domingo, 16 de outubro de 2011

A Comunicação Conjugal



Interessante pesquisa foi desenvolvida pelo escritor e psicólogo Leo Buscaglia, descrita em seu livro: “Amando uns aos outros, o desafio das relações humanas” (ed. Record, 1984), buscando compreender melhor os relacionamentos humanos. Para a realização dessa pesquisa, foi solicitado a mil pessoas, homens e mulheres, que tivessem interesse na dinâmica do relacionamento afetivo, que nomeassem qualidades que considerassem as mais importantes para manter uma vida conjugal harmonizada, e também as que seriam mais destrutivas no relacionamento emocional.
Mais de seiscentos questionários, dos mil enviados, voltaram oferecendo uma enorme variedade de informações da quais se extraíram algumas conclusões significativas: dois terços daqueles que o responderam eram mulheres, a maior parte, entre trinta e sessenta anos de idade. O grupo pesquisado respondeu em  mais de 85%, que a comunicação entre os cônjuges é a qualidade ou fator predisponente a um bom relacionamento. Após a comunicação, segue por ordem de citação: afeição, capacidade de perdoar, honestidade, aceitação, senso de humor, romance e paciência.
Vale considerarmos que a afeição foi caracterizada como compreensão, cuidado, respeito, proximidade física e psicológica, consideração e gentileza.
Dentre as características ou fatores mais destrutivos em um relacionamento, concluiu-se a seguinte ordem: falta de diálogo, egoísmo, desonestidade, ciúme, falta de confiança, falta de: flexibilidade, compreensão, respeito e apatia.
A questão da comunicação entre marido e mulher, destaca-se em ambas as referências como relevante fator imprescindível à preservação da felicidade e do próprio relacionamento conjugal.
Na fase do namoro, sempre se encontra assuntos para conversar: planos para o futuro e até as mais pueris questões do cotidiano são motivos para longas conversas.
Lamentavelmente, após o casamento,  grande parte dos casais negligenciam o hábito salutar do diálogo consubstanciado na natural troca de desejos, esperanças, opiniões e pensamentos, e, à medida que os anos passam, vão perdendo cada vez mais o gosto pelo diálogo. Conversa-se apenas em circunstâncias extremamente necessárias. Respostas passam a ser dadas quase sempre com o uso de monossílabos: sim, não, sei, é, vou; ou às vezes, através de interjeições: oh!, eh!, hum!; ou ainda, somente com um movimento nos ombros.
Assevera André Luiz, no livro “Nosso Lar”, que: “o sublime amor do altar doméstico anda muito longe, quando os cônjuges perdem o gosto de conversar entre si”.
Essa questão, expressiva em seu conteúdo, nos remete a uma reflexão impostergável sobre a importância da comunicação na vida conjugal, cujo objetivo deveria ser sempre a busca de entendimento e a permuta constante de afetividade.
A comunicação que estamos tratando aqui, não deve ser confundida com lamúrias, fofocas, gritos, críticas constantes e maldosas, etc. Pois mesmo nas naturais divergências conjugais, é importante se estudar com cautela: o que falar, como falar, quando falar e para que falar. Mas, sobretudo, falar. Do contrário, resultam os “hiatos de silêncio” ou “mudas recriminações”, que impedem a liberação dos sentimentos, causando intranquilidade psicológica.

domingo, 2 de outubro de 2011

A QUESTÃO CONCEITUAL


Para o filósofo idealista alemão Hegel (1770-1831), “O conceito  é a totalidade das determinações, reunidas em sua simples unidade.” Embora o conceito seja indispensável na área do saber, conceituar é limitar. É condensar um conjunto ou a totalidade do conhecimento, em suas características essenciais, a uma unidade, ou seja, a uma expressão que possa representar uma determinada realidade, em nosso caso, doutrinária.
No livro: O Que é o Espiritismo, publicado em julho de 1859, Allan Kardec apresenta os motivos que o levaram a publicar essa obra sintética, onde resume  informações iniciais sobre o Espiritismo. A obra é relevante não somente para o neófito da Doutrina, mas também para os seus estudiosos. Em seu preâmbulo, o insigne codificador desenvolve a questão conceitual do Espiritismo afirmando que:

“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência  prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as conseqüências morais que dimanam dessas mesmas relações.” 

