domingo, 4 de outubro de 2009

A BÍBLIA E A ESCRAVIDÃO



A escravidão fez parte das sociedades desde a mais remota Antiguidade. De acordo com as especificidades de cada povo ou sociedade, os escravos poderiam ser prisioneiros de guerras ou mesmo pessoas que, por não poderem pagar alguma dívida, eram conduzidas àquela condição. Havia, também, o fato de pais que vendiam os próprios filhos como escravos.
Na Grécia, o escravismo desenvolveu-se de forma muito significativa. Raras eram as atividades produtivas onde os escravos não eram empregados, tanto no meio urbano como no meio rural. Estima-se, por exemplo, que Aristóteles em suas pesquisas sobre as formas de alimentação e reprodução dos animais, contasse com mais de mil escravos, a sua disposição, trazendo-lhe animais para suas experiências.
O processo escravista foi, sem dúvida, uma grande violência contra a dignidade humana, através da subjugação moral, pela força ou por qualquer outro meio de coerção servil. Evidentemente, devemos compreender esse processo de dominação no âmbito de povos belicosos ou, por demais, embrutecidos espiritualmente, atrelados a idéia de enriquecimento em face a exploração violenta do semelhante.
No Mundo Antigo a instituição da escravidão era algo natural no seio das sociedades e, não raras vezes, recebia a própria legitimação das estruturas religiosas. Na Bíblia há diversas passagens sobre a questão da escravidão justificada.
Paulo, em carta aos Efésios afirma:

“Vós, servos, obedecei aos vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo.” [Efésio 6:5]

Os Efésios eram os moradores de Efeso, cidade grega no território da Lídia, no Litoral Oeste da Ásia Menor. Essa cidade era um grande centro comercial e religioso e já havia sido visitada por Paulo anteriormente em suas viagens. É curioso, no entanto, observar que Paulo destaca o “senhor segundo a carne”, justamente, para diferenciar do “Senhor” como sinônimo de Deus. Deixando claro que o servo ou escravo deveria obedecer aos seus “donos”. Isso evidentemente, em nosso ver, não invalida o admirável trabalho de Paulo na divulgação do Cristianismo nascente, tão somente, mostra a face de um homem situado em seu tempo, sujeito ao equívocos e às influências naturais de seu meio.
Em carta aos Colossenses reafirma:

“Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus.” [Colossenses, 3:22]

Aqui temos a reprodução do Deus temeroso, punitivo e cruel que não se coaduna com o Deus de amor e bondade ensinado por Jesus. Um Deus que justifica a dominação do homem sobre o homem jamais fez parte dos ensinamentos do Cristo. Aqui, parece-nos que sobressai a influência do Deus apresentado por Moisés ao povo hebreu. E por falar em Moisés, vejamos o que ele nos fala sobre a escravidão:

“Escravos e escravas para vos servires, podereis adquiri-los entre os povos circunvizinhos. Poderes também comprá-los dentre os filhos dos estrangeiros, que peregrinam entre vós e dentre suas famílias, nascidos e crescidos na vossa terra, e serão vossa propriedade.” [Levítico 25:44-45]

No Êxodo, lê-se:

“Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá forro, de graça. Se entrou só com o seu corpo, só com o seu corpo sairá; se ele era homem casado, sairá sua mulher com ele. Se seu senhor lhe houver dado uma mulher, e ela lhe houver dado filhos ou filhas, a mulher e seus filhos serão de seu senhor, e ele sairá só com seu corpo.” [Êxodo 21:2-6]

