terça-feira, 14 de setembro de 2010

ENTREVISTA COM JERRI ALMEIDA - Parte 1

“Esse é um momento muito importante de nossas vidas, onde estamos nos ensaiando para os valores da alma, buscando bem administrar os do corpo.”

O escritor Jerri Roberto Almeida relata a sua experiência como professor, expositor e colaborador da Federação Espírita do Rio Grande do Sul. Com graduação em História e pós-graduação em Diálogos entre História e Literatura do RS, utilizou-se de sua experiência no contato humano para desenvolver os temas de seus oportunos livros.

O Consolador: Como conheceu o Espiritismo?

Ainda jovem, era frequentador de palestras na Sociedade Espírita Amor e Caridade, em Osório, no RS. Logo depois passei a integrar o grupo de jovens espíritas. Com o tempo entrei no ESDE, passei a fazer palestras e a coordenar grupos de estudo.

O Consolador: Quais as atividades que você desempenha no Centro Espírita?

Colaboro no Atendimento Fraterno, coordeno grupo de estudos e realizo palestras.

O Consolador: Cargos já exercidos no movimento espírita ou atualmente exercendo:

Fui diretor e presidente da antiga União Municipal Espírita de Santo Antônio da Patrulha, órgão unificador da 10ª. Região Federativa, que compreende o Litoral Norte do RS. Desde o início dos anos 90, faço parte do grupo de expositores da FERGS. Assumi o cargo de presidente da Sociedade Espírita Amor e Caridade por 2 mandatos.

O Consolador: Tem artigos publicados?
Sim, tenho vários artigos publicados no jornal Diálogo Espírita e na revista A Reencarnação, ambos órgão de divulgação da Federação Espírita do RGS.

O Consolador: No Movimento Espírita você é muito solicitado como palestrante para seminários e palestras, tanto para trabalhadores como para o público. Quais temas prefere abordar e como sente a repercussão destas atividades?

Tenho viajado pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina realizando palestras e, principalmente, seminários para o público em geral. Os temas que venho me dedicando, desde vários anos, primam por questões relacionais, onde buscamos a contribuição do espiritismo, num constante diálogo com outras áreas do conhecimento, para discutir temas como: Convivência, Amor, Família, Felicidade, Autoconhecimento....

O Consolador: Quais os títulos de seus livros publicados?

Filosofia da Convivência e O Desafio da Felicidade: em um mundo em transformação.

O Consolador: Qual a repercussão de seus livros? Alguma situação em especial que gostaria de compartilhar?

Os livros, por abordarem questões que envolvem o universo relacional e emocional da criatura humana, têm sido bem recebidos. Participo de feiras de livros e programas de rádio onde os questionamentos, de participantes e ouvintes, retomam os dilemas existenciais do Espírito humano, numa busca constante por paz e felicidade.

O Consolador: Fale-nos da motivação para abordar temas como a filosofia da convivência.

A motivação partiu, naturalmente, dos próprios desafios ensejados pelo ato de conviver. Na segunda Semana Espírita de Torres/RS, lá na metade dos anos 90, realizei uma palestra intitulada: Os sete códigos da convivência. A abordagem desse tema chamou muito a atenção das pessoas, houve muito interesse pelo assunto. O retorno foi tão interessante que, com o tempo, passei a nutrir a idéia de aprofundar essa temática. Surgiu o Filosofia da Convivência.

O Consolador: Que lições têm a relatar de sua vivência espírita?

A grande experiência que a tarefa espírita nos enseja, e que as lições nos oportunizam, é a da conquista sobre si mesmo. É necessário compreendermos que o amor não é uma metáfora religiosa, mas uma proposta de vida em plenitude que devemos, pelo esforço, vivenciar em nossas famílias e nas Instituições Espíritas. Noto, salvo engano, que nas Sociedades Espíritas, de forma geral, ainda a fraternidade é muito acanhada e o amor um discurso. A lição que tenho buscado aprender é que precisamos amar, nos conhecendo melhor. Uma vez que somente posso mudar o que já vejo em mim.

