terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O "ENTREVIDAS"


Com o crescente aumento de pessoas que buscam o espiritismo, é natural a disseminação dos conteúdos envolvendo a realidade humana em sua dimensão de espírito imortal e pluriexistencial. Da mesma forma, as valiosas elucidações espíritas sobre os conflitos existenciais e pessoais, tem oferecido estímulos a uma releitura da vida em seus múltiplos aspectos. Queremos afirmar, portanto, que o espiritismo tem contribuído de forma muito profícua para acelerar debates e investigações no mundo científico convencional.
No final de outubro (2003) cientistas e religiosos se reuniram em Brasília em um congresso promovido pela LBV, para discutir a Morte e a Vida após Ela. Em congresso realizado na Holanda em junho de 2003, reuniram-se 230 representantes de associações e institutos de terapia regressiva, de várias partes do mundo. A psicóloga americana Linda Bacman que propôs o tema central desse congresso, dedica-se a pesquisar, através da terapia regressiva, o entrevidas, ou a vivência espiritual de seus pacientes no intervalo em que estiveram entre uma reencarnação e outra. Já a terapeuta carioca Célia Resende, assevera que a vida e a morte, tanto quanto o entrevidas, fazem parte de uma consciência global: “A vida atual, as passadas e o entrevidas são apenas etapas de experiências da consciência, alma ou espírito.” Segundo o relato de seus pacientes, no entrevidas: “há locais de natureza exuberante e prédios com equipamentos médicos e de comunicação altamente sofisticados. (...) As cidades espirituais possuem estações de transição e hospitais para acolhimento dos que chegam, situadas sobre diversas regiões do planeta”, assevera.
A revista destaca ainda que: “A descrição do entrevidas mostra que também, e principalmente, as decisões de aperfeiçoar as relações conflituosas são tomadas nesse período.” Conforme a psiquiatra paulista Maria Teodora Ribeiro, com pós-graduação em análise transacional pela Universidade de Berkeley (EUA), “é comum os pacientes se verem programando a próxima volta à Terra. Aí a pessoa entende por que pediu para voltar naquele contexto.”
Segundo os vários relatos apresentados na reportagem, destacamos o de Nicole Lerch, 45 anos, criada no protestantismo. “Ela sofria de uma tendinite crônica que a impedia de tocar violino. Em 1997, se mudou para o Rio de Janeiro, entrou na Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas passou um ano sem trabalhar e só se livrou da tendinite com a terapia (regressiva). Ela se viu como um lenhador que teve o braço esquerdo amputado depois de um grave ferimento.” Vivenciando um desdobramento espiritual, “...encontrei Ivan, um grande amigo daquela vida. Ele me mostrou que meu braço estava inteiro. Eu tinha sido atingida apenas no físico e não no espírito.”
Estamos, inexoravelmente, diante de um “desvelar” da realidade espiritual do homem. Allan Kardec, no Capitulo 1 de A Gênese, se reporta ao caráter da revelação espírita, asseverando que: “Toda revelação desmentida por fatos deixa de o ser...”. O que observamos, no entanto, é que a revelação espírita, ao contrário de ser “desmentida” está, cada vez mais, sendo comprovada. Na verdade, o caráter de universalidade dos ensinos espíritas tornar-se-ão conhecidos como princípios ou leis absolutamente naturais e, portanto, integrados ao contexto da vida. As demais áreas do conhecimento humano, integradas num todo harmônico, marcharam para o entendimento da universo humano numa dimensão multidimensional e multidisciplinar.
É, ainda, Kardec que nos adverte: “O Espiritismo, dando-nos a conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem o suspeitarmos, assim como as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação, na acepção científica da palavra.” Será, pelo que tudo indica, no contexto desse século XXI, que a ciência acadêmica ortodoxa/conservadora se verá diante das evidências plausíveis do espírito e da reencarnação.
Vale destacarmos a posição do professor Waldyr Rodrigues, professor da Unicamp, matemático e doutor em física pela Universidade de Torino, na Itália, entrevistado por Isto é: “O professor lembra, no entanto, que as verdades científicas são às vezes efêmeras – o que é absolutamente certo hoje pode deixar de ser amanhã. Muitas teorias são aceitas sem uma rigorosa avaliação só por virem de profissionais de prestígio. ‘Ouvimos recentemente a tese de que o universo seria finito e teria a forma de dodecaedro. A topologia do universo é também uma coisa que não se pode provar, apenas deduzir. Por isso, erra quem diz que só acredita no que a ciência pode mostrar’.”
Portanto, a posição defendida por alguns de que o espírito e a reencarnação não seriam verdades pelo fato da “ciência não poder mostrar”, cai por terra. Conforme o professor Waldyr se refere, há muitas teorias ou verdades científicas que são meras deduções e são aceitas nos meios acadêmicos. O que nos faz pensar que, em verdade, o que existe é, ainda, uma postura de preconceito por parte de alguns “cientistas” com relação ao objeto investigativo do Espírito.

