sábado, 10 de abril de 2010

NO RITMO DOS ANOS 80...UM OLHAR SOCIOCULTURAL


Como esquecer a década de 80? Nessa época, o mundo passou por mudanças expressivas na geopolítica internacional, com impactos na sociedade e na cultura. O historiador britânico Eric Hobsbawm, em seu livro A Era dos Extremos, chegou a mencionar essa década como a "Era do Desmoronamento", tais os múltiplos eventos ocorridos nesse período que impactaram o mundo. Para nós brasileiros, essa década ficou profundamente marcada no contexto da transição para a redemocratização do país.
Aos poucos, um movimento foi tomando conta, mais e mais, da população brasileira que aspirava pelo retorno da democracia. No fim do ano de 1980, o Congresso finalmente aprova uma emenda constitucional que determinava a realização de eleições diretas para o governo dos Estados. Em 1982 a população, após um longo tempo, pode escolher seus governadores. Era o prenúncio da transição sonhada por tantos brasileiros. Nesse período, Leonel Brizola assume o governo do Rio de Janeiro, tendo como vice o antropólogo Darcy Ribeiro. Iniciava-se, nesse ritmo, a campanha das Diretas Já para presidente do país. Militantes de várias orientações políticas e ideológicas se uniram para reivindicar o fim do estado de exceção, numa onda de manifestações que tomou conta do Brasil.
A ditadura atingia altos índices de impopularidade! Sob a liderança do deputado federal Ulysses Guimarães, do PMDB, o movimento das Diretas Já ampliava seu espaço, imaginando-se a sucessão do último remanescente dos governos militares: o General Figueiredo. É nesse momento que o Deputado Federal Dante de Oliveira envia ao Congresso sua emenda propondo eleições “diretas já” para presidente. Em meio aos comícios e passeatas que agitaram o País, ainda sob as pressões do decadente regime, a emenda é rejeitada.
O impasse, no entanto, seria decidido seguindo-se a velha tradição do autoritarismo brasileiro, com a realização de eleições indiretas para a escolha do novo presidente. Seguia-se, agora, a corrida política em torno dos nomes que concorreriam as eleições majoritárias no âmbito federal. As eleições terminaram polarizadas em dois candidatos: Paulo Maluf, candidato do PDS (Partido Democrático Social) à sucessão de João Batista Figueiredo, e Tancredo Neves pelo Partido da Frente Liberal (PFL) como candidato de oposição. Em janeiro de 1985, o Congresso Nacional deu a vitória a Tancredo e seu vice, José Sarney. Chegava ao fim o regime militar que, por 21 anos, afastou a população brasileira das decisões políticas, amordaçando-a de maneira infame.
A década de 80 viu nascer a chamada Nova República no Brasil. Mas o povo acompanhou a inusitada doença do novo presidente, o repentino internamento às vésperas de sua posse, seguido de sua morte. Foram as contingências da vida, mais do que as armações políticas, que – nesse caso – conduziram José Sarney ao posto de presidente da república. Depois disso, a sucessão de planos econômicos do governo, na tentativa de conter os altos índices de inflação que o país atingia, promoveu o aparecimento de figuras populares como as donas de casa que, regularmente, monitoravam os preços dos alimentos nos mercados, zelando pelo “congelamento dos preços”. Quem não se lembra das “ fiscais do Sarney”?