Fonte: www.oconsolador.com.br

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ESPIRITISMO E POLÍTICA

Embora se preocupe diretamente com o melhoramento ético e moral do homem, o pensamento espírita não se exime de analisar a dimensão política da vida em sociedade. Allan Kardec, quando tratou dos fins e formação das Sociedades espíritas, no Capítulo 30 Art. 1º. de O Livro dos Médiuns, advertiu que as “questões políticas” deveriam delas se manter afastadas. A preocupação de Kardec era certamente pertinente, considerando-se que as Instituições espíritas jamais devem assumir posicionamento político-ideológico ou político-partidário. Nesse sentido, podemos considerar que não há uma aproximação direta entre Espiritismo e política.
Léon Denis foi enfático ao considerar: “A influência do Espiritismo no progresso da sociedade se processa, não no estímulo à luta de classe, mas no campo íntimo, ampliando os horizontes sobre a natureza humana e sua destinação.” As relações com o poder temporal fizeram, historicamente, muitas instituições religiosas respeitáveis tombarem ante seus fins mais profundos.
Mas o ser humano, diante das contingências evolutivas da Terra, é, na definição de Aristóteles, um “animal político”. No plano da individualidade, o espírita é alguém que está inserido na sociedade e que, portanto, como todo cidadão, possui responsabilidades com sua formação política, mesmo que não necessariamente partidária. Platão já dizia que, mesmo que o indivíduo não goste da política, será governado por políticos. Não devemos como cidadãos e, espíritas em particular, assumirmos uma postura de simples “indiferença” ao universo político que nos envolve.
Há uma problemática histórica no Brasil, onde o povo foi afastado das decisões, posto como um mero expectador das relações de poder. A sociedade brasileira viveu uma experiência democrática muito reduzida. Isso distanciou o indivíduo de seu protagonismo social, alienando-o das decisões políticas. No final dos anos 80, retomamos uma via democrática fundamental para o exercício das eleições e das escolhas que instituem uma sociedade mais horizontalizada.
A democracia, no dizer do saudoso professor Deolindo Amorim, é o regime que melhor corresponde à índole da Doutrina Espírita, pois a estrutura filosófica do Espiritismo não se adapta a nenhuma forma de poder totalitário. Afirmando, ainda, que: “A democracia é regime de conciliação, de equilíbrio, porque repele instintivamente qualquer hegemonia e permite a participação de todos no progresso comum, sem distinção de classes.”
Fazer escolhas e opções faz parte determinante de nossa caminhada evolutiva. É nesse sentido que enquadra-se o pensamento aristotélico do “ser político”. A noção de “maturidade humana” engloba as responsabilidades inerentes aos papéis sociais. Ser cidadão é um desses papéis.

Obs. Artigo escrito para o Jornal Diálogo Espírita

Referências citadas no texto

DENIS. Léon. Socialismo e Espiritismo. 2ª ed. Matão-SP: Casa Editora O Clarim, 1987.
AMORIM, Deolindo. Análises Espíritas. FEB. Cap. 19. Pág. 107.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

OS SIGNIFICADOS DA MORTE


Ao longo de seu processo histórico o homem passou a significar, em diversas manifestações socioculturais, o seu relacionamento com a morte. A ideia de sua finitude biológica levou-o, com maior ou menor consciência, a estabelecer – desde tempos remotos – significados a esse acontecimento inexorável. A necessidade do ser humano compreender a morte ensejou a criação de mitos, rituais funerários, modelos teóricos explicativos de sua temporalidade biológica, etc. Da mesma intensidade com que procurou compreendê-la, o homem vem lutando contra ela. O medo do desconhecido gera insegurança, devido ao instinto de conservação. Da insegurança ou esperança, do confronto com essa realidade, nasceram religiões e filosofias que estimularam o homem à reflexão sobre si mesmo.

