domingo, 23 de outubro de 2011

O PROBLEMA DO LIVRE-ARBÍTRIO E DO DESTINO


 
- É muito forte em nossa cultura uma postura passiva que aceita o "Deus quis assim, chegou a hora dele, o que eu tenho que passar ninguém passa por mim, etc". Como a interpretação espírita do Livre Arbítrio vê estas questões?

Allan Kardec tratou dessa temática nas questões 963 e 964 de O Livro dos Espíritos. O Espiritismo não é reducionista, limitando-se a uma abordagem fatalista sobre os fatos da vida. Pelo contrário, esclarece, no seu amplo dinamismo doutrinário, que o ser humano é co-criador de seu próprio destino, alterando-o constantemente com suas ações e decisões. Logo, a assertiva do “Deus quis assim” nos parece, num primeiro momento, um discurso ancestral, associado a um confortável atavismo de linguagem de quem desconhece os mecanismos da vida e as nossas responsabilidades diante dela. Não significa, no entanto, que o Espiritismo afaste Deus das contingências existenciais, mas que atribui ao ser humano a responsabilidade sobre as ocorrências agradáveis ou desafiadoras que lhe cercam. Com base no livre arbítrio do espírito, associado à lei de ação e reação vinculada à reencarnação, somos capazes de compreender com melhor nitidez a Justiça. Logo, conforme informaram os espíritos a Kardec, na questão 964 de O Livro dos Espíritos, Deus não se preocupa com cada um de nossos atos, para nos repreender ou recompensar. Ele criou Leis que regem a dinâmica da vida, na sua expressão física e espiritual. Somos felizes quando nos firmamos nessas Leis e sofremos os resultados naturais quando delas nos afastamos.

- De que forma o entendimento sobre Livre Arbítrio pode ser usado como ferramenta para a construção de uma vida melhor, mais justa e coerente?

É extraordinário sabermos que a felicidade é uma opção pessoal! Que está em nossas mãos a condução para uma vida mais plena de possibilidades, quando atentamos para os valores nobres da alma. O livre arbítrio é notável conquista da evolução do ser, que lhe permite, conforme o nível de consciência e maturidade alcançadas, fazer as opções, escolher caminhos, tomar decisões, sempre considerando o objetivo único da vida – o Bem – conforme asseveraram os benfeitores amigos na questão 860 de O Livro dos Espíritos.

- Pode comentar sobre o aumento da responsabilidade individual a partir do momento que passamos a compreender melhor o Livre Arbítrio?

As Leis da Vida nos conduzem, inexoravelmente, para o desenvolvimento da “maturidade do senso moral”, conforme está posto em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 4. Somente a compreensão sobre o livre arbítrio não torna, necessariamente, o sujeito mais responsável. A compreensão está situada no nível intelectual. No campo da evolução espiritual, entretanto, as múltiplas experiências da vida, associadas ao esclarecimento é que contribuem, entre outros fatores, para o amadurecimento do espírito. E, quanto maior for o amadurecimento do ser, tanto mais será aplicada a responsabilidade no uso de seu livre arbítrio.  Para isso contribui o conhecimento espírita. Todavia, a natureza humana não se transforma de súbito. Certamente por isso, Allan Kardec, ponderou, na conclusão VII de O Livro dos Espíritos, que a ação das ideias espíritas não é idêntica, nem do mesmo grau, em todos os que as professam. Mas, no entanto, o conhecimento espírita, segundo ele, sempre estimulará, por mais fraca que seja sua ação, uma melhora no sujeito.
- De que forma o Livre Arbítrio possibilita fazermos no presente uma reflexão sobre o passado e planejamento para o futuro?

 Examinando nossa existência atual, com suas contingências, limites e possibilidades, poderemos deduzir um singelo panorama sobre nosso passado espiritual. Mas o passado não é, certamente, o núcleo mais importante desse processo. Cumpre direcionarmos o olhar para nossas ações atuais. O que estamos construindo na presente existência? Em certa parte de O Céu e o Inferno, das impressões que Kardec tira dos espíritos em condições felizes, afirma o dr. Vignal: “...e dos atos que é necessário cumprir para transpor o caminho da prova e merecer o mundo das recompensas.” Qual a maior recompensa que poderemos lograr, senão a da consciência tranquila? Mas para isso, é necessário “atuarmos”, direcionando nosso livre arbítrio no Bem, ordenando nossa vida, o máximo possível, aos preceitos apresentados por Jesus e resumidos na Lei do Amor. Desta forma, estaremos todos preparando um futuro melhor, não somente no nível individual, mas também no plano social.

