terça-feira, 23 de julho de 2013

35 ANOS DE ESDE NO RS

"Salomão Benchaya, 35 anos depois:

'O ESDE socializou o estudo das obras básicas'

A partir de entrevista com Salomão Jacob Benchaya, CCEPA Opinião resgata fatos alusivos ao lançamento da Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, há 35 anos. Juntamente com Maurice Herbert Jones, então presidente da FERG, Salomão conduziu o histórico processo que inaugurou nova fase para o espiritismo no Brasil.

Como tudo começou
Em 1978, Maurice Herbert Jones era presidente da Federação Espírita do Rio Grande do Sul e Salomão Jacob Benchaya, diretor do Departamento Doutrinário. No dia 26 de junho daquele ano, em uma reunião do Conselho Executivo da FERGS, o espírito Angel Aguarod, através da médium Cecília Rocha, reiterou recomendação já dada em 28.04.76, de “uma grande campanha em torno da importância do estudo das obras básicas da Doutrina Espírita”. A proposta de Aguarod, segundo Benchaya, “desta feita repercutiu imediatamente, pois Jones e eu já havíamos constatado a existência de uma lacuna no movimento espírita no tocante ao estudo da obra de Kardec”. Aproveitando a experiência pioneira da FERGS na elaboração e remessa de programas e planos de aula da então chamada “evangelização infantil”, Benchaya propôs que fosse utilizado aquele modelo para preparar na FERGS material orientador a fim de ser enviado aos centros espíritas como apoio à formação e funcionamento dos grupos de estudos metódicos das obras de Kardec. Nascia, assim, a Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, lançada em reunião do Conselho Deliberativo da FERGS, há exatos 35 anos, no dia 22.07.78. Começava ali um intenso trabalho, coordenado pelo Departamento Doutrinário, com cursos na Capital e interior, visando à preparação de coordenadores de grupos de estudo, já que, segundo nosso entrevistado, “essa atividade era praticamente inexistente nas casas espíritas”.

A “surda resistência” do Conselho Federativo da FEB
Animado pelo sucesso da campanha no Rio Grande do Sul, o presidente Jones levou a ideia ao Conselho Federativo Nacional da FEB, onde, segundo Salomão, enfrentou uma “surda resistência” às suas repetidas propostas para que a FEB expandisse a campanha a todo o território nacional: “Diante do manifesto desinteresse dos representantes das federativas estaduais” – acrescenta Benchaya – “Jones exigiu que o presidente da FEB, Francisco Thiesen, na reunião de 06.07.80, colocasse a proposta em votação aberta, estratégia que surtiu efeito, sendo aprovada a proposta da FERGS”. O efetivo lançamento da campanha, entretanto, pela FEB, só se daria mais de três anos após, em 27.11.83.

Antiga SELC – hoje CCEPA – serviu de laboratório
Com esse relato, Salomão ressalta que o marco inicial do ESDE é seu lançamento pela FERGS há 35 anos. Tudo começou a partir da metodologia de grupos desenvolvida na Sociedade Espírita Luz e Caridade – atual Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – que lhe serviu de laboratório. Para Salomão, 'o ESDE socializou o conhecimento das obras básicas do espiritismo, e a cultura do estudo sistematizado propiciou o surgimento de uma nova geração de líderes espíritas. Hoje, através da FEB e do CEI, o ESDE é conhecido e aplicado em vários países'”.