Primeiros significados

A prática de enterrar os mortos, segundo Edgar Morin, conforme conhecemos, começou com o Homem de Neandertal. Não raro, encontrava-se o morto em posição fetal, o que sugere uma crença no seu renascimento. Adotou-se, também, a prática de abrir cavidade nas rochas, onde os corpos eram colocados de cócoras e coberto de pedras. Junto ao corpo eram depositado seus objetos pessoais e alimentos. Segundo Chiavenato pesquisadores do Museu do Homem de Paris, teriam descoberto em uma sepultura de 60 mil anos, referente ao homem de Shanidar, grãos de pólen espalhados ao redor dos fósseis. Diante de tal descoberta, concluiu-se sobre a importância dos rituais mortuários nesses grupamentos tribais.
Mais tarde, já com o Homem de Cro-Magnon, encontrou-se corpos esticados na posição horizontal de costas para baixo, ou em posição fetal. No Mesolítico, época dos últimos caçadores e coletores, as sepulturas passam a ser ovais e pouco profundas, sendo mais comuns as sepulturas coletivas, onde identificou-se, também, indícios de oferendas ou rituais funerários. Quais os significados que esses homens ancestrais teriam dado à morte? Difícil afirmar. Todavia, surge a necessidade de cultuar os mortos e, ao mesmo tempo, salvaguardar os vivos. Isso ocorre através de rituais que visavam agradar os deuses, na esperança de proteção. O sentimento religioso surge, portanto, associado a ideia do temor. E o temor será a base dos estímulos religiosos para a conduta humana nas diversas sociedades, principalmente, Antiga e Medieval.
A civilização do Nilo, por sua vez, atribuía à morte uma dimensão metafísica. Em O Livro dos Mortos, provavelmente com origem na V Dinastia (2.345 a.C.) os egípcios buscavam indicações sobre a passagem do morto pelas diversas etapas em sua jornada pós-morte. Os rituais mortuários no antigo Egito, tipificavam a morte como uma continuação da vida. Daí a necessidade da preservação do corpo (privilégio, normalmente, da nobreza) para que o espírito a ele retornasse, após sua jornada pelo mundo dos mortos. Atribuiu-se tal importância à morte que quarenta e cinco séculos antes de Cristo, na mitologia egípcia, Anúbis ou Anpu, era o deus da morte, presidindo o embalsamamento e o sepultamento. Acreditava-se que o corpo devia ser conservado para permitir a sobrevivência do duplo (Ka), uma espécie de matéria vaporosa e colorida que adotava a forma do corpo e do espírito. O espírito ou alma (Ba), por sua vez, era representado por uma chama ou um pássaro que voaria na direção da luz ou acompanharia o seu sepultamento.
Bem se percebe que a idéia da imortalidade da alma, do períspirito e da reencarnação, fazia parte da cultura religiosa, não só dos egípcios, mas de grande parte dos povos da Antiguidade. Nesse sentido, a morte personificava, no Egito, não somente a imortalidade da alma, mas, também, a “imortalidade do corpo”. A morte não era vista como “fim”, mas como um processo, imanente e transcendente à existência corporal. Entretanto, o destino da alma estava subordinado ao comportamento do morto, enquanto vivo.

O nascimento da morte

Segundo Long , a inevitabilidade da morte na mitologia hindu, pode ser bem compreendida em uma interessante narrativa do Mahabharata, onde um sábio tenta amenizar o sofrimento de alguém que acabou de perder uma pessoa querida, contando-lhe uma fábula sobre a origem da morte. Segundo a história, Brahmã criou tantos seres que a Terra começou a ficar cheia a ponto de não haver mais lugar para respirar. Nessa época a morte não existia. Nasciam multidões de criaturas mas ninguém morria. Como resultado, a Mãe Terra começou a sentir-se tão sobrecarregada com o excessivo número de pessoas que suplicou que Brahmã lhe aliviasse a “carga”. Ele conteve um pouco de sua energia criadora a fim de prover tanto a criação quanto a destruição. Com isso, Brahmã dá origem a uma mulher em túnica escarlate, olhos de intensa luz vermelha, a quem denomina “morte”. Sua missão seria a de “retirar” da Terra, a seu devido tempo, todos os seres humanos. Todavia, a morte negou-se a tal tarefa, receando, naturalmente, a ira dos parentes diante da ausência de seus afetos. A morte afastou-se então da Terra, para levar uma vida ascética. Entretanto, Brahmã voltou a persuadi-la para que executasse seu dever. Finalmente, transformou as lágrimas de sofrimento da morte em moléstias, instrumentos para remover os seres da Terra.
A história é finalizada com um ensino moral: “Sabendo que a morte chega para todos, a pessoa não deveria sofrer. Pois tal como os cinco sentidos desaparecem quando a pessoa dorme profundamente, e depois voltam à vida quando a pessoa acorda, assim também, de modo semelhante, as criaturas que morrem vão deste mundo para outro, e depois voltam para aqui novamente, no seu devido tempo.”
Ora, o criador não poderia destruir sua própria criação! Encontrou meios de evitar uma super população na Terra, não destruindo, mas “removendo” para outros planos da vida, as criaturas humanas. A morte, nessa fábula, representa o princípio do equilíbrio, sem o qual a vida humana na Terra seria asfixiada. É uma benção, não uma desgraça. Para alguns historiadores, entretanto, o temor da morte seria gerado pelo desenvolvimento das idéias religiosas. Os ensinos de um castigo a pós a morte para aqueles que não agiram nessa vida de forma adequada fomentaria, em diversas culturas, o medo da morte pelo que se enfrentaria depois: dores infernais, castigos eternos....