(A revista “Isto é” de 12 de novembro de 2003 (n º1780) traz em sua reportagem de capa o tema: “Além da vida” – pacientes de terapia de vivências passadas contam suas experiências no período “entrevidas”, entre uma reencarnação e outra.)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A MADUREZA DA HUMANIDADE



Qual o papel do Espiritismo no processo de transformação social da humanidade? Duas colocações de Kardec são fundamentais para chegarmos a uma resposta. Na primeira, Kardec afirma: “Por meio do Espiritismo, a Humanidade tem que entrar numa nova fase, a do progresso moral que lhe é consequência inevitável.” E, na segunda:

O Espiritismo não cria a renovação social; a madureza da Humanidade é que fará dessa renovação uma necessidade. Pelo seu poder moralizador, por suas tendências progressistas, pela amplitude de suas vistas, pela generalidade das questões que abrange, o Espiritismo é mais apto, do que qualquer outra doutrina, a secundar o movimento de regeneração; por isso, é ele contemporâneo desse movimento. [Grifo meu]

Não há uma contradição entre elas. Seria ingenuidade pensarmos que toda a humanidade se tornaria espírita ou se apropriaria do Espiritismo e, a partir daí, mudaria seus paradigmas de vida, operando-se a tão sonhada renovação social. Obviamente, entendemos que não foi a isso que Kardec se referiu. Ele atribui esse processo de mudança a “madureza da humanidade”, ou seja, a um estágio de superação da adolescência. Partindo da teoria espírita da evolução, Kardec nos autoriza a fazermos uma analogia entre o desenvolvimento do indivíduo e o da sociedade global. Assim como o crescimento individual se opera por fases (infância-adolescência-madureza), também a humanidade conquistaria sua maturidade passando, inicialmente, por outros estágios. Mas Kardec alude que o Espiritismo é “contemporâneo” a essa “transição” e, portanto, possui condições apropriadas para “secundar” (ajudar, auxiliar) esse processo.
Por que o Espiritismo está apto a auxiliar nessa mudança? É bom lembrarmos que o Espiritismo não se reduz a um simples discurso religioso, mas possui uma sólida base teórica que compreende: uma ciência de observação, uma filosofia otimista e, portanto, uma religião com base na fé racional, retomando a essência do pensamento cristão. Por isso, Kardec justifica, através de quatro fatores, que a Doutrina Espírita contribui para o melhoramento da humanidade:

a) Poder moralizador – Estimula pelo esclarecimento, o despertar de uma consciência muito mais lúcida e comprometida com os valores nobres da vida, tornando mais compreensível, para o ser humano, a necessidade de exercitar o princípio do: “Faça aos outros, tudo o que gostaria que os outros vos fizesse”;
b) Tendências progressistas – O Espiritismo acompanha o desenvolvimento da ciência, e aproveita toda a contribuição que esta lhe ofereça;
c) Amplitude de idéias – Oferece uma cosmovisão da vida, na medida em que associa: ciência, filosofia e religião;
d) Generalidade das questões que abrange – Estuda o mundo físico e o mundo espiritual, portanto, faz a confluência entre o físico e o metafísico, o corpo e o espírito, o individual e o coletivo.

Mas Kardec tem o cuidado, compreendendo a complexidade desse processo, de afirmar que:

Fora presumir demais da natureza humana supor que ela possa transformar-se de súbito, por efeito das idéias espíritas. A ação que estas exercem não é certamente idêntica, nem do mesmo grau, em todos os que as professa. Mas, o resultado dessa ação, qualquer que seja, ainda que extremamente fraco, representa sempre uma melhora.