Há uma série de outras referências na Bíblia sobre a escravidão. Sem nos alastrarmos em mais citações, desejamos refletir sobre o caráter legislativo e, portanto, humano, dessas referências.
Poderia causar estranheza para alguém, que textos bíblicos fossem coniventes com a escravidão! Ora, um exame consciencioso das passagens bíblicas demonstra que as religiões estiveram, praticamente, sempre vinculadas ao poder político, servido como justificativa moral para salvaguardar determinados interesses, muitas vezes, obscuros e tendenciosos.
Os textos bíblicos, impregnados da cultura hebraica, tentavam naturalizar a escravidão como uma prática comum – até porque os hebreus haviam sido escravizados no Egito – e, como bem se percebe, cristalizada no cerne daqueles povo antigos. Na verdade, a escravidão só começou a ser vista como uma prática “vergonhosa para a humanidade” no século XVIII.
Mas a Bíblia deve ser analisada sempre à luz da razão e do bom-senso, isto é, torna-se necessário diferenciarmos o que fazia parte da cultura e do contexto histórico da época, daquilo que realmente tem valor como verdades universais.
O Antigo Testamento, por exemplo, está cheio de representações simbólicas, contradições e mesmo práticas ancestrais, já superadas para os nossos dias. Não obstante, a Doutrina Espírita retira ou resguarda a essência do Velho Testamento consubstanciada no Decálogo. Este sim, de caráter universal, mantém-se válido nos dias atuais, personificando valores divinos e permanentes como: a vida, a justiça, a honradez, o amor, o respeito...
Jesus considerou a necessidade do Amor como sentimento capaz de unir os homens e de fazê-los crescer espiritualmente. Contrapondo-se aos regimes totalitários e opressores, ensinava, entre outras coisas, que a escravidão de qualquer forma e sob qualquer pretexto, é terrível violência contra a criatura humana. O Seu Evangelho é um hino de exaltação à prática dos valores nobres e dignificantes, como medida possível para os homens encontrarem a paz.
No final da Idade Média, todavia, a Igreja Católica aceitou e promulgou a escravidão como uma prática institucional que considerava justa, necessária ou inevitável. As escrituras não a condenavam e esse fato facilitou aos cristãos fazerem uso dela para dominarem, principalmente, os africanos, e pô-los a serviço do enriquecimento das monarquias Ibéricas. Com São Tomás de Aquino e as interpretações sobre o pensamento de Aristóteles, admitiu-se a escravidão como derivada de uma suposta inferioridade moral e/ou espiritual dos escravizados.
Essa postura adotada é um sofisma perigoso, justamente, por tentar justificar o erro mediante aparentes motivos “justos”, que desrespeitam a integridade moral do próprio ser humano. É o “cristão” ignorando o Cristo!
Allan Kardec, retomando a questão em O Livro dos Espíritos obtém a efusiva assertiva dos espíritos:

“È contrária à lei de Deus toda sujeição absoluta de um homem a outro homem. A escravidão é um abuso da força. Desaparece com o progresso como gradativamente desaparecerão todos os abusos.” [Questão 829]

A questão 830 da referida Obra, é bastante conclusiva diante do exposto até aqui e, portanto, dispensa maiores comentários. Vejamo-la:
“- Quando a escravidão faz parte dos costumes de um povo, são censuráveis os que dela aproveitam, embora só o façam conformando-se com um uso que lhes parece natural?
R. O mal é sempre o mal e não há sofisma que faça se torne boa uma ação má. A responsabilidade, porém, do mal é relativa aos meios de que o homem disponha para compreendê-lo. Aquele que tira proveito da lei da escravidão é sempre culpado de violação da lei da Natureza. Mas, aí, como em tudo, a culpabilidade é relativa . Tendo-se a escravidão introduzido nos costumes de certos povos, possível se tornou que, de boa-fé, o homem se aproveitasse dela como de uma coisa que lhe parecia natural. Entretanto, desde que, mais desenvolvida e, sobretudo, esclarecida pelas luzes do Cristianismo, sua razão lhe mostrou que o escravo era um seu igual perante Deus, nenhuma desculpa mais ele tem.”
Com esse breve artigo, pretendemos alertar para a necessidade de uma leitura racional e contextualizada das passagens bíblicas, no sentido de percebemos a essência dos ensinamentos morais, muitas vezes, em contraposição com as próprias práticas cristalizadas da época. Jesus, é bom lembrar, jamais se contradisse, o que fê-lo, evidentemente, um homem incomparável, jamais compactuando com a injustiça e a exploração humana.

Referências Bibliográficas

PINSKY, Jaime. História da América Através de Textos. 5ª ed. São Paulo, Contexto,1994.