domingo, 7 de julho de 2013

ESCASSEZ DE IDEIAS

Jerri Almeida

Vivemos, é bem verdade, no mundo da informação. Nunca se teve tanta rapidez no fluxo das notícias, na transmissão de conhecimentos e saberes, como no mundo contemporâneo. Milhares de novas teses, dissertações e pesquisas são cotidianamente publicadas. A internet democratizou o acesso à informação em seu sentido mais amplo e genérico. Documentos que antes somente poderiam ser acessados em arquivos, hoje estão disponíveis gratuitamente na web. Jornais, acervos, blogs, redes sociais, entre outros, levam conteúdos, os mais variados, para dentro de nossas mentes. Vivemos, inegavelmente, um excesso estressante de informações.
Thomaz Wood Jr, em seu interessante artigo: “Pensar dói?”, publicado na revista Carta na Escola (Dezembro de 2011, nº 62), cita o texto do professor Neal Gabler publicado no New York Times, no qual assevera: “...vivemos em uma sociedade na qual ter informações tornou-se mais importante do que pensar: uma era pós-ideias.” Vivemos a ditadura da informação “opaca”, amorfa,  incapaz de gerar qualquer tipo de reação ousada ou revolucionária. Não uso aqui a palavra “revolução” no sentido marxista, muito menos no seu sentido de produzir conflitos armados, ou coisa do gênero. Refiro-me, isto sim, a uma atitude dialética das ideias que vem sendo enterrada e sufocada pelo consumo exorbitante da informação.
Na revista já citada, encontramos também um artigo do professor doutor em filosofia pela USP, Juvenal Savian Filho, no qual afirma que o excesso de informações tolhe-nos a capacidade de elaborar reflexões mais profundas e articuladas, pois: “ ...somos levados a nadar apenas na superfície das ideias e a consumir mensagens relâmpagos, num fluxo frenético de imagens e sons que abafam nossa vocação para o pensamento.” (p. 34) Para ele, o efeito disso é uma escassez de novas e impactantes ideias, causando uma espécie de “irracionalismo” Ou seja, o ato de “pensar” está sendo deixado de lado.
Nas escolas e, pasmem, nas universidades, encontramos alunos que recusam-se, obstinadamente, a pensar. Para esses, a salvação é somente duas teclas (medíocres) do teclado de qualquer computador que esteja conectado à rede: “Ctrl + C” e “Ctrl + V”.  Vive-se os infames dias do saber “fast food”. Para os adoradores dos conteúdos enlatados, “pensar dói”.  Talvez por isso, muitos adultos de hoje também não saibam resolver problemas. Talvez por isso, também, muitos adultos busquem soluções milagrosas, instantâneas, para seus dilemas. São os pais que levam o filho de 8 anos ao médico, para que este, receite cápsulas de boas maneiras, comprimidos de respeito, ou um sossega Leão, para o menino indisciplinado que nem o pai nem a mãe querem ter o trabalho de educar. A debilidade das ideias terceiriza problemas e soluções.
Pensar, como alguém certamente já disse, dá trabalho! Como vivemos numa cultura que nos induz ao prazer instantâneo, o ato de pensar é uma heresia, que somente se justifica quando “descompromissadamente”. Se o futuro aponta para uma “overdose” de informação, muita gente irá morrer de inanição mental. É trágico!
Mas, como prefiro não me filiar aos pessimistas, creio que dessa “tragédia” renascerá um novo “iluminismo”, onde reaprenderemos a pensar.  Descobriremos o prazer de pensar e refletir sobre as coisas, nos tornando novamente amigos da sabedoria e, por fim, sobreviveremos redescobrindo o filosofar. 

domingo, 23 de junho de 2013

ANGÚSTIAS E DÚVIDAS

Jerri Almeida

A fé raciocinada não se impõe, pois se trata de uma construção pessoal, elaborada por aqueles que sinceramente desejam atingi-la. Mas além da instrução, ou do conhecimento, quais os demais fatores pertencentes a esse processo de construção da fé? Léon Denis, em sua magistral análise sobre o assunto, adverte: “Ninguém adquire essa fé sem ter passado pelas tribulações da dúvida, sem ter padecido as angústias (...). Muitos param em esmorecida indecisão e flutuam longo tempo entre opostas correntezas.”[1] 