Se o conhecimento espírita oferece valiosos elementos para auxiliar o aperfeiçoamento dos indivíduos, também é verdade, que esse é um processo pessoal e que cada um possui seu ritmo próprio. As crises, os conflitos, as angústias e sofrimentos, também possuem o papel de estimular essas renovações. Essa mudança é naturalmente lenta, pois sedimentada numa nova ética comportamental. Sobre isso, Léon Denis foi enfático ao considerar: “A influência do Espiritismo no progresso da sociedade se processa, não no estímulo à luta de classe, mas no campo íntimo, ampliando os horizontes sobre a natureza humana e sua destinação.”
É comum pensar-se que as mudanças sociais se operam, tão somente, por revoluções, decretos políticos, ou por abalos apocalípticos. O Espiritismo, no entanto, coloca o sujeito no centro dessa questão, atribuindo-lhe a responsabilidade por aperfeiçoar seus impulsos e desejos. Atuando na sociedade onde se insere, o espírita oferecerá os exemplos possíveis, de ação solidária, fraterna, honestidade e justiça, sem se isolar ou deixar de ser jovial.
Ensinam os espíritos que cada um, da sua forma, poderá amadurecer – dentro de si – esse novo mundo, com o qual todos sonham. Certamente, um aspecto determinante de toda essa problemática, ocorre a partir das mudanças psíquicas na vida mental dos indivíduos. Evidentemente, temos os complicadores sociais, como o fator cultural, as estruturas mentais da sociedade que influenciam a família e a educação.
Apesar do pessimismo filosófico, que de certa forma tem sido característico da cultura Ocidental contemporânea, a perfectibilidade faz parte do espírito humano. O filósofo Jacques Julliard, tratando sobre o progresso escreveu: “Mas sobretudo, não ousamos imaginar um progresso moral da humanidade repousando sobre uma melhoria das condições de existência.” O progresso não é uma mera teoria criada na modernidade, mas, uma lei inexorável da vida.

Conclusão

Ao concluir o último capítulo de A Gênese , Allan Kardec praticamente de forma conclusiva, escreve: “A regeneração da humanidade, portanto, não exige absolutamente a renovação integral dos Espíritos: basta uma modificação em suas disposições morais. Essa modificação se opera em todos quantos lhe estão pré-dispostos, desde que sejam subtraídos à influência perniciosa do mundo.” Em tempos de crise de paradigmas, de fragilização de valores afirmativos da existência, de inquietudes e incertezas do mundo pós-globalizado, o texto kardequiano apresenta um enorme potencial filosófico, de referência sempre atual, para pensarmos em alternativas viáveis ao melhoramento da humanidade.
Evidentemente, Kardec não se referia a uma moral religiosa, caracterizada pelo artificialismo. Uma conduta artificial não renova ninguém, cria uma máscara temporária, para dar a impressão de pureza. Os apelos do mundo aí estão, fazem parte de nosso cotidiano, mas caberá a cada um delimitar o uso de sua liberdade. Tudo posso, mas nem tudo me convém! O equilíbrio interior é, certamente, o imperativo do progresso ético-espiritual do homem contemporâneo.
Hoje, parece óbvio que a saída para resolvermos os conflitos do espaço humano e social requer que busquemos um outro caminho. Esse “outro” caminho não é simples, pois exige trabalho e determinação. Não se trata de uma revolução social, impositiva, mas de uma “revolução individual” com base na consciência de que não estamos no mundo por um mero fatalismo biológico e que, portanto, necessitamos compartilhar uma ética do cuidado, comprometida com as Leis Morais da vida, orientadoras, em última instância, desse grande processo de renovação.

domingo, 22 de novembro de 2009

O LIVRO E A PRAÇA: UMA COMBINAÇÃO PERFEITA!



