sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

CARNAVAL: O MUNDO ÀS AVESSAS

Nas sociedades antigas, anteriores à Era Cristã, as festas pagãs estavam fortemente vinculadas às mudanças de estação, configurando os ritos de passagem. As cerimônias de passagem e de purificação compunham, no universo das representações, a transição do inverno (estação que simbolizava a morte) para a primavera, que anunciava o renascimento da vida. As “saturnalias”, por exemplo, eram festividades oferecidas a Saturno, o deus da fertilidade e, ao qual, associava-se a idéia da abundância e do excesso.
Por ocasião desses festejos, instituiu-se uma espécie de reversão da ordem social. Momentaneamente, os escravos assumiam a posição dos senhores, sendo-lhes permitido gozar dos benefícios da classe dominante, em meio a muita comida e bebida. Vivia-se um período festivo onde buscava-se a transgressão temporária da ordem estabelecida. Tais festejos e cerimônias, onde certos participantes usavam máscaras (de animais), dançavam, cantavam e cometiam excessos sexuais, atingem, também, o mundo medieval.
A palavra “carnaval” teria, no mínimo, um duplo significado: o primeiro estaria vinculado aos excessos cometidos também em relação à alimentação, daí: “carne vale”; ou, numa segunda hipótese, em referência aos carros alegóricos utilizados nos cortejos: “curris navalis”. Seja como for, o fato é que a “festa dos loucos”, assim denominada na Idade Média, permitia a exaltação dos pobres e oprimidos, na reversão momentânea de suas posições sociais, liberando seus desejos e imaginação.
Na prática, essa tradição ancestral, permeada de sincretismo – com suas variações – fazia parte da cultura dos Celtas e Germânicos, povos extremamente importantes na formação da Europa medieval. Esses festejos, muito embora o confronto com a Igreja Católica, terminaram sendo incorporados na cultura Ocidental cristã.
Para o filósofo russo Bakhtin, o carnaval representava o “mundo às avessas”, pois originava um mundo “não-oficial”, exterior à Igreja e ao Estado. Assim, o tempo do carnaval ficava pleno de possibilidades e deixava de ser mediado pelas categorias usuais que distinguem os indivíduos: riqueza, posição social, poder, etc.
A rigor, adotando-se o viés da “loucura”, ou “loucos” (foliões) poderiam agir com extrema liberdade na manifestação de seus impulsos reprimidos pela ordem religiosa e social vigentes. Todavia, deste o século IV, a Igreja havia instituído o período da quaresma: nos quarenta dias que antecediam a Páscoa os fiéis eram constrangidos a viverem em abstinência da carne (menos de peixe), de sexo e de divertimentos. Isso objetivava um duplo fim: fazer os fiéis relembrarem anualmente o martírio, morte e ascensão de Cristo, e puni-los pelos excessos cometidos no ciclo festivo de inverno (no hemisfério norte), o carnaval.
A “festa dos loucos”, trazida pelos portugueses, chegou ao Brasil por volta do século XVII. Entretanto, segundo o antropólogo Roberto Damatta, a partir de 1840 é que os chamados bailes de clubes passaram a ganhar mais espaço na sociedade carioca. Antes disso, o carnaval, no Brasil, era uma espécie de festa familiar e de bairro. Em seu livro, “Carnavais, Malandros e Heróis”, Damatta situa o carnaval no universo dos rituais brasileiros, onde uma parcela mais despossuída da sociedade ganha o centro das avenidas e o foco das atenções.
É nesses dias que a “atriz global” vai ao encontro dos pobres e anônimos integrantes das escolas de samba, para “aprender” sobre o desfile e ensaiar os passos certos. Esse parece ser um rito que pretensa e superficialmente, assume o papel de homogeneizar as categorias sociais. Categorias que, via de regra, estão à margem da sociedade. Dessa forma, os ritos “revelam coisas” mas, também, “encobrem coisas”.

