quarta-feira, 18 de abril de 2012

A FAMÍLIA MONOPARENTAL: Breves Apontamentos


Jerri Almeida

Preâmbulo

O
 estudo das relações familiares na contemporaneidade implica pensarmos sobre suas novas configurações e mediações. Sabemos que é cada vez mais comum encontrarmos exemplos de filhos que vivem somente com a mãe, com o pai ou com outro parente. O contexto das relações, na sociedade complexa que vivemos, define novos vínculos e novas tendências na composição da família. Conforme apontou Bauman, em seu livro intitulado Amor Líquido[1] – Sobre a fragilidade dos laços humanos, os relacionamentos conjugais tornaram-se, na pós-modernidade, muito “líquidos”, isto é, sem bases sólidas. Os valores sociais e culturais de nossa época contribuem para uma fragilização do casamento, ampliando vertiginosamente o número das separações.
Vínculos conjugais são rompidos, enquanto outros são – precipitadamente – iniciados sem o devido comprometimento ou consciência dos fatores responsáveis por imprimir qualidade na convivência conjugal. Separações e divórcios[2] são responsáveis, embora não serem os únicos, pelo aumento da família pós-nuclear.
A rigor, com as mudanças socioculturais e comportamentais, principalmente a partir dos anos 60, a mulher conquistando mais liberdade social passou também a assumir sozinha, diante de determinadas contingências, a chefia da família. Inúmeros fatores podem ser relacionados para explicar o surgimento da configuração familiar monoparental. Dentre eles podemos citar: a inseminação artificial, o que permitiu a mulher gerar filhos sem a figura do pai, a adoção, a viuvez e o divórcio. Na prática, define-se geralmente o modelo monoparental quando uma pessoa adulta, pai, mãe, ou outra, quer consanguínea ou não, assume o papel de cuidadora e orientadora de uma ou várias crianças.
Este modelo de família é reconhecido no Brasil pela Constituição Federal de 1988, em seu Art. 226 no inciso 4° que diz: “Entende-se também como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”, conferindo-lhe a mesma proteção e segurança do Estado. Conforme o IBGE, de 1995 a 2005, a porcentagem de famílias chefiadas por mulheres com filhos e sem cônjuge passou de 17,4% para 20,1% no Nordeste, e no Sudeste, de 15,9% para 18,3%.
Eduardo de Oliveira Leite afirma que: “a monoparentalidade se impôs como fenômeno social nas três últimas décadas, mas, com maior intensidade, nos últimos vinte anos, ou seja, no período em que se constata o maior número de divórcios” [3].

Dois, não somente um!

Qual o impacto da falta de um dos pais para os filhos? Existem especificidades no papel de pai e de mãe? E nesse caso, a ausência de um deles poderá ser suprida pelo outro? Não pretendemos nesse estudo, reduzir a complexidade desse modelo de família ao limite de seus aspectos negativos. Todavia, é importante refletirmos mais profundamente sobre o tema em questão.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, encontramos a seguinte afirmação:

Quis Deus que os seres se unissem não só pelos laços da carne, mas também pelos da alma, a fim de que a afeição mútua dos esposos se lhes transmitisse aos filhos e que fossem dois, e não um somente, a amá-los, a cuidar deles e a fazê-los progredir. [Grifos meus][4]

Não há duvidas que a estrutura familiar, composta por pai e mãe representa um imperativo da natureza para o melhor cumprimento de suas funções. A resposta dos espíritos é clara e objetiva. Partindo desse ponto ideal, devemos também compreender as variáveis que envolvem esse processo. No entanto, é relevante fazermos uma distinção dos papéis que envolvem o homem e a mulher na estrutura familiar. Anotando informações sobre a vida conjugal, André Luiz, no capítulo 20 de Nosso Lar, obteve o seguinte esclarecimento de seu instrutor: “...o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina. A reta vertical é o sentimento feminino, envolvido nas inspirações criadoras da vida. A reta horizontal é o sentimento masculino em marcha de realização no campo do progresso comum.” Essa diferenciação das singularidades do homem e da mulher implicam numa dinâmica de complementação extremamente rica, onde o principal beneficiado deveria ser o filho.
As funções, comumente aceitas, controladas pelos dois lados do cérebro, podem auxiliar na compreensão das diferenças[5] (que em nenhum momento implicam na ideia de superioridade ou inferioridade) entre homens e mulheres: a) Hemisfério esquerdo (lado direito do cérebro): habilidades matemáticas, raciocínio lógico, o pragmatismo, a objetividade, racionalidade, entre outros.  b) Hemisfério direito (no lado esquerdo do cérebro): criatividade, talento para as artes, intuição, imaginação, multiprocessamento, emoções, visão do todo, entre outros. O homem funciona mais no hemisfério esquerdo, enquanto a mulher no hemisfério direito. A evolução espiritual enseja o desenvolvimento de múltiplas potencialidades e, para isso, sabemos que o ser espiritual necessita transitar na polaridade masculina e feminina.
Mas como essas especificidades se tornam importantes na estrutura familiar? O escritor e educador Celso Antunes, analisa a dimensão desses papéis afirmando que:

A mãe é, por essência, aquela que supre as necessidades de alimento e de afeto; o elo essencial da segurança da criança e, principalmente, a ‘dialogadora’ essencial, a ‘admirável xereta’ que tudo, em todas as idades, através da conversa, busca compartilhar. O homem, sobretudo no Ocidente onde são mais exímios no uso do hemisfério cerebral esquerdo, nunca é parceiro ideal para o papo solto, a conversa disciplinadora, o bom interrogatório. Não que isso o impeça de conversar com os filhos. Deve conversar e muito, mas poucos são os homens capazes de tão bem quanto as mulheres equilibrar a fala à emoção e, dessa forma, ‘abrir’ os pensamentos da criança ou do adolescente.[6]

O autor assevera ainda:

O pai desempenha na educação dos filhos papel de igual importância, ainda que extremamente diferente. Nos primeiros anos da infância deve inspirar presença e proteção que ao serem demonstradas à esposa ficam claras também para a criança. Mas, a importância paterna cresce de forma extraordinária quando, por volta dos três anos, a criança começa a descobrir sua individualidade e inspira-se no pai para fundamentar a base de sua responsabilidade. Nessa fase, o pai é para a criança o personagem central da família, simbolizando com doçura ‘força’ e ‘poder’.  Embora nem sempre se perceba essa distinção entre a ação masculina e a feminina, esta é essencial para o fortalecimento do caráter.
A criança cresce descobrindo que existe em sua vida uma autoridade diária e contínua exercida pela figura da mãe e uma outra autoridade, não menor ou maior, mas exercida de forma mais distante, ainda que suprema, simbolizada pela figura do pai.  Do pai, como modelo dessa autoridade suprema, deve emanar a base dos conceitos morais da criança, que aos poucos descobre que o pai é o que ama e o que conduz. Os meninos, sobretudo, devem sentir orgulho desse pai a ponto de desejarem ser como ele.
O pai distante ou ausente [assim como a ausência da mãe] deixa o vazio, a carência de modelo de força e poder. E não existe na neurologia ou na psicologia qualquer estratégia ou remédio que possam compensar a dimensão dessa ausência.[7]


Quando a separação do casal for inevitável ou no caso da desencarnação de um dos cônjuges, por exemplo, ficando a educação dos filhos para apenas uma pessoa, é importante, segundo o referido autor, que esta saiba assumir outras funções e outros papéis. Se bem assumidos, poderão diminuir o impacto ou o vazio deixado, mas jamais o eliminará totalmente.

Conclusão

O relaxamento dos laços familiares pode gerar doenças e promover insegurança afetiva. A constatação é da cientista da Universidade da Califórnia (EUA), Rena Repetti, após reunir mais de 500 estudos sobre a relação entre família e saúde. A pesquisadora constatou que “crianças que crescem num ambiente de acolhimento e segurança emocional em geral são providas de maior senso de integração social e mais capazes de regular o próprio comportamento para manter a saúde do corpo e da mente...”.[8]
Temos visto, em nossa experiência profissional, alunos manifestarem em certos casos, comportamentos indisciplinados, outras vezes, por falta de modelos e de referenciais domésticos, terminam – por carência - deslocando para o professor (a), para um personagem da televisão ou, dependendo da índole desse jovem, para um traficante ou o chefe do tráfico do bairro ou da cidade.
Uma família bem resolvida, independentemente se nuclear ou monoparental, se configura num espaço relacional onde as emoções são trabalhadas positivamente, os limites e a disciplina são exigidos, o afeto nutre a convivência, os exemplos positivos estão presentes, e os problemas são enfrentados com responsabilidade, conforme os papéis assumidos e “acumulados”.