Romantismo e Realismo

O século XIX, segundo Ariès, havia na Europa uma certa visão romântica da morte. Entretanto, essa relação com o imaginário sobre a morte passou, em seguida, para o plano dos fatos cientificamente analisados. Deve-se a Allan Kardec uma visão nova da morte no Ocidente. Sob suas incursões investigativas, desvelou-se uma nova atitude do homem diante da morte. Sem analisá-la de forma simplista ou misteriosa, Kardec no-la apresenta como um mecanismo da vida, ensejando ao espírito encarnado o seu natural retorno à pátria de origem.
Parece-nos que o termo “realismo” define bem o significado espírita da morte. Esse realismo espiritual, pouco a pouco, se afirma como princípio universal, onde todas significações religiosas e filosóficas convergiram num admirável sincronismo onde a morte, passará, definitivamente, a responder pela continuidade da vida, ensejando ao homem bases mais seguras para suas vivências e experiências na Terra.

BIBIIOGRAFIA CITADA

MORIN, Edgar. O Enigma do Homem. São Paulo, Circulo do Livro. 1973. 3ª Parte, Cap. 1, Página 107
CHIAVENATO, Júlio José. A morte: uma abordagem sociocultural. São Paulo, Moderna, 1998. Página 13
JULIEN, Nadia. Minidicionário Compacto de Mitologia. 1ª ed. São Paulo, Rideel, 2002. Páginas 38, 259, 260.
LONG, J. Bruce. Phd. A Morte que termina com a morte no Hinduísmo e no Budismo. In. Morte Estágio Final da Evolução. Elisabeth K. Ross. Nova Era.
ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Tradução: Priscila Viana. Rio de Janeiro, Ediouro, 2003.

domingo, 22 de agosto de 2010

PULSÕES AGRESSIVAS

Freud, em sua Teoria dos Instintos, afirmou que a agressividade sexual transformará um amante num criminoso. Kardec alertou para essa questão em seu comentário à questão 685 a. de O Livro dos Espíritos: “Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem?” Sabiamente indagou, ainda, aos benfeitores espirituais, na questão 845 da obra citada: “Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as predisposições instintivas que o homem já traz consigo ao nascer?” E obteve a seguinte informação:


"As predisposições instintivas são as do Espírito antes de encarnar. Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-lo à prática de atos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos que querer é poder."


