As diversas crises que abalaram o Império Romano, a partir do século III d.C. culminaram com a divisão do Império Romano, realizada por Teodósio em 395, em Império do Ocidente e Império do Oriente. O império romano do Oriente ficou com sua capital em Constantinopla e passou a ser conhecido também como Império Bizantino. No decorrer do medievo, o Império Bizantino procurou manter-se depositário das tradições romanas, fundadas num império universal de forte influência eclesiástica.
No mundo bizantino, do século VI, sob o comando autocrático do Imperador Justiniano (que reinou entre 527-565), a idéia das vidas sucessivas novamente estaria na pauta dos debates e das heresias a serem definitivamente combatidas pelo poder institucional. Desta vez eram os origenistas, seguidores das idéias de Orígenes que estavam no foco das críticas. Na prática, no entanto, os polêmicos debates religiosos refletiam a luta pela direção espiritual do mundo cristão oriental. Mas, quem era Orígenes?
Orígenes nasceu em família cristã em 185 ou 186 da nossa era, provavelmente em Alexandria. Aos 18 anos assumiu a direção da escola catequista como sucessor de Clemente, mas em 215 os massacres praticados por Caracalla obrigaram Orígenes a deixar Alexandria, fugindo para Palestina onde os bispos Alexandre de Jerusalém e Teócito de Cesaréia o acolheram com honra e o fizeram pregar nas suas igrejas. Fundou uma escola teológica em Cesaréia, tendo como discípulo San Gregório Taumaturgo, onde permaneceu até a morte, aos 69 anos, durante perseguição comandada por Décio. Considerado o membro mais eminente da escola de Alexandria e estudioso dos filósofos gregos, sustentava em seus ensinamentos que Deus é puramente espiritual, o Uno, e que transcende a verdade, a razão e o ser.
Justiniano, julgando-se teólogo do trono imperial, tirou da Obra de Orígenes De Princípiis, nove anatematismos, encerrando com eles sua obra Adversus Origenem Líber ou Edictuam (Escrito entre o fim de 542 e o início de 543). Os anatematismos de Justiniano foram lidos no Sínodo de Constantinopla em 543. O principal anátema é o da condenação da preexistência da alma. O texto, no original em latim, assevera:
“Si quis dicit, aut sentit proexistere hominum animas, utpote quae antea mentes fuerint et sanctae, satietatemque cepisse divinae contemplationis, e in deterius conversas esse; atque ideirco apofixestai id este refrigisse a Dei charitate, et inde fixás graece, id est, animas esse nuncupatas, demissasque esse in corpora suplicii causa : anathema.” (1)
Na versão traduzida para o português temos:
“Se alguém diz ou sustenta que as almas humanas preexistem, no sentido de serem anteriormente, mentes e forças santas que se desgastaram da visão de divina e se voltaram para o pior e por isto se esfriaram no amor a Deus, tomando daí o nome de almas e que por punição foram mandadas para os corpos embaixo, seja anátema.” (2)
O Edito publicado por Justiniano em 543, combatendo as idéias de Orígenes seria confirmado por ocasião da convocação, pelo próprio Justiniano, em 553, do Quinto Concílio Geral da Igreja, na cidade de Constantinopla, atual Istanbul, na Turquia. Para alguns estudiosos, a condenação da doutrina da preexistência da alma estaria fortemente associada à Teodora, esposa de Justiniano, mulher de temperamento forte e ambiciosa. Ela havia sido uma cortesã, e iniciou uma rápida ascensão no Império. Buscando libertar-se de seu passado, conta-se que Teodora mandou expurgar do Império quinhentas de suas antigas colegas. Conhecedora das idéias sobre as vidas sucessivas, e com receio da idéia de retornar à Terra para reparar seus feitos equivocados, Teodora teria influenciado seu marido no combate a tais idéias.
Não temos como avaliar efetivamente o quanto essa possível influência de Teodora tenha contribuído para que Justiniano combatesse a doutrina da Reencarnação. De qualquer forma, é importante notarmos que certamente não foi essa a questão determinante, uma vez que nos três primeiros séculos do Cristianismo a nascente Igreja Católica, através de seus bispos, havia percebido que sua sobrevivência, e autoafirmação institucional, estavam condicionadas a uma teologia que fortalecesse sua importância enquanto mediadora entre os homens e Deus, sobretudo, na questão vital da salvação das almas. Nesse sentido, a idéia da Reencarnação apresentava-se como uma perigosa proposta para a Igreja, pois atribuía ao homem, e não a uma instituição, a responsabilidade pessoal por sua “salvação”.
O Concílio convocado por Justiniano, em 553, excluiu até o Papa da época, Virgilius, que segundo Carneiro, havia sido preso a mandado do próprio Imperador.(3) Dois problemas, no entanto parece ter ocorrido. O primeiro, diz respeito a validade universal de um Concílio que não havia sido convocado pelo Papa. Em segundo, fica uma possível intervenção de Justiniano, no sentido de forçar o Papa Virgilius a assinar o documento oficial do Concílio, no sentido de lhe dar validade e reconhecimento.