NOTAS

[1] BAUMAN, Zigmunt. Amor Líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2004.
[2] No Brasil o divórcio foi instituído pela Lei n. 6.515/77
[3] LEITE, Eduardo de Oliveira. Famílias monoparentais. 2. ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2003. P. 21.
[4] O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo 22, item 3.
[5] PEASE, Allan. Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? Tradução Neuza M. Simões. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. P. 41.
[6] ANTUNES, Celso. Bilhete ao Pai. Petrópolis,RJ: Vozes, 2005. P. 84-85.
[7] Idem.
[8] Sua Família, sua saúde: A medicina prova que os laços familiares são decisivos para manter o organismo sadio. Este vínculo pode ajudar a combater doenças como asma, depressão e até câncer. Revista Isto É, 16/04/2008, no. 2006, pág. 76-81. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

2a. Edição ampliada e revisada do livro "A Convivência na Casa Espírita"


O LIVRO


Allan Kardec ofereceu valiosas instruções, algumas esquecidas ou ignoradas, mas que representam base fundamental para a real compreensão da Doutrina Espírita. Em seus discursos, por ocasião da abertura e encerramento do ano social da Sociedade Parisiense, e em suas várias viagens, não se furtava em conclamar os espíritas ao cultivo dos valores renovadores da alma. 
Por isso, buscamos suas observações sobre a questão dos melindres e ressentimentos, das dissidências, do papel dos dirigentes e sobre o que estamos realmente aprendendo e aplicando no cotidiano de nossas instituições.  
O tema, bem sabemos, é delicado e urgente em nosso meio! Ficamos gratos se o conteúdo aqui apresentado puder colaborar de alguma forma, nos estudos individuais ou em grupos que pretendam aprofundar reflexões sobre a qualidade de nossa convivência nas Casas Espíritas.


Pedidos e encomendas: Livraria e Editora Francisco Spinelli
Av. Desembargador André da Rocha, 49 - Fone/Fax (51) 3224.1493
Cep. 90050-16 - Porto Alegre - RS - Brasil
www.fergs.org.br 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O MUNDO PÓS-IDEIAS


Jerri Almeida

Vivemos, é bem verdade, no mundo da informação. Nunca se teve tanta rapidez no fluxo das notícias, na transmissão de conhecimentos e saberes, como no mundo contemporâneo. Milhares de novas teses, dissertações e pesquisas são cotidianamente publicadas. A internet democratizou o acesso à informação em seu sentido mais amplo e genérico. Documentos que antes somente poderiam ser acessados em arquivos, hoje estão disponíveis gratuitamente na web. Jornais, acervos, blogs, redes sociais, entre outros, levam conteúdos, os mais variados, para dentro de nossas mentes. Vivemos, inegavelmente, um excesso estressante de informações.
Thomaz Wood Jr, em seu interessante artigo: “Pensar dói?”, publicado na revista Carta na Escola (Dezembro de 2011, nº 62), cita o texto do professor Neal Gabler publicado no New York Times, no qual assevera: “...vivemos em uma sociedade na qual ter informações tornou-se mais importante do que pensar: uma era pós-ideias.” Vivemos a ditadura da informação “opaca”, amorfa,  incapaz de gerar qualquer tipo de reação ousada ou revolucionária. Não uso aqui a palavra “revolução” no sentido marxista, muito menos no seu sentido de produzir conflitos armados, ou coisa do gênero. Refiro-me, isto sim, a uma atitude dialética das ideias que vem sendo enterrada e sufocada pelo consumo exorbitante da informação.
Na revista já citada, encontramos também um artigo do professor doutor em filosofia pela USP, Juvenal Savian Filho, no qual afirma que o excesso de informações tolhe-nos a capacidade de elaborar reflexões mais profundas e articuladas, pois: “ ...somos levados a nadar apenas na superfície das ideias e a consumir mensagens relâmpagos, num fluxo frenético de imagens e sons que abafam nossa vocação para o pensamento.” (p. 34) Para ele, o efeito disso é uma escassez de novas e impactantes ideias, causando uma espécie de “irracionalismo” Ou seja, o ato de “pensar” está sendo deixado de lado.
Nas escolas e, pasmem, nas universidades, encontramos alunos que recusam-se, obstinadamente, a pensar. Para esses, a salvação é somente duas teclas (medíocres) de qualquer computador que esteja conectado à rede: “Ctrl + C” e “Ctrl + V”.  Vive-se os infames dias do saber “fast food”. Para os adoradores dos conteúdos enlatados, “pensar dói”.  Talvez por isso, muitos adultos de hoje também não saibam resolver problemas. Talvez por isso, também, muitos adultos busquem soluções milagrosas, instantâneas, para seus dilemas. São os pais que levam o filho de 8 anos ao médico, para que este, receite cápsulas de boas maneiras, comprimidos de respeito, ou um sossega Leão, para o menino indisciplinado que nem o pai nem a mãe querem ter o trabalho de educar. A debilidade das ideias terceiriza problemas e soluções.
Pensar, como alguém certamente já disse, dá trabalho! Como vivemos numa cultura que nos induz ao prazer instantâneo, o ato de pensar é uma heresia, que somente se justifica quando “descompromissadamente”. Se o futuro aponta para uma “overdose” de informação, muita gente irá morrer de inanição mental. É trágico!
Mas, como prefiro não me filiar aos pessimistas, creio que dessa “tragédia” renascerá um novo “iluminismo”, onde reaprenderemos a pensar.  Descobriremos o prazer de pensar e refletir sobre as coisas, nos tornando novamente amigos da sabedoria e, por fim, sobreviveremos redescobrindo o filosofar. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Atos e Escolhas - Segue o Diálogo


