quinta-feira, 12 de julho de 2012

PREDISPOSIÇÃO INSTINTIVA

Jerri Almeida

A natureza dotou a criatura humana, com amplas capacidades e instrumentais necessários ao seu desenvolvimento ao longo de sua longa jornada de evolução antropológica-espiritual. A evolução da estrutura cerebral é exemplo disso. Conforme aponta o cientista Eugênio Mussak, a primeira parte do cérebro, a mais antiga formada a cerca de 350 milhões de anos, é constituída pelo hipotálamo e pelos núcleos de base, é o denominado “cérebro reptiliano”. Ele seria responsável, entre outras coisas, pelo nosso comportamento instintivo, vinculado à necessidade de preservação da vida. Assim, numa situação de perigo real ou imaginário, o indivíduo assume comportamentos instintivos, muitas vezes também agressivos, no intuito de se auto-preservar. Imaginem dois indivíduos numa ilha isolada com imensa restrição de alimentos? Haveria espaço para uma divisão “civilizada” do alimento? Talvez houvesse até o momento limite da sobrevivência para ambos. Nesse momento crítico, as pessoas não conseguiriam mais raciocinar adequadamente, assumindo posturas maquinais, instintivas e agressivas na defesa de sua preservação.
Ocorre que com a evolução morfológica e fisiológica do cérebro, surge outra parte, “mais nova”, (algo em torno de 10 milhões de anos atrás) responsável no ser humano, pelas emoções e sentimentos: o sistema límbico. Há muitas mulheres que vivem sob o domínio das emoções. Deixam-se dominar por seus companheiros e, quando ocorre uma ruptura nesse relacionamento, não conseguem mais fazer nada. Deprimem-se, a vida perde o sentido, não se alimentam adequadamente, afastam-se dos amigos e da família. Quando se apaixonam, independente do caráter ou temperamento do outro, ficam fascinadas. Não desejam perceber o outro como ele realmente é, mas conforme aquela matriz idealizada por elas.
 A parte mais nova do cérebro, com apenas 50 mil anos, o neocórtex (também chamado de massa cinzenta), seria o responsável pela função do pensamento. Logo, a parte instintiva é a mais antiga no ser humano, seguida pelas emoções. Pode-se dizer, sem nenhum demérito para ninguém, que possuímos um “animal” dentro de nós.
Mas também, como já mencionamos, existem pessoas que se deixam governar pelas emoções. O sistema límbico está fortemente vinculado ao princípio do prazer e para a fuga do desprazer. Nesse ponto, devemos articular também o princípio da paixão. A paixão é uma emoção forte, arrebatadora que compromete o discernimento. As paixões, portanto, estão muito vinculadas a temas como: sexo, dinheiro, fama, jogo, poder e beleza.
A própria ideia de “justiça” muitas vezes, termina sendo cooptada ou corrompida pela paixão, conforme esclarecem os espíritos para Allan Kardec na questão 874 de O Livro dos Espíritos:  “É porque a esse sentimento [de justiça] se misturam paixões que o alteram, como sucede à maior parte dos outros sentimentos naturais, fazendo que os homens vejam as coisas por um prisma falso.” Ou seja, quando a paixão domina no homem, ele acaba elaborando sua própria, e muitas vezes errada, noção de justiça. A capacidade de pensar e raciocinar, como aludimos, é algo muito recente para a espécie humana. O pensamento, do ponto de vista da evolução cerebral, foi a última estrutura que apareceu. Por isso, em termos de nossa evolução planetária, grande parte das pessoas são muito instintivas (com boa dose de agressividade) e também bastante emocionais (com forte apelo das paixões).
A mistura entre “instinto” e “paixão” é um componente extremamente perigoso. Isso abre espaço para relacionamentos precipitados, já com “data de validade” vencida. Pessoas assim terminam criando relacionamentos desastrosos, permeados de emoções em desequilíbrio. O princípio da paixão não é originariamente mal. O problema, alerta a questão 907, de O Livro dos Espíritos, reside no “excesso” ou o “abuso” que delas fazem os homens. Ocorre que quando o indivíduo deixa-se dominar pelos instintos e pelas paixões, volta a bestialidade da fera. Nesse sentido, o grande desafio da evolução, é permitir ao pensamento uma ascendência sobre essa estrutura ancestral, empenhando esforços na educação de seus impulsos, emoções e sentimentos. Para isso, no entanto, é necessário que o sujeito já tenha atingido certo nível de maturidade interior que lhe permita essa disposição. A rigor, vamos observar a pergunta de Kardec para os benfeitores, e a resposta bastante clara, da questão 845 de O Livro dos Espíritos:

Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as predisposições instintivas que o homem traz consigo ao nascer?
“As predisposições instintivas são as do Espírito antes de encarnar. Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-lo à prática de atos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos que querer é poder.”  


domingo, 1 de julho de 2012

Apreciando Léon Denis


“O Espiritismo baseia-se num completo conjunto de fatos: uns simplesmente físicos nos têm revelado a existência e o modo de ação de forças há muito tempo desconhecidas; outros têm um caráter inteligente. São eles: a escrita direta ou automática, a tiptologia, os discursos pronunciados em transe ou por incorporação. Todas essas manifestações, já as passamos em revista e já as analisamos em outras publicações. Vimos que elas são frequentemente acompanhadas de sinais, de provas que estabelecem a identidade e a intervenção das almas humanas que viveram na Terra e que foram libertadas pela morte. Foi por meio desses fenômenos que os espíritos espalharam seus ensinamentos no mundo, e esses ensinamentos foram, como veremos, confirmados experimentalmente em muitos lugares.
O Espiritismo se dirige, portanto, ao mesmo tempo aos sentidos e à inteligência. Experimental, quando estuda os fenômenos que lhe servem de base; racional, quando verifica os ensinamentos que deles derivam. Constitui um instrumento poderoso para a busca da verdade, uma vez que pode servir simultaneamente em todos os domínios do conhecimento.
As revelações dos espíritos, dizíamos, são confirmadas pela experiência. Sob o nome de fluidos, os espíritos nos têm ensinado teoricamente e demonstrado na prática, desde 1850, a existência das forças incalculáveis que a ciência rejeitava a priori. Sir W. Crookes, entre os sábios que tinham grande autoridade, foi o primeiro que constatou depois a realidade dessas forças, e a ciência atual reconhece nelas, a cada dia, a importância e a variedade, graças às descobertas célebres de Roentgen, Hertz, Becquerel, Curie, G. Le Bon, etc.
Os espíritos afirmavam e demonstravam a ação possível da alma sobre a alma, em todas as distâncias, sem o auxílio dos órgãos, e essa ordem de fatos gerou oposição e incredulidade. Acontece que os fenômenos da telepatia, da sugestão mental, da transmissão dos pensamentos, observados e provocados hoje em todos os meios, vieram, aos milhares, confirmar essas revelações. Os espíritos ensinavam a preexistência, a sobrevivência,  as vidas sucessivas da alma. E eis que as experiências de F. Colavida, E. Marata, as do coronel De Rochas, as minhas, etc. estabeleceram que não apenas as lembranças dos menores detalhes da vida atual até a mais tenra infância e mais ainda as das vidas anteriores estão gravadas nas profundezas da consciência. Um passado inteiro, ocultado no estado de vigília, reaparece, revive no estado de transe. De fato, essas lembranças puderam ser reconstituídas num certo número de pacientes adormecidos, como mais tarde o estabeleceremos, quando abordarmos mais especificamente essa questão.
Vê-se que o Espiritismo não poderá, a exemplo das antigas doutrinas espiritualistas, ser considerado um puro conceito metafísico. Ele se apresenta com um caráter muito diverso e responde às exigências de uma geração educada na escola do criticismo e do racionalismo, que se tornou desconfiada dos exageros de um misticismo mórbido e agonizante. Hoje, já não basta crer; quer-se saber. Nenhuma concepção filosófica ou moral tem a chance de ter sucesso se não se apoiar sobre uma demonstração ao mesmo tempo lógica, matemática e positiva e se, além disso, não a coroar uma sanção que satisfaça a todos os nossos instintos de justiça. Pode-se observar que essas condições foram perfeitamente preenchidas por Allan Kardec na magistral exposição feita por ele em O Livro dos Espíritos.” (Páginas 27 a 29)