MELO, Mário Cavalcante de. Da Bíblia aos Nossos Dias. Curitiba, Livraria da Federação Espírita do Paraná, 1954.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68º ed. Brasília, FEB, 1987.

A BIBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida. 26ª impressão, Rio de Janeiro, Imprensa Bíblica Brasileira, 1972.

domingo, 27 de setembro de 2009

PARADIGMAS


Genericamente, paradigmas são referenciais pelos quais vemos, nos relacionamos e transformamos o mundo e a nós mesmos.
Na Baixa Idade Média (Séc. XI ao XV), dois paradigmas se destacavam: o geocentrismo, defendido pela ortodoxia religiosa vigente, afirmava que a Terra estava imóvel no centro do Universo e o Sol girava em torno dela. Já o heliocentrismo, era defendido pelo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), onde o Sol estava no centro do sistema planetário e era a Terra que girava em torno dele. Mais tarde, Galileu Galilei (1564-1642) comprova o acerto de Copérnico e passa a ser perseguido pela Igreja Católica, quase sendo morto nas fogueiras da “Santa” Inquisição.
No período em que vigorou o paradigma da escravidão negra no Brasil (Séc. XVI-XIX) alguns senhores costumavam afirmar que o escravo de canela fina era trabalhador e o de canela grossa era preguiçoso. Temos aí duas formas ou referenciais totalmente equivocados, ética e moralmente falando, de ver a vida. Paradigmas superados com a natural maturação consciencial da civilização.
Na medida em que o Ser humano aperfeiçoa a sua consciência à respeito da vida, novos referenciais emergem, sucedendo as antigas culturas, arcaicas e impotentes, portanto, declinantes.
No que diz respeito a compreensão sobre a vida e a morte, o princípio dialético de renovação cultural é o mesmo. A morte é uma fatalidade biológica, mas a continuidade da vida é um determinismo divino. Verdadeiramente, podemos afirmar que o Espiritismo substituiu com propriedade, o substantivo abstrato e difuso “morte”, pelo substantivo concreto “desencarnação”. Naturalmente, o termo desencarnar expressa com mais fidelidade o mecanismo pelo qual ocorre a desenmantação do espírito em relação ao corpo físico.
Vivemos em um cultura ocidental que educa o indivíduo para a vida exterior, baseada num paradigma newtoniano do século XVII, o que equivale dizer, num referencial de vida mecanicista onde o ser humano foi reduzido a uma estrutura físico-química fadada a desaparecer com a morte.
Segundo o físico Fritjof Capra, em seu livro “O Ponto de Mutação”, a humanidade, no momento atual, vivencia um processo de transformação cultura, ou seja, uma mudança de paradigmas, não obstante, a predominância de uma cultura materialista que está visivelmente declinante por recusar-se a mudar, aferrando-se cada vez mais obstinada e rigidamente a suas idéias obsoletas; mas o seu declínio continuará inevitável, ao mesmo tempo em que a cultura nascente consubstanciada em uma visão espiritualista continuará ascendendo e assumirá finalmente o seu papel de liderança.
No entanto, lembremos que mudanças evolutivas e educacionais dessa magnitude, não ocorrem a curto prazo e de forma simplista. Nesse contexto, o Espiritismo é ontológico, oferecendo uma cosmovisão da vida, situando o homem na condição de espírito imortal e pluriexistencial. Tem influído profundamente no progresso e na ascendência de uma nova cultura voltada para o autodescobrimento do homem integral.
A Doutrina Espírita vem trabalhando o intelecto e as emoções humanas, a fim de que se possa admitir a morte como parceira da vida, retomando às reflexões oriundas dos ensinamentos de Jesus Cristo. O Espiritismo é, sem dúvida, a síntese dessa cultura emergente, pois sintetiza em sua ampla e dinâmica conceituação todas as conquistas reais da tradição religiosa, filosófica e cientifica, acrescentando novos conhecimentos sobre a natureza humana e seu processo evolutivo.
Depreende-se, finalmente, que o paradigma espírita enseje uma psicologia educacional para a morte nos moldes da pertinente e lúcida afirmação do prof. Herculano Pires: “A educação para a morte não é nenhuma forma de preparação religiosa para a conquista do céu. É um processo educacional que tende a ajustar os educandos à realidade da vida, que não consiste apenas no viver, mas também no existir e no transcender”.

domingo, 20 de setembro de 2009

OS SIGNIFICADOS DA MORTE


“No dia em que a morte bater à tua porta
Que lhe oferecerás?
Porei diante de minha hóspede o vaso cheio de minha vida.
Nunca a deixarei ir de mãos vazias...”