- Pode comentar sobre o aumento da responsabilidade individual a partir do momento que passamos a compreender melhor o Livre Arbítrio?

Jerri Almeida: As Leis da Vida nos conduzem, inexoravelmente, para o desenvolvimento da “maturidade do senso moral”, conforme está posto em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 4. Somente a compreensão sobre o livre arbítrio não torna, necessariamente, o sujeito mais responsável. A compreensão está situada no nível intelectual. No campo da evolução espiritual, entretanto, as múltiplas experiências da vida, associadas ao esclarecimento é que contribuem, entre outros fatores, para o amadurecimento do espírito. E, quanto maior for o amadurecimento do ser, tanto mais será aplicada a responsabilidade no uso de seu livre arbítrio.  Para isso contribui o conhecimento espírita. Todavia, a natureza humana não se transforma de súbito. Certamente por isso, Allan Kardec, ponderou, na conclusão VII de O Livro dos Espíritos, que a ação das ideias espíritas não é idêntica, nem do mesmo grau, em todos os que as professam. Mas, no entanto, o conhecimento espírita, segundo ele, sempre estimulará, por mais fraca que seja sua ação, uma melhora no sujeito.

- De que forma o Livre Arbítrio possibilita fazermos no presente uma reflexão sobre o passado e planejamento para o futuro?

Jerri Almeida: Examinando nossa existência atual, com suas contingências, limites e possibilidades, poderemos deduzir um singelo panorama sobre nosso passado espiritual. Mas o passado não é, certamente, o núcleo mais importante desse processo. Cumpre direcionarmos o olhar para nossas ações atuais. O que estamos construindo na presente existência? Em certa parte de O Céu e o Inferno, das impressões que Kardec tira dos espíritos em condições felizes, afirma o dr. Vignal: “...e dos atos que é necessário cumprir para transpor o caminho da prova e merecer o mundo das recompensas.” Qual a maior recompensa que poderemos lograr, senão a da consciência tranquila? Mas para isso, é necessário “atuarmos”, direcionando nosso livre arbítrio no Bem, ordenando nossa vida, o máximo possível, aos preceitos apresentados por Jesus e resumidos na Lei do Amor. Desta forma, estaremos todos preparando um futuro melhor, não somente no nível individual, mas também no plano social.

- Fique à vontade para qualquer outro comentário sobre o assunto.

Jerri Almeida: Quando a menina Alice, da história “Alice no país da maravilhas”, chega à floresta desconhecida e após algumas horas de caminhada, avista próximo a um cruzamento, um tronco de árvore com setas indicando várias direções, ela sem saber que direção seguir, pergunta a um gato sorridente deitado na árvore, o caminho da saída. O gato lhe indaga: para aonde você quer ir? Para qualquer lugar, responde a menina. O felino, diante de tal constatação, lhe sugere: para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve!
A cultura atual contribuiu para liberar, ainda mais, os conteúdos egoísticos edificados nas estruturas mais profundas da alma humana.  No conjunto doutrinário do Espiritismo, está claro a necessidade do sujeito embrenhar-se na sua subjetividade, fazendo o caminho para dentro de si mesmo, conforme orientação de Santo Agostinho na Questão 919 de O Livro dos Espíritos. Dessa forma, munido de reflexão e de conhecimentos mais profundos sobre a vida, poderemos definir melhor nossos caminhos.

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