 Fonte:
DENIS, Léon, 1846 - 1927. O problema do ser: 1ª parte / Léon Denis; [tradução Renata Barboza da Silva, Simone T. Nakamura Bele da Silva]. – São Paulo : Petit, 2000. – (Coleção o problema do ser, do destino e da dor)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O BANQUETE DE PLATÃO



Em seu livro O Banquete (Symposion), Platão apresenta diversos oradores discursando sobre o Amor, ou o que consideram: “um discurso em louvor a Eros” que, na mitologia grega, é a divindade que representa o Amor.
Em seu discurso empolado e retórico, Fedro assevera que o Amor é o mais antigo dos deuses. É ele que projeta as boas ações e oportuniza uma vida honesta. Nesse sentido, com o Amor poderíamos constituir uma política eficaz, pois: “ninguém faria o que fosse desonesto”. Com o Amor, portanto, estimular-se-ia “a prática de belas coisas”.  Em seguida, Pousânias apresenta uma distinção entre o Amor: existe o “Amor belo e louvável” que está relacionado com a moral, a alma nobre. É, portanto, duradouro. Mas também existe o “Amor vulgar” ou “sensual” que está relacionado ao corpo. Esse “não oferece segurança, nem estabilidade”. Logo, é temporário.
Erixímaco, no entanto, afirma que as ocorrências negativas: doenças, prejuízos etc, se originam da desordem, dos exageros ou dos “desregramentos das inclinações amorosas entre si”. Considera que o Amor deve ser buscado pelas vias da sabedoria para  projetar harmonia na alma e no corpo. Aristófanes, por sua vez, relata o mito, segundo o qual, no início, os seres humanos eram duplos e esféricos, e os sexos eram três: um formado por duas metades masculinas; outro por duas metades femininas; e o terceiro metade feminina e metade masculina. Extremamente ousados resolveram desafiar até os deuses. Como castigo, os deuses resolveram separá-los  em duas metades. O Amor se originou da tentativa desses seres em restaurar a sua unidade original e, por conseqüência, encontrar, também, a felicidade. 
O Amor é o mais jovem dos deuses, sustenta Agáton, ao contrário do que pensa Fedro, O Amor é o fundamento do belo e da poesia. É ele que traz harmonia e paz aos homens. É, também, o “princípio e liame da sociedade”, isto é, o Amor é o elemento agregador da vida social. Por sua natureza, o Amor não comporta a violência e, também, por isso, torna-se “objeto do desejo de quem ainda não o possui”.
O último dos oradores é Sócrates. Também usa um mito para explicar o Amor. Eros é descendente de Poros (Riqueza) e de Penia (Pobreza). “Pela influência da natureza que recebeu do pai, Eros dirige a atenção para tudo que é belo e gracioso”. “É capaz de desabrochar e de viver, morrer e ressuscitar no mesmo dia. Come e bebe, dá e se derrama, sem nunca estar rico ou pobre”. Nesse sentido, a questão do Amor não se resume, tão somente, à procura da outra metade, como afirmou Aristófanes, mas na ânsia de uma realização mais profunda: o desejo de procriação do belo.
Dessa forma, Platão julga que o Amor é um desejo, um “intermediário” entre os deuses e os homens, cuja principal função é criar a virtude (e “a mais alta de todas as virtudes é o saber”) através da beleza.  O Amor, portanto, é toda aspiração ou impulso, em geral, na direção das coisas boas, do bem e da felicidade.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O SER MORAL