Rabindranath Tagore


Preâmbulo

Ao longo de seu processo histórico o homem passou a significar, em diversas manifestações socioculturais, o seu relacionamento com a morte. A idéia de sua finitude biológica levou-o, com maior ou menor consciência, a estabelecer – desde tempos remotos – significados a esse acontecimento inexorável. A necessidade do ser humano compreender a morte ensejou a criação de mitos, rituais funerários, modelos teóricos explicativos de sua temporalidade biológica, etc. Da mesma intensidade com que procurou compreendê-la, o homem vem lutando contra ela. O medo do desconhecido gera insegurança, devido ao instinto de conservação. Da insegurança ou esperança, do confronto com essa realidade, nasceram religiões e filosofias que estimularam o homem à reflexão sobre si mesmo.
Refletir sobre os significados atribuídos à morte nos ajuda a compreendê-la como experiência importante para o gênero humano. Analisando ampla bibliografia sobre o assunto, pretendemos descrever algumas formas de relacionamento do homem com a morte, do ponto de vista histórico, sem perder, no entanto, nossa tese central: evidenciar a morte como parceira da vida. Os significados atribuídos a morte, pelo angulo da transcendência, nos levam a compreende-la dentro do próprio inconsciente coletivo, uma vez que o homem é um ser pluriexistencial que já vivenciou múltiplas experiências do nascer e do morrer.

Primeiros significados

A prática de enterrar os mortos teria começado com o Homem de Neandertal, evitando assim que os corpos fossem devorados por animais. Adotou-se a prática de abrir cavidade nas rochas, onde os corpos eram colocados de cócoras e coberto de pedras. Junto ao corpo eram depositado seus objetos pessoais e alimentos. Segundo Chiavenato pesquisadores do Museu do Homem de Paris, teriam descoberto em uma sepultura de 60 mil anos, referente ao homem de Shanidar, grãos de pólen espalhados ao redor dos fósseis. Diante de tal descoberta, concluiu-se, naturalmente, sobre a importância dos rituais mortuários nesses grupamentos primitivos.
Mais tarde, já com o Homem de Cro-Magnon, encontrou-se corpos esticados na posição horizontal de costas para baixo, ou em posição fetal. No Mesolítico, época dos últimos caçadores e coletores, as sepulturas passam a ser ovais e pouco profundas, sendo mais comuns as sepulturas coletivas, onde identificou-se, também, indícios de oferendas ou rituais funerários. Quais os significados que esses homens ancestrais teriam dado à morte? Difícil afirmar. Todavia, surge a necessidade de cultuar os mortos e, ao mesmo tempo, salvaguardar os vivos. Isso ocorre através de rituais que visavam agradar os deuses, na esperança de proteção. O sentimento religioso surge, portanto, associado a idéia do temor. E o temor será a base dos estímulos religiosos para a conduta humana nas diversas sociedades, principalmente, Antiga e Medieval.
A civilização do Nilo, por sua vez, atribuía à morte uma dimensão metafísica. Em O Livro dos Mortos, provavelmente com origem na V Dinastia (2.345 a.C.) os egípcios buscavam indicações sobre a passagem do morto pelas diversas etapas em sua jornada pós-morte. Os rituais mortuários no antigo Egito, tipificavam a morte como uma continuação da vida. Daí a necessidade da preservação do corpo (privilégio, normalmente, da nobreza) para que o espírito a ele retornasse, após sua jornada pelo mundo dos mortos. Atribuiu-se tal importância à morte que quarenta e cinco séculos antes de Cristo, na mitologia egípcia, Anúbis ou Anpu, era o deus da morte, presidindo o embalsamamento e o sepultamento. Acreditava-se que o corpo devia ser conservado para permitir a sobrevivência do duplo (Ka), uma espécie de matéria vaporosa e colorida que adotava a forma do corpo e do espírito. O espírito ou alma (Ba), por sua vez, era representado por uma chama ou um pássaro que voaria na direção da luz ou acompanharia o seu sepultamento.
Bem se percebe que a idéia da imortalidade da alma, do períspirito e da reencarnação, fazia parte da cultura religiosa, não só dos egípcios, mas de grande parte dos povos da Antiguidade. Nesse sentido, a morte personificava, no Egito, não somente a imortalidade da alma, mas, também, a “imortalidade do corpo”. A morte não era vista como “fim”, mas como um processo, imanente e transcendente à existência corporal. Entretanto, o destino da alma estava subordinado ao comportamento do morto, enquanto vivo.

