segunda-feira, 26 de março de 2012

Atos e Escolhas - Segue o Diálogo


- Pode comentar sobre o aumento da responsabilidade individual a partir do momento que passamos a compreender melhor o Livre Arbítrio?

Jerri Almeida: As Leis da Vida nos conduzem, inexoravelmente, para o desenvolvimento da “maturidade do senso moral”, conforme está posto em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 4. Somente a compreensão sobre o livre arbítrio não torna, necessariamente, o sujeito mais responsável. A compreensão está situada no nível intelectual. No campo da evolução espiritual, entretanto, as múltiplas experiências da vida, associadas ao esclarecimento é que contribuem, entre outros fatores, para o amadurecimento do espírito. E, quanto maior for o amadurecimento do ser, tanto mais será aplicada a responsabilidade no uso de seu livre arbítrio.  Para isso contribui o conhecimento espírita. Todavia, a natureza humana não se transforma de súbito. Certamente por isso, Allan Kardec, ponderou, na conclusão VII de O Livro dos Espíritos, que a ação das ideias espíritas não é idêntica, nem do mesmo grau, em todos os que as professam. Mas, no entanto, o conhecimento espírita, segundo ele, sempre estimulará, por mais fraca que seja sua ação, uma melhora no sujeito.

- De que forma o Livre Arbítrio possibilita fazermos no presente uma reflexão sobre o passado e planejamento para o futuro?

Jerri Almeida: Examinando nossa existência atual, com suas contingências, limites e possibilidades, poderemos deduzir um singelo panorama sobre nosso passado espiritual. Mas o passado não é, certamente, o núcleo mais importante desse processo. Cumpre direcionarmos o olhar para nossas ações atuais. O que estamos construindo na presente existência? Em certa parte de O Céu e o Inferno, das impressões que Kardec tira dos espíritos em condições felizes, afirma o dr. Vignal: “...e dos atos que é necessário cumprir para transpor o caminho da prova e merecer o mundo das recompensas.” Qual a maior recompensa que poderemos lograr, senão a da consciência tranquila? Mas para isso, é necessário “atuarmos”, direcionando nosso livre arbítrio no Bem, ordenando nossa vida, o máximo possível, aos preceitos apresentados por Jesus e resumidos na Lei do Amor. Desta forma, estaremos todos preparando um futuro melhor, não somente no nível individual, mas também no plano social.

- Fique à vontade para qualquer outro comentário sobre o assunto.

Jerri Almeida: Quando a menina Alice, da história “Alice no país da maravilhas”, chega à floresta desconhecida e após algumas horas de caminhada, avista próximo a um cruzamento, um tronco de árvore com setas indicando várias direções, ela sem saber que direção seguir, pergunta a um gato sorridente deitado na árvore, o caminho da saída. O gato lhe indaga: para aonde você quer ir? Para qualquer lugar, responde a menina. O felino, diante de tal constatação, lhe sugere: para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve!
A cultura atual contribuiu para liberar, ainda mais, os conteúdos egoísticos edificados nas estruturas mais profundas da alma humana.  No conjunto doutrinário do Espiritismo, está claro a necessidade do sujeito embrenhar-se na sua subjetividade, fazendo o caminho para dentro de si mesmo, conforme orientação de Santo Agostinho na Questão 919 de O Livro dos Espíritos. Dessa forma, munido de reflexão e de conhecimentos mais profundos sobre a vida, poderemos definir melhor nossos caminhos.

terça-feira, 20 de março de 2012

DIÁLOGOS PERTINENTES

Parte 1

- É muito forte em nossa cultura uma postura passiva que aceita o "Deus quis assim, chegou a hora dele, o que eu tenho que passar ninguém passa por mim, etc". Como a interpretação espírita do Livre Arbítrio vê estas questões?