A estrutura mental foi dividida por Freud em três instâncias psíquicas: Id, Ego e Superego. O Id representa, segundo o psicanalista Boris Nadvorny, as pulsões, as paixões, e tem como único objetivo a satisfação dos desejos. É uma estrutura primária. O Superego é uma instância ordenadora da conduta, uma espécie de sensor moral, enquanto o Ego é o mediador dessas duas estruturas. O Ego é responsável por levar em consideração os desejos do Id (que representaria nossa ancestralidade, o cérebro reptiliano...) as exigências do Superego, e buscar harmonizar isso tudo com a realidade. A imaturidade psicológica do indivíduo faz com que o Ego desconsidere os sensores internos, cedendo aos impulsos, às pulsões e aos desejos desenfreados.
Observa-se, em grande parte dos sujeitos que cometem algum tipo de violência contra a mulher, uma associação do temperamento agressivo com o uso de substâncias como o álcool e outras drogas. A relação entre sexo, drogas e violência é muito próxima nesses casos. Na esteira da conduta em desequilíbrio, associam-se espíritos perturbadores, que vitalizam, ainda mais, comportamentos doentios que terminam em verdadeiras tragédias familiares e sociais.
No verso desses casos, sob o entendimento espiritual, encontraremos criaturas que ainda não educaram-se para as experiências da vida. Vivem na órbita de seus conflitos e de seu personalismo. A satisfação no prazer periférico, permitindo-se arrastar pelos desequilíbrios sexuais de toda ordem, além de produzir um vazio na alma, gera processos de reajustes que as acompanhará, muitas vezes, pelas veredas dos séculos.
Companheiros que vitimam suas mulheres abrem campo para dolorosas e complexas obsessões espirituais, protagonizadas por suas vítimas, que, não raras vezes, se tornam também algozes, cobrando justiça pelas vias equivocadas da vingança. Tais eventos trágicos devem, pelo menos, gerar na sociedade uma reflexão urgente sobre os relacionamentos apressados, sem que se conheça um pouco mais o outro, o seu temperamento, para se decidir efetivar um vínculo emocional em bases mais sólidas.
Muitos homens cometem violência contra suas companheiras, pois como já comentamos, não aceitam a idéia da separação. Outros, no entanto, matam na tentativa de se libertarem delas. No livro Ação e Reação, psicografado por Francisco Cândido Xavier, o espírito André Luiz narra o caso de Ildeu e Marcela. Ele era o esposo problemático, de temperamento agressivo, facilmente seduzido pelo álcool e por outras mulheres. Marcela era esposa dedicada. O casal tinha três filhos: Roberto, Sonia e Marcia. Não raras vezes, Ildeu chegava de madrugada em sua casa, alcoolizado e exibindo sinais de aventuras sexuais. Mara, uma jovem mulher que tornara-se sua amante, não lhe saía da cabeça como sendo a mulher ideal. No outro dia tornava-se agressivo e grosseiro com sua esposa, nutrindo especial antipatia de seu filho Roberto. Com suas filhas era, no entanto, cheio de cuidados e carinhos.
Com o tempo, a situação do lar tornava-se cada vez mais complexa. Ildeu mostrava-se ainda mais irritadiço. Fascinado pela amante, passou a odiar terrivelmente sua esposa. Não amava a Roberto, o filho pequeno que o olhar o acusava sem palavras. Mas não imaginava afastar-se de suas duas filhas. Em caso de separação, certamente elas ficariam com a esposa. Foi assim que lhe surgiu na mente a ideia de assassinar Marcela. Passou a articular um plano, para que a morte da esposa fosse vista, aos olhos do mundo, como um suicídio. O filho se livraria depois. Para isso, alteraria o comportamento doméstico, especialmente com a esposa. Tornou-se mais brando, afastou-se, temporariamente do álcool, e assumiu a máscara do esposo atencioso e gentil.
Ildeu armava mentalmente o quadro criminoso. Certa noite, quando a família já estava dormindo, entrou sorrateiramente em casa com um revólver em punho. Ao chegar em seu quarto, encontrou Marcela dormindo. Diante dos quadros de oração e da conduta ilibada de Marcela, os orientadores espirituais, percebendo o fato, alertaram uma das filhas do casal que encontrava-se desdobrada espiritualmente para que retornasse ao corpo. A pequena Márcia, experimentando o terrível quadro que se configurava, volta ao corpo como quem voltasse de um grave pesadelo. Gritava para que o pai não matasse sua mãe.
Diante do alvoroço geral, Marcela acorda e percebe Ildeu com a arma na mão. A mulher incapaz de suspeitar da verdadeira intenção do marido deduz que ele está disposto a se suicidar. Ela lhe implora que não cometa tão desatinado ato, esclarecendo que sabe que ele não é feliz naquele lar e que se for de sua vontade ela lhe daria o direito de separar-se, de viver definitivamente com sua amante. Ildeu aproveita o mal-entendido da esposa para evadir-se do lar, cedendo ao princípio do prazer.
Os orientadores esclarecem a André Luiz que em outra encarnação Ildeu também era esposo de Marcela. Abandonou-a para aliciar duas jovens, com quem passou a viver. Marcela casou novamente e vivia feliz. Mas, após muitos anos, doente pela instalação de um câncer, o antigo marido retorna ao lar e percebendo sua ex-esposa casada, termina por assassinar seu marido. Na seguinte reencarnação, retornam novamente na expectativa de que Ildeu eduque sua sensibilidade e repare seus equívocos. Marcela aceita ser novamente sua esposa, o filho a quem ele não gostava era o antigo marido da esposa a quem ele assassinou, as filhas com quem tinha afinidade maior eram as jovens que foram aliciadas por ele no passado. Ildeu continuou cometendo os mesmos erros do passado.

Bibliografia

ALMEIDA, Jerri. O recrudescer da violência contra a mulher. In: Jornal Diálogo Espírita. FERGS, Março/Abril 2010, Ano XV, No. 84. Porto Alegre/RS. Página 12.
FRANCO, Divaldo P. (Joanna de Ângelis) Conflitos Existenciais. Salvador-BA: LEAL, 2005.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões citadas no texto.
NADVORNY, Boris. Freud e as Dependências. Porto Alegre: AGE, 2006.
ROUDINESCO, Elisabeth. A Família em Desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. Cap. 6 – As mulheres têm um sexo.
XAVIER, Francisco Cândido. (André Luiz) Ação e Reação. Capítulo 14.

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