Não menos interessante, é a descrição citada por Carneiro, do início desse Concílio, constante na obra: Hefele, History of the Conucils, Vol. IV, p. 289:
“De acordo com ordens do Imperador mas sem o consentimento do Papa, o Concílio foi aberto em 5 de maio de 553 da nossa era crista, na Secretaria da Igreja da Catedral em Constantinopla. Entre os presentes achavam-se os Patriarcas Eutichis de Constantinopla, quem presidiu, Apollinaris de Alexandria, Domnius de Antioquia,três bispos como representantes do Patriarca Eustochius de Jerusalém, e 145 outros bispos metropolitanos e bispos, dos quais vários vieram também em lugar de colegas ausentes.” (4)
Após uma série de discussões e debates, comandados por Justiniano, o Concílio chegou ao fim com um documento apresentado ao Papa para sua ratificação, denominado “Os Três Capítulos – Os Cânones do II Concílio de Constantinopla (553)”. Mas, precisamente no seu Cânon 11 (5), o documento faz referência a Orígenes e anatematiza suas idéias. Vejamos a versão em espanhol seguida de sua tradução:
“Cânon.11. Si alguno no anatematiza a Arrio, Eunomio, Macedonio, Apolinar, Nestorio, Eutiques y Origenes, juntamente con sus impíos escritos, y a todos los demás herejes, condenados por la santa Iglesia Católica y Apostólica y por los cuatro antedichos santos Concilios, y a los que han pensado o piensan como los antedichos herejes y que permanecieron hasta el fin en su impiedad, ese tal sea anatema.” (6)
Tradução: “Se alguém não condena a Arrio, Eunomio, Macedonio, Apolinar, Nestorio, Eutiques e Orígenes, juntamente com seus escritos ímpios, e a todos os demais Hereges, condenados pela Santa Igreja Católica e Apostólica e por todos os quatro santos concílios mencionados, e a todos os que pensam como os mencionados hereges e que permaneceram até o fim em sua impiedade, que seja condenado”. (7) [Grifos meus]
Após o Concílio, os monges seguidores de Orígenes da Palestina foram expulsos de seus monastérios, e os textos origenistas destruídos. Com a rejeição da reencarnação a Igreja teve que encontrar uma outra explicação para a ocorrência de fatos negativos a pessoas boas. Sem as ações passadas para explicar as diferenças entres os destinos, restou a Igreja continuar defendendo a doutrina do pecado original aprovada, como vimos, no Concílio de Orange em 529.
NOTAS
(1) Apud.CARNEIRO, Diego Adam. A supressão da Reencarnação no Concílio de Constantinopla – Ano 553. Disponível: http://filosofiamaiden.blogspot.com/2008/04/supresso-da-reencarnao.html Acesso: 14/03/2009
(2) DENZINGER-HÜNERMANN. Compêndio dos Símbolos, Definições e Declarações de Fé e Moral. Trad. José Mariano e Johan Konings. São Paulo: Paulinas-Edições Loyola, 2007. Pág. 150-151.
(3) CARNEIRO. Diego Adam. Op. cit.
(4) Idem.
(5) Cânon significa uma regra geral de onde se inferem regras especiais.
(6) Disponível em: http://mercaba.wordpress.com/2008/07/12/concilio-ecumenico-ii-de-constantinopla/
Acesso: 29/03/2009
(7) Diponível em: http://www.phatae.com/artigos2/2006/reencarnacao.htm. Acesso: 15/03/2009
domingo, 28 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
A REENCARNAÇÃO NA HISTÓRIA - Parte I - O CREDO DE NICÉIA
Filon de Alexandria (20a.C.- 50d.C.), filósofo judeu e contemporâneo de Jesus, cujas idéias a respeito do objetivo da vida situava-se na própria integração com Deus através de sucessivas existências; teve um papel muito importante na combinação dos pensamentos grego e judaico. Filon e sua escola de pensamento davam uma interpretação alegórica ao Antigo Testamento, conferindo-lhe um significado simbólico. A reencarnação fazia parte de sua visão filosófica sobre a vida: “As (almas) que se deixam influenciar pelo desejo de uma vida mortal...retornam a ela” (1) - escreveu ele. Filon viveu na cidade de Alexandria próximo do delta do Nilo, famosa por sua biblioteca e por ser um grande centro intelectual da época. Suas idéias influenciaram profundamente alguns patriarcas da Igreja romana: Clemente de Alexandria, Orígenes e Ambrósio. Filon era um erudito que acreditava e ensinava que o ser humano pode chegar a Deus pela sabedoria e pela transcendência.
A partir do século IV, no entanto, a idéia das vidas sucessivas que era naturalmente difundida, mexeria profundamente com as estruturas de interesse da greja romana. Um padre chamado Ário que viveu entre 250d.C. – 336d.C., nascido no Líbano, ensinava que Jesus era filho de Deus; logo, Jesus teve um princípio. A doutrina ariana se fundamentava no texto bíblico (Pr. 8,22) onde se afirmava que: “O Senhor me criou, princípio das suas vias em vista das suas obras.” A partir disso Ário concluiu que Jesus não era consubstancial ao Pai, isto é, Jesus deveria ser colocado no patamar da criação divina, sendo distinto da divindade.
Para os arianistas, a proposta de Jesus ter encarnado na Terra seria para nos ensinar como chegar a ele. Ário defendia que isso seria possível através de sucessivas existências físicas. As idéias arianistas ensejaram o concílio de Nicéia, uma cidade a beira de um lago a sudeste de Constantinopla, em junho de 325. O ponto central dos debates era se Jesus havia sido criado ou não. Se houvera sido criado, conforme entendiam os arianistas, então o progresso poderia ser alcançado por nós se seguíssemos, simples e tão somente, os seus ensinamentos. Mas se ele não houvesse sido criado, sendo, portanto igual a Deus, como desejavam alguns bispos, então seria totalmente distinto da criação. Nesse caso, a criatura humana para atingir a “salvação” dependeria exclusivamente da subserviência aos princípios da Igreja romana.
A idéia da reencarnação encontrou resistência por parte de certos teólogos e, certamente, também de Constantino. Lembremos que no início do século IV, o Império Romano começava a sentir os sintomas de um conjunto de crises que terminariam por desestruturá-lo como entidade política unificada. O papel desempenhado por Constantino ao reconhecer o Cristianismo como religião, em um Império decadente, ganha contornos de uma hábil manobra política, na tentativa de obter o apoio da nascente Igreja Católica e, ao mesmo tempo, manter os cristãos sob seu domínio.
Mas ao “aceitar” o Cristianismo, Constantino também o reformulou conforme seus interesses, pois, possuído o poder temporal, ele também ambicionava o poder espiritual, através de uma posição destacada dentro da Igreja. Claro que o debate sobre a natureza de Cristo e a reencarnação eram questões teológicas, desde muito presentes no pensamento do Ocidente. Constantino, no entanto, preocupou-se também em definir uma unidade teológica para a Igreja de Roma.