Jerri Almeida: Allan Kardec tratou dessa temática nas questões 963 e 964 de O Livro dos Espíritos. O Espiritismo não é reducionista, limitando-se a uma abordagem fatalista sobre os fatos da vida. Pelo contrário, esclarece, no seu amplo dinamismo doutrinário, que o ser humano é co-criador de seu próprio destino, alterando-o constantemente com suas ações e decisões. Logo, a assertiva do “Deus quis assim” nos parece, num primeiro momento, um discurso ancestral, associado a um confortável atavismo de linguagem de quem desconhece os mecanismos da vida e as nossas responsabilidades diante dela. Não significa, no entanto, que o Espiritismo afaste Deus das contingências existenciais, mas que atribui ao ser humano a responsabilidade sobre as ocorrências agradáveis ou desafiadoras que lhe cercam. Com base no livre arbítrio do espírito, associado à lei de ação e reação vinculada à reencarnação, somos capazes de compreender com melhor nitidez a Justiça. Logo, conforme informaram os espíritos a Kardec, na questão 964 de O Livro dos Espíritos, Deus não se preocupa com cada um de nossos atos, para nos repreender ou recompensar. Ele criou Leis que regem a dinâmica da vida, na sua expressão física e espiritual. Somos felizes quando nos firmamos nessas Leis e sofremos os resultados naturais quando delas nos afastamos.

- De que forma o entendimento sobre Livre Arbítrio pode ser usado como ferramenta para a construção de uma vida melhor, mais justa e coerente?

Jerri Almeida: É extraordinário sabermos que a felicidade é uma opção pessoal! Que está em nossas mãos a condução para uma vida mais plena de possibilidades, quando atentamos para os valores nobres da alma. O livre arbítrio é notável conquista da evolução do ser, que lhe permite, conforme o nível de consciência e maturidade alcançadas, fazer as opções, escolher caminhos, tomar decisões, sempre considerando o objetivo único da vida – o Bem – conforme asseveraram os benfeitores amigos na questão 860 de O Livro dos Espíritos.

(Entrevista concedida para a jornalista Simone Mattos da revista Ser Espírita - Curitiba/PR.)

domingo, 11 de março de 2012

Sensibilidades


O ritmo acelerado das pessoas, com seus desafios profissionais, colaboram para distanciar, muitas vezes, a relação entre o humano e o belo. A pressa e a impaciência da rotina diária tornam o ser humano enclausurado na lógica do racional. O homem não é somente razão, mas também encantamento, imaginação.
É importante observarmos com singularidade, aquilo que, para outros, passaria despercebido. O espírito humano se caracteriza por armazenar significados através de palavras, desenhos, gestos, números, músicas, ou seja, por suas manifestações simbólicas.
Na base de tudo isso, no entanto, situa-se o desenvolvimento da imaginação, cuja tarefa, entre outras, é a de produzir a riqueza dos ideais e da sensibilidade, estimulando as capacidades criativas do ser humano. Nesse sentido, indispensável é a responsabilidade dos pais em motivarem seus filhos, desde o berço, ao exercício natural da imaginação. Contar histórias com fundo moral – enriquecedor e divertido – transformando isso em hábito, é um dos mais notáveis investimentos que se pode fazer na formação dos filhos.
Contar histórias para o filho pequeno, estimulará o exercício de sua imaginação, passando a criança, com o tempo, criar suas próprias histórias, seu mundo de fantasias, de sonhos, de personagens e enredos. Essa capacidade ideativa trabalhará para o desenvolvimento de importantes potencialidades psíquicas que, mais tarde, formarão a personalidade do indivíduo adulto: capacidade de manter e trabalhar por seus ideais, criatividade para resolver problemas profissionais, desenvolvimento da imaginação na busca por soluções inteligentes para os desafios da vida, da convivência, etc.
Ver o mundo com sensibilidade para perceber o belo, mesmo diante do caos, é atingir um nível sofisticado de percepção que transcende a criveira comum. Divaldo P. Franco, o conhecido orador espírita, conta que em diversas situações quando está sendo transportado, por ocasião de suas palestras,  ao passar por uma paisagem verdejante e florida, se detêm na observação, felicitando-se com os admiráveis quadros da natureza.
Muitas pessoas estão sintonizadas na faixa da infelicidade, justamente, por não se darem conta dos pequenos tesouros que compõem o seu dia-a-dia. Quantos pais não perceberam a beleza da relação familiar, do convívio com os filhos? Muitas famílias desconsideram, simplesmente, os ricos momentos de diálogo, sendo que os pais, no seu comportamento acelerado, nem mesmo reservam tempo para os momentos lúdicos com seus filhos.
Pessoas que, ao longo da história, se notabilizaram por sua sensibilidade, deixavam-se mergulhar na poesia da vida. Observando o silêncio das estrelas, a harmonia do cosmos, quase todos os compositores, declara Léon Denis[1], que ilustraram a arte musical, à semelhança de Bach, Beethoven ou Mozart, declaravam perceber essa harmonia de forma tão intensa que, quando compunham, chegavam a ficar em êxtase.
Os poetas, de todos os tempos, manifestam suas sensibilidades falando, no geral, de coisas simples, que permeiam o nosso cotidiano: “Mas eis a alvorada, o majestoso levantar do Sol sobre os cimos longínquos. Qual esfera de metal incandescente, o astro-rei sobre no horizonte. A princípio, os cismos dentados dos picos flamejam na luz renascente, e, de igual modo que na tarde anterior, tinha ela subido rapidamente em volta de mim, enquanto a sobra descia com igual velocidade.”[2]  Com essa poética narrativa, Denis nos descreve, com muita sensibilidade, suas impressões sobre o nascimento do Sol nos Alpes.
Quando Francisco Cândido Xavier, nosso querido Chico, iniciou suas atividades no labor mediúnico, aos 21 anos, a primeira obra psicografada por ele: “Parnaso de Além-Túmulo”, foi uma obra de poesia. Através dele, 55 autores da literatura luso-brasileira, ensaiaram 259 poemas sobre os mais diversos assuntos. Em um admirável poema, o espírito Casimiro de Abreu[3], escrevendo “aos pessimistas”, apresenta uma valiosa reflexão de sua sensibilidade:

