quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O RITUAL DE PASSAGEM


Na mitologia grega, quando Urano, o Céu,  fecunda a Terra, nasce a geração dos Titâns e, dentre eles, Cronos, o tempo. Com extrema ferocidade, Cronos devora os seus próprios filhos, com exceção de Zeus que resiste ao tempo, conquistando a imortalidade. O tempo é implacável! É rápido como um raio de luz que cruza o ambiente com uma rapidez audaz, imperceptível. O tempo é dominador, subjuga as criaturas humanas de forma indelével e a faz suas escravas.
Voltando para a mitologia, agora romana, Jano era cultuado como o “deus dos inícios”. Divindade responsável pelo fim de uma etapa e início de outra. No calendário romano e depois cristão, deu origem ao nome “janeiro”, definido como o primeiro mês do ano. Dezembro, último mês do ano representa matemática e simbolicamente o fim de uma etapa, com suas experiências, acertos e desacertos, méritos e deméritos, felicidades e desditas. Vivemos na órbita do tempo e de suas representações.
O relacionamento humano com o tempo carrega uma forte bagagem de subjetividades ancoradas na memória que, aliás, na mitologia grega, é a irmã de Cronos. O tempo é depositário das lembranças, dos fatos vividos em família, com amigos, dos afetos e desafetos. Boas e más recordações fazem parte da vida. Algemar-se ao passado, principalmente sobre os eventos negativos, é algo que exige ser bem administrado pelo departamento da inteligência e dos sentimentos. Em nada contribui uma fixação melancólica no passado, uma vez que essa fixação, normalmente, retira da pessoa o foco principal de sua vida: o presente.
Ao aproximar-se o período de final de ano, pessoas há que se dizem envolver, sem que saibam explicar, por uma boa dose de tristeza e melancolia. Ficam quietas, buscam o isolamento evitando festas e diversões. A psicologia busca uma possível explicação para esse fenômeno em prováveis conteúdos inconscientes, vividos consciente ou inconscientemente, em algum momento da vida e que, por algum motivo, afloram nessa época:  a perda de uma pessoa, um desencanto amoroso, objetivos alimentados durante aquele ano mas não atingidos, etc.
Nem todos, portanto, estão convencidos de que devem comemorar, ufanisticamente, a virada do ano.  Alguns preferem o silêncio. Familiares e amigos muitas vezes não compreendem, nem respeitam, tais posturas. Cada pessoa tem sua própria forma de reagir a essas representações do tempo, pois isso mexe com conteúdos profundos de nossa alma.
 Ocorre, na lógica comum, que comemorar o fim de ano é fazer o que todos fazem: vesti-se de  branco, se possível ir para a beira da praia, tomar champanhe e terminar a noite numa boate ou a um show qualquer, uma verdadeira festa de passagem. Quem adota outro comportamento que fuja dessas convenções é considerado uma espécie de “subversivo”, ou deve “estar doente”.
O relacionamento do homem com o tempo possui uma dimensão cultural, simbólica, idílica ou lúdica. O final do ano, nesse contexto representa uma forte tradição cultural no universo dos rituais de passagem, herdeiros do imaginário ancestral, e dos rituais pagãos. O fato é inquestionável: somos seres fortemente influenciados pela noção de tempo. Parece haver um tempo para tudo, e comportamentos convencionados para cada situação. Negar-se a aceitar essas representações do tempo sobre nós, parece ser tarefa quase revolucionária, anarquista mesmo!
Mas, como tantas outras revoluções, que expressão até certo ponto a rebeldia humana, o rebelar-se contra o tempo, seus significados e efeitos sobre nós não mudará a temporalidade das coisas. Será uma batalha perdida! Melhor, talvez, seja aprendermos a conviver bem com o presente e tudo o que dele possamos extrair para torná-lo pleno de possibilidade e de ações afirmativas na composição de um ser humano mais ético e solidário.  