No cenário televisivo brasileiro, o destaque foi José Abelardo Barbosa de Medeiros, o “Chacrinha”. Apresentador do programa de auditório de enorme sucesso, o Cassino do Chacrinha, foi responsável, com seu estilo singular, pela revelação de vários artistas no cenário musical brasileiro. Nos anos 80, tivemos uma verdadeira explosão do rock nacional. Bandas, saídas das garagens, passaram a ocupar a programação das rádios FMs, após fazerem sucesso no Programa do “velho guerreiro”.
O ritmo musical dos anos 80 foi bem diversificado. Ainda sob o forte impacto da ditadura militar, o rock brasileiro mostrou sua face contestatória nas letras da Plebe Rude, como nos rits: Proteção e Censura. Essa última tinha como refrão: “Unidade repressora oficial, a censura, a censura, única entidade que ninguém censura...” O chamado rock engajado discutia questões político-sociais mesclando um ritmo dançante com guitarras distorcidas e letras que criticavam, entre outros, o autoritarismo e o consumismo. Grupos como Ira, Legião Urbana e Titãs conquistavam cada vez mais o público adolescente da época.
Numa linha mais intermediária, mesclando letras românticas com críticas sociais, sobretudo investindo num estilo pop que permeava as danceterias, estava o RPM de Paulo Ricardo. Músicas como Alvorada voraz, Loiras geladas e Rádio Pirata embalaram e continuam embalando gerações. Por sua vez, o rock irônico e debochado dos grupos Ultraje a Rigor e Camisa de Venus assumiam o lado rebelde da juventude onde temas como sexo, ciúme, relacionamentos, regados a uma boa dose de humor, eram os destaques nas letras. Lembremos de: Inútil, Ciúme, Nós vamos invadir sua prária (do Ultraje), e Eu não matei Joana D´arc (do Camisa).
A rigor, o grande evento musical dos anos 80 foi realizado em janeiro de 1985. O evento que reuniu aproximadamente 1.400 mil pessoas, foi realizado no Brasil numa atmosfera geral de euforia no contexto da eleição de Tancredo Neves: o Rock In Rio. Foram 10 dias de muita música numa verdadeira “cidade do rock” (uma área de 250 mil m2 na Barra da Tijuca – Rio de Janeiro) num impacto internacional que colocou o Rio de Janeiro no roteiro dos grandes shows mundiais. Artistas nacionais como Pepeu Gomes, Barão Vermelho, Gilberto Gil, Rita Lee, Paralamas do Sucesso, entre outros, se apresentaram com grandes estrelas da música internacional como, por exemplo: AC/DC, George Benson, B52, James Taylor, Iron Maiden, etc.
Nesse período destacou-se, também, o rock gaúcho. As “bandas de garagem” aqui tiveram sua plenitude, sobretudo, a partir de festivais promovidos por cursos pré-vestibulares na Capital. Nessa década emergiram grupos como: Taranatiriça, Replicantes, TNT, Garotos da Rua, Cascaveletes, entre outros. Os shows e as danceterias, ambos realizados no espaço social de clubes das cidades, atraíam os adolescentes nos finais de semana.
Se for verdade que os anos 80 representaram uma verdadeira virada na história contemporânea, também é verdade que o ano de 1989 demarcou, simbolicamente, o fim da divisão do mundo em dois extremos ideológicos com o fim da guerra fria. Em certos momentos a produção artística antecede os fatos históricos. Foi o que aconteceu com a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii ao lançar seu disco, talvez, mais popular: O Papa é pop, cujo destaque era a música Alívio imediato. A letra fazia referência direta ao “Muro de Berlim”, antes de sua queda:

Há um muro de concreto
Entre nossos lábios
Há um muro de Berlim dentro de mim
Tudo se divide, todos se separam
Duas Alemanhas, duas Coréias
Todo se divide, todos se separam
Que a chuva caia como uma luva
Um dilúvio, um delírio
Que a chuva traga alívio imediato
Que a noite caia, de repente caia
Tão demente quanto um raio
Que a noite traga alívio imediato.

No ano em que se comemoravam os 200 anos da Revolução Francesa (1789-1989), na madrugada do dia 9 de novembro, o Muro de Berlim, tão “demente”, caiu como um “raio,” preconizando o fim da utopia socialista do Leste Europeu e garantindo, a partir daí, a hegemonia americana no mundo. Lembremos que desde 1985 a União Soviética passava por crises e mudanças internas. As reformas de Gorbachev conduziram a URSS ao chamado fim do socialismo real, advindo sua fragmentação em diversas repúblicas no início dos anos 90.
Mas, o mundo também havia se assustado com a explosão, anos antes, do reator principal da usina nuclear de uma, até então, desconhecida cidade do norte da Ucrânia: Chernobyl. Com a explosão uma nuvem radiativa espalhou-se por diversos países da Europa e da Ásia, contaminando pessoas, animais e o meio ambiente. Até hoje os efeitos devastadores da radiação se fazem presentes nos países atingidos, através de doenças como o câncer.
Crises, explosões, contestações...Liberdade! Liberdade que os jovens berlinenses por tanto tempo esperaram. Mas também os estudantes chineses, movidos por suas angústias diante de um governo totalitário, invadem a “Praça da Paz Celestial” em Pequim , em 15 de abril de 1989. O protesto se estendeu por semanas e agregava cada vez mais pessoas. Esperava-se que a abertura política que ocorria no Leste Europeu envolveria também a China. A imprensa internacional realizava uma grande cobertura desses protestos por abertura e liberdade. Todavia, a liderança do Partido Comunista Chinês determinou que as manifestações deveriam acabar a qualquer custo.
O exército recebeu ordem de dispersar a multidão. No dia 5 de maio, o mundo assistiu surpreso um jovem manifestante colocar-se diante de uma fila de tanques que marchavam para dispersar a multidão. O nome desse jovem e do seu destino nada se sabe. Mas o sonho de uma China democrática morreu junto com os manifestantes na “Praça da Paz Celestial”.
Como poderíamos perder o ritmo dos anos 80, onde a juventude vivia sem computador, internet, MSN, Orkut, celular, mp3...? Para muitos, no entanto, a década trazia mudanças que, de certa forma, sinalizavam o fim das ilusões: “Ideologia, eu quero uma pra viver”, “a gente não sabemos escolher presidente”, ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”. E, finalmente, nós brasileiros nos indagávamos: “Que país é esse?”
Lembremos que a história é um processo de mudanças e de permanências. O século 21 apresentou-nos um novo panorama sociocultural, sem dúvida, mas foi na década de 80 que nos sentimos, e refiro-me a geração dos “quarentões” de hoje, um pouco mais protagonistas da história.



Referências

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. O breve Século XX. 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

PESAVENTO, Sandra J. O Brasil Contemporâneo. 2a. Ed. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1994.

Cultura e Música anos 80, disponível em: http://www.autobahn.com.br/

domingo, 4 de abril de 2010

CONVIVER

O ser humano está constantemente exposto a vários níveis e tipos de desafios. Desde os tempos mais remotos, a necessidade de sobrevivência impôs a criatura humana a possibilidade de superar os seus próprios limites, expandindo sua inteligência e sua sociabilidade.
Vivemos e coexistimos no mundo. Fomos criados para com-viver e, nesse processo, desenvolvermos nossa capacidade humana de amar ao próximo, respeitando suas singularidades. O cotidiano, entretanto, nos reserva o desafio de construirmos relacionamentos interpessoais permeados de sentimentos produtivos, fraternos e solidários.
A convivência humana se nutre no diálogo, na afetividade e na honestidade. Sua ética se sustenta no princípio da conservação, cooperação e compaixão.
Propomos esses e outros princípios, de caráter universal, para nortear nossa reflexão, principalmente, sobre os valores da sociedade contemporânea, num novo olhar para o convívio interhumano.
O homem tecnológico dos nossos dias, vive e convive, num ímpeto crescente por encontrar a auto-realização e plenitude. Entretanto, muito embora as valiosas conquistas do pensamento e da tecnização, o homem pôde ter mais conforto, mas não logrou a paz almejada. A coexistência humana ainda oferece múltiplos desafios na edificação de uma convivência mais plena de cuidado e generosidade.
O convívio social, por sua vez, irá motivar o desenvolvimento das nossas faculdades cognitivas, emotivas e sensoriais como: linguagem, razão, sentimento, percepções... Não obstante, algumas questões vem angustiando o pensamento de muitas pessoas, quotidianamente: Como conviver bem ? Como encontrarmos felicidade nos relacionamentos ? Como superarmos os conflitos decorrentes da convivialidade ?
Diante de tais problematizações, vale lembrarmos que na raiz da história humana, está uma cultura que tenta dominar o outro. Foi assim no passado onde vigia a lei do mais forte; a própria colonização brasileira pelos portugueses foi exemplo disso. Entretanto, a dinâmica da vida contemporânea está a apontar maior complexidade no futuro, o que implica a necessidade de edificarmos uma convivência não mais baseada na hostilidade, mas na comensalidade, dividindo o pão da vida.
É necessário conviver com vida, adotando-se a metodologia da não-violência, e nos alfabetizando na arte de amar. A solidariedade, conforme o pensador francês Edgar Morin: “não pode ficar no subterrâneo”, pois todos ansiamos a fraternidade e a possibilidade de auto-realização no contato com o outro.