Referências
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Hucitec/Unb, 1987.
DAMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis. Para uma sociologia do dilema brasileiro. 6a. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
MACEDO, José Rivair. Riso, Cultura e Sociedade na Idade Média. Porto Alegre

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A METÁFORA DA ÁRVORE E A FÁBULA DO CASTELO

Em uma interessante crônica intitulada “As perdas & os ganhos”, a escritora Lya Luft, escreve:

“O apoio dos outros é relativo e passageiro. A força decisiva terá de vir do nosso interior, onde vai sendo depositada a bagagem de nossa vida. Lidar com a perda vai depender do que encontraremos ali: se nesse lugar crescem árvores sólidas, teremos onde nos agarrar. Se houver apenas plantinhas rasteiras, estaremos mal. Por isso, aliás, a tragédia faz emergir forças insuspeitadas em algumas pessoas, e para outras aparece como uma injustiça pessoal ou uma traição da vida.”

A metáfora da “árvore” e da “plantinha” é oportuna. Chega um determinado momento da vida de cada um, que ficar plantando somente “plantinha rasteira” não mais atende nossas necessidades. O que seriam, então, essas “plantinhas”? Sim, todos aqueles sentimentos que limitam a vida e que lhe destitui o sentido. O pessimismo, o negativismo, a insegurança, o materialismo, entre outros, são representações concretas da metáfora da “plantinha rasteira”. Por sua vez, a “árvore sólida” é aquela que nos permite “onde nos agarrar”: todas as construções positivas efetuadas no espaço de nosso mundo íntimo e, especialmente, aquelas que nos ofertam uma visão mais ampla e racional da vida.
A árvore frondosa que atinge as alturas ou a plantinha rasteira preza ao solo, simbolizam estados da própria consciência humana. Recebemos constantemente as injunções danosas ou benéficas da vida, conforme pensamos, sentimos e conduzimos o nosso estar-no-mundo.
As escolhas são importantes. Escolher como parceiros íntimos o pessimismo ou o otimismo, a esperança ou a desilusão, a fé ou a descrença, a alegria ou a melancolia, são opções de cada pessoa. Certamente, necessitamos de motivação para revitalizarmos nossas perspectivas e o nosso caminhar. É preciso identificar um, ou vários, sentidos da vida. Sem sentido a vida não tem beleza, tudo é sombrio, desconcertante.
O homem é um ser inquieto e inquietante. Nossas inquietações representam o conteúdo das nossas fragilidades. É verdade, somos seres incompletos. Nossa incompletude nos inquieta e, por isso, vivemos de escolhas e experiências que nos levem a um estado maior de plenitude. Nossas inquietações também representam os significados que atribuímos as coisas.
Aqui vale pensarmos sobre uma fábula interessante. Um homem muito simples e pobre vivia nas imediações de grande castelo fortemente guarnecido. Sem nunca ter lá adentrado, o homem vivia sonhando com as maravilhas que certamente existiriam no interior daquela fortaleza. Curioso e disposto a desvendar tais mistérios, certo dia implorou aos vigilantes que lhe deixassem entrar, seria o maior prêmio de sua vida. Um momento só. Após várias tentativas malogradas, o simples homem recebeu de um vigilante mais sensível a autorização para chegar aos jardins do castelo. Ao transpor a grande muralha, e fitar os jardins, foi tomado pela sensação de estar diante de um grande tesouro. Na verdade, ele observou somente “os jardins”, não entrou em contato com as verdadeiras jóias de ouro e pedras preciosas que a fortaleza velava em suas salas e aposentos.
Somos o “homem simples” que se contenta apenas com os jardins? Ou nossas inquietações nos estimulam a transpor as muralhas conceituais de uma vida simplista, reduzida mera e filosoficamente a um fatalismo biológico?

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

PEÇA TEATRAL ENFOCA IMORTALIDADE DA ALMA



Peça teatral que estará em cartaz durante o Porto Verão Alegre 2010, para a qual convido a todos. Para quem se interessa pelo tema, a apresentação tem como pano de fundo temática espírita, explorando a sobrevivência do espírito à morte em uma abordagem bem divertida.