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O NATAL

Jerri Almeida

Os historiadores do cristianismo empenham-se por encontrar os indícios materiais que comprovariam a existência do homem Jesus. Além da Bíblia, encontramos outras poucas referências a Jesus em autores como Flavius Josephus, um historiador judeu do primeiro século. Em sua obra: Antiguidades , ele afirma: “Havia por aquele tempo Jesus, um homem sábio, se for direito chamá-lo de homem...” [1]
No século II, Tácito, um famoso historiador romano também se refere a: “...Cristo, que o procurador Pôncios Pilatos entregou ao suplício.” [2] Seria desnecessário enumerar outras referências. O fato é que o cristianismo ganhou cada vez mais espaço dentro do declinante império romano, passando, também, a sofrer uma mistura cultural, quase inevitável.
No ano 313 d.C. o imperador Constantino, por meio do documento denominado Edito de Milão, reconhece o cristianismo como religião e libera suas manifestações no interior do império. Era uma forma de conseguir apoio dos cristãos, cada vez mais numerosos, para um império cada vez mais imerso em crises. No ano 380, o imperador Teodósio aderiu ao cristianismo e em 391 baixou uma lei proibindo a prática de todos os cultos considerados pagãos ou politeístas. Nesse sentido, o cristianismo torna-se a religião oficial do estado romano, todavia, apesar da proibição, as crenças pagãs jamais desapareceram totalmente. Passa ocorrer, a partir daí uma “transfusão” de elementos culturais-religiosos externos para o interior do cristianismo, deturpando sua simplicidade original.
 Dessa forma, a data que hoje conhecemos como atribuída ao Natal, foi definida no ano 336 d.C. O 25 de dezembro, oficializado no século IV,  originou as festividades do nascimento de Jesus. Foi uma transposição cultural às comemorações, na mesma data, do nascimento de Mitra, o deus-sol de origem Persa.[3] O dia da semana que se dedicava, tradicionalmente, ao culto ao “Sol invencível”, chamado na cultura pagã de: “dia do sol”, passou a se chamar “domingo”, o “dia do Senhor”. [4] Para o historiador Ernest Renan, Jesus teria nascido por volta do ano 750 da data da fundação de Roma, na cidade de Nazaré, uma pequena cidade da Galiléia.[5] O 25 de dezembro é, portanto, uma data simbólica, no entanto, impregnada de grande significado espiritual. 
O Natal aí está, quer seja nos seus aspectos simbólicos, econômicos, ou no sentimento que impele o ser humano a uma profunda revisão de seus valores. Na crise de civilização que a humanidade atravessa a proposta cristã – fundada na ética do amor – é muito mais profunda do que as meras apelações comerciais construídas pela sociedade capitalista.
Na verdade, podemos identificar na mensagem natalina um verdadeiro desafio à renovação interior. Muito embora sem nada escrever, Jesus Cristo continua influenciando milhões de pessoas, em todo o mundo.  Longe de estarem superados, os seus ensinos morais representam um admirável repositório de sabedoria capaz de promover uma convivência, entre indivíduos e povos mais pacífica e fraterna. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec na questão 625 indagando os benfeitores espirituais sobre quem seria o Ser mais notável que Deus enviou à Terra para nos servir de modelo e guia, obteve como resposta: “Jesus”.
Figura paradigmática, Jesus é o homem mais falado da história. Sobre nenhum outro personagem se escreveu tantos livros, seja para desvendar sua personalidade, para interpretar seus ensinos ou para mencionar seus fatos notáveis. Apesar disso, o jornalista e psicólogo espanhol Juan Árias chegou a afirmar sobre Jesus: “Esse grande desconhecido”.  Antes dele, no entanto, o historiador francês Ernest Renan já havia dito que Jesus era: “Um homem incomparável”.
O Natal não deve ser visto nos acanhados limites dos rituais religiosos ou nos festejos para troca de presentes. A proposta apresenta por Jesus nesses vinte e um séculos de cristianismo é profundamente inovadora, repercutindo numa nova ética para a vida. O valor da Boa Nova, mensagem de amor trazida por ele, é de alta transcendência para o homem.
Nos dias atuais, marcados por tanta rigidez dos sentimentos, de violência e de desigualdades sociais marcantes caracterizando uma sociedade que atingiu alto nível de desenvolvimento tecnológico, mas que ainda se encontra encarcerada nos grilhões da indiferença, a mensagem do Cristo é emblemática para a edificação de um novo ser humano.
 O verdadeiro sentido do Natal, portanto, se dará quando Jesus, e tudo aquilo que ele representa nascer efetivamente na Terra. Dessa vez, não mais em uma tosca cabana, mas no coração do próprio ser humano.

