ainda é um belo desconhecido. Num mundo em crise de referenciais afirmativos da vida, não seria o amor uma resposta para a humanidade da humanidade? Nesse sentido, como situar a paradoxal afirmativa do “matou por amor”?  Onde a fronteira entre amor e ódio? Como situar o amor no plano das relações familiares, quase sempre permeadas de conflitos?
Dos célebres romances como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, o amor romântico se tornou, para usarmos uma expressão do sociólogo polonês Zymunt Bauman, por demais “líquido”, descartável, numa sociedade profundamente consumista. Seria esse, no entanto, o desfecho trágico do amor no mundo contemporâneo?
A filosofia espírita oferece vários horizontes de reflexão sobre o assunto. Sem restringi-lo, a esse ou aquele aspecto, o espiritismo lança o tema numa nova ordem de fatores, associando-o a Lei Natural da vida e, portanto, ao processo de evolução do espírito. Amar é um imperativo do progresso moral, é o lançar-se na existência abrindo, como bem alertou Herculano Pires, as perspectivas do altruísmo. 

Fonte: O Semeador, outubro de 2014. Editorial (Órgão de divulgação da Sociedade Espírita Amor e Caridade - Osório-RS)

Pesquise no Blog

Loading

TEXTOS/ARTIGOS ANTERIORES