Ainda no início de seu governo, Constantino convocou o Concílio de Nicéia, que se reuniu durante dois meses e, pela primeira vez, um governante secular assumia posição de intervir na doutrina cristã. Conforme Atanásio, ferrenho opositor do arianismo, que participou do Concílio como diácono do bispo Alexandre, o número de participantes ultrapassou 300 bispos, vindos de diversas partes. Depois de muitos debates, Ário e seus seguidores foram derrotados. Os bispos decidem aprovar o chamado “Credo de Nicéia”, no qual – entre outras coisas – se identificava Jesus com Deus, e não com a Criação:
"Creio em um só Deus, o Padre Onipotente, Criador do Céu e da Terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis e em um só Jesus Cristo. Senhor Nosso, filho de Deus ungido, e nascido do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito da mesma substância como o Pai pelo qual foram feitas todas as coisas... que encarnou e foi feito homem." (2)
Tal orientação teológica negava aos seres humanos a possibilidade de se atingir a instância espiritual de Jesus, separando-o da Criação, não haveria, portanto, a noção de evolução espiritual através dos tempos, ou seja, ocorre a negação da preexistência da alma e sua possibilidade de progresso. Apenas dois bispos e o próprio Ário se recusaram a assinar o Credo de Nicéia e, por isso, Constantino os baniu do Império, afirmando que a decisão do Concílio tomada durante as “sagradas assembléias dos bispos” deveria ser aceita por todo o Clero como “indicativo da vontade divina.” (3)
Daí em diante, a Igreja se tornaria a única representante de Deus na Terra, uma mediadora entre os homens e o divino. Na prática, representaria um deus caprichoso e autocrático, um deus que não era diferente de Constantino e de outros imperadores romanos. (4) A controvérsia sobre a preexistência do Filho (Jesus) e a questão de que o Logos é diverso do Pai segundo a substância, portanto, que Jesus encarnou na Terra como as outras criaturas, permaneceria ainda muito forte após o Concílio de Nicéia. Os seguidores de Eusébio de Cesaréia queriam a revisão do Concílio de Nicéia, fato que, naturalmente, não foi concedido por Constantino. (5)
Naturalmente a visão reencarnacionista ensejava, desde os seus primórdios, a concepção do ser humano ser autor de seu próprio destino e, portanto, dependeria somente do indivíduo e seu livre-arbítrio, lograr o progresso ou a “salvação”, e de mais ninguém. Evidentemente essa proposta desarticulava os interesses de supremacia político-religiosos da época.
NOTAS
(1)FILON Apud PROPHET, p. 85
(2)Credo de Nicéia Apud. PROPHET. P. 202.
(3)Constantino Apud PROPHET. P. 204.
(4)Cf. PROPHET, Elisabeth C. Reencarnação: o Elo Perdido do Cristianismo. 2ª ed.Rio de Janeiro: Record: Nova Era, 1998. p. 205.
(5)CORBELLINI, Vital. A Participação de Atanásio no Concílio de Nicéia e a sua defesa do homooúsios. In. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 37, n. 157, p. 396-408, set. 2007.
A partir do século IV, no entanto, a idéia das vidas sucessivas que era naturalmente difundida, mexeria profundamente com as estruturas de interesse da greja romana. Um padre chamado Ário que viveu entre 250d.C. – 336d.C., nascido no Líbano, ensinava que Jesus era filho de Deus; logo, Jesus teve um princípio. A doutrina ariana se fundamentava no texto bíblico (Pr. 8,22) onde se afirmava que: “O Senhor me criou, princípio das suas vias em vista das suas obras.” A partir disso Ário concluiu que Jesus não era consubstancial ao Pai, isto é, Jesus deveria ser colocado no patamar da criação divina, sendo distinto da divindade.
Para os arianistas, a proposta de Jesus ter encarnado na Terra seria para nos ensinar como chegar a ele. Ário defendia que isso seria possível através de sucessivas existências físicas. As idéias arianistas ensejaram o concílio de Nicéia, uma cidade a beira de um lago a sudeste de Constantinopla, em junho de 325. O ponto central dos debates era se Jesus havia sido criado ou não. Se houvera sido criado, conforme entendiam os arianistas, então o progresso poderia ser alcançado por nós se seguíssemos, simples e tão somente, os seus ensinamentos. Mas se ele não houvesse sido criado, sendo, portanto igual a Deus, como desejavam alguns bispos, então seria totalmente distinto da criação. Nesse caso, a criatura humana para atingir a “salvação” dependeria exclusivamente da subserviência aos princípios da Igreja romana.
A idéia da reencarnação encontrou resistência por parte de certos teólogos e, certamente, também de Constantino. Lembremos que no início do século IV, o Império Romano começava a sentir os sintomas de um conjunto de crises que terminariam por desestruturá-lo como entidade política unificada. O papel desempenhado por Constantino ao reconhecer o Cristianismo como religião, em um Império decadente, ganha contornos de uma hábil manobra política, na tentativa de obter o apoio da nascente Igreja Católica e, ao mesmo tempo, manter os cristãos sob seu domínio.
Mas ao “aceitar” o Cristianismo, Constantino também o reformulou conforme seus interesses, pois, possuído o poder temporal, ele também ambicionava o poder espiritual, através de uma posição destacada dentro da Igreja. Claro que o debate sobre a natureza de Cristo e a reencarnação eram questões teológicas, desde muito presentes no pensamento do Ocidente. Constantino, no entanto, preocupou-se também em definir uma unidade teológica para a Igreja de Roma.