Notas



[1] CARREIRO, Marcelo. Contemporizando Cristo: Um estudo histórico e Documental do Cristianismo Primitivo. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 1999.  Capítulo V: Fontes Históricas.  Pág. 62 – 78.
[2] Idem.
[3] MACEDO, José Rivair. Religiosidade e Messianismo na Idade Média. São Paulo: Moderna, 2006. Pág. 12-13.
[4] Idem. Pág. 13.
[5] RENAN, Ernest. Vida de Jesus. São Paulo: Martin Claret, 2003. Capítulo 2, Pág. 99-100. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

BASES DA "FÉ CEGA"


Jerri Almeida

A fé abraâmica definiu profundamente o arcabouço teológico e psicológico das relações entre os homens e o “sagrado”. A rigor, devemos lembrar que Abraão é visto como uma figura importante para as três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, isto porque ele representa uma espécie de “encruzilhada” entre os vários povos. Paulo, por sua vez, argumentará que Abraão foi o “pai da fé”. (Romanos 4: v.16-19  e Gálatas 3: v.7)
 O contato entre Abraão e Javé (Yahveh), na alegoria bíblica, traduz uma relação, certamente, fundadora da fé baseada em quatros pilares fundamentais que constituíram grande influência na tradição do pensamento religioso, permanecendo até hoje: “revelação”, “temor” (Gn 22: 11-12), “submissão” e “fidelidade”. Essa lógica ensejou no Ocidente, principalmente durante o Medievo, a configuração de uma teologia do medo, aspecto que analisaremos oportunamente.
A revelação de um deus que se desvela muito parcialmente a um “escolhido” (Abraão), torna-o emissário de suas promessas (uma grande descendência e a terra de Canaã) e, por isso mesmo, propõe-lhe uma “aliança” ou uma relação de fidelidade. (LAMBERT, 2011 p. 371) Essa “fidelidade” estava baseada numa lógica de submissão e confiança ao poder divino. O contexto javista é, portanto, o da aliança estabelecida com Abraão. Inicia-se uma monolatria (fidelidade a deus) onde o patriarca hebreu apesar de não compreender certas determinações divinas, o exemplo mais claro é o sacrifício de Isaac, se preocupa em obedecê-las com total submissão.
Para Guy Lafon, analisando o fato abraâmico, a fé é a posse antecipada do que se espera, ou um meio de demonstrar certas realidades que não estão assim tão claras ou evidentes. Em suas palavras: “foi pela fé que Abraão, respondendo ao chamado, obedeceu e partiu para uma terra que devia receber como herança, e partiu sem saber para onde iria.” (LAFON, 1998 p. 60) Está presente nessa narrativa, portanto, uma “fé cega” depositada na promessa divina.  Submisso a essa “promessa”, sem nada mais precisar fazer além de crer, Abraão esperava os benefícios divinos.
Num segundo momento, no livro de Isaías (capítulos 40 a 56) podemos identificar a origem de um monoteísmo radical e de uma escatologia. Conhecido pelo nome de “Dêutero-Isaías” ou “segundo Isaías”, temos a introdução do monoteísmo javistico: “Eu sou o primeiro e o último, fora de mim não há deus.” (Isaías 44:6-45:18-22) E ainda: “Sim, sou deus e não há quem seja igual a mim.” (Isaías 46:9) Em relação ao pensamento escatológico, o texto assinala: “Voltai-vos para mim e sereis salvos, todos os confins da Terra, porque eu sou deus e não há nenhum outro.” (Isaías 45:22-56:1-7) A origem de um único deus e, pela sua onipotência, “salvador”, ensejaria uma mentalidade, por um lado, associada a um profetismo escatológico, e por outro, a um estímulo ao medo, como se percebe em Ageu (2:6), quando anuncia que Javé “abalará o Céu e a Terra, o mar e o continente.”
A narrativa bíblica possui uma racionalidade própria, com grande poder de representação. O problema, todavia, é quando esses elementos imagéticos, apropriados por certos grupos e povos, tornam-se verdades fechadas, vistas pelo viés da “letra”. Na medida em que a cultura escrita se proliferava, as tradições orais vão sendo apropriadas pela cultura do livro e, a “letra”, passa a ser um instrumento do “sagrado”: a “palavra de deus está escrita.”
A fé, com o tempo, assume um papel relevante nas estruturas religiosas institucionalizadas. A rigor, a “dúvida” deve ser anulada, pois se torna um instrumento desestabilizador, capaz de fomentar uma ruptura com a submissão ao sagrado. Saindo das tradições mitológicas hebraicas, e tocando rapidamente no pensamento filosófico, vamos identificar que a fé, quando mais elaborada é constituída a partir de um elemento inicial, que é a dúvida. A confiança, quando respaldada numa crença justificada pela razão, demonstra a superação relativa da própria dúvida. Assunto que trataremos com mais profundidade na segunda parte desse trabalho.