 Não sendo o ser humano um “autômato”, as relações sociais e o inter-relacionamento pessoal tornam-se complexos pela forma como usamos nossa liberdade. Filosoficamente, Aristóteles (384-322 a.C.) considerava que o homem é um animal político, isto é, capaz de viver na Pólis (Cidades-Estados da Grécia), através da criação de leis e normas morais. Nesse sentido, o ser humano se socializa, em tese, apoiado numa convivência organizada segundo os princípios da justiça, da igualdade e da preservação da liberdade.
Uma boa convivência exige esforço e organização que perpassa todos os níveis da vida humana. A família enquadra-se nesse contexto ?  Sem dúvida. A família é um núcleo formativo e um lugar de proteção básica e, como tal, é necessário que a família não sufoque a autonomia, a determinação e as responsabilidades das pessoas que a compõem.
A Doutrina Espírita, em várias abordagens, considera a família em seu fundamento espiritual, um verdadeiro educandário que, se não tiver por base uma relação amorosa e afetiva  pode transformar-se numa verdadeira prisão para um dos cônjuges, para ambos e/ou para os filhos, perdendo o seu significado fundamental de agência educadora.
Em termos de vida comunitária, a organização da convivência humana tem se processado, historicamente, pela formulação de leis e códigos reguladores da liberdade individual e coletiva. Enquanto as leis abrangem mais as relações civis, os códigos possuem uma dimensão no campo ético (ethos) e moral (mos,  mores). A própria vida possui a sua  Lei Natural, muito bem estudada em O Livro dos Espíritos em sua 3ª Parte, a qual não somente rege a realidade física, em sua ampla generalidade, como também  o mundo moral-espiritual humano, garantindo, assim, a ordenação no próprio Universo.
A criatura humana difere dos demais seres vivos pela capacidade intelectiva de fazer leituras da realidade e dar significado à vida. Essa capacidade humana cria o mundo da cultura (ciência, tecnologia, arte, hábitos, leis, normas morais, valores...). Na verdade, desde o momento em que o homem passou a refletir sobre suas ações e o meio onde está inserido, surgiu a necessidade de se estabelecer princípios de comportamento visando a vida em comum acordo.
Na Antiguidade, vemos o exemplo dos Dez Mandamentos... A redação do denominado Antigo Testamento provavelmente ocorreu entre  o segundo e o primeiro século antes de Cristo[1], todavia, seus preceitos continuam extremamente atuais. Com Sócrates, filósofo grego que morreu em 399 antes de Cristo,  temos de forma coerente e lógica a defesa da moral. Nos diálogos intitulados: “Apologia de Sócrates”, Platão (428-347 a.C.) descreve como Sócrates, acusado de corromper os jovens e não acreditar nos deuses, enfrenta os seus acusadores – que o levariam à morte – na busca pela verdade. Daí o conceito de virtude para Sócrates estava relacionado ao cuidado da alma, para aperfeiçoá-la e torná-la mais próxima de uma condição espiritual de felicidade.
Jesus, a seu turno, apresentou-nos preceitos morais de grande valor humano: “Faça aos outros o que desejas que os outros de façam” e “Amar a Deus acima de todas as coisa e ao próximo como a si mesmo”.  Com Cristo se aprofundam esses admiráveis códigos morais de abrangência universal,  a-temporal e supracultural.
Allan Kardec, na segunda metade do século XIX, analisando a definição espírita sobre “moral”, conclui sobre três itens:

A moral é a regra de bem proceder;
Bem proceder significa distinguir o bem do mal;
O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos.

A convivência humana, em suas múltiplas dimensões,  postula a adoção imprescindível de um comportamento saudável em relação ao outro. Essa racionalidade – de buscar sempre o “bem de todos” – não significa que temos que agradar sempre ou fazer um esforço “sobre-humano” para “salvar todo o mundo”, mas tão somente nos convida a adoção de um comportamento construtivo, positivo e coerente, na ordenação da nossa vida íntima e, por conseqüência, em sociedade. Assim a liberdade relativa que possuímos passa a ter uma lógica de responsabilidade na edificação e manutenção do que poderíamos denominar “coexistência pacífica”.



[1] ARGOLLO, Djalma Motta. O Novo Testamento: um enfoque espírita. 1ª ed. Mnêmio Túlio Editora, São Paulo, 1994. Página 31.

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