Ainda no início de seu governo, Constantino convocou o Concílio de Nicéia, que se reuniu durante dois meses e, pela primeira vez, um governante secular assumia posição de intervir na doutrina cristã. Conforme Atanásio, ferrenho opositor do arianismo, que participou do Concílio como diácono do bispo Alexandre, o número de participantes ultrapassou 300 bispos, vindos de diversas partes. Depois de muitos debates, Ário e seus seguidores foram derrotados. Os bispos decidem aprovar o chamado “Credo de Nicéia”, no qual – entre outras coisas – se identificava Jesus com Deus, e não com a Criação:
"Creio em um só Deus, o Padre Onipotente, Criador do Céu e da Terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis e em um só Jesus Cristo. Senhor Nosso, filho de Deus ungido, e nascido do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito da mesma substância como o Pai pelo qual foram feitas todas as coisas... que encarnou e foi feito homem." (2)
Tal orientação teológica negava aos seres humanos a possibilidade de se atingir a instância espiritual de Jesus, separando-o da Criação, não haveria, portanto, a noção de evolução espiritual através dos tempos, ou seja, ocorre a negação da preexistência da alma e sua possibilidade de progresso. Apenas dois bispos e o próprio Ário se recusaram a assinar o Credo de Nicéia e, por isso, Constantino os baniu do Império, afirmando que a decisão do Concílio tomada durante as “sagradas assembléias dos bispos” deveria ser aceita por todo o Clero como “indicativo da vontade divina.” (3)
Daí em diante, a Igreja se tornaria a única representante de Deus na Terra, uma mediadora entre os homens e o divino. Na prática, representaria um deus caprichoso e autocrático, um deus que não era diferente de Constantino e de outros imperadores romanos. (4) A controvérsia sobre a preexistência do Filho (Jesus) e a questão de que o Logos é diverso do Pai segundo a substância, portanto, que Jesus encarnou na Terra como as outras criaturas, permaneceria ainda muito forte após o Concílio de Nicéia. Os seguidores de Eusébio de Cesaréia queriam a revisão do Concílio de Nicéia, fato que, naturalmente, não foi concedido por Constantino. (5)
Naturalmente a visão reencarnacionista ensejava, desde os seus primórdios, a concepção do ser humano ser autor de seu próprio destino e, portanto, dependeria somente do indivíduo e seu livre-arbítrio, lograr o progresso ou a “salvação”, e de mais ninguém. Evidentemente essa proposta desarticulava os interesses de supremacia político-religiosos da época.
NOTAS
(1)FILON Apud PROPHET, p. 85
(2)Credo de Nicéia Apud. PROPHET. P. 202.
(3)Constantino Apud PROPHET. P. 204.
(4)Cf. PROPHET, Elisabeth C. Reencarnação: o Elo Perdido do Cristianismo. 2ª ed.Rio de Janeiro: Record: Nova Era, 1998. p. 205.
(5)CORBELLINI, Vital. A Participação de Atanásio no Concílio de Nicéia e a sua defesa do homooúsios. In. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 37, n. 157, p. 396-408, set. 2007.
sábado, 13 de março de 2010
O DISCURSO DA CULPA
O pecado foi um eficiente instrumento na consolidação de um discurso culpabilizador e de uma ‘cultura do medo.(1) A construção de tal discurso manifestou-se em diversas épocas, como mecanismo ideológico e punitivo, que buscava dar sentido ao problema da existência do mal e aos sofrimentos humanos. A problemática do pecado começa, é bem verdade, com referência ao “primeiro pecado”. No livro do Gênese, no Antigo Testamento, narra-se conforme as tradições do povo hebreu, o famoso mito de Adão e Eva e a queda do paraíso.
Ora, ao comer o fruto da árvore do bem e do mal, o casal teria sido, então, expulso do paraíso por desrespeito ao Criador, projetando, como herança natural para os seus descendentes, ou seja, para toda a raça humana, os efeitos de seu ato. É curioso notarmos que Jesus nada falou sobre o pecado original. Foi Clemente de Alexandria (século II d.C.) quem relacionou o primeiro pecado com a descoberta do sexo por Adão e Eva. Mais tarde, entretanto, é que surgiu a denominação “original” para esse “pecado”, dada por Santo Agostinho (354-430) que identificou o pecado original com o desejo sexual e não, somente com o sexo. Santo Agostinho, no início do século V, definiu o pecado como: “uma palavra, uma ação ou um desejo contrário à lei divina”.(2)Em suas Confissões, situa a problemática sexual da humanidade como algo "impuro", contrário - paradoxalmente - a Lei Divina. É evidente, para quem já leu parte dos escritos de Agostinho, seus conflitos pessoais ligados a sexualidade.
Nos séculos seguintes, ocorre todo um desdobramento dessa idéia do pecado original no seio de cristãos que buscavam se isolar para fugir dos prazeres do sexo, na expectativa de purificar o corpo e a alma, buscando superar a ira, a agressividade, a inveja, a avareza. Segundo a historiadora italiana Carla Casagrande: “Eles tinham que se concentrar em Deus. (...) mas a libertação das coisas mundanas podiam cair na própria soberba, que era o maior pecado de todos (...)” (3) Desses grupos de cristão que aparecem na África no Norte, próximo ao deserto, e na Ásia Menor, surgem, nos mosteiros, entre os séculos IV e XII, o desdobramento daquele pecado original para os denominados sete (as vezes oito) pecados capitais. Foi, entretanto, no final do século VI que o Papa Gregório Magno, faz interessante analogia, descrevendo a alma como sendo uma “fortaleza” atacada por um grande exército liderado por sete pecados principais: a soberba (o orgulho é o principal líder) seguido pela vanglória inveja, a avareza, a ira, a acídia (tristeza), a gula e a luxúria.