A Terra [4]



Se há noite escura na Terra,
Onde rugem tempestades,
Se há tristezas, se há saudades,
Amarguras e dissabor,
Também há dias dourados
De sol e de melodias,
Esperanças e alegrias,
Canções de eterno fulgor!
......................................

Os sonhos da mocidade,
As galas da Natureza,
Livro de excelsa beleza
Com páginas de esplendor,
Onde as histórias são cantos
De gárrulos passarinhos,
Onde as gravuras são ninhos
Estampados no verdor.
.........................................

O dia todo é alvorada
De doces encantamentos
Da Lua, em seus brancos véus!
A tarde oscula as estrelas,
Os astros o Sol-nascente,
O Sol o prado ridente,
O prado perfuma os céus!
........................................

Se há noite escura na Terra,
Abarrotada de dores,
De lágrimas e amargores,
De triste e rude carpir,
Também há dias dourados
De juventude e esplendores,
De aromas, risos e flores,
De áureos sonhos no porvir!

Notas

[1] DENIS, Léon. O Grande Enigma. 9ª. ed. Rio de Janeiro (RJ): FEB, 1991. Págs.. 56-57.
[2] Idem. P. 165.
[3] Poeta fluminense, figura literária das mais típicas da sua época, desencarnou aos 18 de outubro de 1860, com 21 anos de idade, na cidade de Nova Fribugo, acometido de tuberculose.
[4] XAVIER, Francisco Cândido. Parnaso de Além-Túmulo.(Poesias Mediúnicas) 13ª. ed. Rio de Janeiro (RJ): FEB, 1988. Pág. 208-210.

sábado, 3 de março de 2012

A FIGUEIRA SECA E O RETORNO AO "SÓLIDO"