Referências Bibliográficas

BIBLIA SAGRADA Trad. João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa bíblica brasileira, 1972.

ELIADE, Mircea. História das Crenças e da Ideias Religiosas. Vol.1, Trad. Roberto Cortez de Lacerda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2010.

LAFON, Guy. Abraão: a invenção da fé. Trad. Laureano Pelegrin. Baurú, São Paulo: EDUSC, 1998.

LAMBERT, Yves. O Nascimento das Religiões. Da pré-história às religiões universalistas. Trad. Mariana P. S. da Cunha. São Paulo: Loyola, 2011.

LEÃO, Emmanuel Carneiro. A filosofia grega hoje. In: Caderno de Letras. Faculdade de Letras, Departamento de Letras Anglo-Germânicas, UFRJ, 18, 2002, p. 23.

PINTO, Porfírio. Nas Pegadas de Abraão. Disponível em:http://religare.blogs.sapo.pt/76658.html
Religião, Sociedade e Cultura. Blog dos Docentes e Investigadores da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

PERDAS


Jerri Almeida

A emoção de sofrimento, por ocasião de uma perda, representa um estado natural da condição humana. Convém lembrar, entretanto, que tal estado emocional terá uma permanência breve ou demasiada conforme o significado que atribuímos  ao sentido da própria vida, e ao nível de afeto construído com a pessoa que morre. Naturalmente, quem nutre uma visão religiosa, por certo, encontrará mais reforço íntimo para compreender que a vida é feita de experiências e que, delas,  fazem parte as perdas e as posses. Com isso não queremos considerar que a religião removerá os sofrimentos das perdas, mas que contribuirá para que essa dor não nos paralisem demasiadamente num estado mental negativista e desolador.
Refletir, de forma saudável, sobre a possibilidade das perdas e da transitoriedade da existência física, já é uma medida interessante de adequação do nosso mundo emocional às vicissitudes e agruras do cotidiano. Uma doença grave, um acidente fatal ou qualquer outro fato que possamos imaginar, perturbador para a vida, nossa ou de alguém com quem convivemos, muitas vezes geram tal gama de sofrimentos que o indivíduo, fragilizado interiormente, mergulha num vazio existencial, desnorteado...
Foi muito comum no século XIX o “luto histérico”, onde os parentes resistiam em aceitar a morte do outro, entregando-se à rebeldia e a revolta contra Deus em verdadeiras manifestações de histeria coletiva. É o sofrimento que gera sofrimento. Para evitar-se um sofrimento maior, naqueles momentos em que o “mundo parece desabar sobre nós”, o papel da prece, certamente, terá uma função fundamental:  fortalecer o nossa vida interior, que é o espaço da coragem, da confiança, do equilíbrio... Entretanto, não podemos esquecer que há coisas que somente o tempo poderá realizar pois, perder dói e não há como não sofrer.
O desafio será evitar que o sofrimento conduza ao desequilíbrio emocional, pois, nesse caso, suas derivações tenderão a desestruturar a vida afetiva, familiar, profissional, biológica... Administrar tal sentimento é imperiosa tarefa de todos nós. Vivenciar somente a dor que a perda causou sem movimentar recursos para o processo de readaptação, é insistir no sofrimento. 

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