O nascimento da morte

Segundo Long , a inevitabilidade da morte na mitologia hindu, pode ser bem compreendida em uma interessante narrativa do Mahabharata, onde um sábio tenta amenizar o sofrimento de alguém que acabou de perder uma pessoa querida, contando-lhe uma fábula sobre a origem da morte. Segundo a história, Brahmã criou tantos seres que a Terra começou a ficar cheia a ponto de não haver mais lugar para respirar. Nessa época a morte não existia. Nasciam multidões de criaturas mas ninguém morria. Como resultado, a Mãe Terra começou a sentir-se tão sobrecarregada com o excessivo número de pessoas que suplicou que Brahmã lhe aliviasse a “carga”. Ele conteve um pouco de sua energia criadora a fim de prover tanto a criação quanto a destruição. Com isso, Brahmã dá origem a uma mulher em túnica escarlate, olhos de intensa luz vermelha, a quem denomina “morte”. Sua missão seria a de “retirar” da Terra, a seu devido tempo, todos os seres humanos. Todavia, a morte negou-se a tal tarefa, receando, naturalmente, a ira dos parentes diante da ausência de seus afetos. A morte afastou-se então da Terra, para levar uma vida ascética. Entretanto, Brahmã voltou a persuadi-la para que executasse seu dever. Finalmente, transformou as lágrimas de sofrimento da morte em moléstias, instrumentos para remover os seres da Terra.
A história é finalizada com um ensino moral: “Sabendo que a morte chega para todos, a pessoa não deveria sofrer. Pois tal como os cinco sentidos desaparecem quando a pessoa dorme profundamente, e depois voltam à vida quando a pessoa acorda, assim também, de modo semelhante, as criaturas que morrem vão deste mundo para outro, e depois voltam para aqui novamente, no seu devido tempo.”
Ora, o criador não poderia destruir sua própria criação! Encontrou meios de evitar uma super população na Terra, não destruindo, mas “removendo” para outros planos da vida, as criaturas humanas. A morte, nessa fábula, representa o princípio do equilíbrio, sem o qual a vida humana na Terra seria asfixiada. É uma benção, não uma desgraça. Para alguns historiadores, entretanto, o temor da morte seria gerado pelo desenvolvimento das idéias religiosas. Os ensinos de um castigo a pós a morte para aqueles que não agiram nessa vida de forma adequada fomentaria, em diversas culturas, o medo da morte pelo que se enfrentaria depois: dores infernais, castigos eternos....

NOTAS

1. CHIAVENATO, Júlio José. A morte: uma abordagem sociocultural. São Paulo, Moderna, 1998. Página 13
2. JULIEN, Nadia. Minidicionário Compacto de Mitologia. 1ª ed. São Paulo, Rideel, 2002. Páginas 38, 259, 260.
3. LONG, J. Bruce. Phd. A Morte que termina com a morte no Hinduísmo e no Budismo. In. Morte Estágio Final da Evolução. Elisabeth K. Ross. Nova Era.

domingo, 13 de setembro de 2009

A GUERRA FARROUPILHA: O QUE HÁ PARA COMEMORAR?