Jerri Almeida

No estudo da história se diz que as mudanças mentais e, portanto, culturais ocorrem em tempos históricos de longa duração. O contexto histórico-espiritual da Terra – permeado de insidiosos dilemas e conflitos, sofrimentos físicos e morais – exige renovação. Pelo seu poder moralizador, por suas tendências progressistas, pelo universo das questões que abrange, o espiritismo está apto a instrumentalizar o processo de melhoramento humano, nesses dias tormentosos de desvarios dos sentimentos, de aturdimentos morais e de consciências que irrompem na multidão.[1] O apelo moralizador é fruto de uma convicção estruturada numa “amplitude de vistas” que transcende o reducionismo biológico, desvelando novos horizontes para o espírito humano. Urge repensarmos nossa forma de viver, por vezes, absorvida em pensamentos egoístas que nos distanciam da solidariedade e da fraternidade.
Necessitamos aclimatar nossos pensamentos e corações aos valores imperecíveis da alma como fundamento de uma nova cultura da solidez, dos princípios verdadeiramente nobres, geradores de bem estar emocional, saúde e espiritualidade, além de projetarem no convívio familiar e social uma nova dinâmica, muito mais produtiva e feliz. Vivemos um magno período de “eleição dos valores”. As condutas mentais viciosas exigem imperiosa revisão por parte de todos nós, que transitamos no planeta em transição. Tudo isso exige determinação, vigilância e perseverança pelos caminhos do equilíbrio constante, sem abandonarmos o serviço de autodoação na seara do bem incondicional.
A superficialidade de uma vida voltada para alimentar o estômago e o sexo, onde os sujeitos consomem suas energias físicas na busca de um prazer fugaz, determina estados comuns em nossa sociedade, de vazio interior e melancolia. Estamos chegando a um limite desse quadro de inobservância às Leis da Vida. A destruição da natureza, o desconcerto social, a agressividade ignóbil, o desrespeito com a vida, a cultura do superficial, o hiperconsumismo, a sexologia desvairada, irrompem num complexo estado de revisão civilizacional.
A mensagem renovadora do Cristo, ignorada ou deturpada, continua viva em seu chamamento ao Novo Homem. Essa mensagem é a base para constituirmos uma nova relação com a vida e com o semelhante. Revivida pelo espiritismo na atualidade, a Boa Nova é roteiro sólido para um ser humano mais sociável e fraterno, que exercita o desapego das coisas, pois compreende a transitoriedade delas, aceitando que sua passagem pelo corpo é oportunidade inalienável de crescimento e aprendizado pessoal.
Conforme informações recentes do espírito Manoel Philomeno de Miranda[2] a Terra, conforme planejamento da espiritualidade superior sob a égide do Cristo, vive um processo mais intenso de renovação espiritual e que, naturalmente, se prolongará por um bom tempo até que os propósitos maiores sejam atingidos. Intensificam-se a reencarnação em massa de espíritos de alta estirpe moral e intelectual, portadores de sólidos valores que, voluntariamente, candidataram-se à tarefa nobilitante de colaborar com a renovação mental e cultural da sociedade terrena.
Todavia, cada um de nós deve ser um protagonista dedicado, nesse cenário de renovação. O momento é de escolhas! Não devemos, sob nenhum aspecto, ficar refém dessa cultura do superficial que toma conta das multidões. Essa consciência de mudança tem feito parte, inclusive, do pensamento sociológico recente:

Mas [você] também deve acreditar que esse mundo poderia ser transformado num outro, mais pacífico, hospitaleiro e amigável aos homens – e também acreditar que se você tentar, como deve tentar, pode se tornar parte da força capaz de e destinada a fazer essa transformação.[3]