Como a Doutrina Espírita examina essa questão do pecado? Há concordância em relação a idéia do “pecado original”? Diante de tais questões, encontramos em Léon Denis a seguinte afirmação: “A palavra pecado não exprime, em si mesmo, senão uma idéia confusa.” Essa confusão esta vinculada justamente a falta de argumentos plausíveis e racionais envolvendo essa questão, ou melhor, a questão confusa que se forjou relacionando o problema do pecado com a idéia de “castigo divino”. Léon Denis elucida: “A violação da lei acarreta a cada ser um amesquinhamento moral, uma reação da consciência, que é uma causa de sofrimento íntimo e uma diminuição das percepções animais. Assim, o ser pune-se a si mesmo. Deus não intervém, porque Deus é infinito; nenhum ser seria capaz de lhe produzir o menor mal.”(4)
As palavras nos enganam. O termo “pecado” está, historicamente, impregnado de uma acepção condenatória que visa insuflar temor no ser humano. Kardec, na introdução de O Livro dos Espíritos nos adverte no sentido de evitarmos, no campo doutrinário do espiritismo, usar palavras ambíguas que já carregam consigo uma acepção amplamente difundida, consolidada cultural e mentalmente. Cremos que essa advertência pode ser estendida para a palavra “pecado”. Não há, na visão espírita, um “pecado original”, quer aquele da tradição agostiniana, ou do mito de Adão e Eva. Essa narrativa trata, evidentemente, de uma fábula, amplamente difundida e ordenada, no Ocidente cristão, para interesses que visavam (e ainda visam) atrelar a idéia de salvação às práticas confessionais, justificando o status quo dominante de certas religiões.
Essa racionalidade foi muito bem construída para nos prender a uma idéia de “culpa”, da qual, por sermos humanos, somos naturalmente herdeiros. A “culpa” e o “temor” são construções da mentalidade medieval, e justificam o papel do poder temporal. O espiritismo não reproduz tal mentalidade. Se quisermos fazer uma análise espírita dessa questão deveremos compreender a vida como um processo dinâmico de experiência para o espírito. A evolução espiritual passa, então, a ser forjada pelo exercício da liberdade, associada à lei de causa e efeito e à lei da reencarnação. Nesse sentido o “erro” ou as “faltas” humanas são dimensões “naturais” do processo de aprendizagem do espírito, para fixar os valores reais da vida, que lhe cumpre atingir: o bem, o amor.
A origem dos erros humanos, entretanto, pode ser compreendida como o “ascendente primitivo que os instintos animais devem ter exercido, de início, sobre as aspirações da alma.”(5) Sendo assim, a “serpente tentadora” não é outra coisa senão a personificação dos desejos ou a solicitação dos instintos e sentimentos mais ancestrais do espírito. Do ponto de vista mais restrito, o “egoísmo”, pode ser visto como o “carro-chefe” que, associado ao “orgulho” desencadeia uma série de outros sentimentos que, embora façam parte da experiência humana, representam núcleos em potências pouco evoluídos, fontes de energia afastados do amor e do bem.
A Lei Divina, estudada na 3ª parte de O Livro dos Espíritos, consubstancia as aquisições no Bem, nos ângulos positivos da vida. Portanto, podemos dizer que ao longo de seu processo evolutivo, o espírito humano vem construindo um arcabouço psicológico ou núcleos em potenciais(6) que parte das faixas instintivas para as aquisições nobres. Nesse sentido: egoísmo e solidariedade, soberba e humildade, modéstia e ostentação, ira e brandura, entre tantos outros sentimentos, são estrutura construídas (“erro e acerto”) ao longo do tempo e que serão devidamente laboradas ao sabor da “força mesma das coisas” que conduz o homem para a fatalidade do Amor.
O erro é um instrumento pedagógico de aprendizagem, que utilizamos ao longo de nossa historicidade espiritual. Dessa forma, devemos “desconstruir” a idéia de “culpa” e construir a idéia de “responsabilidade,” que instrumentaliza o indivíduo a ser agente criador (expressão divina) de seu progresso ético-espiritual.
Notas
(1)Cf. José R. Macedo. Paixões da alma medieval. Artigo. In. Segundo Caderno Cultura. Zero Hora. 04/09/2004.
(2)AGOSTINHO, Santo. Confissões. Coleção Os pensadores. Abril Cultura, 1984. Livro II. Os pecados da adolescência. Item 5: A causa ordinária do pecado.
(3)Cf. Carla Casagrande. O pecado desde as origens. Entrevista ao Caderno de Cultura. Zero Hora, 18/09/2004.
(4)DENIS, Léon. Cristianismo e Espiritismo. 8ª ed. Feb. Página 85.
(5)KARDEC, Allan. Revista Espírita – novembro/ 1867. Edicel. Página 356.
(6)ANDRÉA, Jorge. Forças Sexuais da Alma. 3ª ed. FEB. Página 46.
Ora, ao comer o fruto da árvore do bem e do mal, o casal teria sido, então, expulso do paraíso por desrespeito ao Criador, projetando, como herança natural para os seus descendentes, ou seja, para toda a raça humana, os efeitos de seu ato. É curioso notarmos que Jesus nada falou sobre o pecado original. Foi Clemente de Alexandria (século II d.C.) quem relacionou o primeiro pecado com a descoberta do sexo por Adão e Eva. Mais tarde, entretanto, é que surgiu a denominação “original” para esse “pecado”, dada por Santo Agostinho (354-430) que identificou o pecado original com o desejo sexual e não, somente com o sexo. Santo Agostinho, no início do século V, definiu o pecado como: “uma palavra, uma ação ou um desejo contrário à lei divina”.(2)Em suas Confissões, situa a problemática sexual da humanidade como algo "impuro", contrário - paradoxalmente - a Lei Divina. É evidente, para quem já leu parte dos escritos de Agostinho, seus conflitos pessoais ligados a sexualidade.