Allan Kardec é profundamente feliz ao definir o Espiritismo, dentro de uma  elasticidade conceitual, isto é, mesmo com o problema do “conceituar é limitar”, Kardec habilmente apresentou-nos um conceito abrangente, sem deixar de ser fiel a própria natureza da Doutrina.. Assevera, detalhando-nos o conceito acima, que o Espiritismo em sua dimensão científica  “...trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”.  Já em seu aspecto filosófico: “O Espiritismo é uma doutrina (...) de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote (...)”.
A questão, talvez, mais palpitante dentro dessa análise é a questão religiosa no Espiritismo. Em seu discurso pronunciado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, no dia 1º de novembro de 1868, Allan Kardec se expressou da seguinte forma:

“(...) então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião e nós nos ufanamos por isso...”

(Revista Espírita, dezembro de 1868)

Compreendemos por sentido filosófico o sentido reflexivo, lógico e racional que consubstancia a questão da religião espírita dentro de parâmetros não dogmáticos, visando trabalhar a consciência humana, não para  acreditar, mas para  compreender a realidade espiritual em suas interfaces. Esse sentido é relevante, pois torna o Espiritismo uma religião dinâmica onde se busca o conhecimento ou a verdade, pelas vias racionais, dentro de uma natural e inalienável liberdade de pensamento. Portanto, o Espiritismo é uma religião de essência, não formalizada e sem as exterioridades que, normalmente, caracterizam o panorama religioso. A questão fica ainda mais inteligível, quando analisamos o sentido filosófico de religião como: “o conjunto de deveres do homem para com Deus”.
Convém, ainda, lembrarmos que para Johann Heirnrich Pestalozzi, o verdadeiro sentido de religião estava centrado na moralidade, isto é, no desenvolvimento espiritual do ser humano. Certamente por isso, observa-nos Herculano Pires, o fato de Kardec ter aprendido com o mestre Pestalozzi, que: “a moralidade era essência da Religião e portanto a verdadeira religião”. Isso explica  Kardec ter usado, nos textos doutrinários, diversas vezes o termo “moral”  ao invés da palavra “religião”.  Segundo ainda, o eminente Prof. Herculano Pires: “Kardec recebeu dos Espíritos a confirmação dessa teoria pestalozziana. Todo o ‘Livro dos Espíritos’ a confirma, ensinando uma religião pura, desprovida de exigências materiais...”
Valendo-nos dessa singela análise, fica-nos evidente a lógica ternária do Espiritismo: Ciência-Filosofia-Religião, na dimensão conceitual  da unidade doutrinária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. Feb.
_________O Evangelho Segundo o Espiritismo.  100ª ed. Feb.
_________Obras Póstumas. 22ª ed. Feb.
_________Revista Espírita. Dez/1868. Edicel.
_________Viagem Espírita. 1862.
_________O Que é o Espiritismo. 32ª ed. Feb.
PIRES, J. Herculano. O Espírito e o Tempo. 2ª ed. 1977. Edicel.
AMORIM, Deolindo. O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas. 4ª ed. Celd.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

