domingo, 20 de novembro de 2011

“Eu vi a cara da morte!”


 Em 1972, quando ingressou na faculdade de medicina, o Dr. Raymond  A.  Moody Jr., já havia coletado um número significativo de relatos de pessoas que estiveram entre a fronteira da vida com a morte. Essas experiências – cerca de 150 casos – coletadas e investigadas pelo Dr. Moody, deram origem à denominação E.Q.M., ou Experiências de Quase Morte, cujos relatos foram catalogados em três situações distintas:
1) pessoas que foram ressuscitada depois de terem sido declaradas ou consideradas mortas pelos seus médicos;
2) pessoas que, no decorrer de acidentes ou doenças ou ferimentos graves, estiveram muito próximas da morte;
3)  pessoas que, enquanto morriam, contaram a outras pessoas que estavam presentes o conteúdo de suas experiências naquele momento.
No geral, as pessoas que vivenciaram essas experiências desenvolveram um sentido de maior valorização pela vida, compreendendo-a não mais limitada a existência material.
A revista “Isto é”, do dia 15 de julho/1998, traz em sua reportagem de capa: “Eu vi a cara da morte”, relatos sobre a experiência de quase morte no Brasil. Dentre os vários casos citados, encontramos o da radialista paulista Maria Aparecida Cavalcante, de 42 anos. Cida, como é conhecida, “(...) teve uma crise de apendicite e foi operada às pressas. ‘Foi tão vivo, tão forte. Não tinha dúvidas de que era verdade.’ Ela conta ter ouvido sua sentença de morte da boca dos médicos. ‘(...) tentei abrir os olhos e tocar na enfermeira. Minha mão atravessou o braço dela. (...) Eles colocaram o meu corpo numa maca e me levaram para a UTI, de repente (...) saí voando pelo corredor. Quando entrei na UTI, vi tudo branco e apaguei.’ Recuperada, ela diz que perdeu o medo de morrer.”
Quais são os objetivos dessas experiências? Podemos analisar sob duas angulações: primeiro, pelo aspecto social, a E.Q.M. visa oferecer comprovações plausíveis da imortalidade da alma. Segundo, pelo aspecto individual, a E.Q.M. oportuniza uma profunda análise consciencial, ensejando uma revisão de hábitos e valores pessoais. Vejamos o caso de Cida: “Sou uma pessoa mais tranqüila e muito mais ética.  Isso aqui é um laboratório. Temos que fazer o bem.”
Em “Vida Depois da Vida”, uma pessoa relata: “Desde então, tem sido uma constante na minha mente o que fiz da minha vida, e o que fazer da minha vida. (...) Tento fazer coisas que tenham maior significado, e isso faz com que a minha mente e a minha alma se sintam melhor.  Tento não ser parcial e não julgar as pessoas. Quero fazer coisas que sejam boas, e não coisas que sejam boas só para mim. E parece que a compreensão que tenho das coisa é muito melhor. Sinto-me assim por causa dos lugares aonde fui e das coisas que vi nessa experiência.”
Outra pessoa declara: “De certo modo foi uma bênção, porque antes daquele ataque do coração eu estava tão ocupado em planejar o futuro dos filhos, e em me preocupar com o dia de ontem, que estava perdendo as alegrias do presente. Agora tenho uma atitude muito diferente.”
Interessantes relatos mencionaram uma nova forma de se relacionar consigo: “Na ocasião eu fiquei consciente da minha mente mais do que do meu corpo físico. A mente era a parte mais importante, em vez da forma do corpo. E, antes, toda a minha vida tinha sido exatamente o inverso. O corpo era o interesse principal, (...). Mas, depois que aquilo aconteceu, minha mente ficou sendo o principal ponto de atração, e o corpo (...) não mais do que algo que servia de embalagem para a mente.” Sim, o corpo é uma “embalagem do espirito”, mas é bom mantermos a coerência não adotando – com ele – posturas  arbitrárias de desprezo ou endeusamento.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Calcanhares de Áquiles


Narra à mitologia grega, que a deusa Tétis apaixonou-se por um rei humano chamado Peleu. Desse amor nasceu um menino. Todavia, a mãe percebeu que a criança havia herdado as características humanas do pai. Entristecida, Tétis passou a banhar, periodicamente o filho nas águas do Estige, na expectativa de torná-lo invulnerável, com os qualificativos dos deuses. Certa noite, no entanto, Peleu já desconfiado das ausências de sua esposa, resolveu segui-lá. Aquela seria a última etapa, faltava somente mergulhar os calcanhares do menino, por onde ela habitualmente o segurava. Mas Peleu, sem nada saber, imaginando que sua divina esposa pudesse ter enlouquecido e que ela afogaria seu pequeno filho, avança arrancando Áquiles de seus braços.
O menino cresce e transforma-se no mais notável guerreiro. Mas Áquiles, apesar disso, possuía seus pontos frágeis: os calcanhares. Foi assim que, na guerra de Tróia, um arqueiro desastrado atingiu-lhe o calcanhar, fazendo o poderoso soldado tombar e, ali mesmo, Áquiles pereceu.
Nessa breve introdução, desejamos ressaltar que todos nós possuímos nossas vulnerabilidades. Na convivência humana esses “calcanhares” se chocam, se atritam, provocando no panorama do mundo contemporâneo, com sua cultura utilitarista, uma espécie de esvaziamento das relações.  No cerne dessa temática surge o problema da decepção com o outro que foge, determinantemente, de nossas idealizações de perfeição.
Discutindo a chamada “sociedade da decepção”, o filósofo francês Gilles Lipovetsky afirmou:

Os valores hedonistas, a sobrecarga, os ideais psicoculturais, os fluxos de informação, tudo isso deu origem a um gênero de individuo mais introvertido, mais exigente, mas também, mais vulnerável aos tentáculos da decepção. Após a “cultura do aviltamento” e a “cultura da culpabilidade” (...) temos agora o tempo das culturas da ansiedade, da frustração e da decepção.

Para ele, uma das possíveis causas que ajudam a explicar esse fenômeno contemporâneo é o enfraquecimento dos dispositivos religiosos de socialização. Apesar das religiões, conforme Gilles, não impedirem as manifestações de amarguras e os desafios humanos, elas representam, em sua versão conservadora, uma espécie de “refúgio” ou um “ponto de apoio” ou de “consolação” insubstituível.
Kardec, muito antes de Gilles, já afirmava durante a Viagem Espírita de 1862, em discurso pronunciado nas reuniões gerais em Lyon e Bordeaux que:

O homem chegou a um período em que as ciências, as artes e a indústria atingiram um limite até hoje desconhecido; se os gozos que delas tira satisfazem à vida material, deixam um vazio na alma; o homem aspira a algo melhor: sonha com melhores instituições; quer a vida, a felicidade, a igualdade, a justiça para todos. Mas, como atingir tudo isso com os vícios da sociedade e, sobretudo, com o egoísmo?

Para Kardec a imperfeição humana é a fonte geradora de múltiplos conflitos.  Ele observa, durante um banquete que lhe é oferecido na cidade de Lyon, que o conhecimento do Espiritismo não mais conduziria nem ao isolamento, nem ao desespero. Sua influência educativa já havia corrigido muitas imperfeições, levado paz a inúmeras famílias, propagando esperança e felicidade.

Jerri Almeida - Livro: A Convivência na Casa Espírita.

Pesquise no Blog

Loading

TEXTOS/ARTIGOS ANTERIORES