O eminente filósofo espírita destaca duas perspectivas desse processo: dúvidas e angústias. A dúvida pode ser um instrumento, como foi para Descartes na filosofia, capaz de conduzir para a análise e rejeição de certas opiniões ou conhecimentos instituídos pelas tradições. A dúvida parte de uma incerteza sobre determinado assunto. Se esse assunto diz respeito às questões religiosas e existenciais, então, essa “dúvida” poderá carregar certas angústias.
Nesse caso, essa dúvida poderá ser considerada uma “dúvida natural”, quando vem acompanhando o indivíduo em sua caminhada existencial, ou uma “dúvida despertada”, quando gerada por uma situação externa. Por exemplo, o defrontar-se com a morte de uma pessoa querida, poderá despertar no sujeito certas dúvidas, sobre a existência humana e o sentido da vida. O evento “morte”, por vezes gerador de “angústias”, torna-se um agente capaz e desencadear dúvidas.
A dúvida poderá, nesses casos, tornar-se um elemento desestabilizador de algumas “certezas”, sobretudo, quando elas não foram suficientemente amadurecidas pela razão. Esse é um momento angustiante do qual nos fala Léon Denis. Todavia, isso gera um efeito positivo, na medida em que demonstra a superficialidade das certezas não amadurecidas.
Conforme a personalidade do indivíduo, ele poderá, nesse caso, se motivar a um processo de busca por respostas que lhes sejam mais consistentes. Enveredando-se em uma jornada admirável, percorrerá inúmeras possibilidades explicativas, sintonizando-se com aquela que melhor apaziguar suas angústias.
A dúvida está na base da busca pela verdade. O sociólogo francês E. Durkheim afirmou que os primeiros sistemas de representação que o ser humano elaborou são de origem religiosa. Para ele a filosofia e a ciência, tiveram suas origens na religião. Mas, a religião, pura e simplesmente, enclausurada em verdades fechadas, deixa de satisfazer, no mundo complexo em que vivemos, as diversas inquietações e angústias humanas.
Allan Kardec, dialogando com o Padre, no Terceiro Diálogo, do livro O Que é o Espiritismo, afirma: “O Espiritismo não se impõe porque, como disse, respeita a liberdade de consciência. Compreenda muito bem, por outro lado, que toda fé imposta é superficial e só oferece aparências da fé; nunca é a fé sincera.”
Sócrates, há seu tempo, interrogando o oráculo de Delfos, parte da dúvida para alcançar,  através do raciocínio perquiridor, a certeza e a verdade. Quando se duvida, portanto, é para se conhecer, com mais elevado grau de certeza. Claro que estamos falando de uma dúvida responsável, associada à angústia, e, por isso mesmo, compromissada com a busca da verdade.
Apoiando-nos em Léon Denis, percebemos que a fé racional pode ser construída e elaborada por esses “movimentos internos” da alma, que trás na sua essência, a necessidade do saber. Esse saber, na escalada evolutiva do espírito, nunca é totalmente absoluto. O que abre sempre novas possibilidades, de um lado, para a presença da fé enquanto sentimento de “confiança”, e por outro, para a progressividade do acesso à verdade.
Mas Kardec alertou que a construção da fé raciocinada é um processo, isto é, não se dá repentinamente: “A transição jamais se opera de maneira brusca, mas pela mistura temporária das ideias antigas e das ideias novas; é, de início, uma fé mista, que participa de umas e de outras; pouco a pouco a velha crença se extingue, a nova cresce, até que a substituição seja completa.”[2]
A fé raciocinada, portanto, está diretamente associada a uma convicção que vai sendo estruturada ao longo do tempo, inclusive, através das múltiplas experiências reencarnatórias. No que se refere à convicção espírita, ele esclarece que ela só se adquire pelo estudo, pela reflexão e por uma observação continuada sobre os aspectos do cotidiano, e, portanto, amadurecendo reflexões sobre teoria e experiências.[3]