Todo o ano é a mesma coisa. Aquela data, quase mágica para os mais ufanistas, é lembrada e festejada nos diversos recantos do Rio Grande do Sul, não para relembrar um fato que, na verdade, não há muito que ser comemorado, mas para manter vivo um discurso político. Sim! Estamos nos referindo ao 20 de setembro e as comemorações da semana farroupilha.
É interessante que o escritor gaúcho Alcy Cheuiche, ao término de seu romance intitulado A Guerra dos Farrapos, lançado por ocasião do sesquicentenário da guerra, anotou: “... a guerra até hoje não chegou ao fim.”
O que podemos depreender disso? No mínimo, que essa frase está carregada de significados nem tanto ocultos. A rigor, as relações entre o Rio Grande do Sul e o Governo Federal, no final do regime militar, foram marcadas por desentendimentos políticos e econômicos, à semelhança do que ocorrera em outras épocas e, se podemos dizer, ainda ocorrem hoje, quer sob a questão tributária, ou em relação ao sentimento de marginalização do Estado, no dizer de alguns, ao que se refere às decisões do “poder central”. Dessa forma, as “feridas” se mantinham e, se mantém, “abertas” no que tange aos velhos discursos políticos.
Diante das situações de “crise do Estado” reatualizam-se os empolados discursos onde o problema da crise é devido, entre outra coisas, à posição “periférica” ocupada pelo Rio Grande do Sul, em relação as políticas do Governo Federal. Em 1984, é publicado pela Secretaria de Justiça do Estado, um manifesto intitulado Carta aos libertadores onde, entre outras coisas, afirmava-se:

“A federação é uma farsa. O centralismo financeiro está levando os Estados à insolvência. Nosso Rio Grande sofre, abalado na sua vocação de crescer pelo trabalho e ferido no seu orgulho de povo de lutas, reduzido à condição de pedinte. Jamais acalentamos o espinho divisionista, mas as razões de hoje são mais fortes que as de 35.”

Observam-se, claramente, os discursos evocativos, acirrando os velhos ideais farroupilhas no presente. Por esses, entre outros fatores, é que as comemorações da semana farroupilha se tornam, a cada ano, mais empoladas nas representações do regionalismo sulino e, portanto adequada aos sucessivos discursos políticos e ideológicos de nosso Estado. De certa forma, isso visa colocar, não o Rio Grande do Sul como protagonista de uma “grande façanha”, mas a lógica é exatamente o contrário. Trata-se de vincular a figura do Estado a uma espécie de espoliação do Governo Federal e, com isso, delegamos o teor das grandes responsabilidades a um agente externo.
Esse discurso é interessante, pois, com ele, passa-se a “deslocar” os problemas do Estado e, com isso, tenta-se – de certa forma – resguardar as responsabilidades de nossos governantes locais. Com isso, não estamos defendendo ou desconsiderando as responsabilidades federais diante da séria e evidente questão fiscal, nem mesmo estamos eximindo de responsabilidades o governo federal por sua, às vezes, excessiva centralidade política.
Em 1985, o então Ministro da agricultura e depois governador do Rio Grande do Sul, Pedro Simon, enfatizava:

“[...] A forma pela qual o Rio Grande participa da vida nacional está ancorada em dificuldades que vêm de longa data. Refiro-me à maneira tradicional de inserção do Rio Grande na política nacional. Nossa participação na vida política tem oscilado entre dois extremos. De um lado, a participação periférica no sistema de poder central. Com a revolução de 30 nossos melhores quadros políticos e administrativos emigraram para o centro do país e ocuparam posições de destaque na administração federal. O projeto de modernização que se implantou a partir daí, entretanto, não contemplava o Rio Grande com um posição destacada, equivalente a nossa contribuição para a direção da máquina estatal.”