- Fique à vontade para qualquer outro comentário sobre o assunto.

Quando a menina Alice, da história “Alice no país da maravilhas”, chega à floresta desconhecida e após algumas horas de caminhada, avista próximo a um cruzamento, um tronco de árvore com setas indicando várias direções, ela sem saber que direção seguir, pergunta a um gato sorridente deitado na árvore, o caminho da saída. O gato lhe indaga: para aonde você quer ir? Para qualquer lugar, responde a menina. O felino, diante de tal constatação, lhe sugere: para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve!
A cultura atual contribuiu para liberar, ainda mais, os conteúdos egoísticos edificados nas estruturas mais profundas da alma humana.  No conjunto doutrinário do Espiritismo, está claro a necessidade do sujeito embrenhar-se na sua subjetividade, fazendo o caminho para dentro de si mesmo, conforme orientação de Santo Agostinho na Questão 919 de O Livro dos Espíritos. Dessa forma, munido de reflexão e de conhecimentos mais profundos sobre a vida, poderemos definir melhor nossos caminhos. 

Entrevista para Revista Ser Espírita, edição 15, concedida para a jornalista Simone Mattos.

domingo, 16 de outubro de 2011

A Comunicação Conjugal



Interessante pesquisa foi desenvolvida pelo escritor e psicólogo Leo Buscaglia, descrita em seu livro: “Amando uns aos outros, o desafio das relações humanas” (ed. Record, 1984), buscando compreender melhor os relacionamentos humanos. Para a realização dessa pesquisa, foi solicitado a mil pessoas, homens e mulheres, que tivessem interesse na dinâmica do relacionamento afetivo, que nomeassem qualidades que considerassem as mais importantes para manter uma vida conjugal harmonizada, e também as que seriam mais destrutivas no relacionamento emocional.
Mais de seiscentos questionários, dos mil enviados, voltaram oferecendo uma enorme variedade de informações da quais se extraíram algumas conclusões significativas: dois terços daqueles que o responderam eram mulheres, a maior parte, entre trinta e sessenta anos de idade. O grupo pesquisado respondeu em  mais de 85%, que a comunicação entre os cônjuges é a qualidade ou fator predisponente a um bom relacionamento. Após a comunicação, segue por ordem de citação: afeição, capacidade de perdoar, honestidade, aceitação, senso de humor, romance e paciência.
Vale considerarmos que a afeição foi caracterizada como compreensão, cuidado, respeito, proximidade física e psicológica, consideração e gentileza.
Dentre as características ou fatores mais destrutivos em um relacionamento, concluiu-se a seguinte ordem: falta de diálogo, egoísmo, desonestidade, ciúme, falta de confiança, falta de: flexibilidade, compreensão, respeito e apatia.
A questão da comunicação entre marido e mulher, destaca-se em ambas as referências como relevante fator imprescindível à preservação da felicidade e do próprio relacionamento conjugal.
Na fase do namoro, sempre se encontra assuntos para conversar: planos para o futuro e até as mais pueris questões do cotidiano são motivos para longas conversas.
Lamentavelmente, após o casamento,  grande parte dos casais negligenciam o hábito salutar do diálogo consubstanciado na natural troca de desejos, esperanças, opiniões e pensamentos, e, à medida que os anos passam, vão perdendo cada vez mais o gosto pelo diálogo. Conversa-se apenas em circunstâncias extremamente necessárias. Respostas passam a ser dadas quase sempre com o uso de monossílabos: sim, não, sei, é, vou; ou às vezes, através de interjeições: oh!, eh!, hum!; ou ainda, somente com um movimento nos ombros.
Assevera André Luiz, no livro “Nosso Lar”, que: “o sublime amor do altar doméstico anda muito longe, quando os cônjuges perdem o gosto de conversar entre si”.
Essa questão, expressiva em seu conteúdo, nos remete a uma reflexão impostergável sobre a importância da comunicação na vida conjugal, cujo objetivo deveria ser sempre a busca de entendimento e a permuta constante de afetividade.
A comunicação que estamos tratando aqui, não deve ser confundida com lamúrias, fofocas, gritos, críticas constantes e maldosas, etc. Pois mesmo nas naturais divergências conjugais, é importante se estudar com cautela: o que falar, como falar, quando falar e para que falar. Mas, sobretudo, falar. Do contrário, resultam os “hiatos de silêncio” ou “mudas recriminações”, que impedem a liberação dos sentimentos, causando intranquilidade psicológica.