ALMEIDA, Jerri Roberto S. Filosofia da Convivência. 2a. Ed. Porto Alegre:AGE, 2006. Introdução.

domingo, 28 de março de 2010

A REENCARNAÇÃO NA HISTÓRIA – Parte II - ANATEMATIZANDO ORÍGENES

As diversas crises que abalaram o Império Romano, a partir do século III d.C. culminaram com a divisão do Império Romano, realizada por Teodósio em 395, em Império do Ocidente e Império do Oriente. O império romano do Oriente ficou com sua capital em Constantinopla e passou a ser conhecido também como Império Bizantino. No decorrer do medievo, o Império Bizantino procurou manter-se depositário das tradições romanas, fundadas num império universal de forte influência eclesiástica.
No mundo bizantino, do século VI, sob o comando autocrático do Imperador Justiniano (que reinou entre 527-565), a idéia das vidas sucessivas novamente estaria na pauta dos debates e das heresias a serem definitivamente combatidas pelo poder institucional. Desta vez eram os origenistas, seguidores das idéias de Orígenes que estavam no foco das críticas. Na prática, no entanto, os polêmicos debates religiosos refletiam a luta pela direção espiritual do mundo cristão oriental. Mas, quem era Orígenes?
Orígenes nasceu em família cristã em 185 ou 186 da nossa era, provavelmente em Alexandria. Aos 18 anos assumiu a direção da escola catequista como sucessor de Clemente, mas em 215 os massacres praticados por Caracalla obrigaram Orígenes a deixar Alexandria, fugindo para Palestina onde os bispos Alexandre de Jerusalém e Teócito de Cesaréia o acolheram com honra e o fizeram pregar nas suas igrejas. Fundou uma escola teológica em Cesaréia, tendo como discípulo San Gregório Taumaturgo, onde permaneceu até a morte, aos 69 anos, durante perseguição comandada por Décio. Considerado o membro mais eminente da escola de Alexandria e estudioso dos filósofos gregos, sustentava em seus ensinamentos que Deus é puramente espiritual, o Uno, e que transcende a verdade, a razão e o ser.
Justiniano, julgando-se teólogo do trono imperial, tirou da Obra de Orígenes De Princípiis, nove anatematismos, encerrando com eles sua obra Adversus Origenem Líber ou Edictuam (Escrito entre o fim de 542 e o início de 543). Os anatematismos de Justiniano foram lidos no Sínodo de Constantinopla em 543. O principal anátema é o da condenação da preexistência da alma. O texto, no original em latim, assevera:


“Si quis dicit, aut sentit proexistere hominum animas, utpote quae antea mentes fuerint et sanctae, satietatemque cepisse divinae contemplationis, e in deterius conversas esse; atque ideirco apofixestai id este refrigisse a Dei charitate, et inde fixás graece, id est, animas esse nuncupatas, demissasque esse in corpora suplicii causa : anathema.” (1)

Na versão traduzida para o português temos:

“Se alguém diz ou sustenta que as almas humanas preexistem, no sentido de serem anteriormente, mentes e forças santas que se desgastaram da visão de divina e se voltaram para o pior e por isto se esfriaram no amor a Deus, tomando daí o nome de almas e que por punição foram mandadas para os corpos embaixo, seja anátema.” (2)


