quarta-feira, 4 de abril de 2012

O MUNDO PÓS-IDEIAS


Jerri Almeida

Vivemos, é bem verdade, no mundo da informação. Nunca se teve tanta rapidez no fluxo das notícias, na transmissão de conhecimentos e saberes, como no mundo contemporâneo. Milhares de novas teses, dissertações e pesquisas são cotidianamente publicadas. A internet democratizou o acesso à informação em seu sentido mais amplo e genérico. Documentos que antes somente poderiam ser acessados em arquivos, hoje estão disponíveis gratuitamente na web. Jornais, acervos, blogs, redes sociais, entre outros, levam conteúdos, os mais variados, para dentro de nossas mentes. Vivemos, inegavelmente, um excesso estressante de informações.
Thomaz Wood Jr, em seu interessante artigo: “Pensar dói?”, publicado na revista Carta na Escola (Dezembro de 2011, nº 62), cita o texto do professor Neal Gabler publicado no New York Times, no qual assevera: “...vivemos em uma sociedade na qual ter informações tornou-se mais importante do que pensar: uma era pós-ideias.” Vivemos a ditadura da informação “opaca”, amorfa,  incapaz de gerar qualquer tipo de reação ousada ou revolucionária. Não uso aqui a palavra “revolução” no sentido marxista, muito menos no seu sentido de produzir conflitos armados, ou coisa do gênero. Refiro-me, isto sim, a uma atitude dialética das ideias que vem sendo enterrada e sufocada pelo consumo exorbitante da informação.
Na revista já citada, encontramos também um artigo do professor doutor em filosofia pela USP, Juvenal Savian Filho, no qual afirma que o excesso de informações tolhe-nos a capacidade de elaborar reflexões mais profundas e articuladas, pois: “ ...somos levados a nadar apenas na superfície das ideias e a consumir mensagens relâmpagos, num fluxo frenético de imagens e sons que abafam nossa vocação para o pensamento.” (p. 34) Para ele, o efeito disso é uma escassez de novas e impactantes ideias, causando uma espécie de “irracionalismo” Ou seja, o ato de “pensar” está sendo deixado de lado.
Nas escolas e, pasmem, nas universidades, encontramos alunos que recusam-se, obstinadamente, a pensar. Para esses, a salvação é somente duas teclas (medíocres) de qualquer computador que esteja conectado à rede: “Ctrl + C” e “Ctrl + V”.  Vive-se os infames dias do saber “fast food”. Para os adoradores dos conteúdos enlatados, “pensar dói”.  Talvez por isso, muitos adultos de hoje também não saibam resolver problemas. Talvez por isso, também, muitos adultos busquem soluções milagrosas, instantâneas, para seus dilemas. São os pais que levam o filho de 8 anos ao médico, para que este, receite cápsulas de boas maneiras, comprimidos de respeito, ou um sossega Leão, para o menino indisciplinado que nem o pai nem a mãe querem ter o trabalho de educar. A debilidade das ideias terceiriza problemas e soluções.
Pensar, como alguém certamente já disse, dá trabalho! Como vivemos numa cultura que nos induz ao prazer instantâneo, o ato de pensar é uma heresia, que somente se justifica quando “descompromissadamente”. Se o futuro aponta para uma “overdose” de informação, muita gente irá morrer de inanição mental. É trágico!
Mas, como prefiro não me filiar aos pessimistas, creio que dessa “tragédia” renascerá um novo “iluminismo”, onde reaprenderemos a pensar.  Descobriremos o prazer de pensar e refletir sobre as coisas, nos tornando novamente amigos da sabedoria e, por fim, sobreviveremos redescobrindo o filosofar. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Atos e Escolhas - Segue o Diálogo


- Pode comentar sobre o aumento da responsabilidade individual a partir do momento que passamos a compreender melhor o Livre Arbítrio?

Jerri Almeida: As Leis da Vida nos conduzem, inexoravelmente, para o desenvolvimento da “maturidade do senso moral”, conforme está posto em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 4. Somente a compreensão sobre o livre arbítrio não torna, necessariamente, o sujeito mais responsável. A compreensão está situada no nível intelectual. No campo da evolução espiritual, entretanto, as múltiplas experiências da vida, associadas ao esclarecimento é que contribuem, entre outros fatores, para o amadurecimento do espírito. E, quanto maior for o amadurecimento do ser, tanto mais será aplicada a responsabilidade no uso de seu livre arbítrio.  Para isso contribui o conhecimento espírita. Todavia, a natureza humana não se transforma de súbito. Certamente por isso, Allan Kardec, ponderou, na conclusão VII de O Livro dos Espíritos, que a ação das ideias espíritas não é idêntica, nem do mesmo grau, em todos os que as professam. Mas, no entanto, o conhecimento espírita, segundo ele, sempre estimulará, por mais fraca que seja sua ação, uma melhora no sujeito.

- De que forma o Livre Arbítrio possibilita fazermos no presente uma reflexão sobre o passado e planejamento para o futuro?