Essa transformação cultural e mental, ínsita no Evangelho do Cristo, é o imperativo da Era Nova que se instala na Terra. No livro Transição Planetária, Manoel Philomeno de Miranda afirma: “Ainda é um grande desafio a ação do bem no mundo tumultuado da atualidade. Nem por isso, devem desanimar aqueles que se dedicam à prática da caridade a e ao exercício do benfazer, porquanto, se existem os carrascos do além, sempre dispostos ao crime hediondo, também pululam os anjos tutelares, vigilantes e rápidos, na execução da legítima fraternidade.”[4] O mentor espiritual Dr. Artêmio Guimarães em mensagem final, na referida obra, esclareceu: “Os trabalhadores da grande transformação encontram-se, há algum tempo, operando diligentes nos mais variados segmentos sociais e culturais da Terra.”[5]  O “reino da razão” não resolveu os grandes dilemas existenciais, psicológicos e emocionais da criatura humana. O hedonismo corroeu-nos a alma e nos aprisionou nas grades da ilusão.
Nesse quadro de transformações, o Movimento Espírita é chamado a dar o testemunho impostergável da fraternidade autêntica, da caridade produtiva, da solidariedade que contagia, do perdão que liberta, do trabalho que enriquece o coração, do amor que enternece a alma e a ilumina. A hora é chegada! O servidor do Bem, amadurecido pelas experiências e esclarecido pelo Consolador, encontrará inestimáveis oportunidades, nesses dias de lutas, para se manter vigilante aos compromissos assumidos com o Cristo. Os “adeptos sinceros” referidos por Allan Kardec são todos aqueles que sacrificam o seu temperamento orgulhoso, a inflação do ego, para se manterem fiéis aos ensinamentos da Veneranda Doutrina Espírita, consubstanciados na diretriz kardequiana. Nas Instituições Espíritas, onde esses preceitos são observados, onde os servidores do Cristo são movidos pelo ideal renovador, empenhando esforços para serem a cada dia um pouco melhor do que foram no dia anterior, certamente os mentores espirituais encontram fortes aliados para o imperativo trabalho de transformação da sociedade terrestre.
Uma cultura sólida refletirá num reordenamento substancial da hierarquia dos valores, elegendo o Amor (Ágape) como a mais expressiva forma de conduta para a plenitude possível do ser humano, em seus diversos campos de ação. Uma programação televisiva de alto valor cultural repercutirá na formação intelecto-moral dos indivíduos. Da mesma forma, em todos os setores da vida humana onde os valores sólidos do Amor e da Imortalidade da alma se instalarem, o perfume da espiritualidade dignificará as criaturas. Uma nova sociedade, portanto, está emergindo com base na inexorável Lei do Progresso.
Diante dos labores que precisamos percorrer para a edificação de um novo horizonte cultural, é importante agregarmos o célebre pensamento de Aristóteles, em sua Poética, quando afirma que “a arte é o espaço da possibilidade.” A rigor, em todo processo de transformação é necessário identificarmos nossos limites e possibilidades. Os limites nos permitem perceber que não temos o poder da onipotência. Há coisas que dependem diretamente de nós e aquelas sobre as quais não possuímos controle. Por exemplo, não temos o poder de mudar, sobretudo conforme o nosso desejo, outra pessoa. Pois cada indivíduo, na sua singularidade, é livre para adotar suas próprias rotas de vida, responsabilizando-se por suas opções.  Todavia, temos um espaço de possibilidades no qual poderemos nos movimentar. Na condição de seres co-criadores, em plano menor, dispomos de potenciais criativos que, uma vez aplicados para o Bem,  potencializam o Belo, dignificando-o. Temos, portanto, a possibilidade de nos compromissarmos com o Bem e o Belo, alterando – aos poucos – nossas próprias paisagens mentais. Se não podemos mudar os outros, pelo menos, temos o poder para mudarmos a nós mesmos, o que já é uma admirável possibilidade. Alterar certos comportamentos mentais, que fazem parte de nossa rotina, para atitudes mais construtivas, é o que em ciência se chama de mudança de paradigmas. Os paradigmas são as lentes ou os referenciais pelos quais vemos e nos relacionamos com o mundo a nossa volta. Quem se detém assistindo os combates de lutas, na modalidade do “vale-tudo”, ou coisa do gênero, se felicitando com as cenas de brutalidade e agressividade desses eventos, permite-se um tipo de “diversão” grotesca que lida com as estruturas mais primitivas do ser.