O Edito publicado por Justiniano em 543, combatendo as idéias de Orígenes seria confirmado por ocasião da convocação, pelo próprio Justiniano, em 553, do Quinto Concílio Geral da Igreja, na cidade de Constantinopla, atual Istanbul, na Turquia. Para alguns estudiosos, a condenação da doutrina da preexistência da alma estaria fortemente associada à Teodora, esposa de Justiniano, mulher de temperamento forte e ambiciosa. Ela havia sido uma cortesã, e iniciou uma rápida ascensão no Império. Buscando libertar-se de seu passado, conta-se que Teodora mandou expurgar do Império quinhentas de suas antigas colegas. Conhecedora das idéias sobre as vidas sucessivas, e com receio da idéia de retornar à Terra para reparar seus feitos equivocados, Teodora teria influenciado seu marido no combate a tais idéias.
Não temos como avaliar efetivamente o quanto essa possível influência de Teodora tenha contribuído para que Justiniano combatesse a doutrina da Reencarnação. De qualquer forma, é importante notarmos que certamente não foi essa a questão determinante, uma vez que nos três primeiros séculos do Cristianismo a nascente Igreja Católica, através de seus bispos, havia percebido que sua sobrevivência, e autoafirmação institucional, estavam condicionadas a uma teologia que fortalecesse sua importância enquanto mediadora entre os homens e Deus, sobretudo, na questão vital da salvação das almas. Nesse sentido, a idéia da Reencarnação apresentava-se como uma perigosa proposta para a Igreja, pois atribuía ao homem, e não a uma instituição, a responsabilidade pessoal por sua “salvação”.
O Concílio convocado por Justiniano, em 553, excluiu até o Papa da época, Virgilius, que segundo Carneiro, havia sido preso a mandado do próprio Imperador.(3) Dois problemas, no entanto parece ter ocorrido. O primeiro, diz respeito a validade universal de um Concílio que não havia sido convocado pelo Papa. Em segundo, fica uma possível intervenção de Justiniano, no sentido de forçar o Papa Virgilius a assinar o documento oficial do Concílio, no sentido de lhe dar validade e reconhecimento.
Não menos interessante, é a descrição citada por Carneiro, do início desse Concílio, constante na obra: Hefele, History of the Conucils, Vol. IV, p. 289:


“De acordo com ordens do Imperador mas sem o consentimento do Papa, o Concílio foi aberto em 5 de maio de 553 da nossa era crista, na Secretaria da Igreja da Catedral em Constantinopla. Entre os presentes achavam-se os Patriarcas Eutichis de Constantinopla, quem presidiu, Apollinaris de Alexandria, Domnius de Antioquia,três bispos como representantes do Patriarca Eustochius de Jerusalém, e 145 outros bispos metropolitanos e bispos, dos quais vários vieram também em lugar de colegas ausentes.” (4)


Após uma série de discussões e debates, comandados por Justiniano, o Concílio chegou ao fim com um documento apresentado ao Papa para sua ratificação, denominado “Os Três Capítulos – Os Cânones do II Concílio de Constantinopla (553)”. Mas, precisamente no seu Cânon 11 (5), o documento faz referência a Orígenes e anatematiza suas idéias. Vejamos a versão em espanhol seguida de sua tradução:

“Cânon.11. Si alguno no anatematiza a Arrio, Eunomio, Macedonio, Apolinar, Nestorio, Eutiques y Origenes, juntamente con sus impíos escritos, y a todos los demás herejes, condenados por la santa Iglesia Católica y Apostólica y por los cuatro antedichos santos Concilios, y a los que han pensado o piensan como los antedichos herejes y que permanecieron hasta el fin en su impiedad, ese tal sea anatema.” (6)
Tradução: “Se alguém não condena a Arrio, Eunomio, Macedonio, Apolinar, Nestorio, Eutiques e Orígenes, juntamente com seus escritos ímpios, e a todos os demais Hereges, condenados pela Santa Igreja Católica e Apostólica e por todos os quatro santos concílios mencionados, e a todos os que pensam como os mencionados hereges e que permaneceram até o fim em sua impiedade, que seja condenado”. (7) [Grifos meus]

Após o Concílio, os monges seguidores de Orígenes da Palestina foram expulsos de seus monastérios, e os textos origenistas destruídos. Com a rejeição da reencarnação a Igreja teve que encontrar uma outra explicação para a ocorrência de fatos negativos a pessoas boas. Sem as ações passadas para explicar as diferenças entres os destinos, restou a Igreja continuar defendendo a doutrina do pecado original aprovada, como vimos, no Concílio de Orange em 529.