NOTAS

[1] DENIS, Léon. Depois da Morte. Fé, esperança, consolações. p. 258
[2] KARDEC, Allan. As Três Filhas da Bíblia. Revista Espírita.  Fevereiro de 1867. P. 69. FEB
[3] KARDEC, Allan. Discurso na S.P.E.E. por Ocasião da Renovação  do Ano Social de 1861.  Revista Espírita – Maio de 1861.

domingo, 9 de junho de 2013

A FILOSOFIA ESPÍRITA

Jerri Almeida

A rigor, O Livro dos Espíritos é a obra fundadora da Doutrina Espírita e, portanto, do que chamamos de “filosofia espírita”. Nos meios intelectuais, alguns pensadores continuam negando o caráter filosófico dessa Obra codificada por Kardec. Gonzáles Soriano, em seu ensaio intitulado: “El Espiritismo es la Filosofia”, mesmo sem ser espírita, assevera que o Espiritismo é: “...a síntese essencial dos conhecimentos humanos aplicados à investigação da verdade.”[1]  Ora, a longa tradição filosófica do Ocidente, buscou na razão as interpretações que se julgavam “lógicas” e “aceitáveis”, para explicar o mundo.
A filosofia, no seu nascedouro, buscou romper com a explicação mitológica da realidade, muito comum nas sociedades agrárias antigas. Embora, ainda hoje, se aceitar a definição de Pitágoras, num sentido mais etimológico, de que a filosofia signifique: “amor à sabedoria”, podemos perceber num sentido amplo que o que existe, de fato, são “filosofias”, ou seja, concepções diferentes sobre a realidade. Nos vinte e cinco séculos de tradição filosófica Ocidental os inúmeros filósofos e suas escolas conceberam filosofias distintas e, muitas, conflitantes.
Quer se afirme que a filosofia seja: um conjunto de saberes, uma visão de mundo ou um modelo explicativo da vida, é importante lembrarmos o pensamento do filósofo Sexto Empírico, do século II-III, ao afirmar que em toda investigação temos três resultados possíveis: acreditamos ter encontrado toda a resposta; acreditamos ser impossível encontrar a resposta, ou continuamos buscando. Para ele, a filosofia deveria repousar nessa última questão, ou seja, de que o conhecimento não é algo pronto, acabado, fechado, mas, sobretudo, progressivo. Nada é sagrado, pois tudo é objeto de crítica e análise.
Allan Kardec, embora não ter sido propriamente um filósofo, teve a grandeza intelectual de jamais “fechar” o pensamento espírita em torno de uma “verdade única”, dogmática. Esse é um caráter intrínseco do discurso filosófico: a liberdade de pensamento, aberto à reflexão e ao progresso das ideias. 
O Espiritismo na medida em que busca explicar a realidade através da razão e da lógica, utiliza-se de um discurso filosófico. Todavia, a filosofia espírita, inaugurada em O Livro dos Espíritos, não traduz uma simples reflexão intelectual para criar sentidos ou significados, Ao contrário, a filosofia espírita, é um saber que se justifica com base nos fatos. Ao analisar o conjunto de sua obra, veremos que Kardec não partiu da “crença”, mas da sólida pesquisa científica, no campo da mediunidade, para, num segundo momento, enveredar pelos caminhos da interpretação dos fatos, com base no crivo da razão. Disso surgiu a filosofia espírita inserida inicialmente em  O Livro dos Espíritos.
Para Marcondes: “A contribuição da filosofia tem sido, portanto, desde o seu nascimento na Grécia antiga, a interrogação, o questionamento, a pergunta. Para a filosofia não há nada que não possa ser posto em questão. Deve ser possível discutir tudo.”[2] Sob esse aspecto, O Livro dos Espíritos, em suas 1019 perguntas ou questionamentos, se afirma no discurso filosófico. Kardec indagou os espíritos sobre um universo de questões que sempre inquietaram o pensamento humano: Deus, a alma, a origem da vida, a morte, os problemas sociais e familiares, a liberdade, o sofrimento, o destino e a felicidade, entre outros.  Dessa forma, a Obra Primeira da Doutrina Espírita avança, no seu modelo explicativo da vida, por onde outras filosofias se calaram, vítimas dos preconceitos ou do orgulho de seus formuladores.
Um estudo atento de O Livro dos Espíritos evidencia a busca constante de Kardec, por explicações plausíveis, que possam atender à coerência e ao bom senso. Ele interroga os espíritos com firmeza, cercado de boa argumentação, mas – ao mesmo tempo – buscando libertar-se de preconceitos e atavismos culturais de sua época, muito embora, seria ingenuidade pensar numa “neutralidade absoluta”.
Há, naturalmente, uma “busca incessante” de conhecimentos e reflexões, iniciadas em O Livro dos Espíritos e que, evidentemente, não pára com ele, nem mesmo o esgota em todo o seu potencial doutrinário. Isso oferece, ao conjunto das Obras Básicas, um dinamismo inesgotável, uma vez que a experiência da evolução espiritual vai oportunizando, ao Ser, uma ampliação de seus horizontes intelectuais.
Portanto, uma vez estabelecida a base estrutural do conhecimento espírita, em 18 de abril de 1857, o seu núcleo passa a ser a análise do homem na condição de espírito imortal e pluriexistencial. Define-se uma ontologia integrando a filosofia espírita no conjunto da tradição filosófica dualista: pitagórica, socrática, platônica, entre outras. Mas o espiritismo vai além do dualismo filosófico, estudando o Ser numa dimensão tríplice: espírito, perispírito e corpo. A partir dessas informações, buscamos aprimorar instrumentos de investigação que nos permitam compreender ou desvendar melhor essa realidade espiritual.
É preciso considerar, também, que O Livro dos Espíritos apresenta dois outros componentes importantes da reflexão filosófica: o diálogo e a dialética. Kardec, em todo o conjunto da Obra, dialoga com os espíritos através de inúmeros médiuns. Esse diálogo é uma relação dialética, de um conhecimento que não é uma simples “revelação” hierarquicamente estabelecida, mas que se opera pela via do debate e da discussão. A partir de uma pergunta, e de sua resposta, surgem outras perguntas e outras respostas que, ao longo do trabalho, são sistematicamente ordenadas.
 Essa relação dialética se processa também, no diálogo crítico do leitor com a obra. Mas é preciso que esse diálogo se distancie das leituras simplistas, onde, muitas vezes, se busca afirmar o conteúdo doutrinário através de posturas acríticas, influenciadas pela teologia tradicional. Através de sua metodologia, Kardec nos ensinou, por óbvias razões, a dialogar com a fonte das informações, os espíritos, de forma racionalista sem, no entanto, perder o viés dos sentimentos. A racionalidade empregada aos estudos deve servir para que os seus conteúdos nos levem a um encantamento, no bom sentido do termo, pela vida.

Notas

[1] Citado por Herculano Pires. Introdução à Filosofia Espírita. 2ª. ed. São Paulo: FEESP, 1993. P. 20.
[2] MARCONDES, Danilo. Para que serve a filosofia? (Prefácio) In. Café Philo: As grandes indagações da filosofia.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,  1999.

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