Em 2006, a Câmara Rio-Grandense do Livro encomendou uma pesquisa ao Ibope sobre os hábitos de leitura dos gaúchos. Realizadas 1.008 entrevistas, em 60 municípios, obteve-se as seguintes informações: a leitura ocupa o quarto lugar na vida dos gaúchos quando estão com seu tempo livre. Primeiramente, vem o hábito de assistir televisão, logo após, vem ouvir música ou rádio e, em terceiro lugar, praticar atividades esportivas.
No Rio Grande do Sul, lê-se, em média, 5,5 livros por ano. Esse número é significativamente superior ao da média brasileira: 1,8 livros anuais. Outros dados interessantes: a maioria da população pesquisada afirmou que lê por “prazer”, enquanto uma minoria (12%) atribuiu ao ato de ler, uma decorrência da exigência escolar ou acadêmica. No que se refere à temática preferida dos gaúchos, a pesquisa aponta que os temas religiosos aparecem em primeiro lugar, seguidos dos romances, literatura infantil, poesia...
A pesquisa também indagou os entrevistados a respeito do ato de ler: 33% consideraram que “a leitura é uma forma de conhecimento para a vida”; para 15% deles, a leitura é uma atividade muito prazerosa, enquanto que, para 2%, é algo entediante. Dos entrevistados, apenas 1% vê o ato de ler como uma prática obrigatória.
Podemos e devemos retirar desses dados algumas reflexões: sabemos que o prazer pela leitura é um hábito que, como tantos outros, pode ser construído e estimulado desde a primeira infância. Naturalmente que, nessa fase, a criança ainda não saberá ler, todavia, começará aí, o seu contato visual e tátil com os livros, onde os desenhos se apresentam de forma atrativa, multicoloridos. O ato de contar histórias para a criança é indispensável, pois estimula sua imaginação e suas fantasias. A partir daí, e ao longo de seu desenvolvimento, a criança que estiver em permanente contato com os livros, tenderá a estabelecer com eles uma relação de proximidade afetiva, de intimidade com as letras que lhe ampliarão o potencial criativo. Estará se formando, assim, o verdadeiro leitor, aquele que encontra, em cada nova página, o prazer das descobertas.
A leitura permite ao ser humano um avançar de suas fronteiras, ampliando os seus horizontes culturais. Num mundo cada vez mais complexo, o livro continua sendo aquele amigo silencioso que orienta e instrui, mas também que problematiza o presente e desafia o leitor a novos olhares.
A Feira do Livro não é um local onde simplesmente se comercializa livros! A Feira é um espaço privilegiado, onde esses múltiplos olhares se encontram. É como admiravelmente sintetizou uma propaganda: “Se você for amigo do Quintana, ele lhe ensina um poema. Se você pegar o Einstein pela mão, ele lhe explica o universo. Se você conversar com Shakespeare, você vai se sentir romântico como Romeu ou Julieta ou trágico como Hamlet.”
Essa será para Osório, uma semana muito especial. Nossa Feira do Livro volta novamente para a Praça, de onde jamais deveria ter saído. O livro e a praça é uma combinação perfeita, pois a praça é um local de convergência, de encontros, de lazer. Nesta semana, teremos o privilégio de encontrar, ao passarmos por ela, vinícius de Morais e Mario Quintana, Érico Veríssimo, Platão, Jesus... As crianças encontrarão os tantos personagens que vêm encantando gerações, e aproveitaremos para conhecer novos escritores e novos personagens. Sobretudo, haverá oportunidade para que se conheçam melhor os próprios escritores osorienses e litorâneos, e suas obras.
Nossa região possui uma vasta produção literária, de diversos gêneros, que necessita de maior visibilidade e valorização. A Feira do Livro, em seus diversos momentos e eventos, terá o ensejo de aproximar o escritor do leitor para que se crie estímulos necessários tanto para a leitura, quanto para a produção literária. É certamente por esse caminho, que qualquer sociedade que almeja o seu desenvolvimento deve investir. Esperamos, por fim, que a população possa se fazer presente, aproveitando e prestigiando de fato esse singular evento literário de nossa cidade.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O DESPERTAR DO SUJEITO