Nos séculos seguintes, ocorre todo um desdobramento dessa idéia do pecado original no seio de cristãos que buscavam se isolar para fugir dos prazeres do sexo, na expectativa de purificar o corpo e a alma, buscando superar a ira, a agressividade, a inveja, a avareza. Segundo a historiadora italiana Carla Casagrande: “Eles tinham que se concentrar em Deus. (...) mas a libertação das coisas mundanas podiam cair na própria soberba, que era o maior pecado de todos (...)” (3) Desses grupos de cristão que aparecem na África no Norte, próximo ao deserto, e na Ásia Menor, surgem, nos mosteiros, entre os séculos IV e XII, o desdobramento daquele pecado original para os denominados sete (as vezes oito) pecados capitais. Foi, entretanto, no final do século VI que o Papa Gregório Magno, faz interessante analogia, descrevendo a alma como sendo uma “fortaleza” atacada por um grande exército liderado por sete pecados principais: a soberba (o orgulho é o principal líder) seguido pela vanglória inveja, a avareza, a ira, a acídia (tristeza), a gula e a luxúria.
Como a Doutrina Espírita examina essa questão do pecado? Há concordância em relação a idéia do “pecado original”? Diante de tais questões, encontramos em Léon Denis a seguinte afirmação: “A palavra pecado não exprime, em si mesmo, senão uma idéia confusa.” Essa confusão esta vinculada justamente a falta de argumentos plausíveis e racionais envolvendo essa questão, ou melhor, a questão confusa que se forjou relacionando o problema do pecado com a idéia de “castigo divino”. Léon Denis elucida: “A violação da lei acarreta a cada ser um amesquinhamento moral, uma reação da consciência, que é uma causa de sofrimento íntimo e uma diminuição das percepções animais. Assim, o ser pune-se a si mesmo. Deus não intervém, porque Deus é infinito; nenhum ser seria capaz de lhe produzir o menor mal.”(4)
As palavras nos enganam. O termo “pecado” está, historicamente, impregnado de uma acepção condenatória que visa insuflar temor no ser humano. Kardec, na introdução de O Livro dos Espíritos nos adverte no sentido de evitarmos, no campo doutrinário do espiritismo, usar palavras ambíguas que já carregam consigo uma acepção amplamente difundida, consolidada cultural e mentalmente. Cremos que essa advertência pode ser estendida para a palavra “pecado”. Não há, na visão espírita, um “pecado original”, quer aquele da tradição agostiniana, ou do mito de Adão e Eva. Essa narrativa trata, evidentemente, de uma fábula, amplamente difundida e ordenada, no Ocidente cristão, para interesses que visavam (e ainda visam) atrelar a idéia de salvação às práticas confessionais, justificando o status quo dominante de certas religiões.
Essa racionalidade foi muito bem construída para nos prender a uma idéia de “culpa”, da qual, por sermos humanos, somos naturalmente herdeiros. A “culpa” e o “temor” são construções da mentalidade medieval, e justificam o papel do poder temporal. O espiritismo não reproduz tal mentalidade. Se quisermos fazer uma análise espírita dessa questão deveremos compreender a vida como um processo dinâmico de experiência para o espírito. A evolução espiritual passa, então, a ser forjada pelo exercício da liberdade, associada à lei de causa e efeito e à lei da reencarnação. Nesse sentido o “erro” ou as “faltas” humanas são dimensões “naturais” do processo de aprendizagem do espírito, para fixar os valores reais da vida, que lhe cumpre atingir: o bem, o amor.
A origem dos erros humanos, entretanto, pode ser compreendida como o “ascendente primitivo que os instintos animais devem ter exercido, de início, sobre as aspirações da alma.”(5) Sendo assim, a “serpente tentadora” não é outra coisa senão a personificação dos desejos ou a solicitação dos instintos e sentimentos mais ancestrais do espírito. Do ponto de vista mais restrito, o “egoísmo”, pode ser visto como o “carro-chefe” que, associado ao “orgulho” desencadeia uma série de outros sentimentos que, embora façam parte da experiência humana, representam núcleos em potências pouco evoluídos, fontes de energia afastados do amor e do bem.
A Lei Divina, estudada na 3ª parte de O Livro dos Espíritos, consubstancia as aquisições no Bem, nos ângulos positivos da vida. Portanto, podemos dizer que ao longo de seu processo evolutivo, o espírito humano vem construindo um arcabouço psicológico ou núcleos em potenciais(6) que parte das faixas instintivas para as aquisições nobres. Nesse sentido: egoísmo e solidariedade, soberba e humildade, modéstia e ostentação, ira e brandura, entre tantos outros sentimentos, são estrutura construídas (“erro e acerto”) ao longo do tempo e que serão devidamente laboradas ao sabor da “força mesma das coisas” que conduz o homem para a fatalidade do Amor.
O erro é um instrumento pedagógico de aprendizagem, que utilizamos ao longo de nossa historicidade espiritual. Dessa forma, devemos “desconstruir” a idéia de “culpa” e construir a idéia de “responsabilidade,” que instrumentaliza o indivíduo a ser agente criador (expressão divina) de seu progresso ético-espiritual.
Notas
(1)Cf. José R. Macedo. Paixões da alma medieval. Artigo. In. Segundo Caderno Cultura. Zero Hora. 04/09/2004.
(2)AGOSTINHO, Santo. Confissões. Coleção Os pensadores. Abril Cultura, 1984. Livro II. Os pecados da adolescência. Item 5: A causa ordinária do pecado.
(3)Cf. Carla Casagrande. O pecado desde as origens. Entrevista ao Caderno de Cultura. Zero Hora, 18/09/2004.
(4)DENIS, Léon. Cristianismo e Espiritismo. 8ª ed. Feb. Página 85.
(5)KARDEC, Allan. Revista Espírita – novembro/ 1867. Edicel. Página 356.
(6)ANDRÉA, Jorge. Forças Sexuais da Alma. 3ª ed. FEB. Página 46.
sábado, 6 de março de 2010
PLATÃO
Com Platão, Século IV a.C., estrutura-se, pela primeira vez de maneira sistemática, a justificativa filosófica de cunho metafísico, que se tornará paradigmática no Ocidente.(1) Embora Platão não ter usado a palavra “metafísica” que não existia em sua época, ele busca, através de seus diálogos, a realidade causal, o mundo das justificativas e, portanto, o mundo real.