Velocino Camargo Neto

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

VOZES DE PAPEL


Os filósofos antigos, que construíram o pensamento de nossa civilização Ocidental, perambulam pelas estantes, as vezes de madeira, de sebos e bibliotecas (as vezes de livrarias) na angustiante e inóspita tarefa de expressarem suas vozes de papel. A inquietude dos filósofos não os permite desanimar, mesmo que a situação atual, em qualquer lugar, apele para a cultura da imagem, apelativa e sedutora.
Assim sendo, Platão ou Aristóteles, Descartes ou Hegel, jamais imaginaram que os grandes desafios do pensamento humano, enfrentado por eles, seria o de – simplesmente – se fazerem lidos, cobiçados. Não! Certamente jamais imaginaram que um dia a juventude ou os curiosos do saber, pudessem esquecê-los, despreza-los nas poeiras arrogantes de qualquer estante.
Talvez Platão, no Mundo das Idéias, perceba melhor que as sombras do Mundo Sensível se devem, sobretudo, a indiferença infame – do mundo massificado e utilitarista contemporâneo – com a cultura que desafia o pensamento a voar além dos horizontes acanhados do homem cotidiano. Os filósofos antigos, reunidos em um café qualquer, tradicional de Paris, poderiam concluir, pelo menos os mais pessimistas, que esse mundo tecnológico e digitalizado do século XXI foi tomado de uma irreversível apatia intelectual.
O que pensaria Aristóteles disso tudo, uma vez ter afirmado – em seu livro Ética a Nicômaco – que “os legisladores tornam bons os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem.” ? Ora, os discurso apologéticos do presente, muito longe de estimular os bons hábitos, corroboram para que a própria fragilidade cultural dos cidadãos se multipliquem, aprisionando-os – cada vez mais – na caverna da inoperância intelectual.
Mas talvez possamos, entre um café filosófico e outro, imaginar que nem tudo está perdido, afinal, o homem – historicamente – tem se mostrado um ser capaz de superar-se, de enfrentar sua própria ignorância ou, pelo menos, de reconhece-la. Quem sabe, Nietzsche nos ajude a pensar sobre isso, quando escreveu: “Conheço muito bem as qualidades que devo ter para que alguém me compreenda...”, além da integridade de espírito, metaforicamente, assevera que é preciso “estar acostumado a viver nas montanhas”. Apesar disso, creio que o próprio Nietzsche, em seus escritos, tenha permanecido mais na base do no cume de sua montanha imaginária.
Montanhas, cavernas, ilusão, realidade, ignorância e sabedoria. Os filósofos são assim mesmo, talvez estranhos ou esquisitos para muitas pessoas. Mesmo assim, foram eles que construíram a nossa forma de pensar e talvez por isso, também sejam – isolados em suas estantes – um pouco responsáveis pela indiferença humana.
Os filósofos antigos, na vitalidade de suas páginas, oferecem o convite à filosofia, a pensar e repensar as questões contemporâneas, num constante desafio de subir à montanha e, de lá, visualizar o universo das interrogações e dos caminhos possíveis, que melhor se ajustam as inquietações de cada um. Eles abriram, em seus escritos, páginas sob as mais diversas perspectivas. Mas isso tudo não significa de devamos concordar sempre com eles, que não tenhamos idéias próprias sobre a vida e as questões que nos cercam.
As vozes de papel funcionam para nós como guias, uma vez que a verdade ainda não foi conquistada por inteiro, ela está aberta à todos. Mas não se pense que as vozes de papel são vozes mudas. São vozes perseverantes que nunca se calam! Estão sempre lá, dispostas a nos dizer algo, por isso são universais, por isso são eternas. Busca-las é aceitar o desafio intelectual de romper com os grilhões e os limites de pensamento.

Pesquise no Blog

Loading

TEXTOS/ARTIGOS ANTERIORES