O imperativo da vida coloca o sujeito como ser co-criador-criativo. Na prática, o ser se constrói e autoafirma através de processo que envolve, desde a experiência (individual e social), o conhecimento intelectual e os sentimentos. Na medida em que o sujeito perde suas certezas metafísicas, como advertiu Jung, ele termina por mergulhar – e por extensão a própria humanidade – numa crise de identidade consigo mesmo.
Nesse sentido, o processo de transformação social da humanidade, não pode ser desvinculado do processo de evolução espiritual do próprio homem. Quanto mais o sujeito se cerca de elementos sobre sua condição profunda, menos “vazio” vive. Na falta desses elementos, o ser humano (que tenta superar esse vazio) termina preenchendo seu “espaço mental” com conquistas externas, importantes, mas sempre vulneráveis.
Na segunda metade do século XIX, Allan Kardec analisou as três fases do Espiritismo e mencionou, em discurso durante a Viagem Espírita de 1862, que a terceira fase seria a da “transformação social.” Um ano depois, ao publicar na Revista Espírita de 1863 , escreveria a respeito da influência do pensamento espírita na sociedade humana, identificando, agora, seis períodos pelos quais a Doutrina dos Espíritos passaria:

1.Período da Curiosidade
2.Período Filosófico
3.Período da Luta
4.Período Religioso
5.Período Intermediário
6.Período da Renovação Social

O último período mencionado pelo codificador é o que, nesse momento, nos interessa. Kardec volta a insistir numa “renovação social.” Tema que, obviamente, ele já havia tratado em O Livro dos Espíritos, e retomaria numa análise mais detalhada em A Gênese, onde afirmou:


A Humanidade tem realizado, até ao presente, incontestáveis progressos. Os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que jamais haviam alcançado, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do bem-estar material. Resta-lhes ainda um imenso progresso a realizar: o de fazerem que entre si reinem a caridade, a fraternidade, a solidariedade, que lhes assegurem o bem-estar moral. Não poderiam consegui-lo nem com as suas crenças, nem com as suas instituições antiquadas, restos de outra idade, boas para certa época, suficientes para um estado transitório, mas que, havendo dado tudo o que comportavam, seriam hoje um entrave. Já não é somente de desenvolver a inteligência o de que os homens necessitam, mas de elevar o sentimento e, para isso, faz-se preciso destruir tudo o que superexcite neles o egoísmo e o orgulho. [Grifos meus]

Allan Kardec reconhece o valor da inteligência, ou da técnica, mas enfatiza a necessidade de “elevar o sentimento”. A noção de sentimento, nesse caso, não implica numa negação do sujeito enquanto ser desejante, mas numa necessária afirmação da sensibilidade, de alguém que consegue perceber o outro, sem ser arrogante. Essa afirmação de Kardec, também, nos leva a pensar sobre a relação entre sentimento-progresso-pensamento, na medida em que o processo de transformação social envolve, de forma determinante, a condição espiritual. Quando os sentimentos nobres iluminam o pensamento, o progresso global supera seus vazios e paradoxos.
Mas também, Kardec ofereceu mais informações sobre o caráter dessa transformação: “Nestes tempos, porém, não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a certa região, ou a um povo, a uma raça. Trata-se de um movimento universal, a operar-se no sentido do progresso moral.”. A moral é uma questão central dentro dessa ordem de transformações sociais, pois está, também, associada aos sentimentos.
Sabemos que o Espiritismo, no sentido filosófico, compreende a moral enquanto regra de bem proceder. Mas a idéia de moral aqui definida, abarca também o sentido ético, ou seja, essas “regras” devem vir de “dentro” do sujeito. Nesse caso, estamos dizendo que essas regras são “princípios de valores”, conquistados pelo próprio sujeito/espírito. Portanto, a moral está associada àquilo que podemos chamar de “sentimentos de valor universal”.
Nesse sentido lembremos Léon Denis quando escreveu que: “o estado social não sendo em seu conjunto senão o resultado dos valores individuais, importa antes de tudo de obstinar-nos nessa luta contra nossos defeitos, nossas paixões, nossos interesses egoístas. Enquanto não tivermos vencido o ódio, a inveja, a ignorância, não se poderá estabelecer a paz, a fraternidade, a justiça entre os homens; e a solução dos problemas sociais permanecerá incerta e precária.”
Somos sujeitos da história. Vivemos, é bem verdade, uma crise civilizacional que nos fornecerá novos elementos para retomarmos valores atemporais, esquecidos nas entranhas da pós-modernidade.

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