Jerri Almeida: Examinando nossa existência atual, com suas contingências, limites e possibilidades, poderemos deduzir um singelo panorama sobre nosso passado espiritual. Mas o passado não é, certamente, o núcleo mais importante desse processo. Cumpre direcionarmos o olhar para nossas ações atuais. O que estamos construindo na presente existência? Em certa parte de O Céu e o Inferno, das impressões que Kardec tira dos espíritos em condições felizes, afirma o dr. Vignal: “...e dos atos que é necessário cumprir para transpor o caminho da prova e merecer o mundo das recompensas.” Qual a maior recompensa que poderemos lograr, senão a da consciência tranquila? Mas para isso, é necessário “atuarmos”, direcionando nosso livre arbítrio no Bem, ordenando nossa vida, o máximo possível, aos preceitos apresentados por Jesus e resumidos na Lei do Amor. Desta forma, estaremos todos preparando um futuro melhor, não somente no nível individual, mas também no plano social.

- Fique à vontade para qualquer outro comentário sobre o assunto.

Jerri Almeida: Quando a menina Alice, da história “Alice no país da maravilhas”, chega à floresta desconhecida e após algumas horas de caminhada, avista próximo a um cruzamento, um tronco de árvore com setas indicando várias direções, ela sem saber que direção seguir, pergunta a um gato sorridente deitado na árvore, o caminho da saída. O gato lhe indaga: para aonde você quer ir? Para qualquer lugar, responde a menina. O felino, diante de tal constatação, lhe sugere: para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve!
A cultura atual contribuiu para liberar, ainda mais, os conteúdos egoísticos edificados nas estruturas mais profundas da alma humana.  No conjunto doutrinário do Espiritismo, está claro a necessidade do sujeito embrenhar-se na sua subjetividade, fazendo o caminho para dentro de si mesmo, conforme orientação de Santo Agostinho na Questão 919 de O Livro dos Espíritos. Dessa forma, munido de reflexão e de conhecimentos mais profundos sobre a vida, poderemos definir melhor nossos caminhos.

terça-feira, 20 de março de 2012

DIÁLOGOS PERTINENTES

Parte 1

- É muito forte em nossa cultura uma postura passiva que aceita o "Deus quis assim, chegou a hora dele, o que eu tenho que passar ninguém passa por mim, etc". Como a interpretação espírita do Livre Arbítrio vê estas questões?

Jerri Almeida: Allan Kardec tratou dessa temática nas questões 963 e 964 de O Livro dos Espíritos. O Espiritismo não é reducionista, limitando-se a uma abordagem fatalista sobre os fatos da vida. Pelo contrário, esclarece, no seu amplo dinamismo doutrinário, que o ser humano é co-criador de seu próprio destino, alterando-o constantemente com suas ações e decisões. Logo, a assertiva do “Deus quis assim” nos parece, num primeiro momento, um discurso ancestral, associado a um confortável atavismo de linguagem de quem desconhece os mecanismos da vida e as nossas responsabilidades diante dela. Não significa, no entanto, que o Espiritismo afaste Deus das contingências existenciais, mas que atribui ao ser humano a responsabilidade sobre as ocorrências agradáveis ou desafiadoras que lhe cercam. Com base no livre arbítrio do espírito, associado à lei de ação e reação vinculada à reencarnação, somos capazes de compreender com melhor nitidez a Justiça. Logo, conforme informaram os espíritos a Kardec, na questão 964 de O Livro dos Espíritos, Deus não se preocupa com cada um de nossos atos, para nos repreender ou recompensar. Ele criou Leis que regem a dinâmica da vida, na sua expressão física e espiritual. Somos felizes quando nos firmamos nessas Leis e sofremos os resultados naturais quando delas nos afastamos.

- De que forma o entendimento sobre Livre Arbítrio pode ser usado como ferramenta para a construção de uma vida melhor, mais justa e coerente?

Jerri Almeida: É extraordinário sabermos que a felicidade é uma opção pessoal! Que está em nossas mãos a condução para uma vida mais plena de possibilidades, quando atentamos para os valores nobres da alma. O livre arbítrio é notável conquista da evolução do ser, que lhe permite, conforme o nível de consciência e maturidade alcançadas, fazer as opções, escolher caminhos, tomar decisões, sempre considerando o objetivo único da vida – o Bem – conforme asseveraram os benfeitores amigos na questão 860 de O Livro dos Espíritos.