Ocorre que, passados um longo tempo da guerra farroupilha, os discursos continuam de certa forma, com a mesma tônica, enaltecendo as “diferenças históricas” do Rio Grande do Sul em relação ao Brasil. Muito embora, essas diferenças estarem, em muito, somente no imaginário coletivo dos rio-grandenses através da habilidade de seus dirigentes em “adequar a memória histórica”ao seus interesses. Com isso, as classes dominantes sulinas buscaram, historicamente, fora de suas fronteiras os “culpados” para justificar os seus problemas internos e, portanto, reforçar – ontem como hoje – uma idílica identidade que se revigora nos momentos de crise.
Assim sendo, a guerra farroupilha tem sido difundida, nos mais diversos eventos, como uma insurreição cujo caráter representava os ideais de “liberdade, igualdade e humanidade” que continuam norteando os interesses do Rio Grande do Sul. Sem pretendermos, no breve espaço desse artigo, o aprofundamento dessa questão, torna-se interessante alguns apontamentos sobre o ideário dos farrapos.
A guerra farroupilha enquadra-se no conjunto das tantas revoltas provinciais que investiram contra o Governo Central, no que tange a configuração de um modelo de Estado Nacional Brasileiro que lhes atendesse os interesses de maior liberdade econômica e política. Tal questão definiu uma conjuntura de conflitos pela redefinição de poderes entre as elites regionais, que, no caso do Rio Grande do Sul, era formada, em grande parte, pelos estancieiros e chefes militares da Campanha.
O modelo de governo defendido pelas elites pastoris, com a guerra dos farrapos, pretendia assegurar-lhes o controle sobre o Sul, já que o liberalismo farroupilha era profundamente conservador internamente. Isso fica evidente com a Constituição da República Rio-grandense em seus vários artigos e, especialmente, em seu Título II, Artigo 6º, onde se lê: “São cidadãos rio-grandenses todos os homens livres nascidos no território da República.” Ora, isso excluía do direito à cidadania os trabalhadores escravizados, os imigrantes e as mulheres. Alem do mais, a república dos farrapos excluía de votação nas assembléias paroquiais, entre outros, os que não tivessem renda anual de cem mil réis por bem de raiz, comércio ou emprego.
Ora, que modelo de liberdade é esse de que tanto os rio-grandenses se ufanam? A questão da igualdade defendida pelos farrapos era uma farsa, uma vez que eles próprios não libertaram seus cativos. A liberdade, por sua vez, vinculava-se à idéia de ganhar mais autonomia econômica e política em relação ao Império como forma de garantir a propriedade. A rigor, os farrapos formavam um grupo político, os liberais (moderados e exaltados) que não possuíam um projeto de reformas sociais, mas sim, de ampliação do seu “status quo” dominante.
No passado, como no presente, a manipulação do imaginário social pelo discurso político, potencializa um “sentimento agregador”, indispensável para a formatação da identidade de uma coletividade. Identidade essa, formada pelas representações simbólicas que tipificam a ideologia da classe dominante. Ora, quem tem o poder de criar representações sobre o passado, manipulando a memória, tem o poder de criar “verdades” e perpetuar o próprio poder.
Nesse sentido, as “datas comemorativas” possuem essa função de manter vivo, na memória popular, os elementos simbólicos onde o passado revitaliza o presente. No final do século XIX, Júlio de Castilhos já defendia a comemoração do 20 de setembro como uma data representativa dos ideais republicanos. Após a proclamação da república, na medida em que o PRR (Partido Republicano Rio-grandense) assumia o poder político, passava-se a definir os símbolos oficiais do Estado inspirados na guerra farroupilha.
Portanto, não é de se estranhar que a sede do governo do Estado seja denominada “Palácio Piratini”, em alusão à cidade que foi sede da república Rio-grandense. Ou que o hino Rio-grandense seja uma apologia a guerra de 35, ou então, que a bandeira tricolor do Estado represente os qualificativos da “alma gaúcha”: “a coragem”, “o sacrifício”, “o sangue derramado” para defender o Rio Grande do Sul de seus algozes.
Vivemos num Rio Grande do Sul de muitos matizes e contradições sociais que, na maioria das vezes, parecem ficar submersos, às vezes, alienados, nos festejos superficiais sem o devido aprofundamento da reflexão histórica. Dessa forma, a sociedade gaúcha, continua sendo cooptada, pela mídia, pelo poder institucional e por certos setores intelectuais, a manter vivas as “tradições” dos “donos do poder”.

Referência Bibliográfica

ALMEIDA, Jerri Roberto S. Heróis de Papel as representações sobre a Revolução Farroupilha na literatura. Porto Alegre: Editora Alcance, 2007.

Saiba mais sobre esse livro lendo a sinopse nesse blog.

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