NOTAS

(1) Apud.CARNEIRO, Diego Adam. A supressão da Reencarnação no Concílio de Constantinopla – Ano 553. Disponível: http://filosofiamaiden.blogspot.com/2008/04/supresso-da-reencarnao.html Acesso: 14/03/2009
(2) DENZINGER-HÜNERMANN. Compêndio dos Símbolos, Definições e Declarações de Fé e Moral. Trad. José Mariano e Johan Konings. São Paulo: Paulinas-Edições Loyola, 2007. Pág. 150-151.
(3) CARNEIRO. Diego Adam. Op. cit.
(4) Idem.
(5) Cânon significa uma regra geral de onde se inferem regras especiais.
(6) Disponível em: http://mercaba.wordpress.com/2008/07/12/concilio-ecumenico-ii-de-constantinopla/
Acesso: 29/03/2009
(7) Diponível em: http://www.phatae.com/artigos2/2006/reencarnacao.htm. Acesso: 15/03/2009

domingo, 21 de março de 2010

A REENCARNAÇÃO NA HISTÓRIA - Parte I - O CREDO DE NICÉIA

Filon de Alexandria (20a.C.- 50d.C.), filósofo judeu e contemporâneo de Jesus, cujas idéias a respeito do objetivo da vida situava-se na própria integração com Deus através de sucessivas existências; teve um papel muito importante na combinação dos pensamentos grego e judaico. Filon e sua escola de pensamento davam uma interpretação alegórica ao Antigo Testamento, conferindo-lhe um significado simbólico. A reencarnação fazia parte de sua visão filosófica sobre a vida: “As (almas) que se deixam influenciar pelo desejo de uma vida mortal...retornam a ela” (1) - escreveu ele. Filon viveu na cidade de Alexandria próximo do delta do Nilo, famosa por sua biblioteca e por ser um grande centro intelectual da época. Suas idéias influenciaram profundamente alguns patriarcas da Igreja romana: Clemente de Alexandria, Orígenes e Ambrósio. Filon era um erudito que acreditava e ensinava que o ser humano pode chegar a Deus pela sabedoria e pela transcendência.
A partir do século IV, no entanto, a idéia das vidas sucessivas que era naturalmente difundida, mexeria profundamente com as estruturas de interesse da greja romana. Um padre chamado Ário que viveu entre 250d.C. – 336d.C., nascido no Líbano, ensinava que Jesus era filho de Deus; logo, Jesus teve um princípio. A doutrina ariana se fundamentava no texto bíblico (Pr. 8,22) onde se afirmava que: “O Senhor me criou, princípio das suas vias em vista das suas obras.” A partir disso Ário concluiu que Jesus não era consubstancial ao Pai, isto é, Jesus deveria ser colocado no patamar da criação divina, sendo distinto da divindade.
Para os arianistas, a proposta de Jesus ter encarnado na Terra seria para nos ensinar como chegar a ele. Ário defendia que isso seria possível através de sucessivas existências físicas. As idéias arianistas ensejaram o concílio de Nicéia, uma cidade a beira de um lago a sudeste de Constantinopla, em junho de 325. O ponto central dos debates era se Jesus havia sido criado ou não. Se houvera sido criado, conforme entendiam os arianistas, então o progresso poderia ser alcançado por nós se seguíssemos, simples e tão somente, os seus ensinamentos. Mas se ele não houvesse sido criado, sendo, portanto igual a Deus, como desejavam alguns bispos, então seria totalmente distinto da criação. Nesse caso, a criatura humana para atingir a “salvação” dependeria exclusivamente da subserviência aos princípios da Igreja romana.
A idéia da reencarnação encontrou resistência por parte de certos teólogos e, certamente, também de Constantino. Lembremos que no início do século IV, o Império Romano começava a sentir os sintomas de um conjunto de crises que terminariam por desestruturá-lo como entidade política unificada. O papel desempenhado por Constantino ao reconhecer o Cristianismo como religião, em um Império decadente, ganha contornos de uma hábil manobra política, na tentativa de obter o apoio da nascente Igreja Católica e, ao mesmo tempo, manter os cristãos sob seu domínio.
Mas ao “aceitar” o Cristianismo, Constantino também o reformulou conforme seus interesses, pois, possuído o poder temporal, ele também ambicionava o poder espiritual, através de uma posição destacada dentro da Igreja. Claro que o debate sobre a natureza de Cristo e a reencarnação eram questões teológicas, desde muito presentes no pensamento do Ocidente. Constantino, no entanto, preocupou-se também em definir uma unidade teológica para a Igreja de Roma.
Ainda no início de seu governo, Constantino convocou o Concílio de Nicéia, que se reuniu durante dois meses e, pela primeira vez, um governante secular assumia posição de intervir na doutrina cristã. Conforme Atanásio, ferrenho opositor do arianismo, que participou do Concílio como diácono do bispo Alexandre, o número de participantes ultrapassou 300 bispos, vindos de diversas partes. Depois de muitos debates, Ário e seus seguidores foram derrotados. Os bispos decidem aprovar o chamado “Credo de Nicéia”, no qual – entre outras coisas – se identificava Jesus com Deus, e não com a Criação:

"Creio em um só Deus, o Padre Onipotente, Criador do Céu e da Terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis e em um só Jesus Cristo. Senhor Nosso, filho de Deus ungido, e nascido do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito da mesma substância como o Pai pelo qual foram feitas todas as coisas... que encarnou e foi feito homem." (2)


Tal orientação teológica negava aos seres humanos a possibilidade de se atingir a instância espiritual de Jesus, separando-o da Criação, não haveria, portanto, a noção de evolução espiritual através dos tempos, ou seja, ocorre a negação da preexistência da alma e sua possibilidade de progresso. Apenas dois bispos e o próprio Ário se recusaram a assinar o Credo de Nicéia e, por isso, Constantino os baniu do Império, afirmando que a decisão do Concílio tomada durante as “sagradas assembléias dos bispos” deveria ser aceita por todo o Clero como “indicativo da vontade divina.” (3)
Daí em diante, a Igreja se tornaria a única representante de Deus na Terra, uma mediadora entre os homens e o divino. Na prática, representaria um deus caprichoso e autocrático, um deus que não era diferente de Constantino e de outros imperadores romanos. (4) A controvérsia sobre a preexistência do Filho (Jesus) e a questão de que o Logos é diverso do Pai segundo a substância, portanto, que Jesus encarnou na Terra como as outras criaturas, permaneceria ainda muito forte após o Concílio de Nicéia. Os seguidores de Eusébio de Cesaréia queriam a revisão do Concílio de Nicéia, fato que, naturalmente, não foi concedido por Constantino. (5)
Naturalmente a visão reencarnacionista ensejava, desde os seus primórdios, a concepção do ser humano ser autor de seu próprio destino e, portanto, dependeria somente do indivíduo e seu livre-arbítrio, lograr o progresso ou a “salvação”, e de mais ninguém. Evidentemente essa proposta desarticulava os interesses de supremacia político-religiosos da época.

NOTAS

(1)FILON Apud PROPHET, p. 85
(2)Credo de Nicéia Apud. PROPHET. P. 202.
(3)Constantino Apud PROPHET. P. 204.
(4)Cf. PROPHET, Elisabeth C. Reencarnação: o Elo Perdido do Cristianismo. 2ª ed.Rio de Janeiro: Record: Nova Era, 1998. p. 205.
(5)CORBELLINI, Vital. A Participação de Atanásio no Concílio de Nicéia e a sua defesa do homooúsios. In. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 37, n. 157, p. 396-408, set. 2007.

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