Aquilo que denominamos de “oficina de sentimentos” é, justamente, o espaço relacional/cultural onde vivenciamos múltiplas experiê ncias que mexem com nossas estruturas de sentimentos. Nessa oficina se faz reparos, se ajusta e se conserta, isto é, se melhoram os sentimentos em conjunto com as relações. Há, no entanto, sempre resistências internas e externas que visão dificultar o processo de melhoramento humano e cultural da sociedade.  Podemos considerar que todo artista enfrenta, sob algum aspecto, a resistência do material em que deseja gravar sua ideia.  Somos, sob vários sentidos, os “artistas” de nossas vidas, buscando esculpir na tela de nossos sentimentos, a paisagem notável do Bem e do Amor. Claro está, portanto, que nossas estruturas internas, ancestralizadas nos vícios ou em zonas de conforto, reagem para que possamos continuar sendo o homem velho e acomodado nos prazeres triviais, cristalizados há séculos. As influências externas, da cultura líquida, trabalham, também, para que permaneçamos consumidores de futilidades, preservando as mesmas estruturas (velhas) de sempre. O próprio Bauman tem o ensejo de proclamar:
 Portanto, somos todos artistas de nossas vidas – conscientemente ou não, de boa vontade ou não, gostemos ou não. Ser artista significa dar forma e condição àquilo que de outro modo seria sem forma ou aparência. Manipular probabilidades. Impor uma “ordem” no que, de outro jeito, seria o “caos”: “organizar” uma coleção de coisas e eventos que, não fosse isso, seria caótica – aleatória, fortuita e imprevisível - , tornando ocorrência de alguns desses eventos mais provável que a de todos os outros.[6]  
O referido sociólogo não é um defensor das ideias espíritas e, talvez, pouco ou nada as conheça. Mas o seu raciocínio serve de argumento para uma reflexão oportuna e necessária sobre o nosso papel diante da vida e da cultura. Os seus limites conceituais e epistemológicos sobre a natureza humana não impedem a sua crítica à sociedade utilitarista de nossa época. Convém insistirmos, no entanto, para o olhar sociológico apresentado pelo espiritismo não se resume a uma mera crítica da cultura materialista, mas a uma cosmovisão de sua estrutura evolutiva. Novamente, sob esse olhar mais profundo, o sentido atribuído a uma “vida boa” vinculada a um superficialismo hedonista, passa a ser visto, na visão espírita, como decorrência de um comportamento equilibrado, vitalizado pelo bom senso.  As relações materiais da existência, contudo, não podem ser vistas como uma espécie de “vilã” ou coisa do gênero. O bom uso que delas se faz é imperativo de crescimento e progresso do espírito.
O estudo e a reflexão de temas contemporâneos, à luz do espiritismo, fazem parte de “uma conversa em andamento”, que se imagina, colabore para um esclarecimento maior dos dilemas atuais, apontando-se – naturalmente – caminhos plausíveis para repensarmos nossas ações no mundo. O conceito de “pessoa bem sucedida”, que vira uma verdadeira “celebridade” no mundo competitivo e corporativo, nem sempre atinge o mesmo status em sua dimensão humana e espiritual.  A denominada “vida de aparência”, decorrente de um hiper-real, parece tocar as mentes mais vulneráveis, para as quais, por vezes, “os meios” justificam “os fins” e o que importa são as representações sociais e os prazeres delas decorrentes.
 Doravante a ilusão se desfaz sob a égide dos desafios que impelem o sujeito ao crescimento para uma substancial felicidade. Nesse curso, sentindo-se esvaziados, muitos são tomados pela melancolia, pelo pessimismo, com os quais – quando militam no campo da arte – terminam impregnando suas obras. Outros, no entanto, mantêm-se convictos em suas ideias pessimistas, fruto de temperamentos desvairados, quando não, enlouquecidos. Suas ideias terminam influenciando outras tantas criaturas, ecoando na multidão que as absorve.  Em um de seus raros livros escritos em forma de confissões, intitulado Ecce Homo, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que por suas ideias antidemocráticas serviu de inspiração ao nazismo, escreveu: “Melhorar a humanidade? Eis a última coisa que eu prometeria. Não esperem de mim que eu erija novos ídolos! (...) Derrubar ‘ídolos’ – é assim que chamo todos os ideais -, esse é meu verdadeiro ofício.”[7] Sem desejarmos um olhar mais crítico sobre o complexo pensamento de Nietzsche, o que não é propósito desse artigo, apenas citamos o seu caso para ilustrarmos a tendência pós-moderna do pensamento que “desconstrói” e que “fragmenta” os valores.
A cultura e o pensamento materialista, do presente e do passado, podem ser analisados por meio da “Parábola da Figueira que Secou”, narrada por Jesus.  Nela, temos uma valiosa reflexão sobre a falta de solidez das ações e das ideias humanas. Na interpretação de O Evangelho Segundo o Espiritismo:

Simboliza todos aqueles que, tendo meios de ser úteis, não o são, todas as utopias, todos os sistemas ocos, todas as doutrinas carentes de base sólida. (...) Quer dizer que todos os sistemas, todas as doutrinas que nenhum bem para a humanidade houverem produzido, cairão reduzidas a nada.

E.S.E. Cap. XIX, item 9

A “Figueira Seca” simboliza, portanto, os que, tendo possibilidade, nada de Bem produzem. Por vezes, ainda, há os que se dedicam a negá-lo. Estamos, todavia, fadados a essa cultura? Não. A cultura do sólido e, portanto, do Bem ganhará espaços quando nos dispusermos a construí-la e solidificá-la em nossas mentes e corações, adotando os princípios afirmativos da vida e do amor como normativas de conduta. O espiritismo, em seu profundo e amplo horizonte doutrinário, é um poderoso estimulador dessa nova era. Desafia-nos a ampliar nossa forma de olhar a vida e de nos relacionarmos com ela, não mais nos estreitos limites da materialidade do mundo físico (sem, no entanto, menosprezá-la), mas na globalidade da expressão espiritual, da compreensão dos mecanismos reencarnatórios, da comunicabilidade mediúnica, da justiça divina e da lei da evolução. Todo esse dinamismo doutrinário, não-dogmático, de expressão tríplice, interdisplicinar (ciência, filosofia e religião) oportuniza uma compreensão mais aperfeiçoada dos dilemas existenciais, não adequadamente compreendidos no passado.
Na questão 800 de O Livro dos Espíritos, tratando sobre o progresso da sociedade e a influência do espiritismo, temos a seguinte resposta dos benfeitores:  “As ideias só pouco a pouco se modificam, conforme os indivíduos, e preciso é que algumas gerações passem, para que se apaguem totalmente os vestígios dos velhos hábitos. A transformação, pois, somente com o tempo, gradual e progressivamente, se pode operar. Para cada geração uma parte do véu se dissipa.” Portanto, a “figueira seca” não está perdida, tão pouco foi decretado o seu completo extermínio. Na essência, ela irá passar, com já está passando, por um processo de revitalização, isto é, de revisão e aprimoramento, a fim de “renascer e se regenerar”.  Não se trata de nenhuma profecia ou de uma previsão teológica. Na verdade, estamos presenciando, em todos os setores da vida humana, um constante questionamento, uma inquietação que reflete, na verdade, o resgate da calma ou, simplesmente, de tempo para apreciar o belo. Numa sociedade que vive o consumo, o aceleramento e a tecnologia, paradoxalmente, estamos em busca de poesia, de paciência e de paz.
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Referências

[1] KARDEC, Allan. A Gênese. Cap. XVII – Sinais dos Tempos, item 25.
[2] FRANCO, Divaldo P. (Pelo espírito Manoel Philomeno de Miranda) Transição Planetária. 3ª Ed. Salvador/BA: LEAL, 2011.
[3] BAUMAN, Zygmunt. A Arte da Vida.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2009. P. 71.
[4] FRANCO, Divaldo P. Transição Planetária. Op cit. P. 240.
[5] Idem. P. 242.
[6] BAUMAN, Zigmunt. A Arte da Vida. Op.cit. P. 163.
[7] Citado por: FERRY, Luc. Aprender a Viver- Filosofia para os novos tempos.  Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. P.  177. 

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