Dessa forma, chega a conclusão da existência de dois mundos: o Mundo das Idéias e o Mundo Sensível. O Mundo das Idéias em Platão – e “idéia” aqui não deve ser confundida com “conceitos de nossa mente” – é um mundo supramaterial, eterno, onde reina a verdade, a perfeição e a suprema importância do Bem. Esse mundo representaria a “forma” do mundo material, pois para tudo que existe aqui, haveria um modelo causal e perfeito no Mundo das Idéias.
O Mundo Sensível representaria, por sua vez, o mundo material com as imperfeições que lhes são inerentes. É o mundo ilusório, dos sentidos, mutável, perecível e caótico. Logo, um reflexo imperfeito do Mundo das Idéias. Nesse sentido, o conhecimento representaria uma importante via de transição, para o ser humano, da ilusão para a realidade, onde a idéia do Bem consubstanciaria o auge desse processo.
Dos textos (2) de Platão podemos extrair inúmeras afirmativas concernentes a teoria da reminiscência. Sim, estamos falando daquela famosa frase platônica que “aprender é recordar”. (3) Esse “recordar” está relacionado com a idéia das vidas sucessivas.
Em seu valioso estudo sobre os mitos platônicos, Geneviève Droz, filósofa e professora em Montpellier, destaca no Ménon (80d-86c), a afirmação sobre a imortalidade e a transmigração das almas. Platão, através dos diálogos de Sócrates, afirma que: “pesquisar e aprender não é senão se lembrar, quer dizer, encontrar em si mesmo, no seu próprio cabedal, um saber que já lá está.” A afirmação é Socrática:
A alma é imortal e renasce várias vezes. Contemplou, portanto, antes de qualquer existência encarnada, todas as coisas e possuiu o conhecimento. Portanto, não há nada de espantoso em que tenha, aqui na Terra, lembranças desse saber. Uma lembrança puxando outra, é possível reencontrar a integralidade do já conhecido. (4)
Analisando o argumento da reminiscência, Droz assim se expressa: “Se a alma viu, desencarnada, e esqueceu ao encarnar-se, impõe-se que tenha, aqui em baixo, a faculdade de lembrar-se. O amor é um dos meios para esse resultado.”(5) Em seus diálogos metafísicos, Platão não se esquivou em defender o argumento da imortalidade da alma e de suas sucessivas existências. Em seu livro A República, narra a história de um homem chamado Er que, morre gravemente ferido em uma batalha, mas por ocasião de seu funeral, doze dias depois, ele volta a vida, informando o que seu espírito vivenciou nesse período. Platão descreve essa experiência fora do corpo, que chamaríamos hoje de “morte aparente”. Er, recordava-se de ter visitado planos superiores e inferiores à Terra onde as almas venturosas ou infelizes viviam por determinados períodos, findo os quais, retornavam novamente à Terra servindo-se de novos corpos.
E era digno de se ver esse espetáculo, contava ele, como cada uma das almas escolhia a sua vida. Era, realmente, merecedor de piedade, mas também ridículo e surpreendente. Com efeito, a maior parte fazia a sua opção de acordo com os hábitos da vida anterior. [...] Assim que todas as almas escolheram as suas vidas, avançaram, pela ordem da sorte que lhes coubera, para junto de Láquesis. Está mandava a cada uma o gênio que preferira para gardar a sua vida e fazer cumprir o que escolhera.(6)
Platão não usou o vocábulo reencarnação, pelo simples fato dessa palavra não existir à época. Mas deixou claro, como exposto no texto acima, a crença no retorna do espírito ao corpo físico vinculando-o a escolha de um projeto existencial. Nota-se, também, a importância da lei de causa e efeito como elemento determinante dessa nova vida, e a ação dos espíritos protetores em amparar seus tutelados na nova jornada.
A problemática determinante da condição humana repousa sobre o velho dilema das origens dos sofrimentos e as aspirações por felicidade. A idéia da reencarnação, nesse sentido, representava um modelo explicativo para as vicissitudes da vida. Observamos que, também entre os romanos, tal idéia se fazia presente. O poeta Virgílio, em seu livro Eneida assim se expressa:
Pois é crível, meu pai, que almas sublimes
Aos tardos corpos, ressurgidos, voltem?
(...)
Ao rio um deus, por que elas, do passado
Esquecidas, rever a esfera queiram,
E entrar de novo nas prisões corpóreas. (7)
A rigor, sabe-se que o mundo romano era permeado de muitas crenças, concepções e doutrinas. Quando o Cristianismo nasceu, há mais de dois mil anos, não passava de uma entre tantas outras comunidades fechadas existentes nos territórios dominados por Roma. Nos três primeiros séculos de Cristianismo, o ambiente histórico-filosófico, era determinado pela influência da cultura grego-romana e judaica. Havia um intenso intercâmbio cultural e religioso entre Oriente e Ocidente, sobretudo, pelo projeto expansionista iniciado por Alexandre Magno (356 a.C. – 323 a.C.) Nesse ambiente tão diversificado de idéias, o princípio das vidas sucessivas ocupava importante espaço.
NOTAS
(1)LARA, Tiago Adão. A Filosofia nas suas Origens Gregas. Petrópolis, RJ. Vozes, 1989.
(2)PLATÃO. Fédro (249b-250b); Teeteto (148c-151d); Ménon (80b-86b) Fédon ( O argumento da reminiscência), entre outros.
(3)PLATÃO. Fédon. Diálogos sobre a Alma e a morte de Sócrates.
(4)PLATÃO Apud. DROZ, Geneviève. Os mitos platônicos. Trad. Maria A. R. Keneipp. Brasília: Ed. UnB, 1997. P. 65.
(5)Idem. P. 67.
(6)PLATÃO. A República - 620 a..