VIVER É RECORDAR

Com Platão, Século IV a.C., estrutura-se, pela primeira vez de maneira sistemática, a justificativa filosófica de cunho metafísico, que se tornará paradigmática no Ocidente. [1] Embora Platão não usar a palavra “metafísica” que não existia em sua época, ele busca, através de seus diálogos, a realidade causal, o mundo das justificativas e, portanto, o mundo real.
Dessa forma, chega a conclusão da existência de dois mundos: o Mundo das Idéias e o Mundo Sensível. O Mundo das Ideias em Platão – e  “ideia” aqui não deve ser confundida com “conceitos de nossa mente” – é um mundo supramaterial, eterno, onde reina a verdade, a perfeição e a suprema importância do Bem. Esse mundo representaria a “forma” do mundo material, pois para tudo que existe aqui, haveria um modelo causal  e perfeito no Mundo das Ideias.
O Mundo Sensível representaria, por sua vez, o mundo material com as imperfeições que lhes são inerentes. É o mundo ilusório, dos sentidos, mutável, perecível e caótico. Logo, um reflexo imperfeito do Mundo das Idéias.  Nesse sentido, o conhecimento representaria uma importante via de transição, para o ser humano, da ilusão para a realidade, onde a ideia do Bem consubstanciaria o auge desse processo.
Dos textos[2] de Platão podemos extrair inúmeras afirmativas concernentes a teoria da reminiscência. Sim, estamos falando daquela famosa frase platônica que “aprender é recordar”[3]. Esse “recordar” está relacionado com a ideia das vidas sucessivas.
Em seu valioso estudo sobre os mitos platônicos, Geneviève Droz, filósofa e professora em Montpellier, destaca no Ménon (80d-86c), a afirmação sobre a imortalidade  e a transmigração das almas. Platão, através dos diálogos de Sócrates, afirma que: “pesquisar e aprender não é senão se lembrar, quer dizer, encontrar em si mesmo, no seu próprio cabedal, um saber que já lá está.” A afirmação é Socrática:

A alma é imortal e renasce várias vezes.  Contemplou, portanto, antes de qualquer existência encarnada, todas as coisas e possuiu o conhecimento. Portanto, não há nada de espantoso em que tenha, aqui na Terra, lembranças desse saber. Uma lembrança puxando outra, é possível reencontrar a integralidade do já conhecido. [4]

Analisando o argumento da reminiscência, Droz assim se expressa: “Se a alma viu, desencarnada, e esqueceu ao encarnar-se, impõe-se que tenha, aqui em baixo, a faculdade de lembrar-se. O amor é um dos meios para esse resultado.” [5]  Em seus diálogos metafísicos, Platão não se esquivou em defender o argumento da imortalidade da alma e de suas sucessivas existências. Em seu livro A República, narra a história de um homem chamado Er que, morre gravemente ferido em uma batalha, mas por ocasião de seu funeral, doze dias depois, ele volta a vida, informando o que seu espírito vivenciou nesse período. Platão descreve essa experiência fora do corpo, que chamaríamos hoje de “morte aparente”. Er, recordava-se de ter visitado planos superiores e inferiores à Terra onde as almas venturosas ou infelizes viviam por determinados períodos, findo os quais, retornavam novamente à Terra servindo-se de novos corpos.


E era digno de se ver esse espetáculo, contava ele, como cada uma das almas escolhia a sua vida. Era, realmente, merecedor de piedade, mas também ridículo e surpreendente. Com efeito, a maior parte fazia a sua opção de acordo com os hábitos da vida anterior.  [...] Assim que todas as almas escolheram  as suas vidas, avançaram, pela ordem da sorte que lhes coubera, para junto de Láquesis. Está mandava a cada uma o gênio que preferira para gardar a sua vida e fazer cumprir o que escolhera. [6]


Platão não usou o vocábulo reencarnação, pelo simples fato dessa palavra não existir à época. Mas deixou claro, como exposto no texto acima, a crença no retorna do espírito ao corpo físico vinculando-o a escolha de um projeto existencial. Nota-se, também, a importância da lei de causa e efeito como elemento determinante dessa nova vida, e a ação dos espíritos em amparar seus tutelados na nova jornada.



[1] LARA, Tiago Adão. A Filosofia nas suas Origens Gregas. Petrópolis, RJ. Vozes, 1989.
[2] Fédro (249b-250b); Teeteto (148c-151d); Ménon (80b-86b) Fédon ( O argumento da reminiscência), entre outros.
[3] PLATÃO. Fédon. Diálogos sobre a Alma e a morte de Sócrates. São Paulo: Martin Claret, 2003. p. 45.
[4] PLATÃO Apud. DROZ, Geneviève. Os mitos platônicos. Trad. Maria A. R. Keneipp. Brasília: Ed. UnB, 1997. P. 65.
[5] Idem. P. 67.
[6] PLATÃO. A República - 620 a..

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