domingo, 2 de outubro de 2011

A QUESTÃO CONCEITUAL


Para o filósofo idealista alemão Hegel (1770-1831), “O conceito  é a totalidade das determinações, reunidas em sua simples unidade.” Embora o conceito seja indispensável na área do saber, conceituar é limitar. É condensar um conjunto ou a totalidade do conhecimento, em suas características essenciais, a uma unidade, ou seja, a uma expressão que possa representar uma determinada realidade, em nosso caso, doutrinária.
No livro: O Que é o Espiritismo, publicado em julho de 1859, Allan Kardec apresenta os motivos que o levaram a publicar essa obra sintética, onde resume  informações iniciais sobre o Espiritismo. A obra é relevante não somente para o neófito da Doutrina, mas também para os seus estudiosos. Em seu preâmbulo, o insigne codificador desenvolve a questão conceitual do Espiritismo afirmando que:

“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência  prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as conseqüências morais que dimanam dessas mesmas relações.” 

Allan Kardec é profundamente feliz ao definir o Espiritismo, dentro de uma  elasticidade conceitual, isto é, mesmo com o problema do “conceituar é limitar”, Kardec habilmente apresentou-nos um conceito abrangente, sem deixar de ser fiel a própria natureza da Doutrina.. Assevera, detalhando-nos o conceito acima, que o Espiritismo em sua dimensão científica  “...trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”.  Já em seu aspecto filosófico: “O Espiritismo é uma doutrina (...) de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote (...)”.
A questão, talvez, mais palpitante dentro dessa análise é a questão religiosa no Espiritismo. Em seu discurso pronunciado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, no dia 1º de novembro de 1868, Allan Kardec se expressou da seguinte forma:

“(...) então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião e nós nos ufanamos por isso...”

(Revista Espírita, dezembro de 1868)

Compreendemos por sentido filosófico o sentido reflexivo, lógico e racional que consubstancia a questão da religião espírita dentro de parâmetros não dogmáticos, visando trabalhar a consciência humana, não para  acreditar, mas para  compreender a realidade espiritual em suas interfaces. Esse sentido é relevante, pois torna o Espiritismo uma religião dinâmica onde se busca o conhecimento ou a verdade, pelas vias racionais, dentro de uma natural e inalienável liberdade de pensamento. Portanto, o Espiritismo é uma religião de essência, não formalizada e sem as exterioridades que, normalmente, caracterizam o panorama religioso. A questão fica ainda mais inteligível, quando analisamos o sentido filosófico de religião como: “o conjunto de deveres do homem para com Deus”.
Convém, ainda, lembrarmos que para Johann Heirnrich Pestalozzi, o verdadeiro sentido de religião estava centrado na moralidade, isto é, no desenvolvimento espiritual do ser humano. Certamente por isso, observa-nos Herculano Pires, o fato de Kardec ter aprendido com o mestre Pestalozzi, que: “a moralidade era essência da Religião e portanto a verdadeira religião”. Isso explica  Kardec ter usado, nos textos doutrinários, diversas vezes o termo “moral”  ao invés da palavra “religião”.  Segundo ainda, o eminente Prof. Herculano Pires: “Kardec recebeu dos Espíritos a confirmação dessa teoria pestalozziana. Todo o ‘Livro dos Espíritos’ a confirma, ensinando uma religião pura, desprovida de exigências materiais...”
Valendo-nos dessa singela análise, fica-nos evidente a lógica ternária do Espiritismo: Ciência-Filosofia-Religião, na dimensão conceitual  da unidade doutrinária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. Feb.
_________O Evangelho Segundo o Espiritismo.  100ª ed. Feb.
_________Obras Póstumas. 22ª ed. Feb.
_________Revista Espírita. Dez/1868. Edicel.
_________Viagem Espírita. 1862.
_________O Que é o Espiritismo. 32ª ed. Feb.
PIRES, J. Herculano. O Espírito e o Tempo. 2ª ed. 1977. Edicel.
AMORIM, Deolindo. O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas. 4ª ed. Celd.

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