(7)VIRGÍLIO. Eneida. Livro VI. P. 239. ( Clássicos Jackson – Vol. III)
Dessa forma, chega a conclusão da existência de dois mundos: o Mundo das Idéias e o Mundo Sensível. O Mundo das Idéias em Platão – e “idéia” aqui não deve ser confundida com “conceitos de nossa mente” – é um mundo supramaterial, eterno, onde reina a verdade, a perfeição e a suprema importância do Bem. Esse mundo representaria a “forma” do mundo material, pois para tudo que existe aqui, haveria um modelo causal e perfeito no Mundo das Idéias.
O Mundo Sensível representaria, por sua vez, o mundo material com as imperfeições que lhes são inerentes. É o mundo ilusório, dos sentidos, mutável, perecível e caótico. Logo, um reflexo imperfeito do Mundo das Idéias. Nesse sentido, o conhecimento representaria uma importante via de transição, para o ser humano, da ilusão para a realidade, onde a idéia do Bem consubstanciaria o auge desse processo.
Dos textos (2) de Platão podemos extrair inúmeras afirmativas concernentes a teoria da reminiscência. Sim, estamos falando daquela famosa frase platônica que “aprender é recordar”. (3) Esse “recordar” está relacionado com a idéia das vidas sucessivas.
Em seu valioso estudo sobre os mitos platônicos, Geneviève Droz, filósofa e professora em Montpellier, destaca no Ménon (80d-86c), a afirmação sobre a imortalidade e a transmigração das almas. Platão, através dos diálogos de Sócrates, afirma que: “pesquisar e aprender não é senão se lembrar, quer dizer, encontrar em si mesmo, no seu próprio cabedal, um saber que já lá está.” A afirmação é Socrática:
A alma é imortal e renasce várias vezes. Contemplou, portanto, antes de qualquer existência encarnada, todas as coisas e possuiu o conhecimento. Portanto, não há nada de espantoso em que tenha, aqui na Terra, lembranças desse saber. Uma lembrança puxando outra, é possível reencontrar a integralidade do já conhecido. (4)
Analisando o argumento da reminiscência, Droz assim se expressa: “Se a alma viu, desencarnada, e esqueceu ao encarnar-se, impõe-se que tenha, aqui em baixo, a faculdade de lembrar-se. O amor é um dos meios para esse resultado.”(5) Em seus diálogos metafísicos, Platão não se esquivou em defender o argumento da imortalidade da alma e de suas sucessivas existências. Em seu livro A República, narra a história de um homem chamado Er que, morre gravemente ferido em uma batalha, mas por ocasião de seu funeral, doze dias depois, ele volta a vida, informando o que seu espírito vivenciou nesse período. Platão descreve essa experiência fora do corpo, que chamaríamos hoje de “morte aparente”. Er, recordava-se de ter visitado planos superiores e inferiores à Terra onde as almas venturosas ou infelizes viviam por determinados períodos, findo os quais, retornavam novamente à Terra servindo-se de novos corpos.
E era digno de se ver esse espetáculo, contava ele, como cada uma das almas escolhia a sua vida. Era, realmente, merecedor de piedade, mas também ridículo e surpreendente. Com efeito, a maior parte fazia a sua opção de acordo com os hábitos da vida anterior. [...] Assim que todas as almas escolheram as suas vidas, avançaram, pela ordem da sorte que lhes coubera, para junto de Láquesis. Está mandava a cada uma o gênio que preferira para gardar a sua vida e fazer cumprir o que escolhera.(6)
Platão não usou o vocábulo reencarnação, pelo simples fato dessa palavra não existir à época. Mas deixou claro, como exposto no texto acima, a crença no retorna do espírito ao corpo físico vinculando-o a escolha de um projeto existencial. Nota-se, também, a importância da lei de causa e efeito como elemento determinante dessa nova vida, e a ação dos espíritos protetores em amparar seus tutelados na nova jornada.
A problemática determinante da condição humana repousa sobre o velho dilema das origens dos sofrimentos e as aspirações por felicidade. A idéia da reencarnação, nesse sentido, representava um modelo explicativo para as vicissitudes da vida. Observamos que, também entre os romanos, tal idéia se fazia presente. O poeta Virgílio, em seu livro Eneida assim se expressa:
Pois é crível, meu pai, que almas sublimes
Aos tardos corpos, ressurgidos, voltem?
(...)
Ao rio um deus, por que elas, do passado
Esquecidas, rever a esfera queiram,
E entrar de novo nas prisões corpóreas. (7)
A rigor, sabe-se que o mundo romano era permeado de muitas crenças, concepções e doutrinas. Quando o Cristianismo nasceu, há mais de dois mil anos, não passava de uma entre tantas outras comunidades fechadas existentes nos territórios dominados por Roma. Nos três primeiros séculos de Cristianismo, o ambiente histórico-filosófico, era determinado pela influência da cultura grego-romana e judaica. Havia um intenso intercâmbio cultural e religioso entre Oriente e Ocidente, sobretudo, pelo projeto expansionista iniciado por Alexandre Magno (356 a.C. – 323 a.C.) Nesse ambiente tão diversificado de idéias, o princípio das vidas sucessivas ocupava importante espaço.
NOTAS
(1)LARA, Tiago Adão. A Filosofia nas suas Origens Gregas. Petrópolis, RJ. Vozes, 1989.
(2)PLATÃO. Fédro (249b-250b); Teeteto (148c-151d); Ménon (80b-86b) Fédon ( O argumento da reminiscência), entre outros.
(3)PLATÃO. Fédon. Diálogos sobre a Alma e a morte de Sócrates.
(4)PLATÃO Apud. DROZ, Geneviève. Os mitos platônicos. Trad. Maria A. R. Keneipp. Brasília: Ed. UnB, 1997. P. 65.
(5)Idem. P. 67.
(6)PLATÃO. A República - 620 a..
(7)VIRGÍLIO. Eneida. Livro VI. P. 239. ( Clássicos Jackson – Vol. III)
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