(Entrevista concedida para a jornalista Simone Mattos da revista Ser Espírita - Curitiba/PR.)

domingo, 11 de março de 2012

Sensibilidades


O ritmo acelerado das pessoas, com seus desafios profissionais, colaboram para distanciar, muitas vezes, a relação entre o humano e o belo. A pressa e a impaciência da rotina diária tornam o ser humano enclausurado na lógica do racional. O homem não é somente razão, mas também encantamento, imaginação.
É importante observarmos com singularidade, aquilo que, para outros, passaria despercebido. O espírito humano se caracteriza por armazenar significados através de palavras, desenhos, gestos, números, músicas, ou seja, por suas manifestações simbólicas.
Na base de tudo isso, no entanto, situa-se o desenvolvimento da imaginação, cuja tarefa, entre outras, é a de produzir a riqueza dos ideais e da sensibilidade, estimulando as capacidades criativas do ser humano. Nesse sentido, indispensável é a responsabilidade dos pais em motivarem seus filhos, desde o berço, ao exercício natural da imaginação. Contar histórias com fundo moral – enriquecedor e divertido – transformando isso em hábito, é um dos mais notáveis investimentos que se pode fazer na formação dos filhos.
Contar histórias para o filho pequeno, estimulará o exercício de sua imaginação, passando a criança, com o tempo, criar suas próprias histórias, seu mundo de fantasias, de sonhos, de personagens e enredos. Essa capacidade ideativa trabalhará para o desenvolvimento de importantes potencialidades psíquicas que, mais tarde, formarão a personalidade do indivíduo adulto: capacidade de manter e trabalhar por seus ideais, criatividade para resolver problemas profissionais, desenvolvimento da imaginação na busca por soluções inteligentes para os desafios da vida, da convivência, etc.
Ver o mundo com sensibilidade para perceber o belo, mesmo diante do caos, é atingir um nível sofisticado de percepção que transcende a criveira comum. Divaldo P. Franco, o conhecido orador espírita, conta que em diversas situações quando está sendo transportado, por ocasião de suas palestras,  ao passar por uma paisagem verdejante e florida, se detêm na observação, felicitando-se com os admiráveis quadros da natureza.
Muitas pessoas estão sintonizadas na faixa da infelicidade, justamente, por não se darem conta dos pequenos tesouros que compõem o seu dia-a-dia. Quantos pais não perceberam a beleza da relação familiar, do convívio com os filhos? Muitas famílias desconsideram, simplesmente, os ricos momentos de diálogo, sendo que os pais, no seu comportamento acelerado, nem mesmo reservam tempo para os momentos lúdicos com seus filhos.
Pessoas que, ao longo da história, se notabilizaram por sua sensibilidade, deixavam-se mergulhar na poesia da vida. Observando o silêncio das estrelas, a harmonia do cosmos, quase todos os compositores, declara Léon Denis[1], que ilustraram a arte musical, à semelhança de Bach, Beethoven ou Mozart, declaravam perceber essa harmonia de forma tão intensa que, quando compunham, chegavam a ficar em êxtase.
Os poetas, de todos os tempos, manifestam suas sensibilidades falando, no geral, de coisas simples, que permeiam o nosso cotidiano: “Mas eis a alvorada, o majestoso levantar do Sol sobre os cimos longínquos. Qual esfera de metal incandescente, o astro-rei sobre no horizonte. A princípio, os cismos dentados dos picos flamejam na luz renascente, e, de igual modo que na tarde anterior, tinha ela subido rapidamente em volta de mim, enquanto a sobra descia com igual velocidade.”[2]  Com essa poética narrativa, Denis nos descreve, com muita sensibilidade, suas impressões sobre o nascimento do Sol nos Alpes.
Quando Francisco Cândido Xavier, nosso querido Chico, iniciou suas atividades no labor mediúnico, aos 21 anos, a primeira obra psicografada por ele: “Parnaso de Além-Túmulo”, foi uma obra de poesia. Através dele, 55 autores da literatura luso-brasileira, ensaiaram 259 poemas sobre os mais diversos assuntos. Em um admirável poema, o espírito Casimiro de Abreu[3], escrevendo “aos pessimistas”, apresenta uma valiosa reflexão de sua sensibilidade:

A Terra [4]



Se há noite escura na Terra,
Onde rugem tempestades,
Se há tristezas, se há saudades,
Amarguras e dissabor,
Também há dias dourados
De sol e de melodias,
Esperanças e alegrias,
Canções de eterno fulgor!
......................................

Os sonhos da mocidade,
As galas da Natureza,
Livro de excelsa beleza
Com páginas de esplendor,
Onde as histórias são cantos
De gárrulos passarinhos,
Onde as gravuras são ninhos
Estampados no verdor.
.........................................

O dia todo é alvorada
De doces encantamentos
Da Lua, em seus brancos véus!
A tarde oscula as estrelas,
Os astros o Sol-nascente,
O Sol o prado ridente,
O prado perfuma os céus!
........................................

Se há noite escura na Terra,
Abarrotada de dores,
De lágrimas e amargores,
De triste e rude carpir,
Também há dias dourados
De juventude e esplendores,
De aromas, risos e flores,
De áureos sonhos no porvir!

Notas

[1] DENIS, Léon. O Grande Enigma. 9ª. ed. Rio de Janeiro (RJ): FEB, 1991. Págs.. 56-57.
[2] Idem. P. 165.
[3] Poeta fluminense, figura literária das mais típicas da sua época, desencarnou aos 18 de outubro de 1860, com 21 anos de idade, na cidade de Nova Fribugo, acometido de tuberculose.
[4] XAVIER, Francisco Cândido. Parnaso de Além-Túmulo.(Poesias Mediúnicas) 13ª. ed. Rio de Janeiro (RJ): FEB, 1988. Pág. 208-210.

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